A definição da evidencialidade como uma categoria gramatical não é consensual e tem estado no centro da maior discussão em torno do tema, com diversos autores a debaterem a relação entre a evidencialidade e outras categorias conexas, como o tempo, o aspeto e a modalidade (cf. Dendale & Tasmowski, 1994: 4; Dendale & Tasmowski, 2001: 341-343; Barbet & Saussure, 2012).
Por seu lado, Aikhenvald (2003: 1) é muito clara: “Evidentiality is a category in its own right, and not a subcategory of epistemic or some other modality, or of tense- aspect”, sendo que: “Not all languages have ‘evidentiality’ as a grammatical category, and those that do vary in how many types of evidence they mark”. Defendendo o estatuto autónomo da evidencialidade como categoria gramatical de pleno direito, a autora argumenta que os marcadores evidenciais podem, no entanto, desenvolver sentidos adicionais, que podem ou não relacionar-se com outras categorias:
Evidential markers may gain additional meanings and extensions such as the probability of an event or the reliability of information (often called ‘epistemic’ meanings), or unusual and ‘surprising’ information (called ‘mirative’ in the recent literature, following DeLancey […]).
Evidentiality may be independent of clause type, modality or tense-aspect choice. Alternatively, evidentiality may be fused with a tense-aspect marker; or a choice made in the evidentiality system may depend on tense, aspect, or clause type. Evidentials may acquire specific uses in discourse as a means of backgrounding or foregrounding information; the ways in which evidentials are employed may correlate with narrative genres. (Aikhenvald, 2003: 2)
Outros autores, porém, defendem que a explicitação das fontes da informação tem consequências diretas sobre a forma como a proposição é assumida, envolvendo
diferentes graus de certeza sobre o conteúdo proposicional veiculado, o que aproxima a evidencialidade da modalidade epistémica.
É o caso de Palmer (2001: 8), por exemplo, que considera a evidencialidade um subtipo de modalidade proposicional. Na proposta deste autor, a modalidade organiza-se em dois sistemas: a modalidade eventiva e a modalidade proposicional. A modalidade proposicional tem como subtipos a modalidade epistémica e a modalidade evidencial: “epistemic modality and evidential modality are concerned with the speaker’s attitude to the truth-value or factual status of the proposition (Propositional modality)”.
Autores há, ainda, que consideram a modalidade epistémica como parte integrante da evidencialidade, na medida em que a fonte da informação condiciona a sua fiabilidade e, consequentemente, a atitude do sujeito enunciador sobre o conteúdo proposicional em causa (cf. Dendale & Tasmowski, 2001: 342).
Por exemplo, num balanço recente, Barbet & Saussure (2012: 4; mas também Dendale & Tasmowski, 1994: 4; Dendale & Tasmowski, 2001: 341-342; Valentim, 2004: 201-202; Valentim, 2006: 29) dão conta das diferentes perspetivas sobre a relação entre os conceitos de modalidade e evidencialidade e organizam-nos em torno de definições restritas e definições latas. Numa definição lata, a modalidade diz respeito ao conjunto de atitudes do locutor em relação ao conteúdo proposicional do enunciado, nas quais se podem enquadrar os diferentes graus de certeza que podem advir de diferentes fontes da informação; numa definição restrita, a modalidade é concebida como a expressão do possível e do necessário. Por seu lado, a evidencialidade, em sentido restrito, diz respeito à indicação da fonte da informação veiculada; em sentido lato, à indicação da fiabilidade da informação, englobando, assim, a modalidade epistémica. Ou seja (cf. Dendale e Tasmowski, 1994: 4), numa conceção alargada, a evidencialidade engloba a noção de modalidade como expressão da atitude epistémica do locutor; numa conceção restrita, a evidencialidade é a contrapartida e o complemento epistémico da modalidade. Sintetizando:
En fait, on peut considérer que modalité et évidentialité sont (i) exclusives, (ii) que l’une (souvent l’évidentialité) subsume l’autre (…), ou encore (iii) qu’elles ont des propriétés communes (…). (Barbet & Saussure, 2012: 4)
Entre os autores que defendem a autonomia de ambas as categorias, de Haan, tal como Aikhenvald, traça uma linha clara entre a evidencialidade e a modalidade epistémica. Segundo este autor, a asserção da natureza da fonte da informação é distinta da avaliação da atitude do falante para com o seu enunciado:
It is not the case that evidentiality is a subcategory of epistemic modality. Rather, we are dealing with two distinct categories: one, evidentiality, deals with the evidence the speaker has for his or her statement, while the other, epistemic modality, evaluates the speaker’s statement and assigns it a commitment value. This evaluation is obviously done on the basis of evidence (which may or may not be expressed overtly, or which may or may not be expressed by means of evidentials), but there is nothing inherent in evidentials that would compel us to assign an a priori epistemic commitment to the evidence. (de Haan, 1999: 25)
A mesma posição, ainda numa abordagem funcionalista, é defendida por Cornillie (2009: 46-47):
(…) the two notions are conceptually different. Evidentiality refers to the reasoning processes that lead to a proposition and epistemic modality evaluates the likelihood that this proposition is true.
Segundo este autor, a evidencialidade marca a avaliação da fiabilidade das fontes da informação, expressa em diferentes graus, enquanto a modalidade epistémica exprime diferentes graus de compromisso em relação ao conteúdo proposicional veiculado, compromisso este dependente de uma avaliação de probabilidade:
A source of information can be attributed different degrees of reliability, but these should not automatically be translated into degrees of epistemic speaker commitment. The latter involves an evaluation of the likelihood, which is quite different from the evaluation of the reliability of the source of information. (Cornillie, 2009: 44)
Saussure (2012: 133) nota, por seu lado, que, “empiriquement, un effet de sens modal épistémique s’accompagne souvent d’un effet de sens évidentiel”. Mas este autor considera, igualmente, que as relações que existem entre a modalidade epistémica e a evidencialidade não constituem um impedimento à manutenção de duas categorias distintas:
Nous observerons également que (…) si l’évidentialité inférentielle porte naturellement (mais non obligatoirement) à tirer une conclusion épistémique, l’inverse n’a pas de sens. Nous suggérons (…) une approche qui tient la modalité épistémique et l’évidentialité comme des faits disjoints et indépendants sémantiquement, mais qui peuvent entretenir des relations sur le plan pragmatique. (Saussure, 2012: 132)
Também Dendale & Tasmowski (1994: 4) consideram o ganho em clareza teórica que pode advir da oposição entre os dois conceitos:
Il nous semble qu’on ne peut que gagner en clarté si l’on oppose, plutôt qu’on n’intègre, les concepts de modalité et d’évidentialité et qu’on réserve donc le terme de modalité à l’expression de l’attitude du locuteur et celui d’évidentialité à l’expression du mode de création et/ou de récolte de l’information, quitte à utiliser éventuellement un autre terme – par exemple celui de marquage épistémique – comme hyperonyme métalinguistique, pour mieux souligner le lien naturel qui existe entre les deux phénomènes linguistiques.
Para o desenrolar deste estudo, assumo, com Aikhenvald, de Haan, Cornillie, Saussure, Dendale & Tasmowski, entre outros, a distinção entre modalidade e evidencialidade, prestando, porém, particular atenção às consequências modais que advêm da necessidade de explicitar as fontes da informação, nomeadamente, uma atitude de maior ou menor segurança, ou mesmo de compromisso, na validação do enunciado, conducente a diversos graus de distanciamento enunciativo.
Uma questão aqui fundamental prende-se com a distinção, dentro do domínio da evidencialidade, entre as fontes validadas pelo sujeito enunciador e aquelas das quais ele se assume como um intermediário, com o consequente distanciamento enunciativo que daí advém. Esta problemática enquadra-se no estudo do mediativo.