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4.4 Object Composition

5.0.2 Specification and Verification

A questão de que o violão por si só impõe dificuldades à leitura foi também discutida pelos violonistas. A tomada de decisões em tempo real é o que claramente dificulta a leitura, como comentam:

A leitura violonística depende de enorme quantidade de variações e permutações, possivelmente, maior do que qualquer outro instrumento [...]. Não é só a questão das mãos fazendo ações diferentes como o fato de que você tem que estar na leitura à primeira vista, às vezes, fazendo decisões quase que instantâneas sobre caminhos de ser percorrido por uma mão e outra mão fazendo coisas distintas, você tem que estar com outros elementos juntos também (Nicolas de Souza Barros).

Eu acho que as dificuldades da leitura à primeira vista do violão são dificuldades inerentes ao idiomatismo técnico-violonístico, não é [...]. A grande dificuldade do nosso instrumento está nas características dele mesmo, ou seja, a mesma nota, você acha em vários locais. Então você bate a vista, tem que estar muito atento, porque se você for para o lado errado [do braço do instrumento], você acaba por não construir aquele acorde [...]. E [quando] você está lendo a primeira vista, não tem tempo de ir lá, ‘ah não, não é aqui não, é aqui’. Aí já foi embora [...]. Se de um lado facilita, porque você tende a procurar, ‘não preciso ir lá longe, já estou aqui perto’ [gesticula no violão]. Por outro lado, você tem que ir lá longe, porque ‘aqui’ não funciona [...]. Também [pelo fato] de nosso instrumento ser um instrumento harmônico, não é, que tem acordes, e a leitura vertical também é uma coisa que dificulta bastante. Se fosse melódico, aí ficaria tudo muito mais fácil, esse aspecto, [...] por que [no instrumento melódico] aquela escala, ela vai acontecer ‘nesse lugar e nesse lugar’. O violão pode acontecer ‘aqui’, ‘ali’, ‘lá’, ‘acolá’ (Eduardo Meirinhos).

Realmente a leitura à primeira vista no violão é bem complicada. Dado a quantidade de possibilidades [de localização] para cada nota (só o Mi4 tem oito possibilidades, no mínimo) fica muito difícil, a leitura à primeira vista, se não houver um estudo bem planejado nesse sentido (Paulo Porto Alegre).

Acreditamos, como dito no capítulo anterior essa multiplicidade de localização para uma mesma nota é decorrente da scordatura padrão, que, diferentemente de instrumentos de cordas tais como violino, viola, violoncelo, bandolim, cujas cordas são afinadas em intervalos de quintas, o violão é afinado predominantemente em quartas. Todavia Delume não acha que a scordatura é um fator que dificulta. Diz que, pelo menos no contexto do Conservatório de Paris, o problema dos alunos é não ter um ouvido interno desenvolvido, mas ela explica:

Há também dificuldades, quando o estudante não conhece tão bem o espaço do seu instrumento, por exemplo, conhecer bem os sons harmônicos naturais, conhecer bem as notas agudas em cada posição (em pestana) (Caroline Delume).

Não obstante o contexto de ensino vê-se que dificuldades comuns podem ser percebidas no processo de ensino e aprendizagem do violão.

Clave

Outro problema relatado por Meirinhos foi o fato se ter como padrão a escrita em uma única clave, com transposição de oitava (abaixo), ele contesta:

A leitura pra violão, a tendência [impressão] dela é que ela foi facilitada, porque o certo mesmo, seria se fosse [escrita] em duas claves, e que se lesse em altura real. Nós lemos tudo uma oitava abaixo do que seria [o som]. Em princípio não deveria ser assim, no meu entender, deveria ser uma leitura como um outro instrumento [...]. E a coisa de não ter duas claves também, parece que facilita em clave de Sol, mas dificulta que você tem muitas linhas suplementares. Essa tendência de facilitar a leitura (...) – não é nem facilitar a leitura, é facilitar a visualização – de um lado é bom, porque, realmente, a coisa sai mais rápido, e de outro lado é muito ruim, porque você se acostuma a ler e a ouvir algo que não é exatamente real, não é. Então, até hoje a gente se sente bem transportando, nem que seja de oitavas, a gente tá transportando. Se você não está avisado, você olha a partitura (...), [por exemplo,] eu ouço imediatamente a altura do violão, aí um pianista vai lá e toca uma oitava acima, não é, do que minha expectativa (Eduardo Meirinhos).

Essa questão foi colocada para Delume, visto que seu livro Méthodes et Traités:

France 1600-1800 – Guitare (2003)35, uma coletânea de publicações instrucionais com fac-

símiles reeditados, poderia trazer subsídios para tirar dúvidas sobre a origem da sistematização da escrita em partitura para o violão, ou seus antecessores diretos. Ela comenta:

35 DELUME, Caroline. Méthodes et traités: France 1600-180. Guitare. 2 Volumes. Paris: Editions J.M. Fuzeau,

Há tratados que falam da notação por ‘abc’ (quer dizer, a tablatura francesa) como um obstáculo para as competências musicais dos alaudistas (por exemplo, o tratado de baixo contínuo para teorba de François Campion, de, aproximadamente, 1730). Eu não sei se a notação oitavada para o violão foi inventada por alguém. Historicamente as músicas eram notadas em função das tessituras pelas claves de Fá, de Sol, ou de Dó. Desde quando a voz do

tenor foi notada em clave de Sol oitava abaixo? [...]. Para a notação

polifônica (em uma só pauta), o tratado de Molitor-Klinger de 1812 [...] precisa uma ‘antiga’ e ‘nova’ notação (com hastes e ritmos das vozes notados simultaneamente para cima e para baixo) (Caroline Delume).

A partir da ideia experimental de Ferdinando Sor em sua Fantasia pour la guitare

Op. 7, escrita em claves de Sol e Fá, foi perguntado a Delume se ela acreditava que a leitura

seria mais fácil para os violonistas que se iniciassem nesse padrão de escrita. Disse ela: - “não, pois quando estão em duo, os violonistas não leem facilmente a parte do outro, tudo seria uma questão de aprendizagem”. Acreditamos que Delume quis dizer que a visão periférica (parafóvea) do violonista é deficiente mesmo para ler no âmbito de uma pauta, mais ainda seria se a escrita fosse em duas pautas.

Prática deliberada no ensino da leitura

Com o intuito de desenvolver conscientemente a habilidade da leitura, os violonistas cogitam a necessidade de se criar uma Disciplina nos cursos de música, como se percebe em:

Então, eu acho que a questão é que para treinar a leitura de violonistas, a primeira coisa que eu faria seria uma matéria especificamente voltada a isso (Nicolas de Souza Barros).

Bom, eu não estou ensinando ativamente há um tempo, mas se tivesse a oportunidade de, realmente, ensinar com currículo livre, como gostaria de fazer (...) (Eduardo Fernández).

Talvez se pudéssemos ter algum tipo de (...), não sei se seria curso, uma coisa mais sistemática para desenvolver essas capacidades (Mario Ulloa).

Delume, a única entre os entrevistados, que leciona uma disciplina exclusiva de leitura à primeira vista no violão, no curso de instrumento do Conservatório de Paris – o

Licence, curso esse que equivaleria ao bacharelado em instrumento das universidades

brasileiras – descreve resumidamente como acontece a disciplina no seu contexto:

[...] A disciplina de leitura à primeira vista no CNSMDP é, principalmente, uma disciplina prática onde os estudantes leem todo tipo de partitura em

solo, duo, trio, etc. As partituras são, unicamente, pedaços de música, e nada

adapto a escolha ao seu nível, gradativamente. Nós lemos peças muito difíceis e peças fáceis, para melhor avaliar, em cada um, o que é possível [fazer] [...]. A principal dificuldade dos violonistas é de não ‘ouvir’ a partitura antes de tocar (descobrir colocando os dedos). O objetivo é mudar isso. É possível avaliar essa dificuldade pedindo para que um aluno leia a partitura enquanto outro a toca: seu trabalho de escuta deve lhe permitir perceber os erros de notas unicamente na escuta (Caroline Delume)

Delume gentilmente forneceu o plano de ensino que ela utiliza nessa instituição, contendo, dentre outros, o repertório para se trabalhar a leitura à primeira vista progressivamente. Plano que ela mais considera um esquema de lembrança, etapas para experimentar com cada aluno. A depender do nível do aluno, uma etapa pode ser mais duradoura, bem como, passar a uma mais adiantada. A disciplina pode durar até três anos a depender da necessidade do aluno.