Na Faculdade, todo tempo foi muita luta, sempre muita luta, nada que aconteceu naquela instituição foi sem luta, tudo, todas as conquistas que nós tivemos lá, e foram muitas, era com luta! Eliana Dantas Anjos (2015) (ANEXO XIII).
O primeiro curso a surgir em 1980 foi instituído em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, pelo Instituto Porto Alegre (IPA), uma rede mundial de estabelecimentos de ensino, em seus diversos níveis, mantida pela Igreja Metodista (IPA, 2016).
Das três seções de missionários da Igreja Metodista Episcopal dos Estados Unidos que chegaram ao Brasil no século XIX, a missão na região Sul, especificamente no Rio Grande do Sul127, ficou a cargo da Igreja Metodista Episcopal Nortista, oriunda da região Norte dos Estados Unidos, sob a liderança de João Corrêa, um brasileiro que se filiou à instituição em Montevidéu e retornou ao Brasil em 1885 em companhia de Carmen Chaccon, uma jovem professora. Em Porto Alegre, eles fundaram uma igreja e um estabelecimento de ensino, o Colégio Americano de Porto Alegre, mantido pelo Instituto Metodista de Educação e Cultura e destinado à educação de jovens mulheres (REILY, 1980).
Em 1923, foi instalado o Porto Alegre College (Instituto Porto Alegre) pelos missionários metodistas da Igreja Metodista Episcopal do Sul, do Sul dos Estados Unidos, que haviam absorvido a missão do Rio Grande do Sul desde 1900128 (REILY, 1980). A criação do IPA estava vinculada à Universidade Metodista do Sul, em Dallas, no Texas, e tinha como intuito difundir a educação teológica no Estado. Seu primeiro presidente foi John R. Saunders, e professores, J. E. Moreland e J. M. Terjell (IPA, 2016).
No decorrer do tempo, o então Colégio Americano de Porto Alegre e o Instituto Metodista de Porto Alegre deram origem ao Centro Universitário Metodista, que, a partir da década de 1970, iniciou a tentativa de implantar cursos de educação superior na área da saúde. Assim, no ano de 1971, foi inaugurada no IPA a Escola Superior de Educação Física (ESEF) com o curso de Educação Física e, em 1980, os cursos de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, autorizados pela Portaria nº 84.369, em 7 de janeiro de 1980, do MEC (PACHECO, 2006). Em 1978, no Colégio Americano, foi instaurado o curso de Nutrição, por ação da mantenedora, o Instituto Metodista de Educação e Cultura (IPA, 2016).
127 Os missionários metodistas não atuavam nos Estados de Santa Catarina e Paraná (REILY, 1980).
128 Em 1900, a missão no Rio Grande do Sul foi cedida para a seção da Igreja Metodista Episcopal do Sul, que, naquela ocasião, já dominava cidades nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiros, Minas Gerais e Espírito Santo (REILY, 1980).
Para estruturação do curso de Terapia Ocupacional, o IPA contou com a ação de uma terapeuta ocupacional paulista, Marina Schivoleto, que ocupou o cargo de primeira coordenadora do curso, e de um fisioterapeuta, sob o apoio do então diretor da instituição, Washington Gutierrez. Assim, Marina Shivoleto construiu o Laboratório de Atividades e Recursos Terapêuticos e adquiriu alguns livros Mac Donald em língua espanhola (PACHECO, 2006; ANJOS, 2015).
O primeiro processo seletivo para captação de alunos para os cursos de Terapia Ocupacional e Fisioterapia ocorreu conjuntamente em janeiro de 1980, ofertando um total de 100 vagas, sendo 50 para cada curso. Como o currículo mínimo que vigorava na época ainda era aquele de 1963, as disciplinas iniciais dos cursos, o conhecido Ciclo Básico, também eram compartilhadas, separando-se apenas quando se iniciavam as disciplinas específicas. A graduação tinha duração de quatro anos, divididos em oito períodos, e as aulas ocorriam durante o período noturno durante os três primeiros anos, com a disciplina de Prática Supervisionada no quarto ano em período diurno (PACHECO, 2006; ANJOS, 2015).
O currículo para o curso no IPA tinha o predomínio de disciplinas do Ciclo Biológico, que deveriam ser integralizadas em uma carga horária mínima de 2.940 horas. Contudo, apenas as primeiras turmas foram formadas com base nessa estrutura curricular (PACHECO, 2006).
O Quadro 6, com base na dissertação de mestrado de Artemis Barbosa Pacheco (2006), apresenta os semestres do curso, as disciplinas correspondentes a cada semestre e as horas/aula desse primeiro currículo.
Quadro 6 - Estrutura curricular do Curso de Terapia Ocupacional do IPA.
Semestres Disciplinas Horas/aula
1º Período Anatomia I Bioquímica I Cultura Religiosa Expressão Corporal I
Fundamentos de Saúde Pública Fundamentos de TO Histologia e Embriologia I Prática Desportiva I Psicologia Aplicada I 72 30 32 30 32 54 72 32 54 2º Período Anatomia II Antropologia Expressão Corporal Fisiologia I Histologia e Embriologia II Prática Desportiva II Psicologia Aplicada II Terapia Ocupacional Geral I
72 40 34 66 34 32 30 30 3º Período Atividades e Recursos Terapêuticos I
Cinesiologia I Fisiologia II Medicina Clínica Cirurgia Aplicada I
Microbiologia e Imunologia Prática Desportiva III
Terapia Ocupacional Geral II
60 60 60 128 34 34 36 4º Período Atividades e Recursos Terapêuticos II
Cinesiologia II E.P.B. I
Medicina Clínica Cirúrgica Aplicada II Terapia Ocupacional Aplicada I
64 62 36 170 94 5º Período E.P.B. II
Medicina Cirúrgica Aplicada III Prótese e Órtese Terapia Ocupacional II 36 90 64 188 6º Período Administração Aplicada
Ética e História da Reabilitação Noções de Enfermagem Terapia Ocupacional III
30 72 30 276
7º Período Estágio Supervisionado em TO 620
8º Período Estágio Supervisionado em TO 360
Fonte: Pacheco (2006).
Passados oito meses de início do curso, a então coordenadora Marina Schivoleto teve que se ausentar da instituição, deixando a coordenação a cabo do professor de fisioterapia, que passou a gerir as duas graduações, Fisioterapia e Terapia Ocupacional. No entanto, como as
disciplinas iniciais eram conjuntas, com a saída da professora terapeuta ocupacional, o professor e coordenador fisioterapeuta aprofundava teoricamente o conteúdo da fisioterapia, ficando os alunos de terapia ocupacional carentes de conhecimento específico da área. Mediante grande insatisfação, os alunos organizaram um movimento interno que pleiteou: uma direção específica para a graduação, a contratação de novos professores, tento em vista as disciplinas específicas que logo se iniciariam, a criação do Laboratório de Anatomia, pois as aulas eram realizadas por meio de figuras de livros, e do Laboratório de Fisiologia, uma vez que o IPA utilizava o laboratório existente no Colégio Americano (PACHECO, 2006; ANJOS, 2015).
Como resposta às manifestações realizadas pelos alunos no pátio da instituição, em 1981, a terapeuta ocupacional Eliana Maria Dantas Anjos foi convidada pelo professor fisioterapeuta para ocupar o cargo de docente do curso, com grandes possibilidades de assumir a coordenação. Eliana residia em Salvador e formou-se em terapia ocupacional pela Escola de Medicina e Saúde Pública em dezembro de 1979, sendo indicada por colegas da Associação de Terapia Ocupacional do Estado de São Paulo (ATOESP) para ocupar a vaga de professora no IPA (ANJOS, 2015).
Em agosto de 1981, Eliana iniciou a carreira docente na graduação do IPA129 e logo se deparou com as dificuldades que teria de enfrentar para consolidar o curso e formar a primeira turma. Os primeiros obstáculos foram a inexperiência com a docência e a coordenação do curso, pois, mesmo após sua contratação, o fisioterapeuta foi mantido na função de coordenador, inclusive construindo os planos das aulas que seriam ministradas por Eliana. Também foi difícil enfrentar a falta de outros professores terapeutas ocupacionais, condição que obrigou a docente a ministrar todas as primeiras disciplinas específicas da área que já estavam se iniciando, Fundamentos de Terapia Ocupacional, Metodologia em Terapia Ocupacional, algo em torno de Terapia Ocupacional e Desenvolvimento, entre outras. Além disso, ela tinha que lidar com a dificuldade inicial dos alunos em aceitá-la, pois seu sotaque nordestino incomodava alguns graduandos (ANJOS, 2015).
Para construção de suas primeiras aulas, Eliana Maria Dantas Anjos realizava pesquisas em livros de medicina, consultava seus cadernos da época de faculdade, rememorava as orientações de seus antigos professores, buscava escritores de outras áreas do conhecimento, Michel de Foucault, Gilberto Velho, autores da psicologia, antropologia, filosofia, e seguia
129 Segundo Eliana Maria Dantas Anjos, quando chegou a Porto Alegre, ela encontrou duas terapeutas
ocupacionais, Eliza e Alcenir, que tinham sido transferidas do Centro de Reabilitação Profissional do Rio de Janeiro para Porto Alegre.
atrelando esse conhecimento à sua concepção de terapia ocupacional. Como o currículo era extremamente biomédico, às vezes era necessário ludibriar as ementas, os planos de aula, para ministrar as aulas. Um ponto que motivava a professora inexperiente era seu apreço por atividades, fato que, segundo ela, gerava segurança nos alunos, pois sua facilidade em indicar atividades trazia para os estudantes a sensação de que eles estavam sendo terapeutas ocupacionais. Por esse caminho a professora foi desenvolvendo as aulas para a primeira turma até a instituição conseguir novos professores terapeutas ocupacionais (ANJOS, 2015).
No mês de julho de 1981, ocorreu o segundo processo seletivo para o curso, ainda em conjunto com a fisioterapia, tornando-se vestibulares independentes apenas em 1982 (PACHECO, 2006).
Em 1982, chegou à instituição a terapeuta ocupacional Suzete Leite Guardiano Bertolote, assumindo imediatamente algumas disciplinas específicas. Nessa ocasião, o curso passou a contar com duas professoras terapeutas ocupacionais, mas ainda era urgente a necessidade de contratação de mais docentes, pois os estágios estavam prestes a acontecer. Também nesse mesmo ano, após muitas reivindicações dos alunos, Eliana Maria Dantas Anjos assumiu a coordenação do curso (PACHECO, 2006; ANJOS, 2015).
Naquela ocasião, as preocupações dos alunos também giravam em torno do horário dos estágios que ocorriam no quarto ano do curso, ou seja, após as disciplinas específicas, no período diurno, pois a maioria dos estudantes daquela primeira turma trabalhava durante todo o dia e frequentava a faculdade à noite. E foi no intuito de resolver essas questões que, em 1982, as atividades do curso passaram a ser realizadas das 13h50 às 19h20 (PACHECO, 2006). No entanto, Anjos (2015) relata que a mudança de horário também foi motivada pelo intuito de agregar valor à profissão, uma vez que o curso noturno atraía apenas um determinado público de estudantes.
Como a terapia ocupacional era uma profissão ainda desconhecida no Estado do Rio Grande do Sul e o IPA não possuía nenhuma clínica escola, a coordenação do curso teve que convencer algumas instituições acerca da efetividade da intervenção da profissão para que os alunos realizassem aulas práticas e estágios. Assim, a graduação foi montando uma estrutura de estágios no Estado e, consequentemente, sensibilizando os espaços para contratação de terapeutas ocupacionais (PACHECO, 2006).
No ano de 1983, foi iniciado um processo de reestruturação administrativa do IPA, a partir do qual foi criada a Faculdade de Ciências da Saúde (FCS), que, por vez, teve como diretor-geral o professor Miguel Montaña, ficando os coordenadores dos cursos subordinados à direção-geral do IPA. Nesse mesmo ano, ocorreu a formatura da primeira turma de terapia
ocupacional, na qual se formaram os primeiros terapeutas ocupacionais no Estado do Rio Grande do Sul, entre eles Maria Inês Seronni Garcia e Ana Lúcia Soares. Maria Inês, que, em seu último ano de graduação, tinha ocupado a função de primeira monitora do curso, trabalhando com a professora Suzete Leite Guardiano Bertoloti, tornou-se professora no ano posterior à sua formatura, em 1984 (PACHECO, 2006). Já Ana Lúcia Soares integrou o quadro de professores da instituição em 1986. Concomitante à chegada dessas docentes, foram sendo contratados outros professores.
Segundo Anjos (2015), no ano de 1984, quando o curso ainda estava em fase de estruturação, com apenas uma turma formada, sediou o I Congresso Latino-americano de Terapia Ocupacional. Também, nessa época, a professora Eliana Maria Dantas Anjos iniciou uma especialização lato sensu em Metodologia do Ensino Superior, segundo ela por meio de uma imposição do MEC.
Em 12 de dezembro de 1984, a Portaria nº 524 garantiu reconhecimento ao curso. Nessa ocasião, já havia sido aprovado um novo currículo mínimo para os cursos, gerando a necessidade de adaptação de todos os currículos das graduações de Terapia Ocupacional do Brasil. No IPA, essa modificação ocorreu em 1985 e o currículo que passou a vigorar está descrito no Quadro 7 (PACHECO, 2006).
Quadro 7 - Currículo do Curso de Terapia Ocupacional do Instituto Porto Alegre reformulado em 1985.
Diurno Noturno
Disciplinas Nº de créditos Semestral Anual Semestral Anual 1º Semestre
Anatomia Humana 1 - 1 4 4 60 4 60
Antropologia - 20 2 2 30 2 30
Atividade e Recursos Terapêuticos I - 18 4 4 60 4 60
Biofísica - 119 2 2 30 2 30 Biologia - 3 2 2 30 2 30 Cultura Religiosa - 68 2 2 30 2 30 Fisiologia 1 - 120 4 4 60 4 60 Histologia e Embriologia - 69 4 4 60 4 60 Prática Desportiva 1 - 72 2 2 30 2 30 Psicologia I - 122 2 2 30 2 30 Bioquímica - 123 2 2 30 2 30
Métodos e Técnicas de Pesquisa - 71 2 2 30 2 30
Total semestre 32 32 480 32 480
Anatomia Humana 2 - 11 4 4 60 4 60 Atividades e Recursos Terapêuticos II -
124
4 4 60 4 60
Cinesiologia I - 14 4 4 60 4 60
Pesquisa Social 1 - 75 2 2 30 2 30
Fisiologia 2 - 125 2 2 30 2 30
Fundamentos da Terapia Ocupacional - 126 2 2 30 2 30 Microbiologia e Imunologia - 127 2 2 30 2 30 Patologia Geral - 151 2 2 30 2 30 Prática Desportiva 2 - 152 2 2 30 2 30 Primeiros Socorros - 77 2 2 30 2 30 Psicologia II - 128 2 2 30 2 30 Sociologia -79 2 2 30 2 30 Total Semestre 30 30 450 30 450 3 º Semestre
Ativ. e Rec. Terapêuticos III - 129 4 4 60 4 60
Bases Met. Tec. Aval. Ter. Ocup. - 130 2 2 30 2 30
Pesquisa Social 2 - 81 2 2 30 2 30
Fundamentos Med. Clínica Cirúrgica - 131
2 2 30 2 30
Metodologia da Terapia Ocupacional - 132
4 4 60 4 60
Neurologia - 133 4 4 60 4 60
Ortopedia - 134 4 4 60 4 60
Parologia de Órgãos e Sistemas - 135 4 4 60 4 60
Psicologia III - 136 2 2 30 2 30
Saúde Pública - 78 2 2 30 2 30
Cinesiologia II - 22 4 4 60 4 60
Total Semestre 34 34 510 34 510
4º Semestre
Adm. em Terapia Ocupacional - 137 2 2 30 2 30 Dermatologia - 138 2 2 30 2 30 Estatística - 88 2 2 30 2 30 Pneumologia - 139 4 4 60 4 60 Psicomotricidade - 42 4 4 60 4 60 Psiquiatria - 140 6 6 90 6 90 Reumatologia - 141 4 4 60 4 60
Ter. Ocup. Aplic. Neuro/Ortopedia - 142 8 8 120 8 120 Total Semestre 32 32 480 32 480 5º Semestre Cardiologia - 143 2 2 30 2 30 Prótese e Órtese - 144 4 4 60 4 60
TO Aplicada a Disfunções Sensoriais - 145
8 8 120 8 120
TO Aplicada a Problemas Sociais - 146 6 6 90 6 90 TO Aplicada à Saúde Mental Psiquiat -
147
10 10 150 10 150
Total Semestre 30 30 450 30 450
6º Semestre
Ética e Deontologia - 111 2 2 30 2 30
TO Apl. Gerontologia e Geriatria - 153 10 10 150 10 150 TO Apl. à Deficiência Mental - 154 10 10 150 10 150 TO Apl. a Patologias Diversas - 155 8 8 120 8 120
Total Semestral 30 30 450 30 450 7º Semestre Prática de TO Supervisionada 1 - 148 30 30 450 30 450 Seminário I - 113 4 4 60 4 60 Total Semestral 34 34 510 34 510 8ª Semestre Prática de TO Supervisionada 2 - 149 30 30 450 30 450 Seminários II - 115 4 4 60 4 60 Total Semestral 34 34 510 34 510 Total do Curso 256 256 3840 256 3840 Fonte: Pacheco (2006).
Em meados dos anos de 1980, o curso recebeu uma fiscalização do MEC, que fez apontamentos acerca da infraestrutura disponibilizada pela Faculdade. Assim, foi questionada a falta de laboratórios, da clínica escola e pontuadas questões relativas à biblioteca. Os problemas referentes à falta de uma clínica escola foram solucionados em 1985, com criação de uma após inúmeras discussões acerca da autonomia que os docentes pretendiam ter no que diz respeito ao desprendimento do modelo médico ao qual o curso ainda estava subordinado (PACHECO, 2006). Segundo Anjos (apud PACHECO, 2006), com a criação da clínica escola, os professores se sentiram autorizados a abrir seus próprios consultórios, reforçando ainda que
essa prática ajudou na expansão da profissão e na criação do perfil do terapeuta ocupacional no Rio Grande do Sul.
Durante a trajetória do curso, houve algumas transformações em sua estrutura física e pedagógica. Porém, nenhuma mudança proposta conseguiu impedir a finalização da graduação em 2013. Contudo, o curso pioneiro no Sul do Brasil possibilitou a introdução da terapia ocupacional no Estado do Rio Grande do Sul e sensibilizou o mercado de trabalho na região.