De acordo com a perspectiva piagetiana, todo individuo constitui um sujeito epistêmico, ou seja, um sujeito conhecedor e assimilador de objetos, porque não existe sujeito humano
que não tente dar explicações e respostas diante dos mistérios e problemas que emergem da infinita diversidade de fenômenos do mundo físico, moral, social e afetivo. Nessa linha, conhecer é uma questão de adaptação e de sobrevivência. No livro Introdução ao Método
Clínico, Juan Delval (2002) assinala que diversos achados arqueológicos revelam a necessidade dos homens de buscar explicações que dessem sentido ao que ocorria em sua volta. Essas explicações permitem estabelecer regularidades para os fenômenos naturais e os assuntos relacionados com a sua existência e evitar a angústia do aleatório e do acaso. Desde a antiguidade, os mitos de diferentes culturas sobre a origem dos animais, dos homens e da natureza são prova disso.
Ao longo do seu desenvolvimento ontogenético o ser humano é interpelado a construir conhecimentos porque o meio apresenta constantes problemas que precisam ser resolvidos. Mas cada sujeito que aparece no mundo não constrói tudo do zero. A história, característica humana diferencial em comparação com os outros animais, permite que a interação com o entorno natural e social se manifeste como resultado da dialética transmissão-construção. Este processo resulta indispensável para o desenvolvimento humano.
A concepção de sujeito pressuposto em uma teoria determina a escolha do procedimento para a coleta de dados, o tipo de análise e as categorias que se estabelecem para organizá-los. Piaget (1926/2005, p. 27) entende que “a história do desenvolvimento intelectual da criança é em grande parte a história da socialização progressiva de um pensamento individual” e que, como já foi mencionado, não se pode desconhecer as duas partes que conformam o seu pensamento: uma original da criança e outra de influência adulta. Essa noção de “influência” é diferente da “determinação” do meio que levaria à concepção de um sujeito reprodutor, tipo tábula rasa, que acumula informação e deixa intacto tudo o que lhe é transmitido do meio social. A dialética piagetiana mostra sua ênfase nessa interação entre o sujeito e o objeto que se dá no “entre” eles, e não é determinada por nenhum dos dois pólos. Há socialização, mas também há atividade do sujeito. Para entender essa concepção de sujeito é conveniente lembrar a noção piagetiana de construção. De Souza (2004a) explica que para Piaget se constrói:
o sujeito, de um lado, e o objeto, de outro, e ambos, simultaneamente. Da parte do sujeito, o autor centralizou-se nas estruturas da inteligência como forma de organização da atividade, as quais variam no decorrer da vida do indivíduo. Da parte do objeto, referiu-se às crenças, noções e conceitos que configuram o real, o mundo, o outro. (De Souza 2004a, p. 38)
Se o sujeito e o objeto se constroem mutuamente na interação, é possível indicar que a concepção de Piaget é a de um sujeito que recria, constrói e reconstrói os objetos físicos e sociais que recebe do meio e se recria a si mesmo na procura gradativa de melhores
equilíbrios, ou seja, de melhores adaptações. Piaget é enfático quando afirma que a criança não pode copiar tudo, em primeiro lugar porque sua imitação é seletiva, e em segundo lugar porque ela deforma e recria aquilo que parece copiado, porque é a ação que funciona como mediadora em suas interações com o mundo. Além disso, o sujeito ativo organiza seu pensamento a partir de uma estrutura cognitiva que se desenvolve não somente como conseqüência da pressão exterior. Para entender esses processos, Piaget cita a analogia de Stern de uma “química mental” própria da criança que lhe faz ‘digerir’ o que toma do meio (1926/2005, p. 29).
Porém, é preciso ressaltar que a criança não está em uma ilha deserta, mas em um meio social que é fator necessário, mas não suficiente para seu desenvolvimento. Piaget (ibid, pp. 28-30) define a criança como um ser “cuja principal atividade é a adaptação e que busca adaptar-se tanto ao mundo adulto que a cerca como à própria natureza”. Esse mundo adulto que exige adaptação ativa implica, entre várias questões, uma linguagem que deverá ser aprendida e que, na perspectiva piagetiana, resulta em uma “realidade opaca” para a criança, que organiza seu pensamento verbal a partir dos “esquemas de digestão mental”. Assim, esta assimila a realidade de acordo com sua estrutura mental, a qual muitas vezes provoca “deformações” dos sentidos consensuados.
O rigor das pesquisas de Piaget resulta em uma concepção de sujeito original e solidamente fundamentada. O “fator social” é necessário, mas não suficiente para explicar, por exemplo, a passagem da inteligência sensório-motora à das representações. A especificidade da sua concepção de sujeito ativo continua em destaque e longe de ambigüidades. Nas palavras do próprio autor:
(...) a Psicologia não poderia contentar-se com um salto da Neurologia para a Sociologia. O que se tem de encontrar não é apenas a explicação da ‘representação’ em geral, mas uma explicação suscetível de penetrar no próprio pormenor dos mecanismos representativos (Piaget, 1945/1975, p. 277).
Por que Piaget, formado em Biologia e Filosofia, se interessou pelos mecanismos representativos do sujeito? Uma resposta pode ser achada na obra Lógica e conhecimento
científico (1967/1980), na qual o autor explica que, independentemente do método epistemológico que se utilize, sempre é preciso recorrer à psicogênese porque além da validade formal, a epistemologia se ocupa das relações de conhecimento que se estabelecem entre o sujeito e os objetos. Por esse motivo não é possível deixar de lado os problemas relativos ao sujeito que conhece o objeto pela sua própria experiência. É fundamental entender como ele organiza a experiência e apelar aos processos psicológicos que comportam uma dimensão genética, os quais resultam significativos para a epistemologia. Para fugir dos
recursos especulativos é necessário evitar consultar apenas à consciência do sujeito (via introspecção), porque, em linhas gerais, o sujeito nada sabe das estruturas gerais do pensamento. A solução oferecida por Piaget é a análise genética do desenvolvimento do pensamento do sujeito epistêmico.
A psicogênese piagetiana estuda e postula quatro formas de organizar o mundo e a si mesmo a partir de categorias (objeto, tempo, espaço e causalidade), que são construídas progressivamente. Essas quatro formas, na perspectiva do desenvolvimento de crianças e adolescentes são: o período da inteligência sensório-motora (primeiros 24 meses de vida), o período do pensamento pré-operatório (entre 2 e 7/8 anos), o período das operações concretas (entre 7/8 e 11/12 anos) e o período das operações formais (de 11/12 anos em diante). As idades são sempre aproximadas, sendo invariável, porém, a sua ordem de sucessão. Isso é muito importante porque há meios e domínios que não exigem ir além de assimilações pré- operatórias ou operatórias concretas.
Em linhas gerais, a psicogênese das estruturas mentais do pensamento constitui um processo de transformação de um estado de egocentrismo radical a uma descentração relativa. A sucessão das estruturas do pensamento é integrativa e pode ser pensada como um espiral, porque a passagem de uma forma de assimilação do mundo a outra não significa a desaparição da primeira. Cada estrutura prolonga a precedente e a reconstrói em um novo plano para incorporá-la em um nível superior de organização mental. Assim, “as estruturas de conjunto são integrativas e não se substituem umas a outras: cada uma resulta da precedente, integrando-a como estrutura subordinada, e prepara a seguinte, integrando-se antes e depois dela” (Piaget & Inhelder, 1966/1972, p. 152). Por um lado, em relação ao sujeito, a descentração é entendida como a capacidade de discriminar e coordenar, e também como função da construção de esquemas de ação. Em cada estágio o sujeito apresenta um nível de descentração superior ao precedente, mas que constitui ao mesmo tempo um nível de egocentrismo em relação ao posterior (Benbenaste, 2005). Por outro lado, a noção de objeto piagetiana é coerente com essa idéia de sujeito, que progressivamente ganha em objetividade ainda que sempre esteja interpretando os objetos. Nesse sentido, Piaget assim caracteriza o objeto:
(...) o objeto existe. Mas não se descobre suas propriedades mais que por aproximações sucessivas. É o contrário do idealismo. Aproxima-se dele sem parar, mas não o atingimos porque para atingi-lo se necessitariam sem dúvida uma infinidade de propriedades, grande número das quais nos escapam (Piaget apud Bringuier 1977/2004, p. 114).
A psicogênese piagetiana explica os níveis diversos dessas interpretações do objeto a partir de períodos diferenciados por formas de organização mental que gradativamente resultam mais objetivas. A seguir, serão apresentadas algumas características dos períodos do desenvolvimento cognitivo correspondentes às formas de organização mental dos participantes da presente pesquisa.