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9) SPoR-prosjektets anbefalinger til oppdragsgiver
Chegar a este apartado da pesquisa não nos direciona essencialmente para o fim, desde seu começo, defendemos uma busca constante por dúvidas, questões, perguntas e toda sorte de elementos que nos impulsionasse sempre a pesquisar, a investigar, a “correr atrás do prejuízo”. A performance em sua essência é movimento, é processo, é caminhar, mesmo que para isso seja necessária a manutenção de certos pressupostos; como seria possível preservar uma tradição cultural, se não houvesse a transmissão de elementos inerentes a ela?
Assim, o que aqui se inicia – e não termina – é, antes de tudo, não apenas uma pesquisa acadêmica que se interessa pela teoria da performance, mas um modo de ver e de pensar o mundo desde um ponto de vista mais flexível, mais questionador e menos submisso. Se o pesquisador em performance não se modificar durante sua pesquisa, se não buscar o valor de reflexões, então, seu trabalho, ainda que louvável academicamente, não lhe servirá para muito.
Fora essas questões, nossa ideia inicial era discutir a performance escrita em 2666, de Roberto Bolaño. Para isso, aventuramo-nos pelo complexo terreno da teoria da performance, depois passamos por várias outras teorias, como a da autoficção, da formação da figura do escritor/autor e dos crimes em literatura, entre outras, para, por fim, discutir essencialmente como se deu a escrita performática de Bolaño. O caminho, que parece longo, foi fundamental para entender o que chamamos de performance escrita: uma reflexão acerca do tema tratado; o entrelaçamento com diversas outras problemáticas e elementos, de diferentes vertentes; e a discussão de nossos principais questionamentos. O processo de análise, como em performance, foi fundamental para que chegássemos até aqui com afirmações aprofundadas em relação às feitas por nós no começo de tudo, porque tivemos um tempo de maturação, de desenvolvimento e reflexão.
Como discutimos em nosso texto, muitos pesquisadores acreditam que partimos de uma hipótese inválida para fazer a pesquisa, pois creem que não é possível haver performance em escrita. Mais uma vez insistimos na ideia contrária, e esta dissertação tem o intuito de reunir dados e informações que colaborem no desenvolvimento dessa noção já trabalhada por outros pesquisadores, como Graciela Ravetti, Denise Pedron, Juliana Leal, Marvin Carlson, Renato Cohen, entre outros, bem como refletir acerca dela. Se a performance tem a ver com o corpo, não somente o de carne e osso, mas também com a potencialidade corpórea presente no olhar, na expressão verbal, gestual, nas memórias e nos sentimentos, por que, então, a escrita, composta por tudo isso, não poderia ser também performática?
Dessa forma, de acordo com o que vimos pesquisando, Roberto Bolaño, em 2666, propõe uma escrita reflexiva, questionadora, que protesta e denuncia. Suas reflexões são tanto da ordem do próprio processo de escrita, de formação da figura de intelectual e de escritor, quanto da ordem da vida social, política e econômica. Essas reflexões, fica claro, ocorrem ao mesmo tempo e num mesmo texto, porque Bolaño não
separa a literatura da vida tida como real, não entra no jogo da separação ficção x realidade; ele trabalha como se tudo fosse uma coisa só. É a possibilidade de pensar tudo ao mesmo tempo em que também caracteriza a performance.
A performance escrita, ao nosso ver, não exclui ser performance política, performance art, performance cultural e por aí vai, porque a escrita de Bolaño tem como função também questionar e criticar a ordem social, política e econômica; proporcionar prazer estético e propor novas formas estéticas; difundir ou preservar uma tradição.
A pergunta que mais se ouviu no decorrer dessa pesquisa foi: “Mas o que significa 2666?”. A resposta, quase sempre insatisfatória, tinha a ver com uma citação do próprio Bolaño, do seu livro Amuleto, no qual a personagem Auxilio Lacouture se refere à avenida Guerrero, em Ciudad de México, como um cemitério,
pero no a un cementerio de 1974, ni a un cementerio de 1968, ni a un cementerio de 1975
[…], sino a un cementerio de 2666, un cementerio olvidado debajo de un párpado muerto o
nonato, las acuosidades desapasionadas de un ojo que por querer olvidar algo ha terminado por olvidarlo todo. (p. 1124)173
Acreditamos que uma possível resposta passa por essa questão do esquecimento, da inexistência e da morte. O elemento textual que relaciona todas as partes de 2666 é a cidade de Santa Teresa, onde ocorrem os crimes. Talvez não seja forçado pensar que Santa Teresa é também um cemitério do ano 2666, um cemitério que só existe porque há esquecimento, porque as mulheres que lá vivem e são assassinadas e que são, de certa forma, inexistentes – e não apenas as mulheres, mas a toda a população que não detém o poder. Não é à toa que o cenário de Santa Teresa é um deserto, onde não há nada, apenas a inexistência.
Mas o que isso tem a ver com a performance escrita? Poderia se dizer que ao debater o esquecimento, trazendo-o para a memória de seus leitores, Bolaño realiza o ato performático de manter, de preservar o que de modo algum se pode esquecer: a vida humana (comportamento recuperado segundo Schechner, 2001). Para além da literatura (que é também um modo de vida), Bolaño, apesar de narrar a morte, tem apreço mesmo é pela vida – não podemos deixar de pensar que a escrita de 2666 foi na iminência de sua morte.
173 mas não um cemitério de 1974, nem um cemitério de 1968, nem um cemitério de 1975 […], sim um cemitério de 2666, um cemitério esquecido debaixo de uma pálpebra morta ou inexistente, as aquosidades desapaixonadas de um olho que por querer esquecer algo, acabou esquecendo tudo.
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