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Nesta parte, o interesse é apresentarmos a trajetória de Castoriadis após a dissolução do grupo SouB. Consideraremos, em especial, como ele procurou integrar em sua obra filosófica, o projeto original de emancipação humana integrando história, antropologia, sociologia, linguagem, psicanálise, ciências, cultura, economia e política numa obra unificada, a tal ponto que o epistemólogo das ciências sociais, Edgar Morin, várias vezes chamava a atenção ao caráter enciclopédico do alcance de seu trabalho.
A partir de 1968, Castoriadis viveu a experiência de publicar textos sob seu verdadeiro nome21: o primeiro foi dedicado à área da psicanálise, os Épilégomènes à
une théorie de âme que l’on a pu présenter comme science, um denso trabalho sobre a
teoria freudiana publicada na revista L’Inconscient22. Contudo, só em 1973 tem início o acesso do público a seus escritos e a publicização de sua verdadeira identidade. Primeiramente, ele ficou conhecido pelos artigos antes publicados nos números do
Socialismo ou Barbárie, graças à reedição destes na coleção 10/18 da Union Génerale d’Éditions, Paris, França.
Nesse momento, Claude Lefort, antigo companheiro de lutas no SouB, também se tornou conhecido em razão das obras críticas do totalitarismo que estavam sendo publicadas. Paradoxalmente, esses mesmos autores que haviam analisado e severamente criticado a Rússia como regime totalitária desde os anos 1940, foram bem mais
21 Uma vez naturalizado francês, Castoriadis livrou-se da censura e da caça policial contra estrangeiros
que publicassem à época com seus próprios nomes.
maltratados, pois entravam em cena, na França, os “novos filósofos”. Por obra da mídia francesa sob a batuta do mestre Maurice Clavel, os parvenus gozavam exposição televisual semanalmente. De fato, um grupo de ex-maoistas que mal havia lido qualquer coisa do marxismo e/ou da filosofia e que foram promovidos no outono de 1976, pela televisão, que ignorava os trabalhos seminais dos membros do SouB.
A interlocução com expoentes da esquerda que circulavam na França piorou quando Castoriadis e Lefort foram assimilados aos “pós modernos”: Deleuze, Lyotard, Foucault, etc., sobretudo por brasileiros que nem se deram ao trabalho de ler as obras deles, além de outros que rotulam de “neoliberais” ou de “pós-modernos” todos com quem não concordam. Contudo, dos franceses ditos “pós modernos”, apenas Lyotard foi membro do grupo SouB, tendo sólidas divergências com Castoriadis.
Todavia, no que diz respeito à Rússia, Lefort e Castoriadis estiveram atentos aos desvios perigosos do regime desde os anos 1940 (Lefort foi um dos primeiros a criticar publicamente a Rússia repressiva, resenhando, em outubro de 1950, uma obra sobre os campos de trabalho na Rússia, escrito por Anton Ciliga, na revista Les Tempos
Modernes.).
Se durante os anos pós II Guerra Mundial, Hannah Arendt e Raymond Aron defenderam as instituições democráticas liberais, tal não foi o caso dos membros do
SouB. Castoriadis e Lefort defenderam o Comunismo dos Conselhos na Hungria durante o movimento anti-Russo em 1956, junto com Hannah Arendt que acabou divergindo com R.Aron. Os ex-membros do grupo SouB apoiaram todos os outros movimentos populares contra seus governos socialistas-burocráticos no bloco soviético durante os anos 1950-89. Castoriadis e Lefort, em particular foram os faróis do movimento anti-totalitário, sem buscar fama na mídia francesa, dedicando-se a fundo no esclarecimento dos detalhes contados.
Para Castoriadis e Lefort, repensar a democracia como autonomia individual e social, como autoinstituição permanente da sociedade, como capacidade da sociedade de criar novas formas de sociabilidade em busca de condições de maior liberdade e igualdade, era fundamental. Cada um tomara rumos diferentes mesmo mantendo o mesmo terreno de trabalho: Lefort se concentrou sobre as aporias da democracia moderna e a luta contra o totalitarismo, Castoriadis trabalhando sobre a questão da
autonomia individual e social. Mas ambos se distanciaram da moda na filosofia francesa ligada a Heidegger e a Nietzsche que ofereceu as bases para o chamado pós- modernismo.
Apesar de ter sido o herdeiro intelectual de Merleau-Ponty, Lefort traçou seu caminho como um filósofo da democracia. Longe de se contentar com um trabalho de historiador do já pensado, posicionou-se sempre em prol do filosofar o passado, presente e o novo nascente na democracia. Castoriadis, por sua vez, além de criticar constantemente a filosofia herdada, mostrou a partir de seus seis volumes das
Encruzilhadas no labirinto e nos dois volumes da coletânea La création humaine23 a constância de suas pesquisas centradas no “pensável”. O que significa ir além do que estava pensado, legado como parte da reflexão em todas as áreas, ciência, linguagem, cultura, antropologia, história, sociologia, epistemologia, filosofia e religião.
Foi exatamente esse o motivo que o levou a criticar aqueles que proclamavam o fim da filosofia. As ideias apresentadas pela primeira vez, segundo o autor, numa conferência na Universidade Goethe em Frankfurt (Alemanha), foram particularmente veementes referindo-se a certos textos de Heidegger e de seus amigos “desconstrucionistas” e pós-modernos. A posição enunciada por Castoriadis é simples:
Pois a filosofia é um elemento central do projeto greco-ocidental de autonomia individual e social: o fim da filosofia significaria nem mais nem menos que o fim da liberdade. A liberdade não está apenas ameaçada pelos regimes totalitários ou autoritários. Mas sim, de maneira mais escondida, porém não menos forte, pela atrofia do conflito e da critica, pela expansão da amnésia e da irrelevância, pela incapacidade crescente de questionar o presente e as instituições existentes, que sejam propriamente políticas ou contenham concepções do mundo. Nessa crítica, a filosofia sempre teve parte central, ainda que, na maior parte do tempo, sua ação tinha sido indireta. Esta ação está em via de desaparecimento, em primeiro lugar e, sobretudo sob o peso das tendências social-históricas contemporâneas, que não discutirei aqui. (Castoriadis, 1992 p. 239-240)
A título de esclarecimento da posição de Heidegger, em sua nota de rodapé #3, Castoriadis(Ibidem) escreveu:
... e entre numerosas outras formulações, “Nós não devemos fazer nada, somente esperar.” (“Para servir de comentário à Serenidade, Questões III, Paris, Gallimard, 1966, p.188). A entrevista póstuma do Speigel também é enfática sobre esse ponto.
23 Um dos volumes já está traduzido para o português: Sujeito e Verdade no mundo Social-Histórico,
Toda a vida de Castoriadis pode ser considerada como uma luta contra esse tipo de “espera” pregada por Heidegger a seus seguidores. Manteve-se militante se tornou filósofo e psicanalista em busca de resoluções para enigmas do nosso mundo. Sempre incitando seus leitores ao agir para combater a letargia, o desânimo e as (des) ilusões, enfim, a heteronomia.
Castoriadis pensava radicalmente diferente de Heidegger e do pensamento filosófico herdado: romper a clausura do pensamento legado, usando seus pontos de chegada como pontos de partida para pensar o novo, eis a tarefa que então ele se dava. Na medida em que, começou sua revisão da leitura do que chamava a filosofia herdada, Castoriadis começou a criar novos conceitos e dar novos conteúdos aos conceitos já existentes. É nessa ótica que devemos ver a posição de ideias como: o Imaginário, as Significações Imaginárias Sociais, a Imaginação Radical, o Imaginário Social, a Práxis, a Autonomia e a Heteronomia.