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spørsmålene handler om hvilke erfaringer du hadde ved avdelingen

Hvilke erfaringer hadde du på [avdelingsnavn, så spesifikt som mulig]?

De 12 spørsmålene handler om hvilke erfaringer du hadde ved avdelingen

Ainda que Wittgenstein não tivesse acrescentado as proposições finais ao seu livro, a hipótese que gostaria aqui de se defender é a de que ainda assim seria possível considerar o

Tractatus como sendo capaz de cumprir o propósito172 que o seu autor lhe reconhece, pois

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Cf. a famosa carta a von Ficker (GBW) de 20.10.1919, da qual se transcreve aqui uma parte: “(...) [E]u pensei imediatamente em si; no entanto numa altura em que o livro ainda não poderia ser publicado porque ainda não estava terminado. (...) Mas espero agora que me possa ajudar. [Jetzt aber hoffe ich auf Sie. Na frase anterior Wittgenstein refere-se à Guerra e ao facto de isso o ter levado a não pensar durante esse tempo – e até à data, i.e., até à altura em que lhe fala da possibilidade de publicar com ele o seu livro –, na ajuda de von Ficker, editor de

Der Brenner.] E talvez seja uma ajuda para si que eu lhe escreva aqui um par de palavras sobre o meu livro: Da

sua leitura na verdade – estou convicto disso – não retirará muito. Pois não vai compreendê-lo. O assunto irá parecer-lhe completamente estranho. Em boa verdade o assunto não lhe é estranho. Pois o propósito do livro é ético. Queria uma vez ter escrito no prefácio uma frase, que na verdade agora não está lá, e que eu agora lhe escrevo aqui pois talvez possa ser uma chave para si. Queria ter escrito o seguinte, a minha obra consiste em duas partes: daquela, que aqui se apresenta, e noutra, que eu não escrevi. E precisamente é esta segunda parte que é mais importante. O ético é, por assim dizer, delimitado no meu livro a partir do interior; e estou convencido de que, em rigor, só assim pode ser delimitado. [Es wird nämlich das Ethische durch mein Buch

estaria ainda assim em condições de delimitar ou desenhar a fronteira173 do ético, a partir de dentro, mantendo-se em silêncio acerca disso e deixando assim em aberto a possibilidade, a quem o lesse, de apreender ou de ver que o mais importante é inefável na linguagem, intocável em proposições sinnvoll. Gostaria ainda de se defender neste estudo que, ao fazer isso, quer dizer, ao escrever um livro capaz de desenhar o limite daquilo que é dizível e simultaneamente mostrar a esfera do indizível mediante aquilo que é dito, o Tractatus é um “feito ético”174 e estético. É mediante o que diz – e na forma que o faz - que Wittgenstein pretende conduzir quem o lê à posição a partir da qual poderá ver “o mundo a direito”:

As minhas proposições elucidam assim: aquele que me compreende, finalmente reconhece-as como um não-sentido, [Meine Sätze erläutern dadurch: daß sie der, welcher mich versteht, am Ende als unsinnig erkennt] quando por elas – nelas – se elevou acima delas. [wenn er durch sie – auf ihnen – über sie hinausgestiegen ist.] (Tem de, por assim dizer, deitar fora a escada, depois de ter subido por ela.) [(Er muß sozusagen die Leiter wegwerfen, nachdem er auf ihr hinausgestiegen ist.)]

Tem de superar estas proposições, depois vê o mundo a direito. [Er muß diese Sätze überwinden, dann sieht er die Welt richtig.] (TLP 6.54. Trad. modificada.)

“Quem me compreende”: quer dizer, o que é requerido ao leitor é da ordem da intimidade; quem no seu íntimo compreender que as suas palavras apenas são capazes de dar

gleichsam von Innen her begrenzt; und ich bin überzeugt, daß es, streng, nur so zu begrenzen ist.]Em resumo, creio: que tudo aquilo sobre o qual muitos outros hoje em dia falam [schwefeln], eu fixei no meu livro mantendo- me em silêncio sobre isso. Por conseguinte, o livro, se não me engano muito, diz muito daquilo que quer dizer por si [von Ficker: was Sie selbst sagen wollen], mas talvez não o veja, porque não é aí dito. Quero agora recomendar-lhe que leia o prefácio e a conclusão, pois estes expressam de imediato o sentido do livro.– [Ich

würde Ihnen nun empfehlen das Vorwort und den Schluß zu lesen, da diese den Sinn am Unmittelbarsten zum Ausdruck bringen.–]” Cf. sobre a segunda parte não escrita, Maria Filomena Molder, “Énigme de La Deuxième

Partie. Au Sujet D’Une Lettre de Wittgenstein”, in Rue Descartes, 2003/1 n° 39, p. 28-40. (DOI: 10.3917/rdes.039.0028)

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Sobre a ideia de fronteira no Tractatus, cf. Maria Filomena Molder, ibid.

174 A expressão faz parte do título de um capítulo do livro de Allan Janik e de Stephen Toulmin: “The Tractatus

Reconsidered: An Ethical Deed”, in Wittgenstein’s Vienna, pp. 167-201. Aqui usa-se a expressão para mostrar que, o que o Tractatus alcança ou consegue realizar ao cumprir o propósito com que o seu autor o escreve, tem a ver com fazer justiça ao que não é passível de ser posto em palavras por ser mais elevado. A única maneira de delimitar o ético é, como Wittgenstein diz na carta a von Ficker já citada, a partir do interior (e recorde-se ainda que Wittgenstein critica aí todos os seus contemporâneos que sobre isso falam). Claro que, a forma de conseguir fazer tal coisa desempenha também um papel, aliás, fundamental. Por este motivo se quer chamar a atenção para o facto de que se pode dizer do Tractatus que é, também, um feito estético – na medida em que a apresentação dos pensamentos aí expressos é da maior importância para o objectivo a alcançar.

conta dos factos – que nada daquilo que é o ético, e bem assim, nada do que é a lógica, pode ser claramente formulado com sentido –, no fim reconhece que o que Wittgenstein diz no seu livro é unsinnig. Quando, mediante as suas proposições, se elevou acima delas e chegou à posição a partir da qual consegue ver o mundo a direito. Enquanto tal, compreender o livro depende de uma partilha com quem o escreve: isso é visível de duas maneiras que se complementam. Após subir a escada, reconhecem-se as proposições como nonsense, ou seja, conquista-se o ponto de vista a partir do qual se vê nitidamente até onde se pode falar com sentido – e é então que é possível compreender que o que acaba de se ler, embora (pareça) inteligível, é na verdade uma tentativa de pôr em palavras o inexprimível. Chegados a esse lugar, podemos partilhar o ponto de vista de Wittgenstein. A outra forma de partilha, que se liga a esta, tem a ver com algo que Wittgenstein diz no Prefácio, relativamente às condições exigidas para compreender o livro, a saber, ter já pensado os pensamentos expressos no livro – ou pelo menos pensamentos semelhantes:

Este livro será talvez apenas compreendido por alguém que tenha uma vez ele próprio já pensado os pensamentos que nele são expressos – ou pelo menos pensamentos semelhantes. Não é, pois, um livro de texto [kein Lehrbuch]. – O seu fim seria alcançado se desse prazer a quem o lesse compreendendo. (TLP Prefácio)

A compreensão do livro baseia-se pois naquela partilha de que se falava há pouco. É esta a condição que o autor do Tractatus imagina ser capaz de talvez proporcionar compreensão a quem o lê175. A leitura do livro, como já houve oportunidade de salvaguardar,

175 Notou-se já a importância da adesão às observações do livro. Sublinhou-se já também a importância do que

David Stern diz em relação às várias interpretações do Tractatus, e de como estas se sustentam na crença de que é possível chegar a uma interpretação definitiva da obra que esteja toda correcta e livre de tensões. Gostaria de se dizer ainda acerca destes dois aspectos – estas linhas do Prefácio justificam esta adição – que, aquela adesão ao que é dito no livro tem a ver, não tanto com o esforço de interpretar em definitivo o Tractatus, mas com a tentativa de preencher a condição que Wittgenstein ressalva como sendo a única que imagina poder vir a permitir a alguém compreender o seu livro. Esta condição é a de uma partilha genuína daquilo que é dito no livro, e do caminho a seguir para se ser conduzido a algum lugar. Outro motivo pelo qual esta é a condição para compreender, tem a ver com o que está em jogo na citação a seguir: Wittgenstein escusa-se à tarefa de argumentar, de “recomendar” os seus argumentos a alguém que possa estar em desacordo – por um lado, poderá objectar-se que uma leitura que adere completamente à visão do autor, que se deixa conduzir, sem à partida se dispor a averiguar a validade do que é dito, também não é genuína; esta parece ser uma das tensões inevitáveis que se prendem com o comentário do Tractatus. Se já tivermos pensado os mesmos pensamentos ou pensamentos semelhantes, não estaremos a comprometer a nossa seriedade – afinal, já pensávamos o mesmo e então é um prazer ler o livro compreendendo-o. Por outro lado, a adesão, o nosso acordo sincero com os pensamentos expressos no livro, na medida em que não depende apenas de uma certa frieza intelectual, também não tem de comprometer a nossa parcialidade (quer dizer, a nossa capacidade para uma leitura crítica): deitar a escada fora não é um gesto passivo, mas de compreensão, e bem assim, a superação das proposições da obra cabe ao leitor. A respeito da importância que Wittgenstein atribuía à partilha, ao entendimento comum dos problemas e do ponto de vista a partir do qual se deveria pensar, cf. Ray Monk, Wittgenstein: The Duty of

é um exercício perceptivo, estético, capaz de conduzir o leitor ao bom ponto de vista, à percepção dos limites da linguagem (que, ao invés de significarem um fechamento, podem “significar o indizível”). Ademais, Wittgenstein diz ainda que o fim do livro seria alcançado se desse prazer a quem o lê compreendendo, o que revela da sua parte uma preocupação com a expressão dos seus pensamentos, com a forma de desenhar os limites da linguagem a partir do seu interior. Sobre a sua capacidade para tanto, Wittgenstein confessa que o valor do trabalho reside, não só no facto de que nele se expressam pensamentos, mas ainda na capacidade de bem expressar esses pensamentos – capacidade que define como “acertar na cabeça do prego” (TLP Prefácio). A expressão exacta é aquela que é capaz de melhor mostrar o propósito da obra, que sabemos ser, graças à carta a von Ficker já citada, ético.

Vejamos, em primeiro lugar, quais as vantagens de uma expressão o mais exacta possível – e o que Wittgenstein poderia querer dizer com isso. Em segundo lugar, irá ver-se como pode a delimitação da linguagem com sentido, que espelha o mundo, proporcionar a boa perspectiva que deve alcançar-se com a leitura, na superação das suas proposições e na conclusão que exorta a guardar silêncio.

Frege é o primeiro leitor a notar o valor estético do Tractatus – muito literalmente, como objecto artístico. No entanto, Frege não tecia assim, verdadeiramente, um elogio ao livro, uma vez que considerava problemático tratar-se a maneira de dizer em pé de igualdade de importância com o que é dito176 – tal preocupação com a forma, na sua opinião, punha em causa o alcance científico da obra.

Genius, pp. 53-54: “Wittgenstein não era alguém que estivesse disposto a debater as suas mais profundas

convicções. Dialogar consigo era possível apenas se se partilhassem essas convicções. (...) A alguém que não partilhasse o seu ponto de vista fundamental, o que dizia – quer fosse sobre lógica ou ética – muito provavelmente, manter-se-ia ininteligível. Era uma tendência que começou a preocupar Russell. ‘Estou seriamente preocupado’, disse a Ottoline, ‘que ninguém veja o objectivo daquilo que escreve, pois não o recomenda com argumentos dirigidos a outro ponto de vista’. Quando Russell lhe disse que não devia simplesmente dizer o que pensava, e que deveria também fornecer argumentos para isso, respondeu que os argumentos estragariam a sua beleza. Que sentiria como se estivesse a sujar uma flor com mãos lamacentas: ‘[d]isse-lhe que não tinha coragem de dizer nada contra isso, e que seria então melhor adquirir um escravo para escrever os argumentos’.”

176 Sobre o livro como “objecto filosófico e literário”, cf. Brian McGuiness, “Wittgenstein: Philosophy and

Literature”, in Wittgenstein: The Philosopher and His Works, p. 372: “Algumas das dificuldades de interpretação resultam da insistência de que o livro deve ser literário ou filosófico, enquanto que Wittgenstein pensava que era ambos ao mesmo tempo. E de facto é bem literário na medida em que se refere a toda a hora à sua própria forma.”

Outro leitor em quem Wittgenstein depositava alguma esperança de ser compreendido, é Russell177, que o adverte da necessidade de argumentar e defender a sua posição – ao que Wittgenstein responde que não poderia acrescentar argumentos ao livro nesse sentido sob pena de lhe estragar a sua beleza.

A contenção na argumentação e a depuração da forma das observações do livro, têm a ver, de facto, não só com a partilha das convicções fundamentais de Wittgenstein, que assegurariam uma compreensão mais fácil do que escreve – questão à qual atribui sem dúvida a maior importância –, como também com a natureza do que é dito. Como houve oportunidade de notar anteriormente, as observações são como que destilações das intuições registadas em primeiro lugar nos Cadernos e nos diários (acerca da lógica, da linguagem, do mundo, do sujeito e da vontade, da ética e da estética, etc.). Possuem uma forma mais apurada, refinada ou condensada178, do que escrevia em primeiro lugar sob a forma de apontamentos: podemos dizer que no Tractatus os apontamentos transformam-se verdadeiramente em observações, em relatos de aperçus, como diz McGuiness, cuidadosamente ordenados de modo a orientar o leitor (para que o leitor possa atingir uma perspectiva justa do mundo). As observações, numeradas de maneira a tornar nítido o caminho, tornam também claros os limites da linguagem (e da expressão do pensamento). São tanto mais exactas, quanto mais próximas estiverem da intuição inicial espontânea – da

Einfall. (A exactidão é, assim, preparada nos manuscritos que servem de base ao TLP – no

TLP aquilo que temos é já mais compacto, como estamos aqui a tentar mostrar.) Essa proximidade serve assim de garantia de que o que é escrito (nas frases do Tractatus) faz a

177 Numa carta de 18.9.1919, diz Wittgenstein a Russell: “Também enviei o meu Ms a Frege. Escreveu-me há

uma semana e vejo que não percebeu uma única palavra daquilo tudo. Por isso a minha única esperança é ver-te em breve e explicar-te tudo, pois é muito difícil não ser compreendido por uma única alma!” GBW

178

‘Condensada’ sendo, provavelmente, a melhor palavra das três (por isso a ajuda dos textos nos quais Wittgenstein apontava primeiro os seus pensamentos e discorria sobre eles é, com efeito, uma ajuda preciosa para compreendermos o que no TLP é apresentado mais concisamente). Um comentário que Wittgenstein faz mais tarde ao seu antigo aluno e amigo Maurice Drury, acerca do seu estilo e das suas frases no Tractatus, esclarece o que estamos aqui a sugerir: “Broad tinha mesmo razão quando disse do Tractatus que era muito sincopado. Cada frase no Tractatus deveria ser vista como o título de um capítulo, a precisar de mais exposição. O meu estilo presente é muito diferente; estou a tentar evitar esse erro.” in Maurice O’C. Drury, “Conversations with Wittgenstein”, p. 159. (Esta conversa é de 1949.) [Sobre o que Broad disse do Tractatus, cf. Brian McGuiness, “Introduction”, in Wittgenstein in Cambridge: Letters and Documents 1911-1951, Brian McGuiness (ed.), Blackwell Publishing, Oxford, 4th ed., 2008, p. 4: “depois da guerra, eles [Russell, Keynes, Moore] ficaram felizes por ‘dançaram ao som extremamente sincopado da flauta de Herr Wittgenstein’ (como disse C. D. Broad).” McGuiness cita Broad para rematar o que diz acerca do que Wittgenstein alcançara com o seu

Tractatus: desde, “reparar a lógica de Russell, lidar com a probabilidade de Keynes em dois ou três parágrafos, a

mostrar que não pode haver proposições da ética” (no que respeita a Moore); tudo num pequeno livro. McGuiness diz então que talvez isto fosse o que esperavam de Wittgenstein, e acrescenta o comentário de Broad.]

maior justiça possível à natureza do que se descreve, garantindo ao mesmo tempo que isso mesmo não corresponde a proposições de uma teoria, mas a momentos de clareza genuína.179 Enquanto tal, o estilo de Wittgenstein torna-se equivalente a método filosófico, pois é mediante a atenção à forma com a qual apresenta e expressa os seus pensamentos, que pretende tornar nítidas a quem o lê, aquelas intuições que, na verdade, têm o valor de evidências. A forma do livro deve conseguir, com o recurso ao mínimo de palavras, que quem o leia adopte a perspectiva certa (em bom rigor, a perspectiva que o mundo dos factos parece requerer, se estivermos interessados em superar a incompreensão da lógica da linguagem e as ilusões às quais esta nos prende). Deve conseguir esclarecer a essência da proposição – fundamental para a compreensão da diferença entre dizer e mostrar – e bem assim tornar viável a filosofia enquanto actividade de elucidação e de crítica da linguagem (pois apresenta ainda o instrumento para tal: a sintaxe lógica).

Cabe agora ver como a delimitação da linguagem com sentido, do dizível no qual se manifesta o indizível, conduz ao lugar a partir do qual se vê o mundo a direito – lugar esse a partir do qual se compreende porque é que deve guardar-se silêncio acerca daquilo de que não se pode falar.

Delineou-se já aquele que seria o método filosófico estritamente correcto, de acordo com o Tractatus e com o entendimento da natureza da filosofia enquanto actividade: falar apenas quando alguém tenta dizer algo metafísico, demonstrando-lhe que nas suas proposições há sinais aos quais não foi atribuído significado. Ao fazê-lo chamou-se, porém, a atenção para o seguinte: a tarefa de clarificação, embora parecesse frustrante àquele a quem se mostra a falta de sentido daquilo que diz, instituiria a possibilidade de compreensão. Especificamente, a compreensão de que a linguagem com sentido pode apenas reportar-se a factos e a nada do que é mais elevado. Graças a esta compreensão, é deixada em aberto a possibilidade de exercitar o olhar a partir de uma nova compreensão da lógica da linguagem – de um ponto de vista renovado, a partir do qual a contemplação atenta do mundo pode instaurar-se. Assim, enquanto actividade de clarificação lógica do pensamento, a filosofia abre caminho a si própria enquanto actividade contemplativa.

179 Posto isto, compreender é bem equivalente a ver alguma coisa que até então estava oculta e, como tal, só pode

beneficiar de uma nova posição a partir da qual se vê o mundo a direito, quer dizer, a partir da qual se tem uma vista desimpedida.

Que o Tractatus seja um “feito ético” e estético, tornar-se-á mais evidente através da consideração da afirmação de que a “ética e a estética são uma”. No entanto, por agora, vale a pena explorar de que forma, a partir da consideração da simplicidade do caso individual (a que se fez referência no âmbito da reflexão acerca do lugar lógico), o Tractatus volta o nosso olhar, a nossa percepção, para o que por si, sozinho, pode esclarecer-nos acerca da essência do mundo.

Tentou já mostrar-se que a determinação, por parte da proposição elementar, de apenas um lugar lógico (i.e., de uma possibilidade de existência), não impede no entanto o facto de que todo o espaço lógico é já dado por ela, uma vez que todas as suas possibilidades combinatórias estão já determinadas – determinando em consequência disso como tudo se associa numa rede de fineza infinita para formar um “grande espelho”. A simplicidade desse caso individual, da proposição elementar, funda assim a oportunidade de alcançar todo o espaço lógico. Através da atenção ao particular, pode então vislumbrar-se, a partir do concreto, o mundo todo, como pano de fundo e enquanto espaço de possibilidade de actualização daquelas combinações permitidas180.

(A contemplação da forma lógica – do mais simples – acaba assim por ganhar profundidade e tem contornos que serão capazes de nos ajudar a compreender o que é uma visão sub specie aeterni – de igual modo, tem afinidade com a caracterização da contemplação estética, que é a pedra-de-toque daquela visão. Veremos em que consistem ambas mais à frente.)

A boa notação simbólica permite descortinar a lógica da linguagem, e, assim, ver como tudo se relaciona. É o reflexo, ou imagem especular de todas as combinações possíveis. A apreensão ou percepção, em cada representação de um facto – em cada imagem de um certo estado de coisas – da forma lógica, permite a sua consideração atenta, enquanto possibilidade de estrutura. Essa imagem é um quadro vivo (lebendes Bild) que apresenta as relações internas de representação pictórica, e permite a concentração da atenção na situação aí apresentada, tornando assim possível uma pausa no fluxo contínuo das representações e a apreciação do modo como os elementos da imagem se ligam entre si “como os elementos de

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Este alargamento do nosso campo de visão até ao máximo das possibilidades combinatórias possíveis (fixas através das propriedades internas do objecto), irá auxiliar-nos a compreender o que significa o sujeito ficar