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5.0 DRØFTING

5.2.1 sosialisering og integrering

As necessidades básicas da vida como a procriação e desejos podem fugir do controle do filósofo e gerar naturezas informes que depreciam a harmonia, a justiça. Os cinco tipos de Estados demonstram o resultado dessa depreciação. Sócrates constrói a cidade no lógos e, por isso, constata a condição atemporal de seu regime que se confronta com a depreciação de qualquer regime temporal, mas que torna possível, pelo discurso, qualquer outro regime político. Na construção de Sócrates surge uma cidade que se auto desconstrói? Uma desconstrução que não empalidece a cidade já construída. No confronto com as possibilidades de decadência, o regime político de Sócrates não demonstra fraqueza, ele permanece forte, invencível, porque não há contingência nele, não há espaço geográfico, não há temporalidade, não há mutação. Portanto, é um sistema político que atrai ainda o aspecto divino a sua formação.

Se de algum modo Sócrates demonstra que a melhor cidade é o fim que se torna início, ou seja, é princípio e fim ao mesmo tempo, não é porque em alguma época ela existiu ou porque alguma cidade de sua época se desenvolverá com suas características harmoniosas.

Sócrates mostra que a cidade está além do tempo e espaço, e, devido a essa característica ela é o início pelo qual todas as cidades são geradas e também o fim para o qual todas as cidades se dirigem. A cidade de Sócrates torna-se a ideia da cidade, assim como há a ideia de belo, de branco e uma ideia para cada coisa. Enquanto ideia, ela se volta ao silêncio da contemplação, torna-se inexprimível para aqueles que compreendem as coisas segundo opiniões.

Uma questão cabe ainda: será que a cidade de Sócrates perde sua realeza? Será que deixa sua pretensão de elevar a condição humana a uma condição divina? Para uma resposta, é preciso olhar novamente em que decai o regime político de Sócrates.

N’A República, o melhor de todos os governos irá decair até se transformar no pior de todos. Da Aristocracia à Timocracia, desta à Oligarquia, depois à Democracia e por último à Tirania. De um lado a melhor de todas, no seu oposto a pior de todas. O pior de todos os regimes alcança esse titulo, em confronto com o melhor de todos. A tirania mostrada por Sócrates é o pior de todos os regimes, porque antes era o melhor.

Bloom (1991, p. 424) observa que o tirano e o filósofo se unem na satisfação de suas incompletudes, em suas paixões e suas obstinações. Eles são os homens verdadeiramente dedicados. Se o filósofo é impulsionado ao que o faz melhor, o tirano decai no que o faz pior. Sócrates tenta provar a Glauco que o tirano é o mais infeliz dos homens porque seus desejos são insaciáveis. Essa insaciabilidade movimenta suas ações a dominar tudo e todos em benefício próprio. Ele, diz Bloom, é o menos auto-suficiente entre os homens, completamente dependente das coisas externas e, assim, cheio de ansiedade. Capaz de matar pai e mãe, de mentir, roubar e enganar para alcançar seus objetivos. Portanto, o pior regime político é o governado pelo Tirano. Sócrates termina o Livro IX glorificando o filósofo e condenando o tirano.

A decadência põe em ruínas o regime político de Sócrates, passando por todos os regimes até alcançar o pior de todos, o tirânico. O regime político perfeito decai no mais imperfeito. Porém, essa queda não destrói plenamente a proposta de

Sócrates. Ele diz: “talvez haja um modelo no céu para quem o queira contemplar e organizar, segundo ele, seu governo particular. De resto, não importa de modo algum que esta cidade exista ou deva existir um dia” (REP, 592b). O regime enquanto perfeito se mantém intacto.

Não há uma cidade divina historicamente, mas há um cidade que servirá de modelo para quem quiser contemplar. Sócrates apresenta conjuntamente a glória e o seu oposto. O seu reinado que é o melhor de todos, torna-se ao mesmo tempo o pior. Assim, o texto de Platão mantém um duplo sentido, apresenta-se de um modo e se revela no seu oposto, o qual revelado mostra os opostos coexistindo.

Sócrates ergue a cidade até a perfeição. No campo do discurso ela é a melhor, mais poderosa, mais forte, mas no campo da vida prática ela é a pior, mais terrível e mais fraca. Por quê? Porque se Sócrates olha seu discurso como algo que se estrutura harmonicamente e se torna imutável pelo motivo de que é fundado a partir da ideia do bem, sob o manto da proporção matemática, ele se defronta diante de algo perfeito, estático e imortal. Porém, se Sócrates elabora seu discurso sobre algo da vida prática, uma constituição política, e se o olha tal como discurso político, este discurso se revela enquanto um discurso falso, um mito falso apesar de benéfico. Resta apenas uma saída: contemplar o melhor regime e apelar para uma vida justa ausente de toda forma de governo. A cidade continua perene, mas só está presente na vida de cada um como ato contemplativo do que pode ser a melhor cidade em confronto com as piores.

A cidade de Sócrates segue do anonimato à glória para ficar sem história e sem território. Nessa ausência, um lugar ainda pode acolhê-la: a alma filosófica. Após o discurso do melhor regime, um homem como Glauco não mais pode questionar a justiça segundo a exposição do Livro II. Para Bloom (p. 426), a noção de Glauco das coisas boas se altera pelas coisas maravilhosas que ele experimenta naquela conversa. Anteriormente, ele pensava que o homem justo e injusto desejava as mesmas coisas, agora ele vê a possibilidade de uma vida auto-suficiente e feliz. O governo tirano torna-se questionável e Glauco nunca mais será capaz de colocar o problema como fez antes. A cidade de Sócrates dá a Glauco uma outra via para pensar as relações humanas e o que constitui cada um em particular: a via filosófica em confronto à via tirânica.

N’A República, o confronto entre filosofia e tirania não é o fim, ele revela a descoberta da coexistência dessas duas situações. Uma vez que a tirania é

terrivelmente inaceitável, e a vida filosófica é terrivelmente difícil de ser praticada nas sociedades como Atenas, é preciso encontrar uma solução. Se a prática da filosofia é inadmissível em toda a sua beleza, ainda há uma forma de salvá-la. É na poesia que se vê um apelo à filosofia. Sócrates faz um retrocesso aos debates iniciais d’A República e retoma a questão da poesia para reconhecer sua força.

Na discussão do Livro III, segundo Bloom (1991, p. 426), o herói de Homero, Aquiles, foi o tema; agora no final d’A República, Homero é o próprio tema. A facilidade com que Sócrates aparentemente rejeita a poesia, não quer dizer que ele não leva sua crítica a sério. Para Bloom (p.427) a poesia é o adversário de Sócrates e há uma briga antiga entre ela e a filosofia. Homero é o formador de crenças dos gregos. Nesse contexto, ele e outros grandes poetas constituem o tribunal que julga a filosofia. Sócrates não tem como negar a força coercitiva dos discursos que se impõem como sendo a lei e que se dizem justificar todos os ofícios (REP, 598e), mas pode questionar esse tipo de autoridade. O Livro X, diz ainda Bloom, tenta reverter essa situação. Se os poetas tem o poder de reprimir a filosofia, Sócrates começa lhes fazendo um pedido de desculpas por não considerá-los detentores da verdade (608a).

Sócrates não mais quer destruir a poesia, ele quer julgá-la porque só o discurso poético é compreendido pela democracia. Diz: “Declaremos, todavia, que, se a poesia imitativa, voltada para o prazer, pode provar-nos com boas razões que ela tem o seu lugar numa cidade bem ordenada, recebê-las-emos com grande júbilo, pois temos consciência da sedução que ela exerce sobre nós” (607c). Sócrates reconhece o poder da poesia de Homero, mas a cidade que ainda reina na sua condição de imutabilidade não permite que ela ultrapasse seus muros.

As demais discussões do livro X d’A República ajudam a esclarecer os motivos da consideração final à poesia, relata Bloom (1991, p. 427-428). A imortalidade da alma e as recompensas da justiça também são discutidas, em particular, as recompensas após a morte, para culminar em um mito poético. Sócrates usa esse mito, o mito de Er, para descrever o cosmos e o destino do homem, os objetos mais amplos do discurso humano.

A poesia é necessária ao projeto de Sócrates de influenciar possíveis filósofos como Glauco, mas deve ser um novo tipo de poesia, uma que sustente a importância de se viver filosoficamente. Suplicar aos deuses é necessário na medida em que se intercede por outros, agora a vida do filósofo tem outros rumos, consiste

apenas em viver segundo quem realmente ele é, um homem. Homem sem deuses, sem nação, sem família, um homem isolado em suas reflexões. A palavra de Bloom (p. 427) pode ser utilizada para finalizar este capítulo. Ele diz que o Livro X d’A República começa com uma crítica da poesia homérica e termina com um exemplo de poesia socrática. Sócrates recebe sua inspiração de Homero para formar um novo estilo poético. Em qualquer situação, o ensinamento do mito consiste em dizer que um homem deve contemplar a harmonia que há em si mesmo.

5 CONVENIÊNCIA E PLAUSIBILIDADE: DOIS PRESSUPOSTOS DA IRONIA