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In document Nr 21_2005.pdf (15.90Mb) (sider 78-87)

Enquanto sistemas complexos, dinâmicos e adaptativos, os grupos desenvolvem-se e transfiguram-se ao longo do tempo. Parece consensual a perspectiva de que todos os grupos revelam alterações ao longo do tempo (Araújo, 2011; Arrow, Poole, Henry, Wheelan & Moreland, 2004; Hare, 1992; Levine & Moreland, 1990; Wheelan & Hochberger, 1996; Wheelan, 1990, 1994), independentemente do grau de complexidade do seu funcionamento (Agazarian & Gantt, 2003; McGrath et al., 2000; McGrath, 1984).

Segundo McGrath et al. (2000) uma das características dos grupos complexos é mesmo a capacidade de adaptação que deriva da sua estrutura e do seu comportamento face ao impacto dos eventos. Logo, passa a ser importante conhecer-se e analisar o momento presente do grupo, assim como, o percurso realizado pelo mesmo. Esta perspectiva, para além de ajudar a compreensão dos grupos, alerta para o facto de os resultados de qualquer investigação que incida em equipas poder variar, devido não só ao “que” é medido e “como” tal é operacionalizado, mas, também, do “quando” é medido (Chang, Duck & Bordia, 2008). Nesta linha de entendimento, a manutenção de uma perspectiva temporal quando trabalhamos com grupos poderá promover uma compreensão mais holística do fenómeno grupal (Agazarin & Gantt, 2003; Araújo, 2011; Arrow et al., 2004; Chang et al., 2008; Dimas, 2007; McGrath et al., 2000; Miguez & Lourenço, 2001; Morgan et al; 2001; Wheelan, Davison & Tilin, 2003; Wheelan, 1990, 1994).

No seio da literatura é frequente encontrarmos referências aos trabalhos de Bales (1950), como sendo precursores nesta matéria. Este autor focou a sua atenção nos padrões de interacção que ocorrem nos pequenos grupos, sendo que os seus trabalhos possuíram um

efeito catalisador em termos do desenvolvimento de outras investigações, de diversas teorias e de vários modelos dedicados à evolução dos grupos - Modelos de Desenvolvimento Grupal. Estes modelos constituem formas de explicar e caracterizar o funcionamento grupal segundo uma perspectiva de natureza evolutiva ao longo do tempo e, concomitantemente, detalhando as características específicas de cada nível/fase do percurso evolucionista realizado pelos grupos (Oliveira, Miguez, & Lourenço, 2005).

Com base na literatura observamos a preponderância de duas concepções relacionadas com o desenvolvimento grupal: a) O processo de criação de um grupo. O desenvolvimento grupal é perspectivado como um antecedente ao momento a que se reconhece que estamos perante uma realidade designada por grupo; b) O processo de evolução do grupo (Dimas, 2007; Oliveira et al. 2005; Miguez & Lourenço, 2001; Wheelan, 1990, 1994). Nesta linha, o grupo existe e vai iniciar um processo dinâmico que visa a sua evolução, perpassando um conjunto de fases.

A maioria dos estudos, teorias e investigações realizadas, parecem enquadrar-se na segunda perspectiva, representando o desenvolvimento grupal por intermédio de fases passíveis de serem identificadas e descritas como estádios de desenvolvimento (Araújo, 2011; Brower, 1996; Buzaglo & Wheelan, 1999; Miguez & Lourenço, 2001; Wheelan, 1990, 1994), que contêm características particulares e que as distinguem mutuamente.

Mais, se nos deparamos com a existência de conceitos apoiados em modelos de desenvolvimento grupal que sugerem a existência de fases, como referimos anteriormente, também é verdade que existem abordagens que negam a existência destas. Nestas circunstâncias, define-se o desenvolvimento grupal a partir de paradigmas assentes em conceitos, como o clima de grupo ou simplesmente o período ou momento da vida grupal (Moreira, 2007).

Para caracterizar os níveis de existência de um grupo de trabalho, a multiplicidade de definições que se encontram na literatura reflectem, sobretudo, a forma como se processa o próprio desenvolvimento grupal (Lourenço, 2002). Há várias aproximações na literatura sobre desenvolvimento grupal, sendo que uma grande parte se encontra associada à construção de modelos. Por exemplo, Bennis e Shepard (1956), cujas experiências consistiram sobretudo nas observações de T-Groups, relacionam o conceito de desenvolvimento grupal com a necessidade de os elementos do grupo estabelecerem normas de comunicação. Por seu lado, Levine e Moreland (1990) no seu modelo, procuram um conceito de desenvolvimento que responda às necessidades de integração social dos membros do grupo e do grupo como um todo. Já Brower (1996), edifica um modelo de desenvolvimento grupal assente no paradigma do construtivismo, acolhendo o pressuposto de que os grupos se desenvolvem a partir de um aglomerado de indivíduos, e cujas ligações construídas entre si, irão evoluir, com repercussões ao nível da estrutura, das normas comportamentais e dos papéis a desempenhar por cada sujeito, até chegarem a uma entidade própria e unificada.

Smith (2001) aduz que o conceito de desenvolvimento grupal pode ser observado a partir das mudanças que são evidenciadas no grupo ao longo do tempo, considerando três

dimensões: 1) ao nível da estrutura interna (centra-se na estrutura do grupo e nos papéis atribuídos aos membros); 2) nos processos (destacando as actividades do grupo, as tarefas e os processos operativos) e 3) na cultura do grupo, com inclusão das normas e dos valores partilhados.

Com base nestas dimensões, Smith (2001) classifica os modelos de desenvolvimento em três tipos: 1) modelos progressivos lineares (e.g., Bennis & Shepard, 1956, Tuckman, 1965 e Tuckman & Jensen, 1977); 2) modelos pendulares e cíclicos, (e.g., Bales & Strodtbeck 1951; Schutz 1958); 3) modelos não sequenciais ou híbridos (e.g., McGrath & Kelly, 1986; Morgan, Salas & Glickman, 1993, Gersick 1988).

Na óptica de Chang et al. (2008) a dificuldade em definir o fenómeno do desenvolvimento grupal decorre do facto de este se apresentar como um conceito multidimensional que é perspectivado, descrito e analisado como se de uma única dimensão se tratasse. Nesta lógica de entendimento, estes autores propõem uma definição tridimensional para a abordagem do desenvolvimento grupal, com base numa concepção espacial que considera três eixos: o conteúdo, a população e o caminho da dependência.

O eixo designado como conteúdo, é um continuum que avalia, numa extremidade, se o desenvolvimento grupal é concebido como uma mudança temporal num aspecto particular (conteúdo específico), e, da outra, se é o retrato do grupo na sua totalidade (conteúdo compreensivo).

O eixo referente à população é utilizado para avaliar se os modelos descrevem os padrões de desenvolvimento grupal de um tipo específico de grupo, como é o caso do modelo de Gersick (1988) em torno da fixação de prazos em equipas de projecto (população específica) ou, no lado antagónico do continuum, se os modelos são capazes de se generalizarem a todo o tipo de grupos (população generalizada), como acontece com o modelo de Wheelan (1990; 1994), que está concebido de “raiz” para abranger os grupos terapêuticos e os grupos de trabalho.

Por fim, o eixo espacial caminho da dependência, que volta a ser descrito segundo um continuum cujas duas hipótese extremas consideradas, são se o desenvolvimento implica um caminho de dependência, no sentido de que as mudanças visam alcançar um estádio qualitativamente melhor, ou em oposição, se o caminho de dependência é inexistente, cuja situação se descreve tão-somente o que acontece no grupo ao longo do seu tempo de vida.

Arrow et al. (2004), numa revisão sobre os modelos de desenvolvimento grupal, consideram a existência de duas tipologias. A primeira identifica quatro “motores” que catalisam a mudança nos grupos:

Modelos de ciclo de vida.

Em que o processo da mudança obedece a uma sequência de estádios prescrita segundo um programa inerente ou imposto por uma entidade externa.

Modelos teleológicos.

A mudança é descrita como um movimento em direcção a um objectivo, em que o ajustamento é feito de acordo com a validação que provém do meio ambiente.

Modelos dialécticos.

Concebem a mudança a partir de entidades que estão em oposição, sendo que a passagem ao ciclo seguinte se encontra dependente da sua resolução;

Modelos evolucionários.

Concebem a mudança como uma emergência de ciclos de variação, selecção e retenção.

A segunda tipologia distingue o desenvolvimento grupal, conforme a natureza das forças que favorecem a mudança e a estabilidade, podendo ser interna ou externa ao grupo. As forças externas correspondem à noção de passo do ajustamento social, manifestando-se sob a forma de eventos e ciclos que influenciam tanto os ritmos, como a sincronização destes nos sistemas de interesse. Por seu turno, as forças internas reportam-se, frequentemente, à noção de ritmo, ou de sincronização de ritmos, sendo o processo da natureza endógeno e cíclico, ocorrendo ao longo de múltiplas escalas de tempo.

Com base nos “motores” e na tipologia das forças Arrow et al. (2004) classificam os modelos em cinco tipos:

1) Estádio sequencial (e.g., modelos de Bennis & Shepard, 1956; Tuckman, 1965; Wheelan, 1994). Manifesta uma sequência de estádios qualitativamente diferentes como parte do seu ciclo de vida;

2) Ciclo repetido (e.g., Bion, 1961; Worchel, 1996). Os ciclos repetem-se;

3) Equilíbrio robusto (e. g., modelo Bales, 1955) os grupos, uma vez encontrada a resposta ao processo de mudança, encontram forças de autoregulação capazes de amortecer as disrupções externas;

4) Equilíbrio pontuado (e.g., Gersick, 1988). O desenvolvimento é alternado com períodos de inércia e de mudanças rápidas.

5) Resposta adaptativa (e.g., McGrath, 1984, 1991). O desenvolvimento manifesta-se a partir de forças de mudança e de continuidade operando em diferentes modos de actividade.

Por sua vez, Morgan et al. (2001) apresentam uma tipologia de modelos de desenvolvimento grupal que considera apenas os modelos lineares e os não lineares. Nos primeiros incluem, por exemplo, os modelos de Bennis e Shepard (1956), Bales e Strodtbeck (1951), Tuckman (1965) e Tuckman e Jensen (1977). A categoria não linear aglutina os modelos que denotam características específicas, tais como, sistemas mais abertos que fechados, pois dependem, em muito, das exigências do meio exterior; evidenciando uma grande heterogeneidade de membros interconectados; a sua existência é justificada pela necessidade de terem que responder à produção de um trabalho específico. Morgan et al. (1993) avançam como exemplos de modelos não lineares os de Gersick (1988) e de McGrath (1984, 1991).

Uma outra classificação tipológica dos modelos de desenvolvimento grupal, proposta por Bouwen e Fry (1996) e também por Wheelan e Kaeser (1997) aponta para quatro tipos de modelos: lineares; cíclicos ou em espiral; polaridade e de equilíbrio interrompido.

Os modelos lineares de desenvolvimento grupal são os mais encontrados na literatura (e.g., Bouwen & Fry, 1996; Levine & Moreland, 1990; Mennecke, Hoffer, Wynee, 1992; Smith, 2001; Wheelan, 1994). Estes modelos apresentam uma sequencialidade que pressupõe a existência de fases ou subfases desde a génese do grupo até à respectiva maturidade. Neste ângulo de abordagem, o desenvolvimento grupal é visto como um processo linear e progressivo, seguindo uma sequência pré-definida de fases em direcção à maturidade, sendo que o grupo pode estabilizar em qualquer etapa, ou extinguir-se sem atingir o estádio mais evoluído. Logo, é admitida a hipótese de os grupos progredirem em busca da maturidade, não sendo, porém, obrigatoriamente atingida.

Em resumo, cada modelo linear considera ser expectável que todos os grupos percorram o mesmo padrão histórico, sendo admissível alguma (pouca) influência advinda do contexto, mas os estádios de desenvolvimento ou a sua sequência não são passíveis de alteração (Gersick, 1988). No âmbito, dos múltiplos modelos lineares existentes, a literatura apresenta, tendentemente, como referência o de Bennis e Shepard, (1956), e o de Wheelan (1990, 1994). Estes modelos não são consensuais no que se reporta ao número de fases que preconizam. Assim, o modelo de Wheelan (1990, 1994) faz a apologia da existência de cinco fases e o de Bennis e Shepard (1956) considera seis.

Ainda na esfera dos modelos lineares, alguns (e.g., Tuckman, 1965; Wheelan, 1990, 1994) propõem uma abordagem unificada ou integrada, assumindo a designação de modelos integrados (Chang, Bordia & Duck, 2003). Embora, como vimos, se muitos autores apoiam esta forma de perspectivar o desenvolvimento grupal, outros (e.g., Gersick 1998), colocam em questão a validade dos modelos lineares.

Os modelos cíclicos ou em espiral, concebem o processo de desenvolvimento grupal como sendo circular. Este tipo de modelos admite que a maturidade como um fim em si mesmo poderá não existir, porquanto o processo de desenvolvimento ocorre em movimentos sob a forma de espiral, existindo a possibilidade dos diferentes estádios serem retomados ciclicamente. Assim, a resposta para certas situações e a resolução de problemas, torna-se temporária, pois o grupo ao evoluir através de movimentos em espiral, como já referimos, vai posteriormente retomá-los. Esta actualização permanente, é conducente ao acreditar de que a maturidade grupal estará sempre em, permanente, construção ao longo da vida do grupo. Desta forma, ao longo do seu historial, é expectável que os grupos façam a gestão das diferentes situações com que se deparam, apresentando, em termos de capacidade de resolução, níveis mais elevados (Arrow, 1997). Como, exemplo de alguns modelos cíclicos ou em aspiral identificamos o de Bion, (1961); o de Slater (1966); o de Schutz (1958); o de Worchel (1996); o de St.Arnaud (1978) e o de Yalom (1995).

Por fim, importa referir que Smith (2001) inclui nesta classificação os modelos pendulares, nos quais as fases se revisitam ao longo da vida do grupo, servindo cada ciclo para reforçar a compreensão que o grupo possui sobre as situações que se lhe deparam.

Os modelos de equilíbrio interrompido, algumas vezes associados aos modelos não fásicos ou híbridos (Smith, 2001), fundam-se no factor tempo, entendendo-o como alavanca

para a constituição de um grupo. Este tipo de modelos sustenta que o desenvolvimento de um grupo é procedente da tomada de consciência, por parte dos seus membros relativamente ao tempo passado e ao futuro. Esta forma de concepção da progressão grupal preconiza que a períodos de inércia se sucedem momentos de revolução, sendo que apontam para que a fase de transição ocorre sensivelmente a meio da vida do grupo. Um exemplo de referência deste tipo de modelos é o de Gersick (1988).

Os modelos polares representam o desenvolvimento grupal como um contínuo jogo de forças de cariz antagonista ou equilibrador (e.g., dependência versus independência; individualidade versus sociabilidade). Nesta perspectiva acredita-se que estas tensões jamais são totalmente resolvidas, sendo que, de forma incontornável, a determinado momento, os membros e o próprio grupo têm de se posicionar algures nesse contínuo. O grupo progride em ciclos que se alternam entre pólo opostos. A energia que advém do confronto dos dilemas desenvolvimentais vai ser responsável pela mudança, que possibilita o crescimento e a prosperidade do grupo. O modelo fundado nos paradoxos de Smith e Berg (1987), constitui um dos exemplos de referência dos modelos de polaridade.

Face ao exposto, é factual que o campo do Desenvolvimento Grupal é rico e diverso quer em modelos quer mesmo na forma de os agregar em tipologias. Perante dúvidas relativas à capacidade explicativa de cada tipo de modelos, tomados de forma, mais ou menos isolada, alguns autores (e.g., Arrow et al., 2004; Wheelan et al., 2003) apontam para a necessidade de uma maior agregação das diferentes perspectivas teóricas no sentido de se obter um modelo unificado que permita uma melhor compreensão do fenómeno. Tal despoletou a emergência de uma nova corrente, que evidencia um cariz integrativo dos aspectos mais positivos de cada um dos tipos de modelos. Esta nova categoria foi designada por Modelos de Desenvolvimento Não Sequenciais ou Híbridos. É precisamente nesta categoria que se enquadra o modelo que serve de suporte conceptual aos nossos estudos empíricos: o Modelo Integrado de Desenvolvimento Grupal de Miguez e Lourenço (2001) (MIDG). Esta nossa opção impele-nos, forçosamente para a realização duma abordagem aprofundada do modelo referenciado, que implica a sua apresentação e a fundamentação da eleição do mesmo para prossecução dos estudos empíricos.

2.5. Modelo Integrado de Desenvolvimento Grupal (MIDG)

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