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Soviet Strategic Forces

O Tema 1 apresenta contribuições discursivas que traduzem parte das expectativas, frustrações e sentimentos que acompanham as pessoas que acabam se lesionando em diversas circunstâncias da vida e passam a se relacionar, compreender e conviver com uma nova dimensão corporal. O contexto da sexualidade, seja no tocante ao sexo, prazeres, desejos sexuais ou mesmo no concernente aos relacionamentos amorosos, é um espaço de inquietações e questionamentos que se projetam logo que a pessoa recebe a notícia ou mesmo constata que ficou lesionada.

É possível perceber que a sexualidade é entendida por esse coletivo como espaço de dignidade e direitos humanos, mas, e, especialmente, como materialização de tudo aquilo que pode e representa o sexo, como energia vital, empoderamento, vontade e pulsão erótica, corpo presente, laços e trocas simbólicas com o mundo e as pessoas que nos cercam. Como traduzido no DSC, é o sentimento de saber que “Pô, tô vivo véio!”; “Porra, eu tô bem”; “Porra, eu posso né véio!”.

Após sofrer um acidente, uma lesão medular, a primeira pergunta que se faz e eu fiz essas perguntas, "Nossa, e agora?”; “Será que eu consigo fazer?”; “Será que você vai vingar?”. Bate aquele lance, a gente fica ansioso né velho e a gente ficava preocupado; “Será que vou dá conta?”. Eu só ia na certeza de que iria rolar algo. Hoje pra mim chegar numa mulher véio, é difícil hein. Acho que é um bloqueio meu mesmo. Quando eu ainda era casado, que eu sofri o acidente, não tinha relação nenhuma com minha mulher. Ela achava que a gente não virava nada, entendeu? Então, tive poucas relações depois da lesão. Tive lá uma relação sexual depois da lesão, uma mina lá que ela foi minha primeira namorada cara. Já faz 22 anos que eu tô numa cadeira de roda, rolou uma ou duas vezes, se foi muito. O namoro e sexo faz falta viu véio, faz falta, faz muita falta. Até passei anos e anos sem ter relação. Além disso, eu usei aquela sonda que é aquela que, que fica permanente no canal do pênis né. Então, improvável, sem condições, na relação sexual era impossível. A maneira de viver mudou e ai uma das maneiras de viver é na parte da sexualidade, “ah, mas se faz sexo?”. Faço! E é diferente? É diferente, no modo de se impor que é o que você aprendeu quando andava né. Uma pessoa deficiente veio pra mim e falou assim, “Pô, dá mesmo!”. Mas sempre deu, você que se retranco, lógico que dá pô. É possível se relacionar, é possível dá carinho, é possível receber carinho, é possível fazer sexo com carinho gostoso. Tem lugares que você tem a sensibilidade, é onde que aloja maior foco de tesão. Cara, na primeira vez foi muito bom. Aquele dia falei assim “Pô, tô vivo véio!”. Pô, o cara se sente vivo. Você respira melhor, você fala “Porra, eu tô bem”. Quando a gente faz sexo, eu me sentia muito bem. Foi a primeira vez depois de lesado, foi uma coisa maravilhosa! Por isso, a diferença que eu vejo é a diferença das pessoas olhar com a diferença. A sexualidade é muito importante, velho, é essencial pra vive. E pra pessoa com deficiência, não deixa de ser menos importante. Dessa forma, passou a ser questão de sobrevivência, pois a sexualidade não deixou de existir na sua vida porque você fico com a deficiência. Eu não vivo sem sexualidade. É estimulante na vida do cadeirante ter uma relação sexual. Dá uma sensação de poder, “Porra, eu posso né véio!”. Estou em uma cadeira aqui mais tá legal ainda, dá pra fazer sexo. Então eu vejo assim, como uma forma de no aspecto da inclusão sexual né. As pessoas se preocupam com acessibilidade, as pessoas se preocupam com vagas, vagas de pessoas trabalhando né e não se preocupam com a sexualidade. Porque eu não me via eu, cadeirante, vivendo uma vida sem viver a vida prática na área da sexualidade. E aí vê você com uma namorada é que meio que uma forma de mostrar para as pessoas que existe a sexualidade no meio dos deficientes físicos.

Pode-se apreender, a partir do discurso desse coletivo, que a fase/período logo após a lesão, mais do que depressa, é visitada por uma infinidade de sentimentos sobre sua vida e sua existência na superfície de um novo/outro corpo. Dentre as inúmeras inseguranças que despontam nessa fase pós-traumática, o temor de não mais pode fazer sexo é o primeiro a sondá- los.

Ativista do Movimento de Vida Independente e produtor de vídeos pornô eróticos, Antonio Centeno Ruiz, lesionado em uma prática esportiva, revela que desde os primeiros dias

na U.T.I. e ao longo de todo o período de internação, sempre mantinha pensamentos sexuais. Na sala de cirurgia, durante as sessões de fisioterapia, banho, nas evacuações noturnas, repousando na cama hospitalar, no jejum, sempre pensava no sexo e em como seria o prazer depois da lesão, interpelando-se sobre como seria suas próximas ligações com outros corpos, inquietando-se impiedosamente (CENTENO ORTIZ, 2014).

Shakespeare (2003) exprime que, inicialmente, esse cenário se sustentaria a partir de modelos médicos e funcionais de interpretação. As pessoas, ao serem influenciadas por um pensamento/abordagem funcional da deficiência, consideram que a presença de limitações funcionais e/ou físicas tolhem suas possibilidades e potencialidades em face de sua vida e, nesse caso em específico, sua sexualidade. É como se as pessoas com deficiência fossem rotuladas como possuindo problemas sexuais ou uma “sexualidade deficiente” como consequência dos seus déficits físicos, corporais ou funcionais (SHAKESPEARE, 2003).

As frequentes indagações e questionamentos de outras pessoas sobre seu atual desempenho e respostas sexuais em face desse corpo com lesão, foram também presença marcante nos discursos dos participantes: “Nossa, e agora? Será que eu consigo fazer? Será que você vai vingar? Bate aquele lance, a gente fica ansioso né velho e a gente ficava preocupado. Será que vou dá conta?”. Há aqui uma possível evidência de que, para esse coletivo, a deficiência ainda seria apreendida como uma falta/falha/erro/déficit, materializada a partir de um corpo impróprio, deficiente ou lesionado.

No estudo realizado por Shakespeare (2003), uma das participantes relatou que, em uma ocasião rotineira, quando saia de prédio, uma pessoa a abordou e indagou se ela poderia fazer sexo estando em uma cadeira de rodas e, ainda, justificou sua dúvida (ou seria afirmação?), dizendo pensar assim porque ela não caminhava. Logo, sem titubear, ela respondeu, “Você caminha quando está fazendo sexo?”49 (SHAKESPEARE, 2003, p. 144, tradução nossa).

Diante dessa colocação bem humorada, descrita por Shakespeare (2003), destaca-se a urgência em prover espaços, serviços e conhecimentos que permitam desmistificar ideias preconcebidas e depreciadoras que ainda povoam o campo da sexualidade em intersecção com as diversas formatações corporais apresentadas por pessoas com deficiências físicas.

Nesse sentido, exercer a sexualidade é também exercer a nossa cidadania, nossa caminhada e respeito às vivências e experiências compartilhadas por valores morais e éticos (DENARI, 2010). Importa ressaltar, assim, que o exercício da sexualidade deve ser garantido, pois essa é uma das principais dimensões da vida humana; não pode ser esquecida ou

desconsiderada, representa a possibilidade de articular prazeres, experiências corporais e sentidos que só podem ser apreendidos em trocas afetivas, eróticas e sexuais, representando as intenções de uma verdadeira integração social (AMARAL, 1995).

Para Siebers (2012), as pessoas com deficiência clamam por uma agenda específica com itens incluindo o acesso às informações e conhecimentos sobre sexualidade, abordando necessidades sexuais e desejos como parte de serviços destinados à saúde de pessoas com deficiência e a profissionalização de cuidadores para que possam reconhecer e não negar a sexualidade e privacidade dessa coletividade.

Urge, assim, como afirma Centeno Ortiz (2014), admitir os programas e serviços relacionados à sexualidade de pessoas com deficiências como questões centrais em termos de direitos e políticas e não uma questão de segunda ordem, algo menos importante do que debates como inclusão social, trabalho ou educação. Como salientado no DSC, precisamente quando advertem que: “As pessoas se preocupam com acessibilidade, as pessoas se preocupam com vagas, vagas de pessoas trabalhando né e não se preocupam com a sexualidade.”

Skakespeare (2003) também assevera que a vida sexual e erótica deve ser considerada como uma das principais pautas dos movimentos pelos direitos das pessoas com deficiência, descontruindo o cenário histórico e social de negações e privações dos prazeres e desejos sexuais que emanam de corpos lesionados. Já que a dimensão sexual é um aspecto importante na vida de qualquer ser humano, e isso não é diferente no caso de pessoas com deficiência (MELO; BERGO, 2003).

A partir das contribuições discursivas expressas nota-se o quão esclarecidos os participantes estão no concernente à constatação de que o campo da sexualidade é antes de tudo um campo político, de trocas, relações de poder e negociações que nem sempre são amistosas.

Essa postura contribui sobremaneira para desarticular o fenômeno que Siebers (2012) denomina de “deserotização das pessoas com deficiência” e que acaba por restringir ou negar o acesso de pessoas com deficiências às práticas eróticas, experiências sexuais e relacionamentos amorosos, em particular, para aquelas pessoas ainda confinadas em instituições em que as autoridades médicas tomam decisões sobre acesso à literatura erótica, masturbação e parceiro sexual.

Como minorias sexuais, as pessoas com deficiência experimentam repressão sexual, possuindo uma pequena ou nenhuma autonomia e toleram assim, restrições legais e institucionais de suas intimidades.

Se as forças legal e institucional se organizam para inibir suas habilidades para expressar sua sexualidade, ativistas pelos direitos das pessoas com deficiência têm lutado pelo controle de seus corpos, se opondo ou resistindo às autoridades médicas em instituições, hospitais, escolas e outros espaços públicos que fazem-nas experimentar uma vida de repressão sexual, com pequeno domínio ou sem autonomia sexual, restringindo suas condutas íntimas (SIEBERS, 2012).

É mais do que tempo das pessoas com deficiências, acadêmicas ou não, ativistas/militantes ou não, como afirmam Gavério (2015a) e Centeno Ortiz (2014), descolonizarem seus corpos, assumindo o controle sobre eles e desarticulando os saberes hegemônicos da ciência médica, “pois a sexualidade não deixou de existir na sua vida porque você fico com a deficiência. Eu não vivo sem sexualidade. É estimulante na vida do cadeirante ter uma relação sexual”(trecho do DSC – Tema 1).