Tendo em vista o objetivo geral desta pesquisa entendemos que a abordagem qualitativa aplicada ao uso do procedimento de análise documental constitui-se no caminho metodológico mais adequado para realização das análises requeridas para desenvolvimento do tema em pauta “Políticas Públicas para o Ensino de História: Legislação e o Currículo na Cidade de São Paulo”.
A abordagem qualitativa apresenta-se relevante para estudos sobre Educação, em especial para tratar de questões que versam sobre políticas públicas nesta área. Um de seus principais predicados constitui-se em desvendar significados visíveis ou não de objetos de pesquisa que se identificam com o presente estudo. Em seu texto “A pesquisa em ciências humanas e sociais: evolução e desafios”, Chizzotti (2003) explicita conceitualmente essas interpretações:
O termo qualitativo implica uma partilha densa com pessoas, fatos e locais que constituem objetos de pesquisa, para extrair desse convívio os significados visíveis e latentes que somente são perceptíveis a uma atenção sensível e, após esse tirocínio, o autor interpreta e traduz em um texto, zelosamente escrito, com perspicácia e competência científica, os significados patentes e ocultos do seu objeto de pesquisa. (CHIZZOTTI, 2006, p. 221).
A área de abrangência da pesquisa qualitativa inclui essencialmente fenômenos pertinentes às Ciências Humanas e Sociais e abarca vários métodos de investigação, sendo amplamente utilizada por sua propriedade metodológica facilitadora da construção de conhecimentos acerca de objetos de investigação desta natureza.
Chizzotti (2006) contempla em suas análises os significados que historicamente caracterizaram a pesquisa qualitativa ao delimitar cinco marcos: o primeiro, situado no início do século XIX, amplamente influenciado pelo positivismo de caráter classificatório; o segundo que ocorre a partir da primeira metade do século XX, com o profissionalismo da pesquisa e uma grande preocupação em saber como vivem os seres humanos; o terceiro, após a Segunda Guerra Mundial até a década de 70 com o questionamento do Positivismo e do modelo único para a
66 pesquisa; o quarto, entre as décadas de 70 e 80, do século XX, que marca principalmente a crítica às certezas e o surgimento de novos paradigmas com uma preocupação de unir as ciências humanas e sociais; e finalmente o quinto marco localizado no final da década de 90, do século XX, influenciado principalmente pelo Neoliberalismo e a preocupação das pesquisas com a realidade social.
Localizada nessa dimensão mais recente, a pesquisa qualitativa se apresenta como alternativa metodologicamente favorável à expansão da construção de conhecimentos relativos a temas pertinentes à área das Ciências Humanas, nos quais se inclui o presente estudo, de modo a expressar os compromissos sociais da pesquisa, garantindo a requerida objetividade da produção científica.
[...] Cresce, porém, a consciência e o compromisso de que a pesquisa é uma prática válida e necessária na construção solidária da vida social, e os pesquisadores que optarem pela pesquisa qualitativa, ao se decidirem pela descoberta de novas vias investigativas, não pretenderam, nem pretendem furtar-se ao rigor e à objetividade, mas reconhecem que a experiência humana não pode ser confinada aos métodos nomotéticos de analisá-la e descrevê-la. (CHIZZOTTI, 2006 p. 232)
A opção metodológica desta pesquisa se respalda na importância de se
observar que a análise dos dados e sua interpretação devem se preocupar com o contexto e não apenas com aspectos quantitativos. Estas características se justificam, já que os documentos analisados foram escritos em momentos históricos distintos, ou seja, os PCNs surgem no final da década de 90 do século XX, as OCs, tem sua formulação datada do final da primeira década do Século XXI e as Diretrizes Curriculares Nacionais da segunda década deste mesmo século. Esta análise é fundamental já que os documentos citados são, até o presente momento, os veios que definem o currículo para a disciplina de História na Cidade de São Paulo. A escolha pela abordagem qualitativa se reafirma por sua conotação conceitual e por constituir-se, segundo Abramowicz (1996), como um modelo dialético de análise que identifica as várias facetas de um objeto de pesquisa, com a preocupação em capturar diferentes perspectivas e compreender os fenômenos na sua concretude.
A pesquisa qualitativa na área educacional privilegia a imprevisibilidade e foge da moldura tecnicista. Porém não podemos desprezar por completo a análise dos números, pois estes reforçam e ou complementam os argumentos explicativos.
67 Portanto, é necessário reconhecer as especificidades das diferentes abordagens investigativas e as suas contribuições.
Acreditamos ser falsa essa divisão já que não encontra fundamento nas raízes epistemológicas que originam as duas posições. Não podemos entender duas abordagens estanques contrapondo quantidade e qualidade [...] (ABRAMOWICZ, 1996, p. 58).
A presente pesquisa busca de forma direta as fontes de dados, já que se propõe, conforme mencionado anteriormente, analisar os documentos considerados como veios da legislação, o que se configura em mais um indicador para a utilização da pesquisa qualitativa. Além desta característica LUDKE & ANDRE (1986) ressaltam como contribuição desta abordagem o fato de propiciar a descrição dos dados, a preocupação com o processo e o significado que os pesquisadores dão aos dados obtidos, atributos igualmente preponderantes para a nossa escolha.
Os fenômenos da educação devem ser compreendidos a partir da contextualização histórica Assim, cabe destacar a importância de se entender o este processo na sua amplitude e complexidade, não apenas descrevê-lo, como afirma MINAYO (2002):
[...] o fenômeno ou processo social tem que ser entendido nas suas determinações e transformações dadas pelos sujeitos. Compreende uma relação intrínseca de oposição e complementaridade entre o mundo natural e social, entre o pensamento e a base material. Advoga também a necessidade de se trabalhar com a complexidade, com a especificidade e com as diferenciações que os problemas e/ou “objetos sociais” apresentam. (MINAYO, 2002, p. 25).
Os argumentos expostos reforçam a justificativa da escolha da abordagem qualitativa para esta pesquisa, de modo a sustentar metodológicamente as análises dos documentos que versam sobre a educação, e se remetem a um contexto social, político e econômico diferenciado. Além disso, não podemos deixar de considerar que esta abordagem contesta a neutralidade científica do discurso positivista ao admitir também que o pesquisador está inserido no contexto de pesquisa, ou seja, faz parte, vive, não apenas observa.