• No results found

Spectrometer measurements and remotely sensed data

In document 40-2015_GHH.pdf (1.018Mb) (sider 19-23)

Cidras Flor de laranjeira Água de cheio Açúcar rosado Melões Melancias Sementes Trigo Milho Trigo das Índias

e a sua casca é tão fina como a do ovo e tão fácil de quebrar. A sua comida é doce e tenra, torna-se64 com um ovo.

Laranjas e limões, doces e ácidos, há em grandíssima abundância, tanto que nas hortas não se leva dinheiro por eles. E assim os limões como as laranjas são muito grandes e bons.

Há outros limões seutis do tamanho de ovos pequenos. A sua casca é fina, são muito sãos e de bom cheiro. Há limões reais e muitas outras espécies de limões, limas e muitas cidras. De toda esta fruta de cratego há grande abundância.

Da flor da laranjeira faz-se grande quantidade de água perfumada de flor da laranjeira e muita água de anjos. Há grandíssimos rosais, e faz-se muita água de rosas, muito açúcar rosado e favos de rosa com açúcar.

Há romarino65, a que chamamos alecrim, e muitas sortes de ervas

medicinais e de flores aromáticas e deleitosas.

Melões há muitos e bons. A força deles é em Março, Abril e na Quaresma, e em todo o ano não faltam, pela variedade e bondade da terra.

Melancias ou melancieiras ou melões de água há muitos e muito grandes. A sua carne é muito fresca e doce.

Há muitos tipos de sementes, tais como feijões, lentilhas, ervilhas verdes e secas de mil modos, amendoim saboroso, amêndoas, acelga, espinafre, beldroegas, alho-porro e llanones [sic], que se comem crus como nabos. Tamanha é a diversidade de sementes, hortaliças e manjares extraordinários, que dizem que o Peru se pode sustentar sem trigo.

Trigo semeia-se e colhe-se todo quanto é mister, e, se se quisera, pudera colher-se um ano para comer dez. Porém, não se semeia mais do que o necessário; pois que, ficando de um ano para o outro, o gorgulho e a traça o comem.

O milho é o melhor sustento do Peru, assim para os índios como para os negros, e também para os espanhóis, e para todo o tipo de bestas. As bestas comem o grão, e as que trabalham, com comê-lo uma vez ao dia, andam mui fortes e robustas; e, nesta vez que o comem, é mister que lhes dê primeiro a beber e que estejam bem fartas de água, porque se beberem duas ou três horas depois de comer, incham muito e pode- riam rebentar, como já se viu. Come-se a cana do milho que é de grande sustento. A esta cana chamam chala. Deste milho, que é o que chamamos trigo das Índias, fazem-se muitas coisas. Tosta-se no fogo e chama-se

cancha; e, deste modo, é mui saboroso e consome-se sobre a comida.

Coze-se e chama-se mote; os índios e os negros comem-no muito desta forma. Pisa-se em pilões de madeira e faz-se em farinha; e desta farinha preparam os negros bolos redondos como bolas, que cozem numa caldeira

64 «Se suelve» no original, interpretado como «se vuelve».

65 É nítido que o autor faz referência ao alecrim, mas esta pode ser uma designação

DESCRIÇÃO GERAL DO REINO DO PERU, EM PARTICULAR DE LIMA 127

Bebida

Cevada Alfafa

Pimentos

cheia de água, e assim os comem, que é o seu sustento ordinário. Da farinha fazem-se umas papas a que se chama masamorra66, em que se

deita mel das canas-de-açúcar; muitas pessoas comem esta masamorra, em particular as mulheres que criam, e toda se lhes transforma em leite; e sempre pelas manhãs a vendem na praça e por muitas ruas. Faz-se outra masamorra com açúcar e ovos, muito salutar, para gente regalada e doentes. Do milho torrado, que se chama cancha, faz-se farinha, a que se junta açúcar, e é de deleitoso gosto e sustento. Faz-se, sem picar a carne, uma espécie de pastéis a que se chama tamares67, com galinha e carneiro,

envolvem-se em folhas de bananeiras e cozem-se numa caldeira de água, e são mui bons. As espigas, a que se chama choclos, comem-se assadas e cozidas, e põem-se em locros, que é um assado ou ensopado que se faz de carne com outras coisas. Este é o mantimento mais comum que o Peru tem, e o milho é comido em cancha e mote pelos criollos e todas as gentes do Peru.

O principal alimento que se faz do milho é a chicha, que é uma bebida como a vira, e faz-se em grande quantidade. Nas planícies e na serra, os índios bebem-na e embebedam-se fortemente e também os negros, e também a bebem os espanhóis. Na cor e no paladar parece-se com a vira. Faz-se outra chicha de milho torrado, tão clara como vinho branco. Esta é mais apurada e é bebida pelos espanhóis, é muito fresca, faz-se com água e coze-se como a vira. Estas são as coisas que se fazem do milho; e com ele se cevam também muito as galinhas e perus e todas as aves.

Também se colhe muita cevada no Peru.

A alfafa é a melhor erva e de mais sustento que comem as bestas. É uma erva muito alta, que tem as folhas como trevos, a flor azul como a do linho, a vara grossa como um cálamo de escrever e a semente como a do linho. Vale uma fanega desta semente trezentos pesos, porque quem semeia uma fanega pode colher dez anos e cobrar dez mil pesos de rendi- mento. Com um feixe que custa um real, tem bem que comer um cavalo por um dia e uma noite, e é este o seu mantimento, pois que a palha não se estima e quase toda a queimam nas eras [sic], sendo as terras tão densas e nutridas que não têm mister de esterco.

De pimentos, a que se chama ajíes, semeiam-se vastos campos. Comem-se verdes, existem de muitas espécies, e não há comida a que se não juntem, nem mesa onde se não ponham. Depois de secos, os índios levam-nos a diferentes lugares como mercadoria. Deles se faz o achiote, que se deita nas panelas, usam-se como açafrão, desfazem-se em caldo, comem-se com carne e com peixe, e juntam-se ao chocolate. São muito

66 Actualmente, mazamorra. 67 Tamales.

128 DESCRIÇÃO GERAL DO REINO DO PERU, EM PARTICULAR DE LIMA

In document 40-2015_GHH.pdf (1.018Mb) (sider 19-23)