• No results found

Specific issues in light of the case law

Flora Gomes nasceu no dia 31 de dezembro de 1949, em Cadique, na antiga Guiné Portuguesa, sob o jugo colonial português, e estudou cinema em Cuba, no Instituto Cubano de Artes e Indústria Cinematográfica – ICAIC46 (1967-1972), sob os ensinamentos de Santiago Álvarez Román; e em Dakar, na Televisão Senegalesa (1972-1974), sob orientação de um dos mestres dos cinemas africanos, Paulin Soumanou Vieyra. Em 1973, Flora Gomes, juntamente com vários diretores africanos (Ousmane Sembène e Med Hondo) e da América Latina (Fernando Birri e Santiago Álvarez), participa da reunião

46 “O ICAIC foi criado apenas 83 dias após a Revolução, pela Lei 169, de 24 de março de 1959. Alfredo Guevara dirigiu o Instituto até 1982 e depois de um mandado exercido pelo cineasta Julio García Espinosa, desse ano até 1991, voltou a dirigi-lo entre 1992 e 2000. A prioridade que o novo governo deu à criação de um instituto de cinema, era explicada com o argumento de que a sétima arte era um veículo ímpar de propaganda ideológica “da Revolução” porque divulgava didaticamente, para as massas, as novas ideias e tinha um eficaz – e universal – poder transformador” (VILLAÇA, 2010: 44).

146

Third World filmmakers in Algiers, que foi um dos mais célebres encontros do Comitê de

Cinema Popular, que se preocupava com as discussões sobre cinemas do “Terceiro Mundo”, notadamente contra o imperialismo e o neocolonialismo (MURPHY; WILLIAMS, 2007).

Gomes trabalhou como repórter para o Ministério da Informação da Guiné-Bissau por três anos (1975-1977). Essa experiência deve tê-lo influenciado em sua produção cinematográfica, principalmente a que esta relacionada com o fator histórico e a luta de independência da Guiné-Bissau, conforme observa-se em títulos como Mortu Nega e no documentário As duas faces da guerra (2007) – o qual assina em coautoria com a realizadora portuguesa Diana Andringa. Este documentário narra histórias da luta de independência da Guiné contra o colonialismo português (1963-1974) e o confronto dos portugueses contra o regime ditatorial (1926-1974) vivido em Portugal. Em Bissau, em 1979, Flora Gomes participou de cursos com o cineasta francês Chris Marker e com a montadora Anita Fernandez, com a qual trabalhou posteriormente na montagem de som do filme Udju azul di Yonta e no cenário de Po di sangui.

Ao contextualizar o ano do nascimento de Gomes, Peter Mendy destaca, como marcos do ano de 1949, a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN, a proclamação da República Popular da China e a institucionalização do sistema racista do

Apartheid, na África do Sul. Mendy ressalta também que foi a década do início do conflito

entre os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS); naquele ano também começou o processo de descolonização na Ásia. Demonstrando-se assim como o menino “Flora encontrou um mundo dicotomizado entre colonizador e colonizado; civilizado e gentio, definido pela dinâmica da dominação e da resistência” (MENDY, 2015: 111).

Por outro lado, Mendy salienta que é em 1949 que Kwame Nkrumah funda a Convenção do Partido Popular (CPP), por meio da qual, em 6 de março de 1957, Gana conseguirá sua independência. É o ano também da consciência de Fidel Castro sobre a situação política e econômica de seu país, Cuba. A Cuba revolucionária que teve um papel de destaque na libertação da Guiné Portuguesa, com entrega de “equipamentos militar e apoio às iniciativas político-diplomáticas, mas também a oferta de oportunidades de educação e

147 formação aos bissau-guineenses” (MENDY, 2015: 113). Um desses beneficiados foi Florentino Gomes, que em 1967, com 17 anos de idade, partiu para o Instituto Cubano de Arte e Industria Cinematográfico (ICAIC) para ser orientado pelo documentarista cubano Santiago Álvarez Román, que graças particularmente à sua forte personalidade, na concepção do documentário, “o cinema cubano alcançou maior originalidade”, que acrescentou a este cinema “seu gosto pela análise ao propósito de registrar, refletir, visualizar uma notícia de que todo mundo fala” (HENNEBELLE, 1978: 128-129).

Enfatiza-se ainda que, em 1949, Amílcar Cabral encontrava-se em Lisboa, preparando-se acadêmica e politicamente por meio do curso de engenharia agronômica e por meio das conversas na Casa dos Estudantes do Império47, na qual se reuniam estudantes africanos, para futuramente colaborar com a libertação do povo guineense e cabo-verdiano do colonialismo português. Fora também, através do projeto educacional “Escola Piloto”, em Conacri (já independente), idealizado por Cabral, que Florentino Gomes concluíra o ensino secundário (1965-1967). Assim, a questão educacional e de letramento estará sempre nos filmes de Gomes, como uma possiblidade de mudança, o que, segundo o cineasta, foi inspirado por Amílcar Cabral e na ideia da “Educação de libertação” do brasileiro Paulo Freire (o qual foi homenageado no filme Mortu nega por meio da personagem do professor que fala do significado da palavra “luta”), sempre em busca de uma educação com consciência crítica, que liberte o sujeito, e, parafraseando Cabral, para que se possa pensar autonomamente e andar com os próprios pés. Seguindo os preceitos do seu mestre, “O povo da Guiné Portuguesa liderado pelo PAIGC tornar-se-ia o primeiro durante a descolonização da África a derrotar militarmente um poder colonial determinado e bem armado. Flora Gomes é filho da luta armada de libertação na Guiné Portuguesa” (MENDY, 2015: 112).

47 A Casa dos Estudantes do Império (CEI) criada em 1944, em Lisboa/PT e fechada em 1965, por intervenção da PIDE. Possuia como função abrigar e monitorar os estudantes universitários das colônias portuguesas, que conseguiam bolsas para estudar na metrópole. Residiram na Casa dos Estudantes do Império, ou tiveram participação de reuniões e discussões políticas realizadas nela, personalidades políticas e culturais, como: Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Lúcio Lara, Fernando França Van Dúnem, Joaquim Chissano, Pascoal Mocumbi, Pedro Pires, Onésimo Silveira, Francisco José Tenreiro, Alda do Espírito Santo, Vasco Cabral, Artur Pestana dos Santos - Pepetela, entre outros.

148 Com o ideal da luta de libertação latente, em 1972, Gomes retorna de Cuba e segue para o Senegal, onde permanece até 197448. Mesmo sem ter segurado em armas em Bissau, Flora Gomes é reconhecido social e culturalmente como antigo combatente, já que usou outras formas de armas e de luta. Ele transformou em material fílmico a história e a cultura de seu país de nascimento, do seu continente e de todos que passaram e continuam passando pela sua vida, uma vez que “a sua filmografia constitui um arquivo de imagens do povo guineense enquanto ator da sua própria história” (ARENAS; EKOTTO, 2015: 16). O próprio Gomes assume o papel de narrar a sua versão da história, apresentando a versão relatada pelos bissau-guineenses e africanos. De fato, um dos pontos fortes dos filmes de Flora Gomes é a habilidade de apropriar-se e (re)modelar-se à realidade bissau-guineense, africana e mundial, aos diversos paradigmas estéticos, dispositivos e gêneros do cinema, por vezes, adaptando-se à falta de recursos financeiros e técnicos para conseguir exercer o seu ofício de cineasta, como acontece na produção recente de um curta-metragem sobre os direitos humanos, Bindidur di passada (O vendedor de histórias, 2017), realizada com apoio do Instituto Camões, em Bissau.

Flora Gomes iniciou a sua carreira cinematográfica ao lado de Sana Na N’Hada co- realizando com este dois curtas-metragens: O regresso de Cabral (1976) e Anos no oça

luta (1976); dirigiu ainda o média-metragem A reconstrução (1977), ao lado do italiano

Sérgio Pina; em 1994, realizou o curta-metragem A máscara. Seus longas-metragens de ficção são: Mortu nega (Morte negada, 1988), Udju azul di Yonta (Olhos azuis de Yonta, 1992), Po di sangui (Pau/Árvore de sangue, 1996), Nha fala (Minha fala, 2002) e

Republica di mininus (República de meninos, 2012). Em 2009, participou de uma

construção coletiva, Afrique vue par... (África vista por...), realizada por dez cineastas africanos49, produzida e apresentada no Festival Pan-Africano de Argel, na Argélia. Nessa obra coletiva, cada cineasta apresentou um filme de curta-metragem de ficção com 10 minutos de duração. Flora Gomes apresentou o curta-metragem intitulado A pegada de

todos os tempos, uma metáfora poética na qual se refere à inocência infantil, à alegria de

viver, que representa as cores brilhantes da África para fazer chover escassamente no continente.

48 Em 1973, Flora Gomes interrompe o estágio para produzir imagens sobre o final da luta de libertação. 49 Balufu Bakupa-Kanyinda (Congo RDC), Rachid Bouchareb (Argélia), Nouri Bouzid (Tunísia), Sol de Carvalho (Moçambique), Zézé Gamboa (Angola), Flora Gomes (Guiné-Bissau), Gaston Kaboré (Burkina Faso), Mama Keïta (Guiné), Teddy Mattera (África do Sul) e Abderrahmane Sissako (Mauritânia-Mali).

149 Com a sua obra, Flora Gomes se tornou o realizador de referência da cinematografia bissau-guineense, conquistando a estima e o reconhecimento internacionais. Por isso, em 1994, o realizador foi engrandecido com a Medalha de Mérito da Cultura da Tunísia e, em 1996, ele foi condecorado com o grau de Chevalier des Arts et des Lettres da França. Em 1994, Gomes também foi Membro do Júri do Festival de Cartago; em 2000, integrou a manifestação “6 Cineastas africanos”, organizada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, no quadro do Festival de Cannes. Nesse mesmo ano, participou da Conferência sobre a Globalização, Regionalização, Cultura e Identidade nos Pequenos Países, organizada pela Universidade de Tufts (EUA). Em 2006, por seis meses, foi professor não residente na Universidade de Brown, nos Estados Unidos da América. Gomes profere palestras e comentários sobre seus filmes todos os anos nesta conceituada instituição de ensino. Nos últimos anos, proferiu palestras e comentou seus filmes em universidades e espaços ilustres em diversas partes do mundo, como Guiné-Bissau, Portugal, Brasil, Áustria, França, Estados Unidos, entre outros.

Mesmo com o prestígio nacional e internacional, artístico e acadêmico dos filmes (DIAWARA, 1992; UKADIKE, 1994; BARLET 1997; 2012; MURPHY, WILLIAMS, 2007; ADESOKAN, 2011; ARENAS, 2011, 2018; OLIVEIRA, RIBEIRO, 2012; OLIVEIRA, 2013, 2016, 2017; FERREIRA, 2014, 2015; HARROW, 2016), o cineasta bissau-guineense está há seis anos sem realizar um longa-metragem de ficção, pois os financiamentos estão cada vez mais escassos. Infortúnio comum na jornada de um filme, devido à longa trajetória, altos custos e numerosos profissionais para concretização da película, que no seu tempo de materialização pode levar de 18 a 24 meses – sem o dinheiro em caixa, o tempo de execução de um filme pode durar três, cinco, dez ou até vinte anos (BAHIANA, 2012).

Diante deste panorama biográfico e de produção cinematográfica, percebe-se o trânsito desse cineasta no mundo atual, metaforicamente representado nos movimentos constantes da câmera ou de personagens nos seus filmes, que percorrem as várias cenas e levam seu espectador para onde o diretor deseja. Flora Gomes desloca-se de Bissau, local de residência, para diversos continentes e países, seja para participar de eventos ou para conseguir financiamentos ou ainda o deslocamento para gravar suas películas, como um

150

griot viajante contemporâneos, que leva a sabedoria e a cultura de seu país e continente de

nascimento pelo mundo.

Como mediadores, os cineastas africanos críticos soam também viajantes. [...] O alcance desses griots é global, pois eles moram muitas vezes fora da África, onde encontraram, além de financiamento para seus filmes, refúgio contra a repressão em seus países de origem. Como griots, representam e incubam a cultura cotidiana das sociedades africanas de onde provêm, recuperando a memória parcialmente destruída pelo colonialismo e pelo neocolonialismo (TOMASELLI; SHEPPERSON; EKE, 2014: 46-47).

Atualmente, Flora Gomes está à procura de parcerias, especialmente com Portugal e Estados Unidos, a fim de realizar um filme “focado na história da batalha sobre o corpo da mulher. Estou à procura de um roteirista. Porque o filme vai dar muito o que falar, já que falará de poder” (OLIVEIRA; ZENUN, 2016: 329) – uma metáfora para a corrida à África nos séculos XIX e XX. E continua sua saga pessoal com Amílcar Cabral, sobre o qual