Em sua obra dedicada ao discurso das mídias, ao falar do suporte TV, Charaudeau (2013) privilegia os programas do gênero de informação, por exemplo, os telejornais e os programas de entrevista, para mencionar alguns. No entanto, apesar de nosso interesse neste trabalho abranger um produto midiático mais ligado ao campo do entretenimento, acreditamos que as contribuições do autor sejam uma importante referência.
Uma vez que nosso corpus se constitui de programas de receita culinária, faz-se necessário investigarmos o contrato que incide sobre esses produtos midiáticos audiovisuais. Para mapearmos essas normas, iremos nos basear no esquema do ato de comunicação geral. Como vimos, temos duas instâncias, produção e recepção, e três lugares da construção de sentido, ele é erigido na confluência das restrições relativas à produção, à recepção e à construção do produto midiático.
Ao pensarmos nesse conjunto de regras que regula as materialidades midiáticas, cabe observar que ele “se desdobra numa relação triangular entre uma instancia de informação, um mundo a comentar e uma instância consumidora”. (CHARAUDEAU, 2013, p 212). A respeito dos parceiros envolvidos no ato de comunicação midiático, temos, assim, pelo lado da produção, os responsáveis por tomar a iniciativa de encenação, ou seja, profissionais que atuam nas mídias (imprensa, rádio, TV e web), encarregados do projeto de fala midiático. De acordo com a perspectiva de Charaudeau (2013, p. 73), é possível pensá-los como uma “entidade compósita”, visto que diversos agentes contribuem “para fabricar uma enunciação aparentemente unitária e homogênea”. Esse conjunto de vozes compreende toda a equipe envolvida na realização do ato, a qual varia em função do suporte midiático e do tipo de produto realizado.
No caso específico dos programas televisivos, segundo propõe o estudioso, os sujeitos produtores são todos os agentes que trabalham para assumir um ponto de vista coeso, o que envolve jornalistas, apresentadores, intérpretes (atores e atrizes), mas também profissionais que ficam nos bastidores, como diretores, roteiristas, editores, iluminadores, técnicos de som etc. Esses mesmos agentes podem aparecer nos programas feitos para web, mas, como muitas vezes eles são realizados de maneira mais autônoma ou sem os mesmos recursos que dispõem
uma emissora, a equipe responsável por esses conteúdos pode ser mais enxuta ou até ser formada por uma única pessoa. Cabe salientar que os indivíduos posicionados à frente das câmeras, pela exposição a que são submetidos, são tidos como principais responsáveis pelo programa, ou seja, são os “pivôs da encenação” (CHARAUDEAU, 2013, p. 229).
Pelo âmbito da recepção, na posição de sujeitos interpretantes, por se tratar de uma troca que concerne à máquina midiática, esses parceiros são consumidores.O público, 84 de fato, consume os produtos midiáticos, o que sinaliza a filiação econômica dessa troca.
Em conformidade com as variações quanto ao tipo de produto midiático estão as nuances referentes às circunstâncias materiais. Para entendê-las, caberia pensar no suporte e nas seguintes questões “Em que ambiente se inscreve o ato de comunicação, que lugares físicos são ocupados pelos parceiros, que canal de transmissão é utilizado?” (CHARAUDEAU, 2013, p. 70). As respostas a essas perguntas variam dependendo da mídia e do produto, visto que cada um dos dispositivos hoje disponíveis apresenta possibilidades e regras próprias de funcionamento. Ou seja, as formas de circulação dos textos midiáticos guardam semelhanças e diferenças.
Para observá-las, podemos mirar as formas de interação. Segundo a perspectiva da Análise do Discurso que assumimos, são duas as principais: a monolocutiva85 e a interlocutiva. Na monolocução, há um distanciamento entre os sujeitos produtores e receptores, visto não estarem em contato direto obrigatoriamente, nem travarem um diálogo em tempo real. A interlocução, de forma oposta, prevê justamente uma troca direta, na qual as partes envolvidas interpelam-se de maneira imediata. Em geral, como explica Braighi (2015, p. 298), toda troca midiática é monolocutiva.86. Os jornais e revistas, impressos ou digitais, os programas de rádio e de TV e os diversos formatos de textos que circulam na internet; todos normalmente se estruturam de maneira monolocutiva, visto que o locutor e o interlocutor não estão em contato direto e presencial. O conteúdo é transmitido através do papel, do rádio, da tela da TV, do computador ou ainda do smartphone.
84 Embora sejam denominados diferentemente, o público que assiste aos canais da TV paga e o público que
assiste YouTube exibem características semelhantes, conforme pudemos perceber pelos resultados trazidos pelas pesquisas de mídia citadas anteriormente. Verificar capítulo 1, tópico 1.5 (página 23).
85 Cabe pontuar aqui a diferença entre monolocutivo e monológico. Um ato monológico desconsidera a pessoa
do TU. No entanto, a perspectiva da Semiolinguística considera a linguagem um fenômeno essencialmente dialógico, ou seja, sempre envolvendo as figuras do EU e do TU. A configuração monolocutiva se aplica quando o TU não aparece de forma explícita, mas isso não invalida a constituição dialógica da linguagem e das trocas. Podemos pensar num monólogo, quando um sujeito fala sozinho isso não representa que ele não fala a ninguém. Ele tece projeções sobre um interlocutor invisível e modaliza seus dizeres em função desse ser.
86 A interlocução nas trocas midiáticas, no caso da internet, seria possível através da ferramenta dos bate-papos
(ou chats). As caixas de comentário, por exemplo, não se enquadram nessa categoria em função do intervalo temporal que ela admite, além ainda da possibilidade de edição posterior e o eventual apagamento das mensagens.
Em função desses dispositivos de circulação, as mídias organizam o formato dos produtos respeitando critérios de tempo (duração) e frequência (sazonalidade). Ao pensarmos na imprensa, por exemplo, os jornais e revistas destinam espaços determinados a cada assunto ou colunista, os quais envolvem número de páginas e frequência de publicação – diária, semanal, etc.; já o rádio, a TV e a web trabalham sob uma lógica que envolve tanto a frequência com que os programas são levados ao ar como sua duração, o tempo de cada episódio. Através dessas medidas, o público pode se organizar para consumi-los.87
Os discursos realizados em um suporte midiático necessitam da instância receptora de forma mais contundente do que os discursos realizados em outras circunstâncias. No caso das encenações ligadas a uma atração midiática, elas fazem parte de um produto que deve ser consumido por uma audiência – o que movimenta índices como o Ibope. Em função dessa configuração mercadológica, a dependência existente entre produtores e receptores envolvidos por um produto midiático distingue-se da relação existente em outras categorias de ato comunicativo.
Assim, ao observarmos a importância que a adesão do público representa para um veiculo de mídia, nas trocas midiáticas, a figura do outro teria um peso diferenciado. Nelas, estaria envolvida uma noção de recepção que envolve questões de ordem comercial, tendo em vista que a recepção de um produto de mídia é diretamente condicionada a sua circulação e permanência no mercado. Como são muitos os produtos midiáticos disponíveis e a disputa para que sobressaiam mostra-se acirrada, para que mantenham uma audiência fiel e interessada o conteúdo que chega até o público apoia-se em códigos semiológicos, representações e imaginários sociodiscursivos reconhecidos e partilhados por essa instância.
Cabe, portanto, observar que, dentre as finalidades do contrato de comunicação midiática destacam-se as atitudes que buscam informar (visada de informação) e comover (visada de captação). Conforme avalia Charaudeau (2013, p. 92), essa configuração constitui uma tensão, visto que a informação, para ser credível, deve revelar, em tese, um “grau zero de espetacularização”, isto é, deve buscar uma encenação que não recorra a “efeitos de dramatização”. No entanto, a espetacularização guarda uma relação com a visada de captação e mostra-se um importante recurso para os atos comunicativos midiáticos. Mesmo no gênero
notícia, o qual traz consigo uma aparente exigência de imparcialidade e tem a visada
informativa como finalidade predominante, a encenação com marcas de afetividade se
87 Mesmo na web 2.0, com seu frescor, essas organizações podem ser notadas. Em relação aos canais do
YouTube, por exemplo, como coloca a jovem produtora de conteúdo Julia Tolezano, responsável pelo canal Jout Jout, publicar vídeos com uma regularidade é uma medida que garante a adesão do público e a
constitui-se um valioso recurso discursivo.88
Em relação aos conteúdos que se pretende estudar neste trabalho e em outros tipos de produtos midiáticos mais voltados ao entretenimento, por sua vez, a visada de sedução parece prevalecer em relação à intenção informativa, uma vez que nesses produtos o fazer sentir “domina, mascarando a primeira [a visada de informação] e constituindo finalmente o que o legitima: seduzir para vender ou (o que dá no mesmo) para fazer crer que se vende” (CHARAUDEAU, 2013, p. 87).
Para que possamos dar sequência à análise do processo de construção da culinária nessas atrações, iremos propor algumas hipóteses acerca dos contratos que gerenciam os diferentes suportes audiovisuais: TV por assinatura e internet. Em primeiro lugar, consideraremos as normas impostas em função dos parceiros envolvidos (instâncias de produção e recepção), das circunstâncias materiais e das finalidades por trás dos atos de linguagem proferidos nessas mídias. Buscaremos também observar os posicionamentos que o suporte midiático, o canal e, finalmente, cada um dos programas estabelecem com os interlocutores e que relações estabelecem com as representações sociais em vigência. Além disso, verificaremos as maneiras como elementos linguísticos e icônicos são evocados na composição das encenações discursivas.
No capítulo anterior, procuramos cercar os elementos que comporiam a situação em que as atrações foram produzidas – e, eventualmente, consumidas. Entendemos essa verificação do cenário sócio-histórico e comunicacional como uma etapa essencial para refletirmos a respeito dos contratos. Através das pesquisas de mídia a que tivemos acesso, observamos um momento de ampliação (quantitativa e qualitativa) da oferta e, consequentemente, da contratação de serviços de telecomunicação no Brasil, o que possibilitou um aumento substancial da oferta de conteúdo audiovisual, seja via televisiva, especialmente nos canais pagos, seja através de plataformas online, com destaque para o
YouTube.
Em concomitância a essas novidades tecnológicas ligadas às telecomunicações, notamos também um movimento de valorização da culinária, o que propiciou (e propicia) o substancial aumento dos conteúdos audiovisuais centrados na exploração do tema da alimentação. Diante dessas observações e das propostas adotadas pelo campo de estudo da Semiolinguística sobre as noções de situação de comunicação e de contrato, passaremos às 88
Ao pensarmos nessa noção e em como ela aparece na dissertação de Espírito Santo Neto (2009), acreditamos haver uma proximidade com a definição assumida por Charaudeau. Espírito Santo Neto retoma uma perspectiva da sociologia para explicar esse conceito, nessa medida, a espetacularização está ligada à transformação da vida em sensação ou entretenimento. Dessa maneira, acreditamos, ela guardaria uma ligação com a ideia de uma encenação dramatizada proposta pelo semiolinguista.
hipóteses sobre os termos que regulariam as mídias, os canais e, por fim, os programas de receita que integram o corpus.