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O primeiro registro sobre o cultivo de uvas e vinhos no Brasil é quase tão antigo quanto o próprio descobrimento. Em 1532 desembarcou no país, vindo na capitania de São Vicente, Brás Cubas, o primeiro a cultivar vinha no Brasil (BRAGA; ALZER, 2005). Seu vinhedo, localizado em Piratininga – SP, conseguia atender as necessidades de vinho para os ritos religiosos dos jesuítas da época, mesmo de maneira rudimentar (ORTEGA; JEZIORNY, 2011)

As primeiras rotas de comércio brasileiras, iniciadas com o desbravamento de terras pelos bandeirantes, tinha como produto mais importante o trigo, seguido pelo vinho, este último oriundo tanto dos portos, quanto do vinhedos de Piratininga – SP (MELLO, 2007). Assim que a coroa percebeu a relevância do produto foram estabelecidos preços mínimos e máximos para os vinhos em circulação (MELLO, 2007). Vê-se, portanto, que a regulamentação acerca da vinicultura brasileira acompanha o desenvolvimento do vinho desde o período colonial.

Apesar de sua origem portuguesa, a vitivinicultura só se tornou realmente importante no plano socioeconômico do Brasil com a colonização italiana, a partir de uvas americanas trazidas por imigrantes alemães (TONIETTO, 2003; ORTEGA, ANTONIO CÉSAR; JEZIORNY, 2011;TONIETTO; FALCADE, 2018). À vista disso, Farias (2009) afirma que o início da vitivinicultura se deu pelo trabalho e conhecimento técnico dos imigrantes italianos, assim como a política do Estado Imperial e Provincial e seu projeto geopolítico para a região sul, que permitiram a instalação dessas pessoas ali. Sendo assim Tonietto e Mello (2001) propuseram o fatiamento dos períodos evolutivos da vitivinicultura a partir desse período (Quadro 07).

Com a marcante implantação da vitivinicultura, por volta dos anos de 1870, o amadurecimento da produção passou por diversos estágios (Quadro 07), como a de diversificação de seus produtos, incremento de qualidade e identidade para o vinho brasileiro, fase atual (TONIETTO; MELLO, 2001).

Quadro 07 – Os períodos evolutivos da vitivinicultura brasileira

1ª Período 2ª Período 3ª Período 4ª Período

Período 1870 – 1920 1930 – 1960 1970 – 1990 2000 -

Geração dos Vinhos

1ª Geração 2ª Geração 3ª Geração 4ª Geração

Estágio Implantação da Vitivinicultura Diversificação de produtos Incremento de qualidade Afirmação de Identidade Regional Vinhos Vinhos de uvas americanas Vinhos de Híbridos e de Viníferas Vinhos Varietais3 Vinhos de qualidade e Indicação Geográfica Fonte: Tonietto e Mello (2001)

O período de implantação, entre 1870 e 1920, foi marcado pela utilização de uvas americanas. Apesar das primeiras espécies plantadas no país serem de variedades viníferas oriundas da Europa, as variedades que melhor se adaptaram à região foram as americanas, de maior rusticidade (ORTEGA; JEZIORNY, 2011).

O segundo período evolutivo, da diversificação dos produtos, as vinhas americanas abriram espaço para a entrada de variedades de uvas europeias e de híbridos das duas espécies. Protas, Camargo e Mello (2006, p.07) explicam essa conversão:

Com o advento dos fungicidas sintéticos, efetivos no controle dessas doenças, a partir de meados do século 20, as videiras europeias ganharam expressão com o cultivo de uvas para vinho no estado do Rio Grande do Sul e com a difusão da uva ‘Itália’, especialmente no estado de São Paulo (PROTAS; CAMARGO; MELLO, 2006)

Registrou-se o incentivo realizado na época para a conversão para uvas viníferas no recorte de jornal “O Pioneiro” de Caxias do Sul- RS na coluna “A Colônia e seus Problemas” de 1949:

3 Vinhos Varietais: são os vinhos produzidos com predominância de determinada uva. Na legislação brasileira,

Figura 12 – Jornal “O Pioneiro” Ano 1949, edição 00010

Fonte: Hemeroteca Digital Brasileira

Nessa época, a tecnologia enológica brasileira ainda era limitada e os produtos eram comercializados predominantemente em garrafões ou em pipas de 100 litros (TONIETTO, 2003).

Enquanto isso, entre as décadas de 50’ e 60’ ocorria a introdução da uva na região do semiárido brasileiro para consumo in natura pela CODEVASF, Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (PEREIRA, 2007). Até esse período a vitivinicultura se restringia aos três estados do Sul e regiões leste de São Paulo e sul de Minas Gerais. Esse movimento de expansão observado foi seguido pelas regiões do norte do Paraná, noroeste de São Paulo e norte de Minas Gerais (CAMARGO; TONIETTO; HOFFMANN, 2011).

A partir da década de 70’, início do terceiro período, de incremento de qualidade, novas cultivares viníferas francesas substituíram as cultivares italianas (CAMARGO; TONIETTO; HOFFMANN, 2011). Mudanças ocorreram no cenário brasileiro com a chegada de novos investidores internacionais, o que acarretou

modernização e investimentos desde a produção, como uso de caixas plásticas para o transporte das uvas, até a industrialização, com novas tecnologias de vinificação (FARIAS, 2009; TONIETTO, 2003). Destacam-se as empresas Chandon, Maison Forestier, Martini etc. como importantes investidores da época.

Essas mudanças estabeleceram um novo parâmetro para o que era considerado como vinho de qualidade no país (TONIETTO, 2003). No estágio de incremento de qualidade ocorreram as criações de importantes instituições para o setor, como a Embrapa Uva e Vinho (1975) e o Instituto Brasileiro do Vinho, IBRAVIN (1998), assim como a Lei do Vinho (1988). Essas mudanças acarretaram uma produção de melhor qualidade, centrada em vinhos varietais, assim como a filosofia empregada no Novo Mundo (TONIETTO, 2003). Farias (2009) adiciona que, a partir da década de 80’, atuaram as associações, pressionando políticas de regulamentação, ampliação do mercado etc. Para o polo vinícola tropical no Vale do São Francisco esse período também foi de importância para o desenvolvimento do setor na região. Na década de 70’ foi criado a Embrapa Semiárido, que contribuiu ativamente para o desenvolvimento de novas tecnologias (PEREIRA, 2007). Já nos anos 80’ surgiram os primeiros investimentos na produção de vinhos. Como marco pode-se citar o vinho da marca Botticelli, produzido em Santa Maria da Boa Vista- PE, que foi produzido em 1986 (VITAL, 2009).

A década de 90 insere-se no período de incremento de qualidade. Nesse período observou-se a abertura comercial brasileira e a consequente entrada de vinhos importados a um preço altamente competitivo e com boa qualidade. Nesse período, Niederle (2009, p. 05) afirma que “a redução significativa dos preços, aliada à valorização da moeda nacional, alavancou o crescimento da demanda interna de vinhos”, entretanto esse crescimento foi “acompanhado por uma queda expressiva da participação dos vinhos nacionais no mercado”, a “invasão dos importados”.

O último período definido por Tonietto e Mello, de afirmação da identidade regional, dos anos 2000 até a época atual, é resultado das consequências da globalização. A entrada de vinhos internacionais acirrou o mercado interno, obrigando os produtores a se qualificarem para competirem. O consumidor, que antes não tinha opções no mercado, pôde escolher produtos de melhor qualidade.

Uma das alternativas encontradas foi a diferenciação pela valorização da origem, como as indicações geográficas. Essa estratégia teve seu marco em 2002, quando o Brasil reconheceu a indicação de procedência do Vale dos Vinhedos, a

primeira de vinhos no país. Esse movimento já alcançou outras regiões, como Pinto Bandeira (RS), Altos Montes (RS), Monte Belo (RS), Farroupilha (RS), Vales da Uva Goethe (SC). Entretanto, o primeiro passo para a afirmação de uma identidade regional é fazer a identificação da tipicidade dos vinhos do local, trabalho que está sendo feito por Guerra e Pereira (2018).

Dessa forma, o período a ser estudado pelo presente trabalho está localizado após uma ruptura tecnológica em direção à qualidade dos produtos.