• No results found

No item 3.1.3, tratamos do processo de remissão a outro discurso, sendo este uma variação do discurso didático-pedagógico, visível em conseqüência do posicionamento defendido pelo formando diante da situação em que se encontrava. Ele era estudante de Letras, estava sendo examinado, a questão que o interpelava continha um texto escolar produzido por uma criança, entre outras coisas.

Neste item, o posicionamento do formando é observado por meio da remissão ao léxico, que instaura o sexto ponto de heterogeneidade tematizado na presente pesquisa, revelando, pela primeira vez neste trabalho, sua(s) filiação(ções) discursiva(s).

Após uma observação inicial realizada no corpus, notamos que, embora a questão do ENC/Letras/2001 oriente o formando a se apoiar em “noções lingüísticas”, muitos termos empregados por ele remetem a áreas diversas, tais como: a Psicanálise, a Matemática, a Literatura, a Oratória, a própria Lingüística e, sobretudo, como veremos a seguir, a Gramática Tradicional.

Em função da construção da pergunta do exame ser voltada à área de Lingüística e Língua Portuguesa e em função da predominância de vocábulos advindos dessas duas últimas áreas (Lingüística e Gramática Tradicional), contabilizamos e organizamos o seguinte quadro:

Quadro 17 – Remissão a léxico especializado

Número de ocorrências Porcentagem

464 46,08%

Essas remissões dividem-se em:

Quadro 18 – Ocorrências do léxico advindo da Lingüística e da Gramática Tradicional

Área da qual se origina o léxico Porcentagem45

Lingüística 18,97%

Gramática Tradicional 27,11%

TOTAL 46,08%

Atingindo quase a metade do total de ocorrências observadas na presente pesquisa, esse ponto de heterogeneidade distribui-se por 94 textos do corpus e suscita uma antiga (e, ao mesmo tempo, atual) polêmica ligada ao conflito entre a variação e a norma lingüística46

. A relação é conflituosa porque uma não reflete a outra. Vejamos alguns exemplos:

(54)

[...] quanto a estrutura não há uma coerencia pois pula muito, cada parágrafo repete muitas vezes.

Portanto, neste texto está faltando muita argumentação e e sequência, não há ponto chave e contextualidade.

Todo texto necessita de uma composição que os parágrafos possam está enserido no contexto, dando ao leitor uma ênfase ao entender.

[...] Na verdade era preciso mais encorporação diante do discurso, onde cada parágrafo teria que dar uma sequencia e assim sucessivamente.

(55)

[...]

Supressão dos termos “sua esposa”, “quando eles” e “Quando eles de repente” por não trazerem referenciais no texto e por trazerem conotações errôneas ao leitor pois podem remeter a referencial diverso daquele proposto no texto, fugindo das variações linguísticas reconhecidas e do contexto social/cultural proposto.

Tanto em (54) quanto em (55), o léxico, como coerencia, contextualidade, contexto, discurso, referenciais, conotações, referencial, variações lingüísticas e contexto social/cultural, empregado pelo formando em Letras advém, grosso modo, da Lingüística.

Nos dois exemplos abaixo47

, os termos empregados pertencem à área da Gramática Tradicional, ainda que o formando tenha sido guiado pelo enunciado da questão do exame a utilizar conceitos lingüísticos para produzir sua resposta.

(56)

[...]

1ª solução: retirar os pronomes que estão em excesso (eles) porque apresentam redundância quando estão colocados próximos em um texto;

46 Sobre norma gramatical, cf. Bagno, 2001.

47 O exemplo (56) é idêntico ao exemplo (7), visto na p. 67. Todavia, embora haja outros textos para ilustrar a presença de um léxico vinculado à Gramática Tradicional, ele foi retomado aqui devido ao seu caráter essencialmente gramatical. Ou seja, foi retomado com outros fins.

2ª solução: utilizar um outro elemento de ligação entre as duas orações, no caso, a conjunção (portanto) ou até mesmo poderia ser a conjunção (então) que significa o motivo que levou-os à fazer determinada ação;

3ª solução: trocar a ordem sintática dos elementos: no texto está explícito a seguinte ordem: com uma patada só, um caranguejo gigante = (sujeito), atacou = (verbo); os = (objeto direto), mas o ideal seria usar na seguinte ordem: sujeito (um caranguejo gigante); verbo (atacou); objeto (os); adj. adv. modo (com uma só patada).

As conjunções devem ser utilizadas para expressar os objetivos de uma ação: portanto (conseqüência).

(57)

[...] Justificativas: 1º Omitir o pronome pessoal “eles”, flexionando os verbos para a 3º pessoa, já que o sujeito da oração é indeterminado; 2º Utilizar a partícula aditiva “e” para continuar a mensagem num período composto. 3º Utilizar-se de vírgulas para introduzir os vocativos, como, por exemplo:..., com uma só patada”.

Nestes dois exemplos, podemos notar como o campo da Gramática Tradicional é presente no texto do aluno de Letras. Parece haver uma necessidade do formando em mostrar ao corretor do ENC/Letras/2001 que domina um processo de categorização sedimentado desde o ensino fundamental.

Já no exemplo abaixo, os vocábulos referentes à Lingüística se imbricam aos da Gramática Tradicional, revelando novamente o aspecto heterogêneo do discurso.

(58)

O segundo parágrafo apresenta falhas quanto a coesão e coerência. As frases não possuem contigüidade, o que dificulta a compreensão da mensagem passada pelo parágrafo.

O primeiro aspecto a ser retomado para que possamos tentar solucionar os problemas é a questão das formas remiscivas não-referenciais livres: “eles”. [...] Além do que o pronome “eles” se repete muitas vezes, sendo que poderia ser substituído por anafóricos e catafóricos.

O segundo aspecto é a organização das orações. Falta coerência. As ações descritas nos períodos são confusas, como no 1º (primeiro) período do 2º (segundo) parágrafo. Sente-se um sentido incompleto.

O terceiro aspecto é o uso inadequado de expressões “quando”, “que” além da constante repetição destes no parágrafo. Isso encobre o sentido.

É claro o trabalho que o formando faz com o(s) outro(s) discurso(s) diferente(s) do(s) da Gramática Tradicional.

Por meio desses exemplos e da teoria sobre a heterogeneidade enunciativa constitutiva, podemos depreender claramente que ou a filiação acadêmica do estudante em Letras se baseou na Lingüística, ou na Gramática Tradicional, ou em ambas. Entretanto, quando afirmamos que a filiação teórica do formando se fundamenta em ambas, ressaltamos que as negociações que o sujeito faz com os discursos de uma e de outra área nos leva a crer que seu posicionamento refuta superficialmente a Gramática Tradicional. Há, entretanto, exemplos como (58), em que é perceptível o trabalho que o formando faz com o(s) outro(s) discurso(s) diferentes da Gramática Tradicional.