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5 SPECIAL CEMENTITIOUS SYSTEMS

Como no segundo “encontro”, neste, é também o protagonista do plano temporal quem inicia o ato dialógico:

(4) Vossemecê que me quer?

Por conseguinte, é ele o locutor e o actante celeste, o “tu”, o alocutário. Neste discurso, o emissor repete a postura do sujeito que reconhece seu lugar do qual só pode ecoar uma única voz – a da obediência, conforme Orlandi (1996, p. 243), já referido.

A resposta do ouvinte que o translada da recepção para a emissão, ou seja, converte-o de alocutário em locutor, exprime as mesmas ordens da visita anterior (com exceção da referente à busca da habilidade da leitura): voltarem à Cova da Iria no dia 13 do mês seguinte e rezarem diariamente o terço. Essa locução imperativa, porém, vem acrescida do objetivo da oração do terço – obter o fim da guerra e a paz do mundo e, ainda, da indicação do ser em cuja honra tal oração deverá ser realizada – Nossa Senhora do Rosário.

(4.1) - Quero que venham aqui no dia 13 do mês que vem, que continuem a

rezar o terço todos os dias em honra de Nossa Senhora do Rosário para obter a paz do mundo e o fim da guerra, porque só ela lhes poderá valer.

- Queria pedir-lhe para nos dizer quem é, e para fazer um milagre com que todos acreditem que vosssemecê nos aparece.

- Continuem a vir aqui todos os meses. Em outubro direi quem sou, o

que quero e farei um milagre que todos hão de ver para acreditarem.

Neste espaço discursivo, o protagonista celeste exerce função duplicada, pois, referindo-se a si mesmo como Nossa Senhora do Rosário, coloca-se, sob essa denominação, no nível da referência, ou seja, no papel de delocutário (D), constituindo, pois, uma sui-referenciação, conforme Brandão (1988, p. 53), já mostrado, neste trabalho (p. 46): EU (L) = ELA (D).

Considerando o processo interlocutório, vimos que, na sua introdução, o protagonista terrestre assume a palavra, instalando-se como locutor L, ao mesmo

tempo em que inscreve a personagem celeste no papel de alocutário AL. No

segundo ato, as posições são invertidas: o que era “eu” transmuda-se em “tu” e este, em “eu”: a personagem celeste é quem exerce a função de locutor L e o terrestre, a de alocutário AL. E neste revezar-se de ações, vão-se construindo as cenas discursivas desse “diálogo” entre céu e terra.

Retomando o discurso, o protagonista do plano temporal faz dois pedidos ao interlocutor:

a) revelar quem ela é (Queria pedir-lhe para nos dizer quem é);

b) realizar um milagre que confirme a sua presença ali (e para fazer um

milagre que todos acreditem que vossemecê nos aparece).

Percebemos que essa súplica parte da aflição provocada pelas críticas dos céticos. Portanto, temos, nesta instância, um locutor pessoa do mundo – LP, que tem emoções e quer ser respeitada e acreditada. Esse sujeito, porém, apresenta-se ainda pluralizado, falando não só em seu nome, mas do lugar de seus primos também, como evidencia o dêitico pronominal “nos” (... nos dizer ...nos aparece), que caracteriza um locutor coletivo – LC.

Assumindo novamente o turno, a personagem celeste realiza atos de fala ou ato ilocucionário, conforme Searle (1969): ordem, promessa e súplica:

(4.2) Continuem a vir aqui todos os meses. Em outubro direi quem sou, o que

Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes e em especial sempre que fizerdes algum sacrifício: “Ó Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria.

Instalando-se como locutor, a personagem celeste inscreve o ouvinte na função de alocutário coletivo AC, já que esse sujeito é tríplice (os três videntes);

como comprovam os verbos que indicam um ouvinte pruralizado: venham e

continuem (vocês).

O locutor está marcado pelos dêiticos pronominais: me e nos e verbais:

quero, direi, sou e farei, venham e o alocutário pelos pronomes: vossemecê e lhes, lhe e pelas desinências verbais: continuem4

(vocês), sacrificai, dizei, fizerdes. O referente, ou seja, o delocutário, vem representado pelos lexemas: pecadores,

Imaculado Coração de Maria, Jesus e pelo pronome substantivo todos (os

habitantes de Fátima).

Além de inscrever-se como locutor, a personagem celeste, nesta última locução, figura novamente como delocutário (D) investida do título de Coração

Imaculado de Maria, ao lado de todos (os habitantes de Fátima) e pecadores.

Esses últimos são o motivo da penitência solicitada aos “videntes”, pois é para reparar suas ofensas e para que eles não se percam eternamente que as crianças deverão sofrer voluntariamente.

O discurso seguinte não é um ato dialógico, mas a apresentação da “visão” do inferno. Numa linguagem altamente dramática, o protagonista terrestre entra nessa cena discursiva na qualidade de porta-voz de seus companheiros, configurando-se, portanto, como locutor coletivo – LC, assinalado apenas pela flexão verbal “vimos”.

(4.3) - Ao dizer estas últimas palavras, abriu de novo as mãos como nos dois

meses passados. O reflexo de luz que elas expediam pareceu penetrar a terra e vimos como que um grande mar de fogo e mergulhados nesse fogo os demônios e as almas como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana,

que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saiam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados – semelhante ao cair das fagulhas nos grandes incêndios – sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizavam e faziam estremecer de pavor. Os demônios distinguiam- se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa.

Nesta instância, como a mensagem é dirigida a toda a comunidade católica, o ouvinte ou alocutário é a Igreja – alocutário eclesial – ALE.

A personagem celeste é inscrita aí no nível da referência; portanto, como

delocutário – D (ao dizer estas palavras, abriu de novo as mãos (...).

Outros referentes são também instalados, neste espaço discursivo: os

demônios – delocutário satânico – DST e as almas condenadas – delocutório condenado - DCD (... e vimos como que um grande mar de fogo e mergulhados nesse fogo os demônios e as almas como se fossem brasas transparentes (...)).

Desvanecida a imagem assustadora, é retomada a ação dialógica pela personagem celeste que, imediatamente, passa do papel de locutor L para o de

locutor LP, como aquele que tem poder para impedir a guerra, converter a Rússia e

trazer a paz ao mundo.

(4.4) - Vistes o inferno para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para

as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio IX começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo

Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé. Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo.

Do lugar de locutor, o sujeito celeste instala como alocutário os videntes –

alocutário coletivo – AlC.

No nível enuncivo, há uma multiplicidade de sujeitos:

a) Deus: delocutário divino – DV (Deus Pai e Jesus Eucarístico) b) Imaculado Coração: delocutário celeste – DCL (sui-referenciação); c) Os pecadores: delocutário infrator – DIF;

d) O Santo Padre em cujo título estão incluídos os Papas que conviveram com o início e o desenrolar das duas guerras mundiais (Pio XI, Bento XV, Pio XII e ainda João Paulo II) – delocutário pontifical – DP: o último papa, ou seja, João Paulo II foi quem realizou a consagração solicitada; e) A Igreja: delocutário eclesial – DE;

f) As nações que sofrerão com a guerra e o povo russo: delocutário

coletivo – DC;

g) Francisco, individualmente: delocutário individual - DI.

Essa referência é altamente significativa, visto que nela se manifestam diversas realidades perceptíveis apenas pela fé:

a) A misericórdia de Deus que vai ao encalce do pecador para oferecer-lhe o perdão;

b) O poder de intercessão concedido à Virgem Maria;

c) A implantação, por vontade divina, da devoção ao Imaculado Coração; d) A menção de que as calamidades, como a guerra, a fome e até as

perseguições ao povo de Deus são conseqüências dos pecados da humanidade (cf. Gn 19, 1-29: Bíblia Sagrada: p. 64 – 65; Jr 5-6: Bíblia Sagrada: p. 1038 – 1044).

e) Anúncio de fatos futuros, como o fim da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918); implantação do Comunismo (1918); deflagração da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945); perseguição aos cristãos; sofrimento do Papa, principalmente Bento XV (1914 – 1922) e Pio XII (1939 – 1958) que conviveram com o flagelo da primeira e segunda guerra mundial, respectivamente; a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, efetuada pelo papa João Paulo II, em 1984; a queda do bloco soviético, em 1989.

f) A reparação dos pecados por meio da recepção de Jesus na Eucaristia. A visão do inferno e o relato dos fatos futuros constituem as duas primeiras partes do chamado Segredo de Fátima redigidos pela Irmã Lúcia em 1941.

Quanto às tribulações que a Igreja teria de sofrer, na pessoa do Papa, de todo o clero, dos religiosos e dos fiéis, em geral, temos delas uma imagem em Cechinato (1996, p. 410;414;415)

Durante os anos de conflito o Papa não saiu de Roma. Ele teve a tristeza de ver destruído o antiqüíssimo Mosteiro de Monte Cassino (...) Mais do que os edifícios bombardeados, era a Igreja que se encontrava danificada (...): templos destruídos, mosteiros e seminários fechados, padres dispersos, famílias sem casas, crianças órfãs (...) gente desajustada, pastoral desorientada (...). Houve muitos mártires. Líderes da Igreja foram duramente perseguidos (...)

Na referência, percebemos ainda que Francisco, embora “visse” a Bela Senhora, não a ouvia. Do contrário não teria sentido a permissão para revelar-lhe o que para o mundo ainda era segredo:

(4.5) Isso não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo.

Nesta terceira fase desse processo enunciativo, o protagonista celeste marca- se lingüisticamente com cinco elementos que exprimem emissão: meu, eu, virei

pedir, meus, me.

Quanto à dimensão receptora, na esfera temporal, o sujeito está indicado pelas desinências verbais: vistes, virdes, sabei, digais, podeis dizê-lo e pelo dêitico pronominal vós.

Em se tratando das marcas do delocutário, elas são constituídas pelos

Padre, Rússia, Imaculado Coração, Igreja, várias nações, Portugal, Francisco, comunhão reparadora e pelos dêiticos pronominais: as, outra, seus, se, a, meu, meus, ninguém, seu, isto, lo e verbais: salvar-se-ão, vai acabar, deixarem de ofender, etc.

É nesta terceira “aparição” que é ensinada a jaculatória hoje repetida em cada mistério do terço por aqueles que o rezam:

(4.6) Quando rezardes o terço, dizei depois de cada mistério: “ó meu Jesus,

perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o céu, principalmente aquelas que mais precisarem”.

No que diz respeito às funções da linguagem, percebemos uma equivalência entre a função conativa e a expressiva. A primeira, atestam-na o desiderativo querer (quero que venham aqui no dia 13 de mês que vem (...) e a forma imperativa (continuem a vir (...); Sacrificai-vos (...); Isto não o digais a ninguém) que exprimem

autoridade, ordem, como ainda os pronomes: vossemecê, vos, vosso e

desinências verbais: sacrificai, vistes, perdoai, levai que comprovam a

centralização da linguagem no receptor.

A função expressiva, tanto na voz do sujeito celeste quanto na do sujeito da esfera temporal, recebe as seguintes marcas:

a) formas pronominais (eu, me, meu, meus – sujeito celeste; me, nos – sujeito terrestre) e verbais (direi, sou, quero, farei, virei – sujeito celeste;

vimos – sujeito terrestre) que exprimem uma linguagem centrada no

emissor;

b) nomes e expressões que denunciam emotividade e julgamento do locutor:

grande mar de fogo, brasas transparentes, gritos, gemidos, dor, desespero, pavor, formas horríveis e asquerosas, pobres pecadores, guerra, fome, etc.

Mas além dessas duas funções predominantes, notamos também a presença da função referencial, especialmente nos discursos de caráter descritivo (descrição do inferno) e narrativo (elevação ao céu do protagonista do mundo espiritual). Esta última função está assinalada pelos pronomes (ela, lhes, eles, etc) e flexões verbais

(abriu, flutuavam, terão, etc) que apontam para o sujeito ausente, o que está à margem da interlocução, na visão de Benveniste, já mencionado.

No foro da intertextualidade, outras vozes se imiscuem no discurso, além daquelas inscritas na atividade interlocutória:

a) Ao referir-se a si mesma sob o título de Nossa Senhora do Rosário como aquela que poderá trazer a paz ao mundo, a personagem celeste introduz- nos na doutrina católica, segundo a qual a Virgem Maria, depois de Jesus, ocupa o primeiro lugar na economia da graça, como apregoa a Lumen Gentiun (2003: p. 126.127):

A Maternidade de Maria, na economia da graça perdura sem cessar (...) De fato, depois de elevada ao céu, não abandonou esta missão salutar, mas pela sua múltipla intercessão, continua a obter-nos os dons da salvação eterna. Com seu amor de mãe, cuida dos irmãos de seu Filho que ainda peregrinam e se debatem entre perigos e angústias, até que sejam conduzidos à Pátria Feliz. (...)

b) A visão do inferno remete-nos a diversos textos bíblicos e ao magistério da Igreja.

- Mt 13,41.42

O Filho do Homem enviará seus anjos que retirarão do seu reino todos os que fazem o mal e os lancará na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes, (Bíblia Sagrada: p. 1300)

- Mt 25,41

Voltar-se-á em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: retirai-vos de mim malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e ao seus anjos.

(Bíblia Sagrada, p. 1316) - Ap 21,8

Os tíbios, os infiéis, os depravados, os homicidas, os impuros, os malfeitores, os idólatras e todos os mentirosos terão como quinhão o tanque ardente de fogo e enxofre, a segunda morte. (Bíblia Sagrada, p. 1575)

- Catecismo da Igreja Católica (1993: p. 249):

As almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente depois da morte aos infernos, onde sofrem as penas do

inferno “o fogo eterno”. A pena principal do inferno consiste na separação eterna de Deus, o Único em que o homem pode ter a vida e a felicidade para as quais foi criado e as quais aspira.

c) A oração que, a partir do episódio de Fátima, é repetida por todos os católicos, na recitação do terço:

Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente as que mais precisarem,

aponta para as palavras que cada sacerdote, na missa, fazendo eco a João Batista (Jo 1, 29b – Bíblia Sagrada, p. 1385), pronuncia antes da Sagrada Comunhão: Eis o Cordeiro de Deus: Eis aquele que tira o pecado do mundo.

Esse imbricamento de vozes comprova a observação de Orlandi (1986, p. 115) de que todo discurso é um “continuum” que nasce em um discurso precedente e aponta para um futuro.

Quanto aos atores das cenas “desenroladas” neste misterioso teatro, como já foi observado, eles preenchem múltiplas posições. Os protagonistas tanto o da esfera espiritual quanto o da temporal ocupam lugar na interlocução e na referência. No primeiro nível, ora como locutor L, ora como locutor LP, ora como LC, ora como variados enunciadores; ou ainda como alocutário AL, alocutário ALP, ALC, e, no segundo, como sui-referenciador.

O diagrama, abaixo, resume configuracionalmente esse jogo interlocutório:

P R O C E S S O I N T E R L O C U T Ó R I O L O C U T O R A L O C U T Á R I O

“VM” LÚCIA VD “VM” LÚCIA VD

LL LP LL LP LC AL ALP AL ALP ALC

D E L O C U T Á R I O

DV DCL DIF DP DC DI DE

Deus Jesus Imaculado Pecadores PAPAS POVOS FRANCISCO IGREJA

Pai Eucarístico Coração

de Maria

(sui-referente)

FIGURA 5 – Processo interlocutório no discurso da Terceira Aparição de Fátima.

As mensagens das três últimas “aparições” (agosto, setembro e outubro) não serão analisadas, pois conforme enunciado no início deste capítulo, nem todos os textos referentes às “aparições” integralizam o “corpus”. No entanto, elas figurarão também nos anexos deste trabalho.

O “encontro” do mês de agosto não ocorreu no dia 13 como estava determinado, nem tão pouco na Cova da Iria como os demais. O palco onde esta cena foi desenrolada foi Valinhos, uma propriedade de um dos tios das crianças. Quanto à data, não sabemos se foi o dia 15 ou 19, pois a própria Lúcia não se lembrava dela com exatidão. Essa alteração de dia e local deveu-se à prisão que sofreram os três “videntes” operada pelo administrador de Ourém, exatamente no dia 13 do mês em questão, conforme Machado (1983, p. 51-54).

No último “encontro”, 13 de outubro, a Bela Senhora denominou-se Nossa Senhora do Rosário e realizou o milagre prometido: o sol girou sobre si mesmo com grande velocidade e seus raios refletiram-se em multicores nas pessoas e nas

árvores, provocando espanto e medo numa multidão de mais ou menos setenta mil pessoas. (cf Machado, 1983, p. 54 – 58).

As atividades aqui consideradas se desenvolveram por meio de um jogo interacional que abrange instâncias de natureza diferente – temporal e espiritual, envolvendo vozes resultantes dos diferentes papéis discursivos, exercidos pelos atores do ato enunciativo e pela instância referida e ainda vozes tomadas a outros discursos que foram incorporados ao discurso central. Todas essas vozes, porém, entrelaçadas formam um concerto maestrado por alguém que, segundo o testemunho da Ir. Lúcia, é a própria mãe de Jesus, o Deus que se fez Homem (de acordo com o cristianismo).

C A P Í T U L O 4

CRUZAMENTO VOCAL NOS DISCURSOS DE

ANGÜERA, ITAPERUNA E JACAREÍ

4.1. Multiplicidade Vocal nas Mensagens de Angüera

Terminada a análise dos textos referentes às três primeiras “aparições” da Virgem Maria em Fátima (Portugal), debruçar-nos-emos sobre alguns que dizem respeito a determinadas “vidências” processadas em terras brasileiras: Angüera (Feira de Santana-Bahia); Itaperuna (Rio de Janeiro); e Jacareí (São Paulo).

Conforme já enunciado, as mensagens de Angüera intituladas Apelos

Urgentes de Nossa Senhora Rainha da Paz em Angüera na Bahia serão as

primeiras contempladas.

Os fenômenos que ocorrem naquele município baiano, tiveram início no dia 29 de setembro de 1987. O jovem Pedro, que havia completado 18 anos, no dia 29 de julho, voltava do colégio onde fazia o curso de magistério, quando foi acometido de um desmaio, caindo sobre um formigueiro. Enquanto um colega que o acompanhava foi comunicar o incidente aos pais do jovem, na Fazenda Malhada (onde residem), segundo o próprio Pedro, uma moça vestida de branco tomou-o pela mão, dizendo: Vou tirar-te das formigas.

Ao chegarem ao local, os pais do jovem Pedro encontraram-no deitado à porta da escola Capitão Domingos Marques, tendo, a seu lado, os livros que trazia consigo. Conduzido para casa, ao recobrar os sentidos, perguntou pela Irmã que o havia socorrido, pois julgava ter sido assistido por uma freira da cidade de Feira de Santana.

No dia seguinte, Pedro foi submetido a exames de ordem neurológica, psiquiátrica e cardiológica que não acusaram qualquer distúrbio de ordem mental ou psicológica.

Dois dias depois (1º de outubro), conversando com duas de suas irmãs em um dos quartos de sua casa, Pedro sofreu novamente a síncope. Passado o desmaio, disse que a jovem que o livrara das formigas encontrava-se ali, e solicitava-lhe que rezasse o terço com sua família. Depois, segundo ele, prometendo voltar, desapareceu.

Por volta das 18h00 do dia 03 do mesmo mês, quando rezava o terço junto com a família, Pedro “ouviu” alguém chamá-lo no exterior da casa. Reconhecendo a voz da “moça” que o visitara, saiu e “deslumbrou”, à distância de uns cinqüenta

metros, uma intensa luz em forma de arco. Dirigindo-se a esse local, seguido da mãe e das irmãs (elas julgavam que ele estava louco), parou diante da luz e ajoelhou-se repentinamente. É que envolta nesta luz, “via” a mesma jovem que lhe aparecera anteriormente. Disse-lhe ela: - Não tenhas medo, eu sou a mãe de Jesus.

Estou aqui para ajudar os meus pobres filhos que precisam do meu auxilio.

Ditas essas palavras, sumiu inesperadamente.

Daí por diante, as “aparições” acontecem toda semana, sempre às 21h00. A principio, somente aos sábados, mas depois, passaram a ocorrer também às terças- feiras.

Por determinação da “visitante”, foi erguida uma cruz numa pequena elevação junto à fonte. E é precisamente nessa elevação que ela se apresenta ao “vidente”.

Segundo Pedro, a personagem celeste manifesta-se na forma de uma jovem de 20 anos. Seus olhos são azuis, os cabelos pretos. Quanto à cor da pele, ele não sabe definir, pois diz jamais ter visto, na terra, algo parecido. Traja-se quase sempre de branco e, às vezes, porta um manto azul. Não usa calçados.

É uma mulher de extrema beleza!

Paira sempre a uns 30 metros do chão, cingida por uma luz de intenso brilho. Olha para todos, mas, às vezes, fixa o olhar em determinadas pessoas. Fala o