Com relação aos aspectos relacionados à trajetória da internacionalização dos programas pioneiros de doutorado e mestrado em Administração no Brasil nas últimas décadas, a análise das entrevistas de E1, E7, E10 e E15 aponta que o processo de internacionalização dos programas stricto sensu em Administração vem experimentando uma mescla de três momentos evolutivos no Brasil.
Com os programas pioneiros de formação em Administração, nos anos de 1970 e de 1980, tem-se também um primeiro momento de internacionalização de alguns poucos cursos. Esses programas reproduziam e aplicavam a epistemologia e a ontologia dos países centrais. Outra característica é que, como a Administração estava nascendo no Brasil, ainda não havia um corpo docente de administradores formados no país para trabalhar nesses cursos. Assim, os primeiros programas eram ministrados por acadêmicos de outras áreas e que não possuíam
formação original em Administração.
[…] e a gente tem que entender que muitos desses programas foram formados por pessoas que não eram da área da Administração. Eram engenheiros, psicólogos, educadores e pessoas de fora da área de administração. (E10)
Os coordenadores optaram por usar como diretrizes para a criação de seus cursos de pós-graduação vários manuais estrangeiros, criando programas que reaplicavam essa epistemologia. Ou seja, esses programas foram estabelecidos em uma perspectiva de reprodução de conhecimento dos países do hemisfério norte. Isso pode ser caracterizado como um processo rudimentar de internacionalização de fora para dentro. Nesse contexto, há uma metodologia de adoção dos referenciais e da temática do hemisfério norte, mais especificamente dos países anglo-saxões, presentes nos primeiros programas stricto sensu em Administração e nas pesquisas que estes produziram durante essa fase. A internacionalização é vista, assim, como um construto eurocêntico-ocidental, e talvez esteja aí a origem de uma distorção ontológica e epistemológica dos fundamentos do que seria uma genuína internacionalização do saber científico, caracterizada por um processo de mão dupla, ou seja, de internacionalização de fora para dentro, concomitantemente à de dentro para fora. A internacionalização genuína se traduz em um movimento global que ocorre em várias esferas, influencia e é também influenciada por outras culturas e outras ciências.
Todavia, segundo E10, essa primeira fase desconsiderou e silenciou grande parte da diversidade das pesquisas que tinham temáticas nacionais e latino-americanas (E10), já que a fonte inspiradora e orientadora vinha dos modelos de sistemas de ciências ocidentais dos países centrais, deixando os nacionais à margem. Ainda nesse período, alguns acadêmicos brasileiros começam a deixar do país, seja para programa de pós-doutorado, seja para estágios pós-doutorais. Eles estabelecem determinadas redes de conexão, dando continuidade e fortalecendo a estruturação de uma base de pesquisadores. A partir do final dos anos de 1980 e princípio dos de 1990, há o início da formação de acadêmicos especificamente a partir dessas redes internacionais, sobretudo, com estágios pós-doutorais. Constrói-se nesse momento um
perfil de pesquisador que tem uma experiência internacional, ainda concentrada na Europa e nos Estados Unicos e que trabalha e pesquisa com questões que são dadas pela “agenda internacional” (agenda anglo-saxã) que são trazidas ao Brasil.
Em um segundo momento, eles passaram também a ser demandados pela sociedade brasileira e pelos órgãos governamentais para o desenvolvimento de uma produção acadêmico-científica própria, que levasse em conta também as demandas nacionais e locais. Há nessa fase a tentativa de mesclar as questões do norte com as questões brasileiras e dos países periféricos. Isso possibilitou um primeiro ensaio para a criação de um ponto de inflexão, em especial nas pesquisas, a partir dos estudos organizacionais, que foi a tentativa de alguns acadêmicos, de tentar trabalhar com a cultura brasileira, nos estudos de cultura organizacional. Em segundo momento, tentaram reproblematizar a questão brasileira a partir desses estudos. Nesse processo de repoblematização conseguiu-se, de alguma maneira, dar os primeiros passos na direção da criação de uma epistemologia própria, usando os autores nacionais, ainda que de forma mesclada. Nesse momento, os acadêmicos começam a requalificar essas redes internacionais. Ou seja, as redes não se resumem mais a um processo unicamente de reprodução, mas também buscam contemplar um processo que abarcasse a produção científica da academia brasileira.
Segundo E10, tem-se, então, um terceiro momento, em que a internacionalização diz respeito à ampliação de uma comunidade de pesquisa. Se o foco da internacionalização nos anos de 1980 e de 1990 foi na formação de pesquisadores que teriam que trabalhar especificamente com questões da tradução de elementos produzidos fora do Brasil para as questões dentro do país, nos últimos dez anos, há também um foco mais específico na constituição de redes de pesquisa que apresentam uma nova perspectiva. Essa constituição de redes de pesquisa associada às exigências dos órgãos regulamentadores por maior internacionalização da área, no sentido de ter publicações de impacto internacional, é o que combina e coloca atualmente os programas de pós-graduação stricto sensu, em especial em Administração, nos termos do que vem a ser internacionalização dentro da área. É o início de um movimento que compreende que internacionalização de um programa de pós-graduação possui um significado mais amplo do que sua simples europeização, norte-americanização ou anglo-saxonismo. Busca-se, ainda que de maneira pouco expressiva, criar condições objetivas
para se construir uma base intelectual permeada pela pluralidade cultural-científica, em que se aceite a diversidade internacional na unidade e seja capaz de celebrar a unidade na diversidade. Tal missão desafia não somente a Grande Área das Ciências Sociais Aplicadas, mas também todas as outras Grandes Áreas e os três Colégios. Esses são os desafios atuais que a internacionalização dos cursos de mestrado e doutorado enfrentam não somente no Brasil, mas também nos outros países em desenvolvimento.