Na primeira entrevista, datada de 1979 e intitulada como ―O MDB é contra a crise‖,262 a credibilidade de João Manoel Cardoso de Mello foi
constituída em Veja a partir da carreira intelectual-acadêmica, bem como da militância política de oposição do entrevistado:
Professor João Manoel Cardoso de Mello, 37 anos, da Universidade de Campinas (SP), doutor em Economia com um trabalho sobre a evolução tardia do capitalismo brasileiro. Dono de uma rica teia de relações com empresários e líderes sindicais da nova geração, o professor Cardoso de Mello, paulista com nobre ascendência de políticos e fazendeiros, tornou-se desde março passado – quando
261 Ibidem.
assinou a ficha de inscrição no MDB – o oposicionista mais requisitado a falar sobre a crise econômica. Um dos principais economistas da oposição. Economista fundador da Unicamp e Facamp.
Outro fator destacado na descrição que sustentava a opinião do entrevistado foi o seu trânsito entre diferentes segmentos de classe. Segundo os trechos destacados nessa entrevista, João Manoel viria de uma família de fazendeiros e naquele momento manteria ―uma rica teia de relações com empresários e líderes sindicais da nova geração‖.263 A ênfase a estes aspectos
remete a uma questão amplamente presente no projeto político-ideológico representado em Veja em que a aliança de classes, ou pacto social, representava um ponto fundamental.
Ainda na primeira entrevista, o entrevistado se coloca claramente como sendo de oposição, e critica a administração do então governo brasileiro, salvo algumas medidas tomadas por Delfim Neto no terreno prático:
Curiosamente, no terreno prático, as propostas de Cardoso de Mello estão muito próximas das ideias de Delfim Netto. Uma coincidência que o economista do MDB atribui ao tempo que ―o ministro dedicou ao estudo das críticas que a oposição lhe dirigia na época do chamado ‗milagre econômico‘, origem dos problemas atuais que Delfim terá a oportunidade de corrigir. [...] a administração energética do Brasil tem sido uma irresponsabilidade sem limites. [...]. Não se fez absolutamente nada de significativo nas áreas realmente importantes, como é o caso dos usuários de óleo combustível‖.264
No terreno das prescrições, e demais posicionamentos por parte do entrevistado, novamente aparece referência ao incentivo a uma política de alianças do governo com segmentos democráticos do empresariado e políticos liberais. Na defesa de seus posicionamentos, o entrevistado também apontava para a importância da democratização das instituições e da administração estatal a fim de, pela via política, assegurar a criação de um tipo de Estado necessário para viabilizar as condições para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil:
263 Ibidem. 264 Ibidem.
Defende a reativação geral da economia. E admite que ―Delfim Netto está certo ao tabelar os juros. [...] negociar exige, simultaneamente, a busca de um entendimento com os segmentos democráticos do empresariado. E também o reforço da aliança com os políticos liberais comprometidos com a justiça social e com a soberania nacional. [...] a reformulação da política econômica será tanto melhor sucedida quanto mais largo o espaço, mais forte o Parlamento e mais rápido o fluxo dos vários canais de representação da sociedade. Agora, é preciso dizer que há empresários que conseguem ultrapassar a visão corporativa dos interesses de seu negócio. São os empresários que conseguem enxergar quais são os interesses a longo prazo do capitalismo; que sabem que o sistema de livre iniciativa no Brasil só pode ser duradouro se houver mais justiça social e estabilidade democrática. [...] são lideranças que sabem, pela primeira vez, que não se pode firmar o capitalismo no Brasil por meio da ditadura. Isso não passa de uma ingenuidade e há muitos empresários que sabem disso. Eu defendo o monopólio estatal do petróleo. Mas não acho admissível que a Petrobras tenha tanto poder com tão pouco controle e o exerça unicamente para melhorar o seu desempenho financeiro. O que a Petrobrás precisa é de um controle democrático. É preciso dizer que é perfeitamente viável realizar uma política econômica que atenda a recuperação da economia, contenção da inflação, crescimento do emprego e aumento dos gastos sociais. Este é o meu pensamento e também o da oposição brasileira à qual pertenço. O problema esta na viabilidade política‖.265
Na entrevista de 1988, sob o título de ―Um país de ciclotímios‖,266 a
credibilidade de João Manoel Cardoso de Mello continuava a ser construída em torno da sua atuação como intelectual-acadêmico e político de oposição:
Professor João Manoel Cardoso de Mello, diretor do Instituto de Economia da Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas, no interior de São Paulo um dos autores do plano Cruzado. Ex-assessor do ministro Dílson Funaro.
As críticas do entrevistado estavam totalmente direcionadas ao governo, ao qual se referia como sendo artífice de uma política medíocre, imobilista , com ausência de projeto e de perspectiva, conforme destacado a seguir: ―O Brasil está perdendo o bonde da História. Medíocre [a política do governo]. É a política da falta de projeto, da falta de perspectiva, do imobilismo‖.267
265 Ibidem.
266 Veja – Entrevista, São Paulo, n. 1046, p. 5-8, 21 set. 1988. 267 Ibidem.
A essas críticas, era remetida a ideia de atraso e anacronismo a que o país estaria submetido mediante a administração do então governo. Este também era um posicionamento recorrente nos discursos veiculados em Veja nessa época, e sobre a qual foram erigidas grande parte das críticas direcionadas às políticas estatais: ―O Brasil está tão atrasado que algumas inovações da Constituinte saudadas como grandes avanços sociais chegam a ser grotescas‖.268
De acordo com esses pontos predominantes nas duas entrevistas, é possível categorizar João Manoel Cardoso de Mello como um sujeito representativo do projeto de oposição representado em Veja, já que na posição atribuída ao entrevistado, foi possível observar os pontos fundamentais que orientaram o programa pautado e defendido na revista.
Retomando a entrevista de 1979, destaco outro ponto que demonstra o alinhamento da visão do entrevistado com a postura contida na revista. O trecho destacado a seguir, decorre do questionamento sobre a possível orientação ideológica dos segmentos do empresariado com os quais defendia as alianças:
VEJA – O senhor fala das lideranças empresariais que muitos funcionários do governo consideram de esquerda?
MELLO – Mas como de esquerda? Ao contrário. Elas são o simétrico das novas lideranças sindicais, tão elogiadas nos últimos meses. São lideranças que sabem, pela primeira vez, que não podem firmar o capitalismo no Brasil por meio da ditadura. Isso não passa de uma ingenuidade e há muitos empresários que sabem disso.269
Este posicionamento reitera o alinhamento das ideias defendidas por Cardoso de Mello com a postura defendida em Veja, pois é referente a um ponto-chave da oposição constituída na revista. A saber, trata-se da não identificação desse setor de oposição com uma esquerda. Outro ponto de
268 Ibidem.
extrema relevância nesta passagem é a identificação com a proposta de desenvolver o capitalismo no Brasil. Uma questão que, nos anos 1960 ainda figurava associada à ditadura, mas nos 1980 definiu o motivo principal da democratização na agenda liberal. Foi nesse sentido que a democracia se tornou necessária a esse setor, onde democracia virou sinônimo de capitalismo desenvolvido.
Diante disso, se tornaria inviável não identificar João Manoel Cardoso de Mello como um típico sujeito representativo do projeto político-ideológico defendido em Veja.