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A entrevista visa obter informação sobre concepções, atitudes e conhecimentos do entrevistado, bem como clarificar o sentido das suas opiniões. A entrevista permite uma profundidade na obtenção de informação pouco possível com outras técnicas, apresentando a flexibilidade, a adaptabilidade e a interacção humana como algumas das suas vantagens (Gall, Borg e Gall, 1996). No entanto, esta interacção pessoal, para além de uma grande subjectividade, pode gerar influências e distorções (efeitos de resposta) devidas quer às predisposições do entrevistador e do entrevistado quer aos processos utilizados na condução do estudo. Deste modo, a entrevista deve ter uma preparação cuidada, aceitando o pressuposto que é mais provável obter informação relevante se o entrevistado estiver a par dos objectivos do diálogo, se o entrevistador inspirar confiança e criar uma relação de credibilidade com o entrevistado e se este tiver oportunidade de responder de forma independente, espontânea e sem pressões.

Igualmente a entrevista deve ser conduzida de forma a deixar o entrevistado expor os seus pontos de vista e evitar as interrupções inoportunas (Patton, 1980).

Seguindo Zabalza (1992), as entrevistas, relativamente ao nível de estruturação, podem ser estruturadas, semi-estruturadas e abertas ou livres. Na entrevista estruturada, os propósitos, perguntas e formas de relação estão previstas antecipadamente, sendo as questões previamente sequenciadas e escritas e a sua redacção cuidadosamente ponderada, tendo o entrevistador pouca liberdade para as modificar ou alterar. Na entrevista semi-estruturada, existe uma maior flexibilidade quanto ao desenvolvimento previsto, pressupondo a elaboração prévia de um guião orientador com as linhas gerais a explorar, sem contudo concretizar ou precisar muito os aspectos a analisar. Na entrevista aberta ou livre, a relação em si mesma aparece como objectivo prioritário, podendo não haver ideias claras dos temas concretos a tratar e das etapas a percorrer. No estudo, utilizaram-se entrevistas semi-estruturadas para possibilitar ao entrevistado discorrer livremente sobre os assuntos e sem rigidez na sua sequência, para as quais se elaborou previamente um guião de discussão para orientar o diálogo a estabelecer com cada um dos professores, resultante da literatura revista, da troca de opiniões com outros professores e da experiência profissional do investigador. Consideraram-se entrevistas de dois tipos: entrevistas mais longas, de carácter biográfico (Bolívar, Domingo e Fernández, 2001; Kelchtermans, 1995) e orientadas para o que os professores pensam sobre aspectos relacionados com o processo de ensino e aprendizagem da Matemática e com o seu papel de professor, e entrevistas curtas, associadas ao desenvolvimento do processo instrucional e articuladas com outra técnicas.

A observação é uma técnica de recolha de dados que permite um contacto pessoal e directo com os participantes e com o fenómeno a estudar, assumindo desta forma uma natureza naturalista. Apesar desta forte vantagem, torna-se necessário atender a diversos factores que interferem no processo de observação e que constituem a “estrutura de referência” do observador (Evertson e Green, 1994: 163). Ou seja, por um lado, o propósito da observação influencia o que, como, quando e onde se observa e, por outro, está intimamente relacionado com a teoria, crenças, suposições e experiências de quem a realiza.

Numa perspectiva ampla, Evertson e Green (1994) identificam quatro sistemas de observação: (i) os sistemas de categorias; (ii) os sistemas descritivos; (iii) os sistemas narrativos; e (iv) os sistemas tecnológicos.

Os sistemas de categorias são sistemas fechados em que se definem a priori categorias mutuamente exclusivas permitindo, através de listas de verificação e outros instrumentos estruturados, obter dados normativos e identificar leis gerais de ensino. Pelo contrário, os sistemas descritivos são sistemas abertos em que as categorias, apesar de poderem ser definidas previamente, resultam essencialmente dos dados observados. Parte-se de padrões de comportamento a serem identificados num contexto específico e a observação é normalmente acompanhada com gravação áudio ou vídeo dos acontecimentos. Estes sistemas recorrem a análises descritivas estruturadas e utilizam- se quando se pretende obter uma descrição detalhada do fenómeno observado, identificar princípios gerais na exploração de situações específicas e obter generalizações dentro de casos, bem como entre casos.

Os outros dois últimos sistemas, os narrativos e os tecnológicos, são também sistemas abertos mas não utilizam categorias previamente definidas. Nos sistemas narrativos, o observador faz as suas descrições de uma situação específica usando a linguagem escrita ou falada e recorrendo a diários, notas de campo e comentários significativos. O observador pretende não só compreender o que ocorre mas também identificar factores que influenciam essas ocorrências. Estes sistemas permitem obter descrições detalhadas do fenómeno observado de modo a explicar processos manifestados e identificar princípios gerais e padrões de comportamento em acontecimentos específicos. O objectivo da observação é compreender um caso específico e fazer comparações com outros casos. Finalmente, os sistemas tecnológicos, a observação é feita através de instrumentos tecnológicos, tais como gravadores vídeo e áudio, pretendendo-se, assim, obter um registo permanente do fenómeno para que, mais tarde, possa ser estudado profundamente.

Dependendo do tipo de envolvimento e da interacção com os sujeitos e também da clarificação dos objectivos do estudo, o investigador pode intervir como ‘só observador’, ‘observador-participante’, ‘participante-observador’ ou ‘só participante’ (Evertson e Green, 1994). Pode ainda recorrer a uma observação casual ou não

sistemática, registando factos soltos significativos, ou a uma observação sistemática, realizada através de instrumentos intencionalmente organizados para a análise e valoração das condutas, tais como listas de verificação ou grelhas de análise (Zabalza, 1992).

No estudo, optou-se por uma observação do tipo descritivo que foi suportada em algumas categorias preestabelecidas, com recurso a registos permanentes em som e imagem, e complementada com a elaboração de notas descritivas e de comentários considerados significativos. Neste processo de observação, o investigador assumiu o papel de ‘só observador’, evidentemente, em interacção com os intervenientes mas sem pretender influenciar as suas actuações ou condicionar o ambiente de trabalho.

No contexto do estudo, a análise documental pretende recolher informação principalmente a partir de documentos produzidos pelos participantes que ajude a clarificar e complementar ideias ou situações decorrentes das entrevistas e da observação e a fundamentar melhor afirmações e declarações. Neste sentido, a recolha de dados por esta via desempenhou um papel não tão primordial como o verificado para as outras duas técnicas. Os documentos analisados, para além dos registos das entrevistas e observações, foram os materiais, planos ou fichas utilizadas pelos participantes na organização e desenvolvimento do processo instrucional e, num âmbito mais geral, documentos de enquadramento desse processo, como o projecto educativo de escola ou o projecto curricular de turma.