As experiências organizativas desses sujeitos sociais em Itapuranga não se encerraram com a Sociedade do Adubo, como já afirmado. Dentre outras que foram criadas, teve destaque a ACBR, uma associação cujo objetivo era poder comprar produtos de necessidade cotidiana dos trabalhadores rurais. A “gente pensou, mesmo, nas famílias que tinha interesse e mais nas pessoas da zona rural. A gente nunca pensou em colocar um comércio para atender o povão, a gente pensa mesmo nas famílias interessadas”, como salientou Isabel Carlos.
Outras experiências organizativas constituíram-se em elementos importantes também na consolidação da ACBR. Esses elementos eram trazidos para discussão nas reuniões e assembléias sindicais e religiosas e em muitas conversas de trabalho.
Nesse cotidiano inventado e reinventado, como nos ensina Certeau (2001), pode-se agir como mais um interlocutor nos espaços de mobilizações ocultados,
remexendo lembranças e publicações das instituições de articulação que atuaram junto aos trabalhadores rurais.
Pessoa (1999a) nos ensina que muitas destas reivindicações tiveram de “conquistar” a cidade para que o movimento que estava sendo feito tivesse visibilidade. A Associação de Baixa Renda de Itapuranga nasceu nesse contexto de mescla entre campo e cidade. A maioria dos membros que deram vida e materialidade a essa entidade viviam no campo, porém contaram com a participação e mobilização de homens e mulheres que moravam na cidade de Itapuranga.
Visando diminuir as dificuldades enfrentadas pelas famílias diante de uma sociedade de consumo cada vez mais individual e excludente, a mobilização buscou oferecer uma alternativa para melhorar o poder de compra. Acreditava-se que o problema do custo de vida era conseqüência das ações de comerciantes atravessadores, que auferiam lucros exacerbados. Izabel Carlos explicou como surgiu essa associação:
Na época, tava assim, um grupo de pessoas, poucas pessoas, reuniu pra discutir sobre como as coisas tava caro, como tava muito difícil. Na lojas tudo era muito caro, e a gente pensou assim, se nois fizesse uma associação, a gente comprasse a compra e registra essa associação, começasse a comprar e nós mesmo comprando de nós, saindo do comércio. E assim foi discutindo e amadurecendo a idéia. Depois o próprio Nello já em Goiânia já comprou umas pecinhas de pano, acho que duas ou três, aí chegou o pessoal, ficou, assim, apaixonado, achô muito barato e muito bom. E aí surgiu os postinhos em muitos lugares.
Uma outra experiência serviu como inspiração para que Nello Bononi e alguns trabalhadores rurais pudessem colocar em prática a Sociedade da Farinha. Como consta em relatório da CPT, de 1986, essa associação nasceu através de um pequeno proprietário, que pôs à disposição de dez a quinze litros de terra preparada (arada),
sem cobrar e sem [se] colocar como sócio, e ao lado de outros oito famílias de lavradores sem terra, que moram na cidade. No dia marcado todos juntos plantam as ramas e depois no tempo fazem juntos as capinas. Em julho desmancham a mandioca fazendo farinha e polvilho no local mais conveniente em sistema comunitário. No fim repartem farinha e polvilho em partes iguais.
A Sociedade da Farinha, sem dúvida, foi uma dessas ações que serviram de instrumento material para a criação da ACBR. O trabalho da associação foi duradouro porque contou com o trabalho e a participação coletiva de todos os envolvidos. As experiências foram essenciais para que a ACBR permanecesse ativa durante onze anos (entre 1981 a 1992).
No Boletim da ACBR, de 1983, encontrei a seguinte afirmação:
Estamos realmente numa realidade de desigualdade econômica entre nós da mesma caminhada. Tendo isso em conta e tendo em conta também que precisa de um esforço para dar partida neste setor dos remédios, ficaram aceitas as quantias que cada um assinou entre dez e vinte mil cruzeiros.
A ACBR contava, em seu quadro de sócios, com uma maioria de trabalhadores rurais constituída por 114 membros. Na ACBR, eles tinham a oportunidade de comprar produtos como tecido, medicamentos, cadernos escolares e outros produtos a preços mais convidativos do que aqueles oferecidos nos supermercados e farmácias de Itapuranga.
A ACBR foi criada em 1981, quando um grupo de trabalhadores rurais – Izabel Carlos, Peixoto e Idimar do Peixoto e Mauro Gonçalves –, juntamente com Nello Bononi, discutiu a possibilidade de criação de uma associação para vender produtos mais baratos. A compra seria feita diretamente das distribuidoras, evitando-se o intermediário.
No segundo semestre de 1981, a associação já estava estruturada, além de contar com o aval e filiação de muitos outros companheiros das comunidades de base e sindical. A ACBR passou a funcionar como um pequeno “quiosque”, foi-se tornando conhecida e divulgada através de conversas e, assim, começou a despertar o interesse das comunidades rurais.
A associação surge como um espaço capaz de atender aos interesses dos sócios, os quais contribuíam com uma quantia em dinheiro. Comercializavam-se tecidos, óleo, açúcar, café em grão, macarrão, sal, sabão, água sanitária, dentre outros produtos solicitados pelos associados. O produto mais procurado, no entanto, era o tecido, um atrativo até para os não-sócios.
As compras eram feitas de acordo com uma lista previamente elaborada pelos sócios. Os produtos não eram vendidos para terceiros, mesmo porque utilizava-se o
capital arrecadado durante as reuniões da Associação. A distribuição das mercadorias, nos primeiros meses de consolidação da entidade, foi realizada com a participação de Nello Bononi, com os trabalhadores comprando, como narrou Izabel.
Com todo esse processo de comprar no atacado e repassar aos seus sócios pelo preço adquirido, tentou-se diminuir preços impostos pelo comércio da cidade. A ACBR, como nos informou Izabel Carlos, foi um “local de muita vontade e que foi muito importante para nós naquele tempo, a qual comprava e revendia com preços bem mais baixos para nós e que foi muito bom”. Segundo Nello Bononi, a
Associação surgiu em nossas casas, comprava os produtos e vendia ali mesmo para os vizinhos e depois a idéia pegou e fomos aumentando o grupo até constituir esta ACBR. Mas foi uma vontade de todos. O pessoal comprava roupa pela metade do preço e também material escolar para os filhos dos associados.
A entidade que nasceu do desejo e experiência de alguns homens e mulheres, sem a sua institucionalização ligada à Igreja ou Sindicato, caminhou em pouco tempo para a sua constituição. A ACBR foi registrada como uma firma, com Cadastro Geral de Contribuinte (CGC) de número 01231226.0001-74 e sede na Rua 35, nº 67, no centro da cidade de Itapuranga. Todos aqueles que eram associados se tornaram donos de uma cota-parte, respondendo pelos atos de tal entidade.
Os interessados em fazer parte da ACBR deveriam pagar uma quantia em dinheiro, cujo valor variava de acordo com a condição financeira de cada pessoa. Segundo o Boletim Informativo da ACBR (1983), assim ficou distribuída a participação e integralização dos interessados em filiar-se na organização: “50 pessoas assinaram com 20 mil, três pessoas com 15 mil, 42 pessoas com 10 mil e 10 pessoas com 5 mil”.
Com os trabalhos em andamento, outras exigências foram sendo implementadas para a continuidade como sócio da ACBR. Aquelas pessoas que estavam na faixa de cinco mil tiveram de contribuir com mais cinco mil. Caso não integralizassem os dez mil, não poderiam usufruir de todos os serviços prestados nas atividades comerciais da Associação.
Uma estratégia utilizada pela direção da associação para tentar minimizar as desavenças que começaram a aparecer entre os associados foi realizar um processo de triagem das pessoas que desejavam fazer parte do grupo. Tentou-se levantar a vida
financeira dos associados, para verificar se tinham ou não condições de filiar-se à ACBR ou se deveriam ser isentados de tais contribuições. Como publicado no Boletim da ACBR,
o caso das pessoas que oferecem menos de dez mil deverá ser estudado melhor e a sugestão seria para eles elevarem sua cota pelo menos até dez mil, pois assim resolveria o ingresso deles na sociedade sem criar outro problema para o grupo todo.
Com a divulgação da idéia e a constituição legal da ACBR, viu-se a necessidade de estruturá-la melhor, com a definição de um ponto comercial para atender aos sócios. A associação passou a comercializar uma variedade de produtos, os quais iam sendo substituídos conforme os desejos dos sócios. Até medicamentos farmacêuticos foram comercializados, principalmente a partir do momento em que o STRI havia contratado alguns médicos para atender aos trabalhadores rurais. Sobre isso Izabel fez o seguinte relato:
No que diz respeito aos medicamentos, nós não sabia nada sobre eles, mas tínhamos lá alguns médicos que receitavam e pediam para comprar de nós. Aí o pessoal chegava e nós vendia, mas não era fácil não, a concorrência era grande demais.
A estrutura da associação deveria atender, em tese, a quase todas as regiões do município em que havia interessados e representantes filiados. As conversações eram favorecidas pelas reuniões nos momentos das rezas, missas e assembléias do STRI. Sobre essas formas de interação afirma Izabel: “olha, nóis não tinha uma ligação com o sindicato diretamente, mas as pessoas que foram associados, geralmente, eram pessoas do sindicato, isso devido a nossos encontros e essa vontade do povo”.
Uma outra tarefa da ACBR foi planejar e desenvolver as suas ações de forma integrada, pois ela lidava com pessoas vindas de muitos lugares do município. Um primeiro passo foi encontrar as lideranças em cada comunidade para que ficassem encarregadas de fazer a divulgação e a solicitação das mercadorias que deveriam ser comercializadas dentro da associação.
Com tais estratégias procurava-se atender as necessidades e vontades mais prementes dos sócios. Em geral, os representantes da ACBR, em suas comunidades, eram
escolhidos a partir do conhecimento e da experiência nos vários momentos da vida sindical e religiosa.
Essas pessoas, que ficaram conhecidas como líderes dos “postinhos de tecidos”, tinham a obrigação de repassar aos dirigentes da ACBR os pedidos de mercadorias em sua região. Essas necessidades cotidianas eram apresentadas em uma espécie de conselho consultivo e deliberativo da associação, que se reunia, toda semana, para definir o que deveria ser comprado na semana seguinte.
Evidente que não se conseguiram pessoas responsáveis para atuar em todo o município, mas elas foram sendo incorporados à medida que o trabalho da associação ganhava visibilidade. Toda essa estrutura da ACBR, a partir dos Postinhos de Tecidos, ficou assim distribuída nas fazendas do município de Itapuranga: “Pedro Rangel (Baú), Jeso Rodrigues (Campo Grande), Zé Pereira (Coruja), Mauro Gonçalves (Fundão), Alceu (Guará), Divino (Guaraíta), Onofre (Córrego da Onça) e Nello (Cidade)” (Boletim da ACBR, 1983).
Na memórias das pessoas envolvidas e em documentos consultados as referências à ACBR sobre a legalidade da entidade. A ACBR “é uma entidade registrada como é uma firma, um clube, um sindicato: é uma entidade jurídica” (Relatório da CPT, 1986).
Com a instalação da ACBR, segundo depoimentos, houve uma melhora no poder de compra dos trabalhadores rurais em Itapuranga. No entanto, toda sua organização não tardou a chamar a atenção de empresários e comerciantes locais que começaram a perder consumidores. Segundo Maria Ferreira, “alguns destes comerciantes tinha produto que chegava a ser quatro vezes mais do que vendia na loja da associação”. De acordo com Divino Magalhães, eles tinham a certeza que iriam “morrer em suas mãos”.
A partir de 1984, a ACBR passou a funcionar em um local fixo para suas vendas, melhorando a exposição e a procura pelos produtos comercializados. Já não vendiam somente aos trabalhadores, mas também para outras pessoas que passaram a freqüentar o local.
Foi nesse momento que a associação começou a comercializar medicamentos, conforme registrado no Boletim Informativo da ACBR (1983):
Saudando os trabalhadores na passagem do dia 1º de maio, a Cooperativa dos Trabalhadores de Baixa Renda vem comunicar algumas notícias. Sobre o assunto da farmácia foram realizadas diversas reuniões na roça, discutindo os assuntos com muita
participação. Muitas pessoas estão interessadas e já colhemos mais de cem assinaturas. [...] O dinheiro arrecadado por esta finalidade ficará somando no Banco na conta conjunta do Nello Bononi e Mauro Queiroz, até alcançar a quantia necessária para a primeira compra de remédios e que em cada comunidade haverá uma pessoa responsável para o que for preciso neste assunto.
No que concerne aos medicamentos, Izabel Carlos, uma das sócias e atendentes da ACBR, narra que “nem sequer sabiam direito o que estava escrito na receita, mas nós tinha alguns remédios na associação”. A compra de medicamentos não se estendeu por muito tempo, em decorrência de os preços serem controlados pelo governo e pela falta de experiência para lidar com esse tipo de mercadoria.
Em documento da Comissão Pastoral da Terra sobre a questão, consta que a associação
realmente não deu muito resultado nas coisas de primeira necessidade muito controladas pelo governo. Partimos para compra de tecidos por atacado e o resultado está sendo muito bom e animador, os planos são: chita, chitão, xadrez, tergal para calça, tecidos jeans, mescla etc.
Como esse texto informa, o intento voltou-se para o comércio de tecidos, conseguindo seus melhores resultados financeiros e práticos, visto que a “compra de alimentos (óleo, açúcar, café em grão, macarrão, sal, sabão etc.), realmente, não deu muito resultado (Boletim da ACBR).
Outro produto comercializado pela ACBR foi o material didático para os filhos dos associados, tais como livros, cadernos, lápis e borracha, como narrado por Nello Bononi:
Os pais pediam pra gente comprar os livros no início do ano, ia em Goiânia e ficava andando de papelaria em papelaria para encontrar os preços mais baratos. Depois era aquela dificuldade para levar essas caixas de livros para a rodoviária, tudo muito difícil, não tinha estrada asfaltada para Goiânia levava quase um dia, se atolasse.
E o mais interessante é que a maioria das pessoas que se tornaram sócias da Associação das Comunidades de Baixa Renda de Itapuranga era filiada ao STRI. Talvez
esteja aí o ponto de conflito entre as ações sindicais e as da associação, visto que neste espaço conseguia-se realizar uma ação mais concreta para atender os anseios dos trabalhadores rurais, enquanto o sindicato ficava com o trabalho de divulgação e debate de idéias, não conseguindo essa materialidade nos resultados.
A Associação de Baixa Renda de Itapuranga esteve ativa até o ano de 1992, quando, com a mudança de moeda (de cruzeiro para real), houve um descompasso no preço dos produtos, principalmente dos tecidos, em virtude da conversão para a denominada Unidade de Valor Real (URV). Os reajustes diários dos produtos inviabilizaram a compra de novos estoques, levando ao fechamento da ACBR.
A essas dificuldades estruturais deve ser somada a concorrência dos comerciantes locais, que conseguiam comprar os mesmos produtos em grande quantidade, a preços mais acessíveis e realizando um giro maior. Isso levava os próprios sócios a comprar em outros estabelecimentos comerciais.
Também contribuiu sobremaneira para o fechamento da ACBR a fundação da Associação dos Pequenos Agricultores de Itapuranga, entidade ligada ao STRI, que passou a ter as mesmas funções da ACBR, sendo estruturada dentro do próprio sindicato. Isso sem contar que, a partir daquele momento, a direção do STRI passou a cobrar uma mensalidade para o uso do espaço que havia cedido para a associação.
A ACBR foi um importante espaço de aprendizado para a vida das famílias, que aproveitavam os momentos de sociabilidade para tratar dos assuntos da entidade ou para discutir o que tinham a oferecer na ACBR, como os tecidos de “chita, chitão, xadrez, tergal para calça, tecidos jeans e mescla. Também camisetas e roupas feitas (de encomenda). Tudo era pago a vista” (Relatório da CPT, 1986).
Como a “exploração está grande em cima de nós, vamos dar este passo a frente na nossa libertação”, assim registrava o Boletim ACBR sobre o ideal que motivou os homens e mulheres a desenvolverem essas muitas experiências. As marcas deixadas referem-se à capacidade organizativa dos inúmeros trabalhadores rurais que saíam de suas casas distante dez, quinze e até trinta quilômetros para revender os produtos às várias famílias que se beneficiaram da Associação das Comunidades de Baixa Renda de Itapuranga.
Tudo isso de forma voluntária, às vezes a pé, de cavalo e bicicleta. Com isso acreditavam estar promovendo a verdadeira libertação e conscientização de que sempre ouviam falar nos encontros coletivos. Eis o papel inicial da ACBR, que se encerrou e foi apropriada pelo STRI, com outras nuances, mas com o aproveitamento de muitos
aprendizados realizados anteriormente na vida desses trabalhadores rurais. Assim resumiu Izabel Carlos o papel dessa entidade para os trabalhadores rurais:
Foi uma oportunidade da gente estar discutindo os problemas de cada um, o custo de vida, qual a maneira melhor pra gente, então acho que foi um momento muito positivo, quando nós discutia nossos problemas, então foi um momento muito bom na vida de quem participou, eu acho que foi muito bom, apesar que não continuou, naquele momento o pessoal ficou, assim muito animado.