Ao longo dos cerca de 40 anos em que Machado de Assis atuou como jornalista (majoritariamente entre as décadas de 1860 a 1890), o gênero crônica foi marcado por modificações generalizadas entre quase todos cronistas do Rio de Janeiro, entre os quais o autor teve influência ativa e constante. Se nas décadas de 1850 e 1860, os comentários do jovem Machado foram marcados pela justaposição de argumentos que variavam entre o engajamento político, relativamente inconstante, e a abordagem superficial de modas,
48 CANDIDO, Antonio. “A vida ao rés-do-chão”. In: Recortes. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004, p. 28.
Pensando um paralelo em relação às crônicas, sobretudo na década de 1870, podemos expandir a questão citando as semelhanças do desenvolvimento do gênero comparadas a outro produto cultural semelhantemente popularizado e pouco estimado à época: as polcas - dança e música de origem alemã, mas que, após difundidas na Europa, também haviam sido “abrasileiradas”. Em interessante estudo sobre o conto “Um homem célebre”, José Miguel Wisnik comenta que “o mundo em que proliferam as polcas, serelepe e livremente associativo, capaz de incorporar qualquer matéria à sua lógica vivaz, tocando alegre e irresponsavelmente o nervo agudo e fortuito das coisas, corresponde, ao próprio universo das crônicas, no qual o escritor se permite borboletear.” Wisnik justifica sua aproximação entre Polca e Crônica comentando que o contexto da época, que marca a manifestação de produtos culturais em geral, punha a sociedade fluminense em contato com uma nova realidade, tanto corriqueira, quanto mundial, que se oferecia ao sujeito como mercado, conferindo-lhe o “desplante inédito de um consumidor universal”, dentro, claro, de suas limitações e especificidades locais. WISNIK, José Miguel. “Machado Maxixe: O caso pestana.” In: Sem Receita. São Paulo: Publifolha, 2004, p. 39.
discursos e outros acontecimento contemporâneos do cotidiano, suas crônicas passaram a representar mosaicos de relações sociais cada vez mais complexas ao longo das décadas.
A divisão tradicional da obra do autor identifica em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Papéis Avulsos (1882) as duas publicações que marcam sua passagem para a chamada fase realista, produção madura de obras consideradas de melhor qualidade. Seguindo o difundido argumento, John Gledson sugere um paralelo próximo de inflexão qualitativa significativa na obra do Machado cronista, que teria se dado em época próxima, podendo ser mais claramente reconhecida, em linhas gerais, a partir das séries História de quinze dias (1876) e Notas Semanais (1878). De acordo com Gledson, as crônicas desse período podem ser interpretadas como um modo de se melhor compreender “que processo” corresponde ao “salto” literário machadiano.49
Interessa-nos aqui sugerir quais características da produção anterior do cronista e qual o sentido da linhas de continuidade, modificação e ruptura que marcam as diferentes fases de sua obra. Para isso, apontaremos três momentos que iluminam nossa interpretação.50
Em estudo sobre as primeiras crônicas do jovem Machado, Lúcia Granja51 argumenta
como as duas séries publicadas pelo cronista no Diário do Rio de Janeiro - Comentários da Semana (1861-1862) e Ao Acaso (1864-1865) - são carregadas de estruturas textuais que em grande medida antecipam e servem de laboratório para formas literárias futuramente aplicadas em seus romances e contos. Mais do que reconhecer o espaço privilegiado de trabalho que foram as páginas do jornal para o escritor, nos interessa aqui esboçar algumas características específicas destas séries, e que iluminem os estudos sobre as crônicas posteriores.
Na década de 1860, Machado produziu textos jornalísticos de teor político mais explícito, caracterizado, entre outros elementos, pelo uso de ironias de mais fácil interpretação, diferentemente do estilo que o autor aprimoraria nos anos seguintes. Naquela época, demonstrando uma postura política claramente mais combativa, o empenho de esclarecimento, próprio do espírito romântico-progressista da época, é facilmente identificável em seus textos, que, além disso, ainda atendiam às necessidades de alinhamento editorial do jornal no trato da matéria cotidiana comentada. Forçando nossa nota de síntese, a autora argumenta como o cronista ensaia o uso de citações literárias, de pensadores políticos etc.,
49 GLEDSON, John. Intr. In: Notas Semanais. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2008, p. 63-64.
50 Um comentário mais extenso sobre as séries anteriores seria tentador e pertinente, porém, tal esforço iria além
do fôlego deste trabalho.
51 GRANJA, Lúcia. Machado de Assis, escritor em formação: a roda dos jornais. São Paulo; Campinas, SP:
não mais como referencialidade direta para argumentação, mas como distanciamento do discurso o qual pretendia caricaturar, criando para suas crônicas do Diário do Rio de Janeiro um tipo de “conclusão que salta desproporcional ao modelo [no caso] literário evocado”.52 Ou
seja, o que o jovem cronista fazia era “escorar-se na tradição [literária, inclusive nas crônicas históricas,] para elaborar o comentário miúdo que cria simultaneamente registros diferentes” daqueles esperados.53
O ponto de virada mais significativo teria ocorrido na década de 1870, na série Notas Semanais, a única que Machado publica semanalmente entre 1866 até o fim da década de 1880. Em estudo sobre esta série54, John Gledson aponta como, apesar da determinância e
recorrência de dois temas que pareciam preocupar o cronista à época (a organização sociopolítica em torno do novo gabinete Sinimbu e a situação cultural da corte e do país), tais temas não seriam o principal determinante da série.
O crítico inglês aposta não em um tema dos textos, mas na forte ficcionalização da matéria tratada como uma das principais mudanças que fundamentam a estrutura das Notas Semanais. Para ele, as Notas não foram a melhor série do cronista, mas certamente a mais relevante no processo criativo do autor.55 A recorrência desse registro ficcional se soma e
ganha destaque entre as ferramentas estilísticas utilizadas por Machado dali em diante, ao longo de sua carreira como cronista.
“O que essas crônicas permitem ver, [...] é que Machado de Assis estava consciente das muitas dimensões do dilema que enfrentou […] e que reagiu de forma criativa”56, resume,
apontando que o caminho encontrado para representar os acontecimentos da realidade brasileira, onde nenhuma doutrina parecia se ajustar ou ter credibilidade, seria a ficção uma melhor opção. Basicamente, tratando-se de referências objetivas, de meros comentários justapostos como fazia no início da carreira, o problema se daria em tom irônico ou não, mas sempre de forma truncada. De acordo com Gledson, uma vez trazido para o plano ficcional, o todo poderia se mover finalmente sem dificuldades.
52 GRANJA, Lúcia. Machado de Assis, escritor em formação: a roda dos jornais. São Paulo; Campinas, SP:
FAPESP: Mercado de Letras, 2000, p. 95.
53 Ibid., p. 76-77.
54GLEDSON, John. Intr. In: Notas Semanais. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2008. 55 Ibid., p. 80.
Por fim, em relação à penúltima série, Bons Dias! (1888-1889), o estudo de Gledson57
se pauta mais sistematicamente pelo esclarecimento dos fatos contemporâneos à publicação das crônicas, no sentido de iluminar o modo como Machado se utiliza de uma forma literária capaz de representar relações históricas maiores por meio de referências factuais a acontecimentos pontuais, banais ou não. Ou seja, pode ser que Machado não desse um salto tão significativo de capacidade artística quanto na série Notas Semanais em relação às crônicas anteriores, porém, certamente, ele estava aprofundando o uso da estrutura ficcional em seus comentários cômicos e políticos sobre o cotidiano fluminense.
Em seu comentário sobre Bons Dias!, Gledson enfatiza um aspecto dessas série: a ficcionalização programática, evidenciada no primeiro conjunto de crônicas, acerca do pseudônimo que as assina. Apesar de discordarmos das justificativas extratextuais sobre as razões que teriam levado Machado a querer camuflar a autoria real das crônicas (não acreditamos que há dados que sustentem essa interpretação), cremos que o achado principal do comentário de Gledson recai no reconhecimento do sentido programático que o cronista deu à composição de sua série, o que demonstra maior grau de elaboração formal dos textos e aprofundamento das mudanças na composição do gênero. Sobre este aspecto específico da série Bons Dias!, voltaremos a tratar mais adiante.
Para concluir essas considerações iniciais sobre a crônica, e para não parecer superestimarmos o protagonismo de Machado no desenvolvimento do gênero, vale ressaltar que: no início de sua carreira, grande parte de seu estilo estava diretamente influenciado por Francisco Otaviano e José de Alencar; assim como, no final dela, outros cronistas, como Bilac, Lima Barreto e, sobretudo, João do Rio, “ensaiavam” também, em suas respectivas seções, soluções formais talvez tão relevantes quanto as trabalhadas pelo velho cronista.
57 GLEDSON, John. Intr. In: ASSIS, Machado. Bons Dias! São Paulo: Hucitec, 1990; e Idem. “Bons Dias!”.
2 Sugestão de um movimento