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Algumas imagens do carnaval de rua de 2010 em Uberlândia, por mim registradas, constituem o ponto de partida para as discussões deste segundo capítulo. As fotografias mostram a passagem das escolas de samba pela avenida e o encontro delas com o prefeito Odelmo Leão Carneiro Sobrinho, que desce do camarote para cumprimentar os carnavalescos. As minhas impressões como observadora, somadas àquelas que desenvolvi no diálogo com os diferentes sujeitos da pesquisa e com as fontes escritas, levaram me a refletir acerca das noções de autoridade e deferência na relação ambivalente que historicamente se constituiu entre representantes dos poderes públicos instituídos e membros das escolas de samba, ternos de congado e movimentos negros organizados.

A Figura 6 corresponde ao registro do momento em que o prefeito cumprimenta o membro da escola Garotos do Samba conhecido como Brijela. Recepcionando a escola na avenida também está a secretária de Cultura, Mônica Debs (com blusa marrom, ao lado do segurança).

Figura 6: Uberlândia, fev. 2010. Foto: Fernanda Santos

Na Figura 7 se vê Odelmo arriscando passos de samba com a passista. À direita dele, o ex deputado estadual (1995/1999) e ex secretário municipal de Serviços Urbanos de

Uberlândia (2001/2002), Leonídio Bouças. Logo atrás do prefeito, vestindo camisa listrada em azul e branco, está o deputado estadual Luís Humberto Carneiro (PSDB).

Figura 7: A d Uberlândia, fev. 2010. Foto: Fernanda Santos

A Figura 8 mostra o abraço do prefeito e de Otávio Afonso Júnior, presidente da escola Garotos do Samba.

Figura 8: . Uberlândia, fev. 2010. Foto: Fernanda Santos

Pensar nessa relação ambivalente requer, sem dúvida, afastar se de uma concepção de dominação absoluta, do exercício do poder numa via única e de uma rigidez nas ações e posicionamentos dos diferentes grupos e classes sociais. Do contrário, a compreensão simplista de que o “povo” é dominado, explorado e enganado pelos governantes e ainda os reverencia, por conta de migalhas concedidas para os momentos de festa, seria aqui aplicada. Seguramente tal interpretação expressa vários problemas e equívocos, a começar pela maneira polarizadora pela qual se definem as forças sociais: povo e governantes, homogeneizando cada um deles e ignorando os desdobramentos das muitas interações possíveis. De modo distinto, apresento os conflitos entre diferentes grupos de negros e o poder instituído e as mudanças observadas nas administrações públicas, o que permite questionar determinadas ações para além do nível da aparência, investigando variadas práticas sociais.

O texto " ! , do historiador inglês E. P. Thompson200, tornou se referência metodológica para analisar os diversos elementos da relação estabelecida entre frações de negros e o poder público, permitindo distanciamento da versão que se restringe

200 THOMPSON, Edward Palmer. Patrícios e plebeus: . São Paulo: Companhia das

às noções de doação e subordinação. Examinando um conjunto de transformações sociais na Inglaterra do século XVIII, durante o processo de industrialização, o historiador reflete acerca do uso de determinados costumes, valores e comportamentos nos embates e negociações entre patrícios e plebeus. Ele percebe que as relações de paternalismo201 e deferência, longe de expressarem calmaria e harmonia entre a classe plebéia e setores da 4, apontam para as relações de poder e para o confronto de interesses entre os grupos.

Embora motivado por outras inquietações, por um lugar e um momento histórico distintos, aproprio me do procedimento de análise do historiador inglês, tendo em vista que ele trabalha com o processo de construção hegemônica no mundo capitalista, considerando também as representações culturais, ou seja, examinando como os símbolos, gestos e rituais evocavam a autoridade dos patrícios e a reverência dos plebeus, ainda que não houvesse uma correspondência fiel e automática entre os dois. Ao tratar das formas de controle social utilizadas pela alta 4 no contexto da sociedade inglesa setecentista, Thompson comenta que

suas aparições em público tinham muito da estudada representação teatral. A espada era posta de lado, exceto para fins de cerimonial. Mas a elaboração das perucas, as roupas ornamentadas e as bengalas, e até os gestos patrícios ensaiados e a arrogância da postura e da expressão, tudo se destinava a exibir a autoridade aos plebeus e a extrair deles a deferência.202

Assim, as imagens selecionadas do carnaval uberlandense de 2010, o aperto de mão amigável e despojado na primeira fotografia, o ensaio com a passista na segunda e o caloroso abraço na última sinalizam uma valorização dada pela autoridade política que pode significar, para esses homens e mulheres negros, uma oportunidade de reconhecimento singular, principalmente pelas “imagens de poder e autoridade presentes

201 O conceito de paternalismo, na análise de E. P. Thompson, é usado para problematizar as relações

historicamente constituídas entre os sujeitos sociais. Por isso, a importância do conceito para este trabalho está no movimento de análise feito pelo autor das interações entre a 4 e os plebeus, na Inglaterra setecentista, ao criticar uma visão tradicional das relações de poder entre esses grupos. Ao examinar os inúmeros conflitos e sua expressão simbólica, o historiador inglês mostra a reciprocidade existente entre a população e os governantes e salienta que “a deferência [dos populares] podia ser bastante frágil, composta de uma parcela de interesse próprio, uma de dissimulação e apenas uma de temor respeitoso pela autoridade” THOMPSON, 1998. p. 65.

202

nas mentalidades populares da subordinação.”203 Aproximar se de tais imagens, que são culturalmente construídas e socialmente partilhadas, é uma forma de esses sujeitos buscarem importância e distinção social a partir do valor simbólico existente em torno das figuras políticas, utilizando as taticamente em outros momentos para fazer solicitações diversas.

Nas entrevistas realizadas, chamou me a atenção, na especificidade de cada enredo narrado, a maneira como alguns depoentes conferem valor às autoridades públicas. Em conversa com Maria da Conceição Pereira Leal, uma das fundadoras do Monuva, ficou evidente a sua noção de mérito pessoal associada a personalidades reconhecidas no espaço público pela sua posição política. Ao falar do momento de criação da Seção de Cultura Afro Brasileira na Secretaria de Cultura, mais conhecida como Pasta Afro204, ela narra que fora “assessora direta de Cleusinha Resende”205 (secretária de Cultura na época) e complementa que “é minha amiga pessoal, como hoje é o Seu Paulo Ferolla” (ex prefeito). Além disso, é recorrente no discurso de Conceição a sua posição de centralidade e vanguarda em relação ao movimento negro local, notadamente quando enfatiza o seu envolvimento nas lutas nacionais da etnia negra:

A gente não era dez, eu não podia estar em Brasília, eu não podia estar no Conselho em Belo Horizonte, eu não podia estar com a Benedita, não podia estar com o Monuva. [...] E a essa altura do campeonato era todo mundo, a universidade me cedia porque o reitor não... o meu reitor não agüentava a pressão, tanto o professor Ataulfo, depois o professor [Gladistone]... eles não agüentavam, ligavam de Brasília, eles colocavam Leci Brandão pra ligar, não sei quem pra ligar, não sei quem pra ligar e o reitor ficava [...].206

203THOMPSON, 1998, p. 46.

204A Seção de Cultura Afro Brasileira (Pasta Afro), posteriormente Coordenadoria Afro Racial (Coafro) e

hoje Diretoria de Assuntos Afro Raciais (Diafro), foi instituída no poder público municipal em 1993 como seção da Secretaria de Cultura e é resultado de inúmeras reivindicações por parte dos movimentos negros da cidade e entidades afins.

205Vale registrar o lugar social da “amiga pessoal” de Conceição Leal: além de secretária de Cultura, Creusa

Resende é filha de um dos políticos mais influentes do período, Toninho Resende, professora da Universidade Federal de Uberlândia e ex esposa do professor Ataulfo Marques Martins da Costa, reitor da UFU na época mencionada pela depoente.

206

Considerando a maneira como a entrevistada se coloca no centro de importância e à frente do movimento negro uberlandense, destaco que, nessa construção de uma trajetória de atuação política, ela evidencia nomes de expressivo reconhecimento social, como o da ex deputada petista Benedita da Silva e da cantora e militante negra Leci Brandão. Já Antônia Aparecida Rosa, integrante do congado, do carnaval e do movimento negro local, no decorrer da nossa conversa me contou sobre o seu diálogo com uma amiga a respeito do velório do ex prefeito de Uberlândia, Virgílio Galassi, representante de um grupo político do qual ela afirma não ser partidária:

[...] minha amiga falou: “nossa! Cê foi no velório do Virgílio?”. Eu falei: “eu fui”, ela falou: “nossa! Eu fiquei tão triste!”, eu falei: “não, não é que eu não fiquei triste nem alegre”. Eu fui porque eu acho que é uma pessoa que teve um papel fundamental nessa cidade, mas assim, não é questão de tristeza nem alegria é uma questão de respeito. Então não quer dizer que não é porque você tem concepção diferenciada que você não vai respeitar o outro que teve um processo de construção dentro da história do lugar ou dentro da história da comunidade negra, né?207

Além da particularidade das diferentes narrativas entrelaçadas nesse texto, ganha relevo a forma como a personalidade pública é tida como referência e merecedora de reverência e respeito, mesmo com discordâncias político partidárias. Em outro momento, Antônia explica:

minha mãe era muito voltada, minha família toda voltada pra essa questão do pessoal Paulo Ferolla, Virgílio Galassi e tal. É, então eu acho que às vezes isso também ajuda a gente a ir pra outro lado, talvez a gente nem fosse e ajuda a gente a ir contra, acho que é coisa de filho também às vezes.208

A entrevistada demonstra que tais divergências não a impedem de considerar o ex prefeito “uma pessoa que teve um papel fundamental nessa cidade” e cuja participação foi importante no “processo de construção dentro da história do lugar”, tornando se, portanto, merecedora de “respeito”. Esse sentimento pode ser visto também como uma noção construída na historicidade das relações.

207Antônia Aparecida Rosa. Entrevista realizada em 19 de janeiro de 2008.

208Os políticos citados, Virgílio Galassi e Paulo Ferolla, foram representantes das elites rurais da região e se

Nas declarações do carnavalesco José Olímpio, mais conhecido como Pai Nêgo, também é possível identificar esse sentimento de deferência e importância em relação às figuras públicas, inclusive pela proximidade mencionada com o atual prefeito de Uberlândia pelo Partido Progressista, Odelmo Leão Carneiro Sobrinho. Pai Nêgo afirma:

[...] eu sou amigo dele, amigo! 0 : Dos assessores?

3 =)9 : Não! Do próprio Odelmo! Eu trabalhava com o tio dele, eu não tô falando pra você, quando a primeira vez que ele candidatou, desde quando ele candidatou eu sempre fui Odelmo, o tio dele me pediu ajuda. 0 : Quem era o tio dele?

3 =)9 : Era o Dr. Odelmo, o maior médico de criança aqui de Uberlândia, ele olhava meus filhos tudo não me cobrava nada, era uma gracinha o Dr. Odelmo, você precisa de ver, é tio dele.209

Uma maneira de compreender o que é partilhado nas narrativas orais é considerar que os vínculos de amizade ou contatos informais declarados pelos sujeitos entrevistados podem ensejar uma experiência de igualdade em relações notadamente desiguais, atestando, dessa forma, um lugar de mérito e destaque particular, como eles mesmo consideram. Essa é uma das dimensões perceptíveis nas imagens que mostram o encontro entre prefeito e sambistas. Mas essa interação comporta muitos outros sentidos; nela estão embutidos expectativas e projetos que ultrapassam a superfície da autoridade e da deferência, envolvendo também conflitos que podem ser mascarados e ficar invisíveis diante de quem apenas observa um momento de descontração na passarela do samba.

A consideração de Pai Nêgo em relação ao chefe do executivo municipal sinaliza uma possível relação de clientelismo210, já que o antigo patrão do entrevistado – o tio do

209Olímpio Silva. Entrevista realizada em 24 de julho de 2007.

210Norberto Bobbio historiciza o conceito de clientelismo, mostrando a sua aplicação em diferentes tempos e

lugares, desde o mundo romano até o que se define como sociedade tradicional (Europa feudal) e moderna, esta constituída por instituições políticas do mundo capitalista. Para o cientista político, o clientelismo é uma das marcas da relação política nas sociedades tradicionais, mas permanece sobre outras roupagens no moderno sistema político capitalista. “Se é verdade que o relacionamento destes partidos com a sociedade civil é, em princípio, claramente oposto ao do Clientelismo, baseando se em vínculos horizontais de classe ou de interesses [...] em lugar do Clientelismo tradicional, tende a afirmar se um outro estilo de Clientelismo que compromete, colocando os acima dos cidadãos, não já os notáveis de outros tempos, mas os políticos de profissão, os quais oferecem, em troca da legitimação e apoio (consenso eleitoral), toda a sorte de ajuda pública que têm ao seu alcance (cargos e empregos públicos, financiamentos, autorizações, etc). É importante observar como esta forma de Clientelismo, à semelhança do Clientelismo tradicional, tem, por resultado, não uma forma de consenso institucionalizado, mas uma rede de fidelidades pessoais que passa, quer pelo uso pessoal por parte da classe política, dos recursos estatais, quer, partindo destes, em termos mais mediatos, pela

atual prefeito – prestava, aos seus filhos, atendimento médico gratuito que se converteu em voto para Odelmo Sobrinho. Essa relação de troca de favores fica explícita quando o carnavalesco diz que “desde quando ele candidatou eu sempre fui Odelmo, o tio dele me pediu ajuda”.

O que quero mostrar é que a encenação de reverência à autoridade vista nas fotografias e nas narrativas orais, não de modo isolado, mas inserida num ambiente de práticas sociais desses sujeitos, pode expressar também um modo de as classes populares negociarem seus anseios, manejando com destreza os interesses das classes políticas. Dessa maneira, percebe se uma reciprocidade nessa relação, descortinada por acordos habilidosos e sutis, não pronunciados com palavras duras, mas sim teatralizados, conforme observou Thompson nas relações entre patrícios e plebeus na Inglaterra do século XVIII:

Num certo sentido, os governantes e a multidão precisavam um do outro, vigiavam se mutuamente, representavam o teatro e o contrateatro um no auditório do outro, moderavam o comportamento político mútuo. É uma relação mais ativa e recíproca do que a normalmente lembrada sob a fórmula “paternalismo e deferência”.211

As palavras de Thompson, embora alusivas a outro contexto, indicam significados presentes na dinâmica das relações sociais investigadas nesta dissertação, os quais emergem simbolicamente nas imagens selecionadas do carnaval 2010, nas quais se vê a encenação como uma das expressões das relações de poder. Na primeira fotografia (Figura 6), a reverência parece ser mútua: o prefeito desce do seu camarote oficial e o seu encontro com o carnavalesco altera a hierarquia simbólica dos lugares que coloca o prefeito no alto (no palanque) e o negro sambista no chão (na avenida dos desfiles).

Com os corpos situados em um mesmo plano (a passarela das escolas de samba), o cumprimento próximo e despojado ganha a atenção de outros personagens da cena política municipal que ali estão presentes. Vestindo camiseta amarela e com um sorriso que busca participar do encontro fraterno e festivo, entre o prefeito e o carnavalesco está o ex vereador e ex líder do prefeito Odelmo na Câmara Municipal de Uberlândia, Neivaldo

apropriação de recursos ‘civis’ autônomos” Cf. BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. + % , . Brasília: Universidade de Brasília, 1998, p. 178.

211

Honório da Silva (PSDB), conhecido como Magoo212, cuja projeção na política institucional se deu principalmente por ele apresentar um programa televisivo e outro de rádio, ambos de formato popularesco, que abordavam as dificuldades das classes populares no seu viver na cidade: (des)emprego, violência e falta de infra estrutura, como esgoto aberto e não acesso ao atendimento médico. Nessa imagem aparece também, entre as autoridades políticas, a atual secretária de Cultura, Mônica Debs, que recepciona, no chão da avenida, as escolas de samba que desfilam em frente ao camarote oficial.

Não é por acaso a presença de Magoo nos desfiles do carnaval de rua, como também não é a do deputado estadual pelo PSDB, Luiz Humberto Carneiro, e a do ex deputado e ex vereador de Uberlândia por diferentes partidos, Leonídio Bouças, ambos presentes na segunda fotografia (Figura 8): o primeiro de camiseta listrada em azul e branco e o segundo aplaudindo a dança encenada pelo prefeito Odelmo Leão e pela passista da escola de samba ― performance que sugere proximidade do representante do executivo local com as práticas culturais populares.

Como espectadora que assistiu às cenas do desfile e historiadora que vem investigando diversas outras ações correlatas, interpreto que também na segunda e na terceira imagens (Figuras 7 e 8) há uma reciprocidade de intenções e expectativas que se materializam na dança e no abraço registrados nas fotografias.. A (en)cena(ação) do “caloroso abraço” (Figura 8) entre o prefeito e o atual presidente da Garotos do Samba, Otávio Afonso Júnior, conota certa intimidade entre eles. Cabe lembrar que Otávio é filho do fundador dessa escola de samba, o popular Bolo, sujeito cujas artimanhas garantiram a ele notoriedade em diferentes grupos sociais, principalmente nas elites políticas. Talvez aí resida o motivo do entusiasmo do abraço que representa um tratamento diferenciado, supostamente concedido pelo prefeito àqueles que fazem a ponte entre ele e parte da comunidade negra, com a qual negocia, implícita ou explicitamente, apoio eleitoral e político.

212 Após o seu mandato de vereador e derrotado na reeleição ao cargo, Magoo assumiu como secretário

municipal de Comunicações, na segunda gestão do prefeito Odelmo Leão (2009/2012), permanecendo 18 meses no cargo, que em seguida foi assumido provisoriamente pela primeira dama e secretária de Governo, Ana Paula Procópio Junqueira. Segundo o jornal Correio, “entre os planos [de Maggo] a médio prazo está o retorno à Câmara Municipal, o que deverá tentar na próxima eleição municipal, em 2012. Enquanto isso, ele retornará à mídia televisiva”. Retirado de: <http://www.correiodeuberlandia.com.br/coluna/2010/07/WALACE/39/>. Acesso em: 01 dez. 2010.

A reação do político Leonídio Bouças parece chamar para si aquela relação de deferência, em algum sentido recíproca, já que o modo como se posiciona naquele momento sugere ser ele o próximo a abraçar o presidente da escola de samba. Nessa imagem se observa um fotógrafo da assessoria de comunicação da prefeitura que também registra a ação, conferindo um sentido de importância aos gestos flagrados naquele momento.

Se o prefeito “desce do seu lugar” para saudar homens e mulheres negros que fazem o carnaval popular da cidade, seria essa festa desprezível ao se analisar a atuação histórica dos negros em Uberlândia? O carnaval se reduziria a “uma dança popular pra levar alegria [e] cervejinha gelada”213para a avenida? Ou revelaria um espaço profícuo para os acordos, negociações e embates entre parcelas de negros e políticos locais? Em caso de resposta afirmativa, não seria também o lócus da ação política de homens e mulheres negras, demonstrando a sua potencialidade de ação e intervenção social?

Vivemos um momento em que os diferentes olhares e atenções – de pesquisadores, políticos, imprensa, produtores culturais, professores e comunidade – têm sido mais voltados à festa da congada do que aos festejos do carnaval. Conforme citei na parte introdutória da dissertação, há uma variedade de trabalhos produzidos no espaço da universidade e fora dela que versam sobre o congado de Uberlândia.214De fato, o carnaval local tem sido um tema pouco cotado. Especificamente na produção acadêmica, identifiquei apenas uma monografia215na área de História. Além dela, vale citar o livro do memorialista Antônio Pereira.216

No entanto, ao se considerar os anos de 1970, principalmente a partir da pesquisa feita no jornal Correio de Uberlândia, verifica se maior visibilidade do carnaval em relação às reportagens sobre os festejos da congada nesse mesmo período ― estes são silenciados, sendo noticiadas apenas pequenas matérias. Para além da quantidade, o tipo de abordagem, o tamanho dos artigos publicados e os significados conferidos a cada uma dessas práticas populares também garantem o contraste entre elas nesse tempo histórico. Na década de

213Maria da Conceição Pereira Leal. Entrevista realizada em 14 de agosto de 2007.

214MEYER (1993); BENFICA (2003); BRASILEIRO (2001; 2006); GABARRA (2003); CARMO (2005);

CARMO; MENDONÇA (2008); ALCÂNTARA (2008), ARROYO (1999).

215OLIVEIRA, 1999. 216

1980, em especial a partir de 1984, é possível constatar um movimento de mudança na imprensa local. Aos poucos, a abordagem da congada nas páginas do Correio de Uberlândia se tornou mais freqüente e mais ampla, extrapolando uma narrativa meramente informativa do local e dos horários dos leilões, desfiles, missas e coroação da santa.