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Specific manifestation of public opposition (or support)

5. Assessing key CCS uncertainties in Norway:

5.1 Uncertainty 1: Variety of pathways

5.7.2 Specific manifestation of public opposition (or support)

A interpretação heideggeriana do homem-pastor já estava acenada em Ser e Tempo, no contexto em que Heidegger aponta o cuidado como “(...) a experiência da ec-sistência ec- statica” 165 do homem, dito de outro modo, quando o cuidado é apontado como a experiência essencial do homem na forma de lançamento e de antecipação. Para Andrea Cortes o homem- pastor em Heidegger é a tradução do Cuidado166 enquanto essência do homem e modo mais autêntico de se relacionar com o mundo. Como podemos ler nesta passagem:

La afirmación heideggeriana “El hombre es el pastor del ser” se presta para ser interpretada religiosamente, pues el autor está usando un lenguaje religioso, más exactamente, cristiano-católico en donde se caracteriza al hombre como la oveja del rebaño que sigue a Dios, el pastor es el que cuida al rebaño y por eso mismo es el que tiene la tarea de cuidar al ser. Hay que subrayar que en esta metáfora El cuidado

Sorge está en la Palabra, que cuida al ser-en-el-mundo. De nuevo volvemos a la

propiedad del hombre: el habla, con la que cuida, se preocupa y se ocupa del ser.167

A interpretação heideggeriana do homem-pastor 168 assinala para o fato de que o homem não é o senhor do mundo e nem mesmo de si. Porque segundo Heidegger, “Como o elemento, o Ser é ‘a força silenciosa’ do poder que quer, isto é, do possível. ’’169, segundo Heidegger. Este caráter do Ser enquanto fonte de possibilidade de tudo, isto é, de máximo doador abre margem para Resweber interpretar a figura do homem-pastor enquanto uma experiência privilegiada de gratuidade. “O homem é o Pastor do Ser, o que quer dizer, que ele é o único ser que tem a experiência da gratuidade dos seres e das coisas e projecta na arte e na cultura o

164

Ibid, p. 79. 165 Ibid, p. 51. 166

Para Leão “A Cura:die sorge. É um termo característico da Analítica Existencial desenvolvida em Sein und

Zeit. Exprime a estrutura ontológica que unifica todos os elementos constitutivos do ‘ser-no-mundo.” A fábula

de Higino sobre cura , encontrada em Ser e Tempo, tem por intuito acentuar que o cuidado não é apenas um modo essencial do homem, mas é a tradução da essência do homem. As passagens na Carta Sobre o

Humanismo em que é citado diretamente o cuidado são: p. 34, p. 46, p. 51, p. 79.

167CORTES, Andrea. Heidegger y el humanismo. Disponível

em:http://www.usergioarboleda.edu.co/civilizar/revista11/Heidegger%20y%20el%20humanismo.pdf 169

HEIDEGGER, Martin. Carta Sobre o Humanismo. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão. 2ª ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967, p. 30.

fruto desta meditação” 170 Pastorear o Ser é cuidar de seu lugar de aparecimento pela linguagem. É nessa direção que pensar enquanto pastorear é agradecer.

Desse modo, o pensamento na Carta Sobre o Humanismo é uma ação de restituição pela doação do Ser, enquanto manifestação na linguagem. É esta manifestação da linguagem que possibilita e sustenta a existência do homem enquanto habitante poético. E assim como “(...) a linguagem é a linguagem do Ser” 171, ‘o pensamento também é pensamento do Ser’, segundo Heidegger (1967, p.28). Enquanto restituição, o pensar, nessa carta é também uma escuta ao Ser, a qual indica um mútuo pertencimento. Leão (1967) indica que isto pode ser verificado no fato das palavras ouvir (hoeren) e pertencer (gehoeren) terem um mesmo radical etimológico.

Heidegger também estabelece outra relação com o escutar no texto A essência

da linguagem, ao esclarecer que a sua frase ‘questionar é a piedade do pensamento’,

encontrada na conferência A questão da técnica, indica que o gesto próprio do pensar não é o questionar, mas é “escutar o consentimento daquilo que todo questionar questiona ao interrogar sobre a essência.” 172 Além do escutar, a gratidão aparece nesse carta como o outro âmbito do pensar.

Mais um acontecimento que nos auxilia nessa compreensão do pensar é o fato de essas duas palavras, pensar (denken) e agradecer (danken), no alemão, compartilharem uma mesma raiz etimológica. Esta concepção do pensar de Heidegger pode ser encontrada especialmente no texto O caminho para a linguagem. “Ambos (pensar e a poesia) se pertencem mutuamente, a partir da saga do dizer que já consente o não dito quando pensar é agradecer”.173 E nos Seminários de Zollinkon: “No entanto, há ainda alguns que conseguem experienciar que o pensar (denken) não é um calcular, mas um agradecer (danken), visto que o pensar é devedor (verdankt) a isso.” 174

160

RESWEBER, Jean-Paul. O pensamento de Heidegger. Tradução de João Agostinho A. Santos.

Coimbra: Livraria Almedina, 1979, p. 149.

161

HEIDEGGER, Martin. Carta Sobre o Humanismo. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão. 2ª ed. Rio de

Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967, p.100.

172 HEIDEGGER, Martin. O caminho para a linguagem in A caminho da linguagem, 2003, p. 135. 173 Ibid, p.216..

164

HEIDEGER, Martin. Seminários de Zollikon. (Editado por Medard Boss). Trad. Gabriela Arnhold,

Assim, a interpretação do pensamento em Heidegger não é concebida como um modo distinto e superior de se relacionar com o mundo, no sentido de o pensar ser um lidar calculista com os entes, como concebe a lógica e a metafísica e, sobretudo, a modernidade, ao inaugurar o pensamento enquanto uma representação, isto, é uma objetivação irrestrita do mundo. Relembremos que foi em Platão que o pensamento se separou do Ser, quando interpretado como techne.

Na técnica moderna, portanto, o pensamento175 se consumou metafisicamente em dualidade, evidente no aparecimento do pensamento meditativo e do pensamento calculador176. E ainda mais, no reinado deste primeiro sobre o segundo, gerando uma falta e uma fuga essencial do pensamento. E assim, já não pensamos fato que Heidegger indica como ofício urgente do pensar em nossos dias.

Assim sendo, o pensamento desde então se encontra no seco. A afirmação que o pensar se encontra no seco é uma metáfora heideggeriana para indicar a situação atual do pensar, pois do mesmo modo que o peixe está fora de seu habitat natural, a água, e é partir dessa situação que ele tem as suas capacidades medidas, o pensar, de igual modo, tem o seu lugar originário, o Ser, distante de si. E é fora do Ser do pensar que a metafísica, na forma de ciência, interpreta o pensar limitadamente e assim instala-se a era da ingratidão.

Nesse sentido, o pensar como agradecer, ou existir como agradecer, é reconhecer que tudo é gesto de doação gratuita do ser. “O dar-se a si mesmo com a abertura à abertura é o próprio Ser”.177 Nessa concepção, o homem é privilegiado por ter nascido ontologicamente através dessa concessão do Ser. Assim, ser homem é ser doação gratuita de Ser enquanto poder- ser. Como ente que pode agradecer, o homem é o único ente que está no caminho do duplo agradecer. “Desse agradecimento que não apenas agradece por algo, mas que apenas agradece pela possibilidade de poder agradecer”.178 Isto significa para Olasagasti “Si pensar es esperar (warten), es porque es esperar esa ‘nobleza’, es porque es agradecer esa

165

O aparecimento do pensamento meditativo e calculador aparecem sobretudo no texto Serenidade, onde

Heidegger tenta mostrar que ambos os tipos de pensar são modos “legítimos e necessários” do homem. Porém, Heidegger alerta-nos que o pensamento calculador é o pensamento da não-reflexão sobre o sentido das coisas e , ao mesmo tempo, um projeto de domínio antecipativo da totalidade do mundo. Ao contrário do pensamento meditativo que é a ação de reflexão sobre o “sentido que reina em tudo o que existe.”

177 Ibdi, p. 56. 168

Martin. Serenidade. Trad. Maria Madalena Andrade, Olga Santos, Lisboa: Instituto Piaget, D.L. 2000,

‘nobreza”.179 Frisemos que nobreza neste contexto é a estadia do homem no âmbito do ‘originário’: a verdade.

Pensar como agradecer é a compreensão de que somente o fato de nós existirmos, de tudo existir, ou seja, fato de as coisas serem, já é ‘máxima completude’. Por isso, nossos olhos devem estar no horizonte do espanto para poderem relacionar-se com o mundo com os olhos de gratidão, como se fosse sempre pela primeira vez. “Precisamos apenas do olhar súbito, simples, inesquecível do olhar que olha como uma primeira vez (...)”. 180

Para Olasagasti (1967) Heidegger joga etimologicamente com as palavras denken e an-denken para sublinhar que o pensar é também uma memória do destino histórico do Ser, ou seja, “A grande memória.” 181. Memória não é faculdade, mas antes o recolhimento dos acontecimento epocais do Ser. Este recordar tem dois lados: 1. Recolhimento do que precisa ser pensado. 2. Um amparar e guardar o que esta oculto. Este guardar é um preservar do esquecimento, conforme Olasagasti (1960)

O pensamento restituído mediante a investigação do humanismo nessa carta, não pode ser nomeado de filosofia, ontologia e nem servir de base para uma ética no sentido tradicional, segundo Heidegger (1967). Isto porque o pensamento reside em um regresso ao lado originário do mundo, a partir da ação da simplicidade182 em forma de liberdade, nome para a ação serena do pensar de deixar-ser as coisas serem. É nesta direção que o pensar não pode ser vislumbrado pela distinção teoria e prática, mas tem que ser pensado antes dessa distinção, nos indica Heidegger (1967).

Pastorear como agradecer é proporcionado pela descida do homem das ‘alturas da subjetividade’, onde ele era o amo do ente e de si, como aqui já foi exposto. Essa descida subjetividade é o acontecimento da perda da riqueza que a metafísica proporcionava. Com isso instala uma completa pobreza, porém essa pobreza é a verdadeira riqueza (Heidegger). Porque ser doação e vizinho do Ser, já é um ter, ou seja, ser já é ter, e “ter sempre por antecedência”, como nos diz Heidegger no texto A pobreza (1946).

169

OLASAGASTI, Manuel. Introducción a Heidegger. Madrid: Revista de Occidente, 1967, p. 262. 180

HEIDEGGER, Martin. O caminho para a linguagem in A caminho da linguagem, 2003, p.206.

181

FOGEL, Gilvan. Que é filosofia?-Filosofia como exercício de finitude. Aparecida, SP: Idéias e Letras, 2009, p.96.

182

Na Carta Sobre o Humanismo, p. 25, p.27, p. 96, a simplicidade é apontada diretamente como característica essencial do pensar ao lado da nobreza, enquanto ação elevada do homem.

Essa descentralização e saída da subjetividade instalam ainda um completo desprendimento e renúncia, no sentido que estamos diante de uma possível experiência de um relacionamento livre e autêntico com as coisas. Assim, o homem-pastor deixa as coisas serem em sua propriedade. Assim, ele não é contra as coisas, isso porque ele não está nas coisas, mas junto das coisas, acompanhando-as e preservando o seu lugar de, enquanto reunião da quadratura, ser a doadora de mundo (Heidegger, 2003). Assim, somente nesse modo de ser do homem como pastor do Ser, onde a ação é essencializada, é que o sentido ontológico da linguagem e do pensamento pode ganhar o seu verdadeiro lugar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho consistiu na análise do tema da linguagem e do pensamento a partir da

Carta Sobre o Humanismo, em diálogo com Ser e Tempo e com outras obras de Heidegger

pertencentes ao seu segundo momento filosófico. Mostramos nessa análise que em Heidegger existe uma crítica restitutiva dessas questões, ou seja, existe nessa obra um apontamento à visão ôntica da linguagem e do pensamento, mas também uma recuperação ontológica dessas questões.

Carta Sobre o Humanismo nos serviu de obra orientadora porque nela nossa temática

encontra-se interpretada de modo inaugural, seu contexto é a meditação sobre o humanismo, enquanto moderna metafísica da subjetividade. Bem como também pelo fato de nessa obra irradiar a possibilidade de um diálogo com outros textos de Heidegger, sobretudo pela sua peculiaridade em reunir conceitos nodais da filosofia heideggeriana, ainda que alguns sejam pouco explicitados. Observamos ainda que a questão da linguagem e do pensamento são questões essenciais da filosofia de Heidegger e estão assemelhadas, em nível de importância, a Verdade e a sua questão matriz, o Ser, já que foi observado que a existência do homem é acontecimento da doação do Ser, em que essas questões são gestos de acompanhamento desse doar.

No capítulo 1 contextualizamos o humanismo de Heidegger. Vimos que esse pensador não almeja a formação de um novo humanismo e nem de uma nova antropologia, porém antes realizar uma restituição do humanismo tradicional, através de uma crítica a sua fonte, a metafísica, cuja ação o leva a menção de Platão, pelo fato deste pensador ser considerado o inaugurador da metafísica, devido a sua mudança na concepção da verdade e também por ele ser o responsável pelo nascimento do humanismo, da metafísica e da filosofia. Pois foi mostrado nesse trabalho que metafísica, humanismo e filosofia tiveram um nascimento conjunto na filosofia platônica. Duas menções também relevantes são ao desenvolvimento e a consumação da metafísica, tomando como marcos o pensamento de Descartes e de Nietzsche. Nessa conjuntura, apontamos ainda que a concepção crítica e instrumental da linguagem teve sua gênese nesse humanismo.

No capítulo 2, tratamos do tema da linguagem a partir do contexto da discussão do humanismo. Vimos que a linguagem em Heidegger foi um tema sempre presente em sua filosofia e que ainda esse tema possui uma grande relevância ontológica por está intimamente relacionado ao acontecimento do Ser. Isso fica evidente quando analisamos a linguagem

enquanto morada dupla do homem e do Ser, instante em que damos enfoque ao Ereignis. Em seguida, abordamos a essência da linguagem como Saga, com o intuito de resgatar o seu sentido perdido pela visão ôntica da linguagem. No quadro dessa análise tratamos ainda a poesia, não somente como modo fundador e histórico da linguagem, mas enquanto nome para a essência do homem na forma de habitação poética, no resguardar da quadratura (mundo). No capitulo três, enfocamos o caráter instrumental e ontológico do pensar. O caráter ontológico do pensar foi apresentado como memória e agradecimento, base da compreensão da consumação do resgate da essência do homem na forma de homem- pastor.

Assim, a interpretação da linguagem e do pensar como acontecimento do Ser revelam que essas questões recebem uma descentralização da subjetividade, e por outro lado, recebem uma centralidade de importância ontológica. A questão do Ser também tem o seu sentido ontológico recuperado. Ser é sinônimo de nada, enquanto “Pura emergência, pura eclosão, de nada para nada, desde nenhum lugar, para nenhum lugar.” 183 Isto quer dizer que o Ser, portanto é máxima doação sem finalidade e é, ao mesmo tempo, histórico. O homem é, nesse sentido, grande gratidão ao Ser. Esse caráter da gratidão repercutiu conseqüentemente na essência da linguagem e do pensamento. Frisemos que os conceitos de cuidado, serenidade pobreza e desprendimento apareceram relacionados à gratidão.

A nossa era contemporânea, que para Heidegger é denominada de época da técnica moderno-informacional, ou era atômica, tem como linha relevante a carência do sentido dos entes, em que a abjura ao pensamento transparece evidenciada, transformando o nosso tempo na era da ingratidão, pois “Não pensar seria igualmente ingratidão.184” Portanto, vivemos o tempo da ingratidão em forma de violência, na redução da linguagem e do pensamento a meios de informação e controle sobre o mundo. Contudo, Heidegger também nos leva a depreender que a compreensão metafísica, sobretudo da questão linguagem e do pensamento, não é resultante de uma negligência histórica, mas é um acontecimento fundado na própria dinâmica do Ser, que a cada período epocal se mostra e se oculta.

A importância de revisitar a filosofia de Heidegger em nossos dias é devido a sua atualidade e rigor na compreensão das questões filosóficas e da contribuição na dignificação

183

FOGEL, Gilvan. Que é filosofia?-Filosofia como exercício de finitude. Aparecida, SP: Idéias e Letras, 2009, p.45.

184

da essência do homem e do mundo, bem como do apreço pelo sentido do cotidiano. Nessa direção, Heidegger se afasta da tradição metafísica, especialmente porque propõe uma radicalização nos temas já dados, permitindo que as palavras possam novamente mostrar o seu sentido originário. Essa volta ao sentido das palavras é um cuidado constante na filosofia desse pensador, isso desde Ser e Tempo, em que ele anuncia que a tarefa da filosofia é a ação de rememorização do sentido geunuíno das palavras. Esse afastar-se filosófico de Heidegger da metafísica nos alerta para a necessidade urgente do homem regressar para o lugar que nós sempre estamos, o espaço mais evidente e espantoso, o horizonte do simples, do presente, evidenciado no acontecimento de ‘essencialização temporalizante’ de cada coisa, em que a linguagem e o pensar são acontecimentos integradores do homem e do Ser.

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