Os custos de produção e uso de um equipamento militar estão diretamente relacionados às capacidades atributivas de um Estado. Armamentos financeiramente mais acessíveis, por exemplo, podem ser adquiridos em maior número e usados em mais missões, inclusive de maior risco. Quanto maior a capacidade de produção e de mobilização de
equipamentos militares, menor o impacto de utilizá-los em campo de batalha. Assim, os custos de determinada tecnologia militar alterarão as capacidades atributivas do país que a domina, influindo também na predisposição desse país para engajar-se em conflitos.
Em termos militares, a eficiência econômica de um equipamento deve ser considerada em relação a um conjunto de fatores: o preço de aquisição do equipamento; os custos envolvidos em seu uso e manutenção; sua eficácia para atingir os objetivos definidos; a relevância tática, operacional e estratégica desses objetivos; e o custo de oportunidade em relação ao uso de outros armamentos. Alguns desses fatores envolvem um cálculo complexo, outros sequer são quantificáveis. Não obstante, a verificação de cada um deles propiciará uma noção aproximada das vantagens econômicas do emprego de VANTs em conflitos.
Menores custos financeiros iniciais são amiúde apresentados como uma vantagem dos VANTs em relação a aeronaves tripuladas. Corrobora essa visão o argumento de que, pelo preço de um F-22, o caça mais avançado em uso pela USAF, é possível comprar até 35
Predators, cujo custo unitário é inferior a US$ 4,5 milhões (SINGER, 2009)38. No entanto,
essa alegada vantagem é relativizada se se considera que, para tirar o piloto da aeronave, é preciso equipá-la com um complexo conjunto de sensores e de transmissores, que devem ser operados a partir de uma estação terrestre. Dessa forma, conquanto o veículo aéreo não tripulado seja realmente mais barato do que uma aeronave tripulada, o sistema aéreo não tripulado, que inclui a infraestrutura operacional necessária ao funcionamento do veículo, nem sempre é tão vantajoso do ponto de vista financeiro. Ainda assim, como o custo unitário do veículo é baixo, procede o argumento de que VANTs tendem a ser empregados em missões mais arriscadas, que dificilmente seriam realizadas caso só houvesse a opção de aeronaves tripuladas.
Atualmente, uma única estação terrestre já é capaz de controlar múltiplos VANTs, o que restaura parcialmente a vantagem de retirar o piloto da cabine. Além disso, é muito mais rápido, fácil e, por conseguinte, barato treinar operadores de VANT do que pilotos de caça. Enquanto estes representam uma pequena elite no quadro de qualquer força militar, e são de difícil reposição, aqueles podem ser rapidamente treinados e substituídos – aliás, não precisam nem mesmo ser militares, havendo muitos terceirizados atuando no ramo (DAVIS et al, 2014). Com efeito, nos Estados Unidos, já há mais operadores de VANTs em treinamento do que o somatório de pilotos de caças e de bombardeiros (CHAMAYOU, 2013, p. 25). O progresso da automação, contudo, logo permitirá a um único ser humano controlar todo um
38 Já o novo F-35, que deverá substituir a frota de F-22, pode custar até US$ 337 milhões, na versão para a
esquadrão, diminuindo custos e aumentando a eficiência tática e estratégica das aeronaves, tendo em vista que elas atuarão de modo mais coordenado. Como foi visto, embora o nível de autonomia dos VANTs existentes seja ainda relativamente baixo (2,5 no caso do Global
Hawk, em escala de 1 a 10), os primeiros passos rumo a essa evolução já estão sendo dados.
Duas outras questões devem ser consideradas: o custo variável dos equipamentos que compõem a aviônica e o índice de acidentes. Estima-se que as câmeras e os sensores representem, em média, um terço do custo total dos VANTs. No caso do Global Hawk, eles chegam a perfazer 54% do custo total (GERTLER, 2012). Essa proporção aumentou à medida que a demanda cresceu acima da oferta. Não obstante, a consolidação do mercado de VANTs deverá impulsionar a indústria desses equipamentos, de modo que o incremento da competição e da escala de produção tenderá a levar a uma redução dos preços no longo prazo. Essa redução de custos também já começa a acontecer por meio de ganhos de eficiência e de "produtividade". Por exemplo, a instalação de mais câmeras dentro do casulo de vidro posicionado na barriga dos VANTs tem permitido expandir em até dez vezes a quantidade de fontes de vigilância que os comandantes militares podem usar, o que representa forma mais barata de maximizar a capacidade existente do que apenas elevar o número de voos que eles realizam. Programas mais eficientes para analisar as imagens coletadas também vêm ensejando reduzir custos com recursos humanos (LUBOLD, 2015).
Outra preocupação é a necessidade de reposição mais frequente dos VANTs em relação a aviões tripulados – o índice de acidentes dos primeiros chega a ser, em alguns casos, 100 vezes superior ao dos segundos (BONE; BOLKCOM, 2003). Nesse caso, deve-se ponderar que VANTs são expostos a missões mais arriscadas e que muitos deles são colocados em campo antes de passaram por todos os testes, devido às necessidades criadas pelas guerras do Afeganistão e do Iraque. À medida que a tecnologia amadurece, os acidentes decorrentes de problemas técnicos e de falhas de transmissão tendem a diminuir. Estudos recentes apontam que o índice de acidentes do Predator e do Reaper já caiu para níveis comparáveis aos de caças pilotados. Ainda que esse índice seja maior, os custos decorrentes da queda de 12 Predators, em 2011, ocorridas principalmente em solo estrangeiro, foram inferiores aos gerados por caças do modelo F-16 que colidiram, em sua maioria, nos Estados Unidos – de US$ 48 milhões, no primeiro caso, e de US$ 57,3 milhões, no segundo (BOYLE, 2012). Nessa perspectiva, Jeremiah Gertler (2012, p. 19) pondera que "It may be unfair to compare the mishap rates of developmental UAS with manned aircraft that have completed development and been modernized and refined over decades of use".
Se os custos unitários de VANTs são atrativos, aqueles envolvidos em seu uso e manutenção o são ainda mais. Diferentemente dos caças modernos, que foram projetados para serem rápidos, potentes e manobráveis, a maioria dos VANTs voa a velocidades mais baixas, são menores e mais leves, o que resulta em economia de combustível, fluidos e peças. Em consequência, enquanto a hora de voo do Reaper custa em torno de US$ 3 mil, a do F-35 é superior a US$ 16 mil. É preciso ressaltar, todavia, que o desenvolvimento de VANTs menos vulneráveis a defesas antiaéreas e com mais capacidades está levando a uma diminuição de suas vantagens financeiras diante de aeronaves tripuladas. O Global Hawk, o VANT mais moderno em uso oficial na atualidade, por exemplo, tem custo unitário de até US$ 100 milhões, enquanto os gastos para mantê-lo voando por uma hora, de US$ 24 mil, portanto superiores ao do F-35 (BOYLE, 2012; GERTLER, 2012, pp. 10-11)39.
Comparar os custos de VANTs com aqueles relacionados a aviões tripulados é a forma mais intuitiva de estimar sua economicidade. Não obstante, deve-se considerar, também, que VANTs são usados para diminuir – ou mesmo eliminar, em alguns cenários – a necessidade de tropas em campo de batalha. A economia de recursos decorrente dessa substituição pode ser estimada com base no dado de que cada soldado enviado ao Afeganistão, em 2012, custou aos Estados Unidos em média US$ 2,1 milhões. Além disso, em virtude dos avanços na medicina, a taxa de sobrevivência a ferimentos é muito maior do que no passado. Enquanto na Segunda Guerra Mundial havia 2,3 feridos para cada morte, nas guerras do Afeganistão e do Iraque esse número subiu para 7. Os gastos com pagamento de pensão para soldados feridos, geralmente jovens que demandarão acompanhamento médico por décadas, representa ônus com o qual o governo norte-americano, em especial, busca lidar por meio da mecanização (McLEAN, 2014).
Retirar soldados da linha de fogo e substituir aeronaves tripuladas não faria sentido, contudo, se VANTs não desempenhassem missões semelhantes com eficácia, no mínimo, equiparável. Esse parece ser o caso nos níveis tático e operacional. VANTs vêm sendo usados não só para assistir tropas em combate40, mas também para empregar a força contra indivíduos, grupos e bases adversários. Suas características como plataforma única que combina diversas tecnologias complementares, especialmente de observação prolongada e de
39 A comparação entre os custos do F-35 e do Global Hawk é ilustrativa, mas essas aeronaves têm capacidades
díspares e foram projetadas para missões distintas. O mais correto seria cotejar o Global Hawk com o U-2, que desempenha missões semelhantes. Nesse caso, o VANT tem-se mostrado financeiramente mais vantajoso, de modo que o orçamento do Congresso aprovado para o ano fiscal de 2015 previu que ele deverá substituir gradualmente a frota de U-2 (EVERSTINE, 2014).
40 Nessa modalidade de missão, os operadores de VANTs podem prover assistência com mais eficiência às
tropas terrestres do que aviões tripulados, cujos pilotos devem devotar mais atenção ao espaço aéreo a seu redor e a manobrar a aeronave (MAYER, 2015, p. 767).
emprego da força, tornam-nos um armamento de utilidade singular em contextos de guerra irregular complexa, que é, atualmente, a hipótese mais plausível de envolvimento de potências em conflitos internacionais. Eles também são especialmente aptos a desempenhar missões de espionagem e de engodo, pois, ao não colocar pilotos em risco, podem realizar missões mais arriscadas. Em todos esses tipos de missões, acredita-se que VANTs possam vir a tornar aviões tripulados anacrônicos, substituindo-os completamente (SINGER, 2009; The Economist, 2011).
Do ponto de vista estratégico, convém diferenciar o uso de VANTs em missões de espionagem e de reconhecimento e em missões de assassinatos seletivos, ambas consideradas “estratégicas”. No primeiro caso, as vantagens financeiras de VANTs sobre aeronaves tripuladas ocorre apenas em territórios nos quais há domínio do espaço aéreo, podendo-se utilizar modelos mais simples e econômicos. Naqueles locais em que o adversário possui capacidades antiaéreas, deve-se recorrer a VANTs com tecnologia stealth, sensores de alta resolução e que podem voar em altitudes elevadas, como o Global Hawk, cujos custos unitário e operacional podem ser mais elevados do que aqueles de uma aeronave tripulada, embora não necessariamente com as mesmas capacidades de espionagem. Nesse caso, deve-se considerar que a vantagem que VANTs apresentam sobre outros equipamentos é também política e técnica – na medida em que não coloca em risco a vida do piloto, evita episódios de captura do piloto por forças adversárias e possibilita coleta de inteligência por períodos mais prolongados – do que apenas financeira.
No caso de missões de assassinato seletivo, o custo de oportunidade do emprego de VANTs armados contra organizações irregulares em solo estrangeiro vem se provando recompensador. Tem-se revelado financeiramente vantajoso e, em muitas missões, mais eficiente usar VANTs do que outros equipamentos ou armamentos militares. Conquanto os benefícios estratégicos de longo prazo do uso de VANTs possam ser questionados, os ganhos táticos de curto prazo e as condições financeiras vantajosas favorecem seu emprego, de tal forma que a probabilidade reduzida de levar à vitória é contrabalançada pela forte redução de custos41 (CHAMAYOU, 2013, p. 262). Caso os custos políticos inerentes a seu uso não
41 A resposta do General Stanley McChrystal, Comandante das Forças Armadas norte-americanas no
Afeganistão entre junho de 2009 e junho de 2010, à pergunta de como atuar em países como Mali e Iêmen coloca esse dilema em perspectiva: "[...] You certainly don't want to put Western forces in all of these countries. The initial reaction that says, "We will simply operate by drone strikes" is also problematic, because the inhabitants of that area and the world have significant problems watching Western forces, particularly Americans, conduct drone strikes inside the terrain of another country. So that's got to be done very carefully, on occasion. It's not a strategy in itself; it's a short-term tactic". Em outra passagem, ele resume sua visão sobre a estratégia de contrainsurgência que ele aplicou no Iraque, e que pode ser aplicada também à estratégia de assassinatos
representem um contrapeso relevante, portanto, questões de ordem econômica atuam no sentido de estimular o emprego de VANTs.