Novos rumos começam a ser percorridos pelos jornais. Para além do conjunto de factores acima apontados, a disseminação deste meio de comunicação não ficou apenas a dever-se à redução de custos de produção, ao aumento de leitores e de transmissão de valores e ideais políticos, culturais ou sociais.
A importância desta ferramenta, em termos sociais, políticos, económicos, na sua efectiva capacidade transformadora do pensar social, vai levar a que despontem jornais um pouco por todo o lado. “O surgimento da imprensa de opinião no século XVIII e a emergência da imprensa comercial e de massas nas últimas décadas do século XIX provocaram, obviamente, uma profunda alteração nas relações pessoais e sociais, na vida privada e pública.”72
Surge neste sentido uma grande diversidade de jornais. Esta forma de comunicação passa agora a ganhar presença em diversos campos. Aquele que mais interessa a este trabalho é precisamente o da Imprensa Regional e Local. Desta forma, a presença de jornais e de publicações noticiosas deixou de ser um exclusivo das grandes cidades e passa a ser quase obrigatória em, pelo menos, todas as capitais de distrito.
O interior de Portugal não é excepção e começam a ser produzidos, nas capitais de distrito, os primeiros títulos. Com uma forte ligação à terra, este tipo de publicações retratava os episódios locais, as necessidades e aspirações dos diferentes territórios. No caso da Beira Interior, assumia-se também como amplificador de todas as vontades das gentes beirãs. Que mais não seja, um dos sinais evidentes desta ligação quase umbilical pode ser constatado, nos diversos títulos das publicações. A maior parte destes diz respeito à região, à cidade onde os jornais têm a sua origem. Regina Gouveia garante que “na Beira, a primeira tentativa de lançamento de um periódico ficou documentada no Sentinela da Liberdade, publicado na cidade de Castelo Branco em 19 de Dezembro de 1846 (número único), com o objectivo de defender a Junta do Porto e divulgar o seu
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43 programa. Só em 1864 surgiram outros títulos no mesmo distrito: O Comércio da Covilhã, que circulou desde 27 de Agosto naquela ainda vila notável, como «aliado do partido clerical covilhanense», até 13 de Maio de 1865; e A Estrela da Beira, publicado em Alpedrinha de 31 de Agosto a 25 de Maio de 1864. No Fundão, o primeiro jornal, O Apóstolo da Verdade, surgiu a 26 de Maio de 1870, por iniciativa de um boticário espanhol que aí vivia, Francisco António Alburnau de Puga, e circulou como folha literária e noticiosa até 28 de Julho de 1871.”73
No campo político, como não podia deixar de ser, os jornais eram vistos como peça fundamental para propagação de opiniões. Num estilo vincadamente opinativo, os jornais regionais da época continuavam a manter um certo “romantismo” que era agora colocado de lado pelas publicações de maior envergadura, as quais começavam a ganhar contornos de verdadeira indústria e a tornarem-se cada vez mais anónimas. Muitos destes surgem pelas mãos de políticos, transformam-se nas suas vozes, mas também através de sindicatos, da Igreja, de associações e outras entidades. Todas as facções políticas promovem a criação de jornais ou apoiam um determinado título. Estavam lançadas as duas principais áreas de fomento dos periódicos, a política e a Igreja.
A capacidade de mobilização conseguida através deste canal depressa foi aproveitada, não só pela classe política, mas também pelo conjunto de agentes sociais que compõem uma região, para desta maneira fazerem valer as suas pretensões, agruparem as vontades dos seus membros e delinear o seu território de forma efectiva, com os traços característicos de um espaço. Esta habilidade, este poder de fazer chegar as opiniões de alguns a muitos é descrita da seguinte forma por Regina Gouveia: “a imprensa prolongava e ampliava a influência que tinham como actores políticos e pregadores determinados que se entregavam de forma apaixonada às questões da política, tornando-se credores de atenção pelo estatuto social que possuíam e/ou pelo vigor e eloquência dos seus discursos.”74
A imprensa beirã começa assim também a despertar devido a toda a efervescência social. A grande utilidade deste meio fica, ainda assim, condicionada pelo facto de grande parte da população não possuir conhecimentos suficientes para a sua leitura, nem, mesmo quando o preço dos jornais se mostrava muito mais baixo que em épocas anteriores, terem a capacidade financeira de adquirir este produto.
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Idem, página 28.
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44 Figura 1 – A elaboração de um jornal começava a ser mais acessível no início do século XX
Todavia, há que fazer a ressalva no que respeita à leitura do jornal em espaços públicos, ou locais de convívio. Este começa por ser um ponto efectivo na vida das comunidades. Procedimentos que recriavam, ainda que em pequenos moldes, o conceito de esfera pública burguesa de Habermas, descrito por Catarina Rodrigues, como “espaço homogéneo onde as pessoas utilizam a razão para a troca de argumentos e ideias.”75 Também nestes círculos os jornais eram agora o veículo de transmissão de novidades. Ainda que, este tipo de comunicação tivesse apenas um sentido, isto é, quem os dominava, quem tinha a capacidade e a oratória de amplificar as suas vozes e vontades, conseguia que estas fossem transmitidas até ao grupo. Tudo fruto das novas capacidades técnicas e do clima mais aberto para as publicações. Como lembra Catarina
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RODRIGUES, Catarina; Blogs e a fragmentação do espaço público; Universidade da Beira Interior; 2006; Covilhã; página 12.
45 Rodrigues, “a alteração tecnológica foi uma das causas que contribuiu para uma mudança radical do espaço público.”76
Mas os receptores, esses, ouviam e quando muito poderiam discutir entre si, sem ter acesso a esse espaço de papel que desenhava o mundo ao gosto do autor ou proprietário. Regina Gouveia explica que “numa época em que o analfabetismo atingia a maioria dos portugueses, os dinamizadores e primeiros responsáveis por toda a influência política que conduziu ao derrube da Monarquia e à implantação da República foram membros pertencentes a certas elites – profissionais liberais, como médicos e advogados, trabalhadores qualificados das indústrias e comerciantes, entre outros. Estes líderes terão conseguido mobilizar operários, criar e desenvolver espaços públicos de partilha e discussão sobre questões políticas, terão, enfim, liderado a formação de verdadeiros cidadãos, entendidos como politicamente conscientes, interessados e participantes no serviço comum, vigilantes em relação ao «governo» da sociedade que integravam. Defendendo a democratização do ensino, determinante para a consciencialização política, eles procuraram também, através da imprensa, emancipar intelectualmente as massas.”77 Conseguiram isso também com a ajuda da Imprensa.
Mas a importância da Imprensa beirã vai mais além do mundo político. Nas folhas dos jornais que começam a circular em maior número nas zonas interiores de um país com desenvolvimento bicéfalo, tratam também das problemáticas sentidas por estas gentes: a falta de condições de acesso à capital, os problemas com a agricultura, o pouco desenvolvimento do comércio, entre outras temáticas. Contudo, estavam lançados estes novos instrumentos de comunicação, como atesta Regina Gouveia quando diz que “não obstante o facto de a Beira se caracterizar pela interioridade, pelo afastamento em relação aos principais centros político-culturais e pelo evidente atraso em termos de alfabetização – as percentagens de analfabetos nela registadas mantiveram-se significativamente superiores às registadas no Continente durante as primeiras décadas do século passado –, e apesar de os distritos que a compõem serem referidos como os mais pobres de Portugal em termos de Imprensa periódica, o certo é que até 1930 foram aqui postas a circular mais de três centenas e meia de publicações periódicas (boletins,
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Idem, página 19.
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GOUVEIA, Maria Regina Gomes; A interacção entre o universo político e o campo da comunicação –
46 jornais e revistas) e muitas das personalidades que lhes deram existência chegaram a desempenhar cargos políticos relevantes a nível nacional.”78
Era uma Imprensa muito peculiar. Enquanto os jornais da capital, com abrangência nacional tentavam, de alguma forma, manter uma postura apolítica, as publicações regionais continuavam a estar bem ligadas aos eleitos. Mas as diferenças não se ficam por aqui, até porque se os jornais nacionais entravam agora na era da industrialização que haveria de os conduzir à utopia da objectividade, despindo de causas as suas palavras impressas a negro, os jornais regionais acabariam por continuar a ser das poucas publicações que alinhavam por uma razão, que se debatiam por um motivo, que defendiam um ideal.
Tal sucedeu muito por força da sua forma de produção e dos jornais continuarem a ser projectos pessoais ou de pequenos grupos. Os pequenos espaços públicos do Interior, estes fóruns de discussão de um território longe do centro de decisão que era Lisboa revelavam-se “jornais de situação” onde se desfiavam as listas de exigências ao poder central e se iam relatando os episódios das guerras políticas locais. Esta Imprensa, escrita em jeito de literatura, acaba carregada de opinião política e é por isso bem mais um espelho desta área, do que a face económica ou social.
Santos Pereira retrata Portugal como “um país pequeno e analfabeto, polvilhado de jornais, a redacção destes confina-se à dimensão de uma mercearia de aldeia de parcos clientes.”79 De facto, há que deixar bem claro que a Imprensa era, ainda que num período de forte expansão e crescimento, acessível apenas a grupos restritos. O analfabetismo era uma marca bastante profunda na sociedade portuguesa. Santos Pereira exemplifica com o caso de Castelo Branco, onde no início do Século XX, mais precisamente em 1904, “havia em Castelo Branco 855 crianças escolarizáveis, mas destas, apenas 200 frequentavam as quatro salas de aula existentes. Em 1908 existam já 916 crianças escolarizáveis para cinco salas de aula que eram frequentadas apenas por 287 crianças.”80
Mas nada destes números pareciam importar aos representantes do povo. A classe política, os professores, intelectuais, a nova burguesia; mas também monárquicos, conservadores, e como não poderia deixar de ser, Igreja, acabavam por ditar as opiniões.
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Idem
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PEREIRA, António Santos; “O Parlamento e a Imprensa Periódica Beirã em tempos de crise (1851-
1926)”; Colecção Parlamento, Edições Afrontamento, 2002, Assembleia da República, Lisboa, página 15.
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47 Construíam as suas opiniões, passavam a voz e a ideia na Imprensa de forte cariz opinativo, esgrimiam argumentos a favor ou contra os regimes, neste caso o monárquico e o republicano, o poder central ou o poder local, os partidos de direita ou os de esquerda, mas acabavam por esquecer quem não podia nem sabia ler. “Parecia querer ignorar-se que o analfabetismo excluía a maioria do povo português da participação política e a atitude cívica exigia um posicionamento ético frequentemente esquecido pelos participantes e agentes da opinião pública, virada esta, paradoxalmente, para dentro das estruturas partidárias, demasiado centralistas, pouco adiantando aos antigos processos nos momentos de decisão”, descreve Santos Pereira.81
Salvaguarde-se para esta mesma imprensa o facto de começar a ganhar, independentemente destes condicionalismos, um papel vital no que diz respeito a diversas matérias da vivência comum. É nas páginas destes jornais, se a análise for feita fora do campo político, que se podem ver as lutas e as reivindicações por melhores estradas, pelos caminhos-de-ferro, saneamento e luz eléctrica, apoio à agricultura e melhorias na saúde. Tantas e tantas causas às quais se podem juntar as condições de trabalho, os salários, o abastecimento de água e as habitações sociais. O conteúdo dos jornais regionais começa também a desenhar-se nestas matérias, que os irão diferenciar de tudo o resto.
A proximidade, o retrato do quotidiano e a capacidade de reclamar para o território de origem as exigências das populações fez com que os jornais regionais se tornassem publicações bastante aceites e importantes no seio das suas comunidades.
Mas para além disso, a imprensa regional começa também a ganhar destaque em relação aos jornais nacionais, pelo seu conteúdo próximo, por ser aqui que os membros da comunidade tinham lugar para fazer ouvir a sua opinião, mas também para mostrar as suas vivências.
Estes meios, bastante politizados, recorde-se, serviam de trampolim aos que ambicionavam cargos políticos. O percurso dos eleitos, daqueles que compõem a classe política “representativa” do povo, começava nos jornais, quer na produção destes, quer na elaboração de textos opinativos que compunham as suas páginas. São muitos os académicos que nos seus estudos fazem referência a esta estreita ligação entre políticos
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48 e jornalistas.82 Já nessa altura, os primeiros compreendiam que eram os jornalistas a desenhar o caminho das opiniões gerais, através das notícias que redigiam. Era nos periódicos que se iniciam as principais discussões da vida colectiva, se informavam os populares e se formavam as orientações.
Mas a Imprensa Regional acaba por ganhar também outros contornos. Para além do seu aspecto político, que a acompanha sempre, este meio tem em si um forte componente local. As informações de proximidade, relativas ao seu território são a sua razão de ser. Um aspecto que Santos Pereira descreve da seguinte maneira: “com efeito, a viagem e a doença passam tanto pelo jornal afecto como pelo da oposição em linguagem escorreita.”83 Estamos pois perante o grande feito deste tipo de medium. Uma Imprensa cujo campo de actuação está bem delimitado pelo seu público, pelos seus leitores, os quais procuram nesta as suas notícias, que falem dos seus problemas, das suas terras, das suas gentes. Na génese destas publicações está uma ligação estreita ao seu público e ao seu local. Santos Pereira fala, aquando do dealbar desta Imprensa, na “descoberta do diálogo interactivo, a imprensa periódica, no período republicano, acentua a importância do destinatário, do leitor, na feitura dos jornais e destes na formação de uma opinião pública esclarecida.”84
A Imprensa Regional, que no estudo em apreço incide sobre a região da Beira Interior, acaba por desempenhar um papel de extrema relevância na melhoria das condições de vida das populações dos distritos de Castelo Branco e Guarda. É através das páginas dos jornais que aqui começam a aparecer e acabam por continuar até aos nossos dias, que se reclamam muitas das estruturas necessárias para a sobrevivência das populações e para o desenvolvimento das regiões, em termos culturais, cívicos, económicos, académicos e outros.
Há também a assinalar, na análise histórica da Imprensa Regional, o facto de muitos dos projectos apresentarem um período de vida curto. Uma situação que se verificava sobretudo no início do século XX, quando os projectos locais começaram a florescer, mas que ainda hoje não é rara. “Efectivamente, no distrito de Castelo Branco,
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António dos Santos Pereira descreve um episódio bastante ilustrativo desta ligação quando diz que: “Os parlamentares mais atentos fazem tudo para manter uma relação íntima com os jornais que os suportam nos círculos de origem. Quando descia da Guarda a Lisboa, ou daqui regressa a sua casa em Santo Estêvão, o deputado Teles de Vasconcelos visitava sempre a redacção da Gazeta da Beira” (Pereira, António Santos; “O Parlamento e a Imprensa Periódica Beirã em tempos de crise (1851-1926)”; Colecção Parlamento, Edições Afrontamento, 2002, Assembleia da República, Lisboa; página 16).
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Idem, página 50.
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49 dos cerca de 223 periódicos criados até 1930, apenas 19% (43) terão circulado durante mais de três anos, enquanto, no da Guarda, foram cerca de 20% (27 em 133) os que excederam esse tempo de vigência”, diz Regina Gouveia.85 Ainda que os custos de produção tivessem sido reduzidos, ainda que o número de leitores tivesse aumentado, bem como a importância e circulação dos jornais, estes projectos continuavam a debater-se com um assinalável conjunto de adversidades. As questões financeiras, as restrições políticas e vicissitudes económicas levavam ao desaparecimento de um grande número de títulos. Acabavam por ficar aqueles que estavam baseados em partidos, associações ou outras entidades com algum vulto e capacidade económica.
Dois grandes suportes deste tipo de imprensa, como temos vindo a referir, eram pois os partidos políticos republicanos, defensores das teorias liberais e, por outro lado, a Igreja e os movimentos mais conservadores e monárquicos. “A imprensa reflectia, obviamente, a conflitualidade tradição/modernismo, coexistindo jornais, quer progressistas, quer regeneradores, que defendiam e que atacavam o clericalismo”, diz Regina Gouveia.86
Passada toda esta fase de instalação, os primeiros anos do Século XX, aquele que em pouco mais de uma década trazia ao mundo um conflito bélico nunca antes visto, a Primeira Guerra Mundial, a imprensa regional estava instalada nas suas áreas e começava a ganhar terreno em relação aos jornais nacionais. As suas páginas acolhiam as realidades locais, retratadas à medida territorial e serviam de rosto a um público muito bem delimitado. As suas aspirações, os seus sonhos, os desalentos e frustrações, enformavam grande parte do conteúdo destes jornais. A política local, os “actores” mais chegados e toda uma descrição de uma esfera pública próxima levam a que estas publicações sejam instrumentos pragmáticos na construção social de uma realidade muito própria.
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GOUVEIA, Maria Regina Gomes; A interacção entre o universo político e o campo da comunicação –
A imprensa e as elites beirãs (1900-1930); Universidade da Beira Interior; Covilhã; página 24.
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