“Nada se conserva, nada se guarda!, repetia, aflito, Gustavo Barroso. Medo indefinido da perda, do esfumaçamento na morte. As construções dos homens se es- vaindo na esteira do progresso. Os nomes das ruas mudando a cada passo. Tradição! Tradição! Tradição como antídoto à mudança que tudo desfigurava.
Repúdio às novidades, ode ao antigo!”.
(ABREU, 1996, p. 199)
Q
uantos caminhos e descaminhos, quantos problemas e proble- matizações são enfrentados por um pesquisador? Tantos quantos forem possíveis para que seu trabalho faça algum sentido. As ques- tões que tenho hoje comigo são outras. Contento-me com a tentativa de responder as primeiras que fizeram surgir essas outras. É neces- sário vivenciar Sobral em suas contradições para entender que as disputas pelo espaço da cidade, como utilizá-lo, para quê e para quem, ainda estão presentes em seu cotidiano de maneira muito forte. Por isso, atentamos ao leitor que todas essas disputas pela ci- dade, pela sua memória podem ser facilmente vistas em todas as ci- dades que desejemos analisar com mais profundidade. É uma questão temporal e abrange qualquer espaço territorial. Sobral, cidade dita moderna, mas nem tanto, guarda consigo tantas incongruências quanto se pode imaginar e assim segue cantando a Princesa do Nortesua nobreza carcomida pelo tempo e renovada pelo esforço dos “bons filhos”. Denis Melo descreve Sobral como uma “invenção da razão e do coração” (MELO, 2013, p. 410), pois a cidade se mostra em toda sua inconstância e evanescência. Ela nos obriga a percebê-la, por mais que não a compreendamos por completo, pois o misto de sentimentos, sensações e discursos nos confundem a cabeça e os sentidos. Lembremos sempre: “a história nunca é escrita sem amor ou ódio” (RODRIGUES, 1981, p. 31). Ela entende as relações entre os dois sentimentos, pois a partir deles é que surgem todas as ações humanas que compõem a história. Tanto os discursos de amor in- condicional, quanto os discursos de ódio e zombaria se “ativam” entre si. E é preciso sempre desconfiar das ações de “amor incondi- cional” dos “bons elementos”: elas tentam esconder as outras facetas do jogo social que não se quer mostrar, mas que, no entanto, estarão sempre à disposição para quem quiser ver.
Mas, será que para Lira, Sobral era de difícil compreensão? Acreditamos que de maneira alguma. Para o sacerdote, Sobral era simplesmente a nobre e heráldica cidade intelectual da região norte do Ceará. A base principal de sua formação, construída a partir do respeito pelas tradições sobralenses, fez com que Lira se tornasse um seguidor ferrenho e dedicado. Sobral era vilipendiada por aqueles que não entendiam a realeza proposta na expressão “Prin- cesa” e para Lira, os ataques partiam de pessoas que definitiva- mente desconheciam a história nobre da cidade. Sua fé nas ações empreendedoras dos filhos ilustres o enchia de certezas e espe- ranças. Era necessário fazer compreender a memória da cidade. Por isso tomou para si a missão de apontar os erros, encontrar as provas e iluminar as mentes.
Através da construção de seu acervo procurou mostrar-se também como um filho ilustre. E por que não? Segundo sua teoria os filhos ilustres seriam aqueles que lutavam em prol do desenvolvi- mento intelectual, cultural e estrutural da cidade. Lira foi um deles. Em todo seu esforço batalhou para defender a terra natal. Teve sua morte lamentada e registrada em livro, seu acervo protegido e posto à consulta pública e ganhou sala em sua homenagem no seu tão adorado Museu Dom José. O mesmo casarão onde ele residiu e de onde um dia foi expulso; depois da morte, ele retorna com os louros
batalhados durante a vida inteira. Consideramos os impasses de sua vida (chamados por ele de injustiças) que alimentaram ressenti- mentos e foram exteriorizados na velhice em suas escritas autobio- gráficas. Entendemos assim que a memória é composta por senti- mentos que maximizam ou minimizam ações e acontecimentos. Por isso não é possível encontrar neutralidade nos escritos de Padre Lira, este que se mostrou decisivamente claro em suas opiniões e incisivo em seus ataques: era preciso continuar as glórias do pas- sado e retomar o progresso respeitoso pelas tradições.
Na década de 1970 e 1980 a cidade vivia o caos na concepção de Lira. As práticas eram outras e a sociedade ansiava por acompa- nhar as mudanças exigidas pela modernidade. A cidade vivia em meio à sujeira, ao descaso político e às constantes alterações e de- molições de prédios históricos. Para um padre tradicional como era Lira, essas eram questões urgentes e precisavam ser sanadas. A Prin- cesa do Norte não podia perder o status de realeza. Defendê-la era preciso. Encontrar culpados também. O êxodo rural multiplicava os barracos à beira do Rio Acaraú e famílias pobres enchiam as ruas e becos de Sobral. Eram em seu discurso chamados de “estranhos”, pois vagavam a “enfear” o centro histórico, a propagar seu analfabe- tismo e falta de bons modos. Mais do que isso, traziam o diferente, o desconhecido, assustando e potencializando os diversos pro- blemas sociais. O padre atacava também os dirigentes que não eram filhos verdadeiros de Sobral, acusando-os de não ter amor suficiente para gerir a cidade. Pejorativamente chamando-os de “novos ricos”, Padre Lira mostrou todo o desprezo que possuía por essas pessoas, que em sua visão, enriqueceram à custa de casamentos com mem- bros das famílias tradicionais, assim sugando toda a nobreza que não lhes vinha “de berço”. Reclamar Sobral para os sobralenses natos era um imperativo na escrita do sacerdote.
Padre Lira também se envolvia em discussões que iam além das relações sociais sobralenses: iam para além dos limites frontei- riços. Ser sobralense era diferente de ser fortalezense, ou seja, era melhor. E mais, Sobral era melhor do que as outras cidades do Ceará. Procurando “provar” através de documentos históricos que no pas- sado Sobral usufruía de riqueza maior, sendo mais evoluída do que Fortaleza e Crato, o sacerdote buscou mostrar o quanto o sobralense
tinha para se orgulhar. Era uma questão estratégica minorar alguns para fazer brilhar ainda mais a Princesa.
Instigar o desejo por continuar o trabalho exercido pelos so- bralenses ilustres do passado era o principal foco na batalha pela memória encetada por Padre Lira. Dessa maneira, era de grande im- portância que todos participassem do processo de reconhecimento do valor que o passado tinha. Educar os menores e fazê-los crescer sabendo desse valor era um dos projetos do padre. Ele acreditava que, através do ensino da história local, mediada pela educação moral e cívica, era possível encaminhar os jovens a se tornarem cida- dãos prontos a trabalhar em prol do torrão natal. O Museu Diocesano Dom José se enquadrava muito bem em seu discurso, pois era através dos objetos valiosos expostos em seu acervo que os aprendizes com- provariam seus estudos. A materialidade do passado era uma das principais questões para se fazer cumprir com as exigências de um projeto educador cívico. Por isso, Padre Lira reclamava o retorno dos restos mortais de sobralenses ilustres que se encontravam em terras estranhas. Os corpos físicos dos heróis, na visão de Lira, instigariam a coragem dos mais jovens para a luta pelos interesses citadinos. Alimentar-se desse banquete era encher-se de iluminação e de cons- ciência cívica, compreendendo as ações dos ilustres e assumindo para si o mesmo exemplo, o mesmo caminho e as mesmas batalhas. O cidadão ideal, para o padre, era aquele envolvido com a virtude do desinteresse, pensando no coletivo mais do que no individual, evi- tando agir somente em interesse próprio.
Não entendemos a pesquisa que o leitor tem em mãos como um ponto final nos estudos sobre o trabalho de Padre Lira. Adora- ríamos que fosse apenas um início, já que reconhecemos as limita- ções que cada pesquisador necessariamente possui. Apontamos a grande variedade de temas que podem ser abordados através dos arquivos de Padre Lira em diversas áreas de conhecimento. Nossa análise se constitui como mais uma contribuição aos estudos sobre a memória de Sobral, procurando tomar os discursos dos agentes aqui trabalhados em toda sua complexidade de interesses e levando em consideração seu lugar social. Também tivemos a preocupação no trato com as fontes que foram lidas a partir de problematizações próprias do exercício historiográfico.
Nosso interesse não foi realizar uma biografia do padre, mas sim esmiuçar as palavras e os sentidos delas em seus escritos auto- biográficos. Para tanto foi necessário compreender o caminho que foi seguido pelo menino Eduardo, para se tornar o escritor Padre Lira, mas principalmente como e o quê o autor escolheu contar sobre sua história de vida. Lembremos que o papel do historiador é sistematizar memórias através de mecanismos teóricos e metodoló- gicos que consideram as diversas possibilidades que as fontes podem nos oferecer. Analisamos a escrita de Padre Lira tentando encontrar a multiplicidade existente em sua personalidade, o que ele tentava esconder (pois, todos nós escondemos algo) e o que ele ansiava tornar público. Não esqueçamos ainda que as memórias de vida de alguém sempre estarão presas numa rede de outras memó- rias e interesses, pois a memória é um emaranhado de múltiplas vivências e experiências que são tanto individuais quanto coletivas, e elas sempre serão pautadas no presente. Quem lembra, realiza um exercício de pensamento com a consciência do hoje e não com a cabeça que tinha anos atrás: “a recordação é, pois, um trabalho de organização de fragmentos, reunião de pedaços de pessoas e de coisas, pedaços da própria pessoa que boiam no passado confuso e articulação de tudo criando com ele um mundo novo” (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2007, p. 202). Quem lembra organiza os cacos da própria vida, mas o historiador (se não quiser cair em armadilhas que im- põem uma “verdade” sobre o passado) deve se esforçar para per- ceber as falhas nas junções dos cacos, desorganizando-os e reunin- do-os novamente. O resultado do mosaico poderá ser diferente do esperado, e não será isso o mais interessante?
Claro que as lembranças de Lira nos causaram bastante dúvida e receio. Afinal, como lidar com a acidez deste homem, com sua “ver- dade” incontestável, com essas lembranças tão doloridas? Porém, não podemos deixar de levar em consideração que o ofício do histo- riador é um ato de violência contra as memórias. Nós precisamos deflorá-las, destrinchá-las para enfim, com “as armas dos conceitos, do pensamento e da razão”, gestar a História (ALBUQUERQUE JÚ- NIOR, 2007, p. 206). Não existe lado bom ou mau, assim como não existe exercício de reflexão crítica sem a violação dos limites in- ternos da memória. Sem isso nunca poderíamos descobrir as dife-
renças e os rasgos escondidos nos discursos. Por isso o ofício do historiador é definitivamente um parto difícil.
Como vimos, Padre Lira era essa figura multifacetada, mas acima de tudo contestadora. Incansável crítico das novidades e da falta de “zelo” pelo passado, Padre Lira escolheu ser o paladino de Sobral, defensor da história sobralense e propagador de sua me- mória. E como todo defensor estrênuo foi também mal compreen- dido por muitos. Tal qual Dom Quixote, via gigantes aterrorizantes devoradores da história, onde os outros viam simples construções modernas e novidades instigantes.
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