5. Key findings and discussion
5.1 Spatial variation of epibiosis
Na França, embora resistente ao subúrbio (faubourg), alguns exemplos ocorrem e procuram atender à demanda de uma burguesia em busca de símbolos aristocráticos. Um empreendimento, lançado na década de 1840, alcançou enorme sucesso: o distrito de Chaussée d’Antin. Localizado na então periferia de Paris, tinha características próprias. Localizado à margem direita do rio Sena, no limite noroeste da cidade, Chaussée d'Antin incorporava os princípios suburbanos de domesticidade, privacidade e segregação de classe dos subúrbios ingleses, entretanto, inserindo-os em um contexto claramente urbano. O Chausée d'Antin apresentava uma sólida fachada, com luxuosas estruturas que proclamavam, de forma inequívoca, sua afiliação com a cidade e não com o campo (FIG.
40 E 41)22.
FIGURA 40 – Região de Chaussée d'Antin durante a
Comuna de Paris.
Fonte: NORTHWESTERN UNIVERSITY LIBRARY, 2008.
FIGURA 41 – Edifício de apartamentos na Rue
Chaussée d'Antin, Paris. Fonte: PARIS.EVOUS, 2009
Diferentemente dos subúrbios ingleses, na França, as principais edificações eram edifícios de apartamentos luxuosos e amplos. Estes apartamentos tinham como objetivo configurarem- se como palácios urbanos para a classe média-alta, com suas fachadas de cinco ou seis andares, copiadas das clássicas formas do Palais Royal, o arquétipo do apartamento de habitação para a classe mais alta que o Duque de Orléans construiu em uma bem- sucedida especulação atrás de seu próprio palácio.
Ao contrário da tradição puritana inglesa, a burguesia francesa, embora firmemente conectada ao ideal de domesticidade, não via contradição entre vida familiar e os prazeres da cultura urbana. Seu ideal combinava o conceito burguês de família isolada e
22Durante a Comuna de Paris (1871), a região de Chaussée d'Antin, região de moradia da alta burguesia, foi palco
privacidade com um fácil acesso a teatros, bailes, cafés e restaurantes que, em Paris, era tido como um privilégio da classe mais alta.
Chaussée d’Antin, durante a reforma de Paris feita por Haussmann, foi totalmente modificado. A única referência que se tem ao antigo local é uma rua - denominada Chaussée d’Antin. Novas ruas foram abertas no local, a mais conhecida é o bulevar Haussmann e também novas edificações foram feitas no local, com características bastante distintas das do então subúrbio elegante. Atualmente, na esquina da rua Chaussée d’Antin com o bulevar Haussmann, localiza-se uma loja de departamentos, Galerie Lafayette.
Paris, no século XIX, tornou-se mais intensivamente industrializada que Londres (FISHMAN, 1987 p.115), além de um importante centro internacional de finanças, menor, entretanto, que Londres; na verdade, em tempos de crise como em 1847, Paris chegou a superar Londres nesse campo, embora o desenvolvimento econômico francês fosse mais lento do que o de outros países. (HOBSBAWM, 2004, p.248).
Ainda assim, basicamente, o desenvolvimento econômico francês era na verdade mais lento do que o de outros países. Sua população crescia silenciosamente, porém sem dar grandes saltos. Suas cidades (com exceção de Paris) expandiam-se modestamente; de fato, no princípio da década de 1830, algumas delas diminuíram. Seu poderio industrial no final da década de 1840 era sem dúvida maior do que o dos outros países europeus - possuía tanta energia a vapor quanto todo o resto do continente junto - mas tinha perdido terreno para a Grã-Bretanha e estava a ponto de perdê-lo também para a Alemanha. De fato, a despeito de suas vantagens e do início pioneiro, a França nunca se tornou uma potência industrial de maior importância em comparação com a Grã-Bretanha, a Alemanha e os Estados Unidos." (HOBSBAWM, 2004, p.248).
Entretanto, de uma forma oposta à de Manchester, os operários e indústrias foram para a periferia. Contribuiu para isto à grande importância dada pela burguesia francesa à vida urbana – ao acesso a teatros, cafés, museus, enfim todas as possibilidades culturais e de diversão possibilitadas pela cidade – e a implantação pioneira de um eficiente sistema de transporte público. Este sistema parisiense com ônibus, bondes e ferrovias, posteriormente seria copiado por outras cidades, entre elas Londres, criando facilidades de transporte maior que qualquer cidade inglesa ou americana de então, entretanto o parisiense de classe média permanecia leal ao centro da cidade; o sistema de transporte de Paris era usado para mudar as indústrias parisienses e seus trabalhadores para os subúrbios.
Londres, em 1910, então a maior cidade do mundo, tinha duas vezes a população de Paris. O crescimento em grandes proporções da cidade, com um aumento muito grande da densidade na região central, era considerado ―chocante‖ por seus moradores. Cercados por estas regiões extremamente densas e em acelerado processo de deterioração causados pela praticamente inexistente infra-estrutura, havia bairros onde a alta burguesia e alguns nobres residiam e se tornaram ilhas em meio ao caos londrino: bairros prazerosos
como Bloomsbury, Belgravia e Regent’s Park; locais agradáveis no meio de uma urbanização cinzenta, árida, com indústrias e favelas.
A tabela 2 apresenta a evolução do crescimento da área da cidade e o crescimento da população. O que, numa primeira observação, poderia ser uma melhoria das condições da cidade com a redução da densidade, é desfeita quando se observa que, no período de 1720 a 1770, embora haja uma redução da densidade populacional da ordem de 6%, houve uma expansão da mancha urbana em 40%, considerando-se ainda que a população tendesse a se instalar na região central, mantendo-se uma crescente densidade na região central. No período imediatamente posterior, 1770/1801, manteve-se a expansão da mancha urbana que cresceu 28,5%, enquanto a densidade aumentou em 5%. No século XIX, a mancha urbana londrina teve sua área multiplicada por doze, enquanto a população, embora tenha crescido significativamente, aumentou em pouco mais de cinco vezes. Estes períodos marcaram o início e a consolidação do processo de suburbanização na capital inglesa, marcado por um espraiamento constante e expressivo da cidade, muito superior à demanda que o crescimento populacional do período poderia, eventualmente, necessitar. Estes dados evidenciam a opção londrina pelo crescimento espraiado, cujo carro-chefe eram os subúrbios.
Vários fatores colaboram para estimular o crescimento em direção aos subúrbios. A vida na região central das cidades era difícil, principalmente pelos problemas advindos do crescimento acelerado, pela ausência de infra-estrutura básica, acumulo de indústrias, depósitos e armazéns na região central (FIG. 42).
TABELA 2
Londres — área urbanizada: estimativa histórica de população e densidade
Ano População Km² Densidade
1680 450.000 10,36 43.436 1720 600.000 12,95 46.332 1770 700.000 18,13 38.610 1801 950.000 23,31 40.755 1821 1.350.000 38,85 34.749 1841 1.900.000 62,16 30.566 1901 5.000.000 284,9 17.550 1951 8.100.000 1.186,21 6.828 2001 8.279.000 1.623,92 5.098
Área urbanizada estimada no período de 1720-1901, baseada em mapas de ruas Fonte: Office of National Statistics
FIGURA 42 – Mapa com as fábricas, depósitos, armazéns e principais lojas na região central de Londres em 1904.
Como referência foram indicados a London Bridge (1) e a Torre de Londres (2). Fonte: BALL; SUNDERLAND, 2001, p.80.
Por outro lado, a iniciativa de alguns nobres de criar praças em suas propriedades nos limites da cidade, havia se consolidado e sido reproduzida ao longo dos séculos XVII, XVIII até o XIX. Os moradores destes locais procuravam estender as restrições e regras a áreas próximas, fazendo surgir ―ilhas‖ de conforto e tranqüilidade. Como em geral, localizavam-se fora da região central, estes bairros acabaram por estabelecer uma associação de bairro distante do centro com luxo, requinte e status. Este tipo de urbanização, juntamente com a construção ―enobrecedora‖ de uma villa suburbana, com os primeiros subúrbios de elite, como Clapham somados à deterioração das áreas centrais, foram decisivos na opção inglesa de moradia em subúrbios ou em bairros afastados.