• No results found

Sosiale indikatorer for barn og barnefamilier

5. Sosiale indikatorer for lavinntektsgrupper

5.1. Sosiale indikatorer for barn og barnefamilier

A memória, apesar de inicialmente parecer fenômeno individual, já havia sido observada como um fenômeno coletivo e social, “construído coletivamente e submetido a flutuações, transformações, mudanças constantes.”83 Nessa concepção, as memórias que os relatos apresentados no presente estudo suscitam são vistas aqui como integrantes de determinados contextos históricos – em outras palavras, seus agentes estavam sempre em diálogo com seu tempo, logo, não se tratava de algo aleatório.

Na década de 1980, as condições da criação de gado na região levaram Souza a clamar por reforços em defesa da pecuária roraimense, evidenciando as dificuldades vividas pelos fazendeiros:

Roraima sempre se salientou nas suas atividades pastoris. E está na hora do Brasil envidar todos os esforços a fim de se tornar um grande exportador de carne para o mundo, pois temos condição para a produção de gado em número suficiente para o nosso abastecimento e ainda para dispor de quantidade considerável para vender lá fora. Nesta faceta do desenvolvimento as terras amazônicas têm autossuficiência. O mundo está com fome de carne e a Europa não pode mais produzi-la por falta de espaço. Chegou a vez do Brasil.84

Em trabalho publicado em 1957, Antônio Teixeira Guerra observava que a pecuária, embora fosse uma atividade tradicional nos campos do rio Branco, era praticada com técnicas rudimentares, com perspectivas reduzidas de desenvolvimento e se mostrava pouco atraente para novos investidores: “No tocante a fixação do homem ao solo os problemas são

81 CANDAU, Joël. Memória e identidade. São Paulo: Contexto, 2011, p.73. 82 Ibidem, p.74.

83 POLLACK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos. 10 - Teoria e História. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1992, p.201.

complexos e até os nossos dias não se pode falar numa ocupação efetiva, especialmente no que diz respeito à zona montanhosa e ao baixo rio Branco.”85

Essas adversidades mencionadas, inclusive com a participação de representante das memórias tradicionais locais, conduzem a pensar que a recorrência à pecuária era um esforço no sentido de colocá-la mais uma vez em destaque, na posição de principal atividade econômica na região, fortalecendo, com isso, uma identidade local e, ao mesmo tempo, o poder de seus produtores. O objetivo, possivelmente, tanto facilitar a expansão dessa atividade como dar força aos pecuaristas diante dos novos migrantes que aportavam na região, assim como fazer frente às possíveis demarcações e preservações ambientais que entravam em pauta naquele momento.

Percebe-se ainda que o fraco desempenho dessa atividade se verificava também no campo simbólico. No segundo governo de Hélio da Costa Campos, 1970 -1974, havia sido erguida uma escultura (Figuras 1 e 2) em homenagem aos garimpeiros na praça central de Boa Vista, local onde se situava o Palácio do Governo. Nessa ocasião, comentava Magalhães:

Tivemos oportunidade de dirigir-nos ao Governador [...] dizendo-lhe da nossa insatisfação, pois achamos que a homenagem, para atingir os diferentes valores, deveria ser tríplice: ao Índio, que, indubitavelmente, foi o primeiro habitante da região, havendo recebido pacificamente o colono branco; ao ruralista ou vaqueiro, que plasmou a primeira economia regional, ainda hoje importante; e, por fim, ao garimpeiro, eterno nômade e sonhador.86

A concorrência de outra atividade econômica invadindo o campo simbólico ameaçava as memórias referentes à pecuária, até então fortemente instituídas, apontando a necessidade de reparos no seu enquadramento. Pensando-se em termos de memória política, convém observar a introdução do conceito de “trabalho de enquadramento da memória”, entendendo que:

85 GUERRA, Antônio Teixeira. Estudo geográfico do Território do Rio Branco. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - Conselho Nacional de Geografia, 1957, p.127.

[...] há um trabalho que é parcialmente realizado pelos historiadores. Temos historiadores orgânicos, num sentido tomado emprestado de Gramsci, que são os historiadores do Partido Comunista, os historiadores do movimento gaullista, os historiadores socialistas, os sindicalistas, etc., cuja tarefa é precisamente enquadrar a memória.87

Observa-se ainda que:

Por conseguinte, o trabalho de enquadramento da memória pode ser analisado em termos de investimento. Eu poderia dizer que, em certo sentido, uma história social da história seria a análise desse trabalho de enquadramento da memória. Tal análise pode ser feita em organizações políticas, sindicais, na Igreja, enfim, em tudo aquilo que leva os grupos a solidificarem o social.88

No contexto local, além do surgimento de atividades de mineração na região do rio Branco, historicamente, passada a primeira década do século XX, a pecuária perdia intensidade em face da coleta da borracha no Amazonas. Seu fraco desempenho se arrastou até a década de 1950.89

Na década de 80, as fazendas passavam por mudanças na forma de administração. Novos proprietários vindos do sul ou mesmo políticos e comerciantes locais que se tornavam fazendeiros tinham uma mentalidade mais capitalista e, no esforço de tornarem a atividade mais lucrativa, introduziam novas técnicas, como cultivo de pastagens, cuidados com o rebanho com vacinações periódicas, melhoramento de currais e aperfeiçoamento da raça, entre outras.90

Levando em conta essas transformações por que a pecuária passava naquele momento, percebe-se que, junto com o declínio dessa atividade econômica, entrava em decadência também o modelo de sociedade por ela ditado. O processo de ocupação pelos antigos proprietários na região ganhava novos desdobramentos e, independentemente de quem

87 POLLACK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos. 10 - Teoria e História. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1992, p.206.

88 Ibidem.

89 RODRIGUES, Francilene dos Santos. “Garimpando” a sociedade roraimense: uma análise da conjuntura sócio-política. Dissertação (Mestrado Internacional em Planejamento do Desenvolvimento), Núcleo de Altos Estudos da Amazônia, Universidade Federal do Pará, Belém, 1996, p.7-8.

90 CIDR - Centro de Informação da Diocese de Roraima. Índios e brancos em Roraima. Coleção Histórico- Antropológica. nº. 2. Boa Vista, Diocese de Roraima, 1990, p.10.

estivesse à frente dessa atividade, nortista ou sulista, o quadro de memórias relacionado a ela, capaz de render capital político, necessitava encontrar novo sentido na nova ordem social que se esboçava no vale do rio Branco. Havia um trabalho a ser realizado caso se desejasse manter o vigor dessas memórias frente aos novos grupos sociais que se configuravam, bem como diante dos desafios que emergiam, fruto de uma nova era que se apresentava para os fazendeiros, colocando em dificuldade as memórias que pareciam reinar até então sem concorrência na região.

Entendendo a identidade coletiva como “investimentos que um grupo deve fazer ao longo do tempo, todo o trabalho necessário para dar a cada membro do grupo - quer se trate de família ou de nação - o sentimento de unidade, de continuidade e de coerência”91, “cada vez que uma memória está relativamente constituída, ela efetua um trabalho de manutenção, de coerência, de unidade, de continuidade, de organização”92, mas esse não parecia ser o caso das memórias da pecuária de Roraima, até então sedimentadas. Essas pareciam estremecidas, o que levava seus guardiões a atentar para as mudanças em curso, temerosos de que o próprio trabalho dessas memórias em si já não fosse capaz de manter a sua coerência, legitimidade e supremacia em face das alterações no quadro social local.

A presença do garimpo no campo simbólico, atividade vista como marginal, trabalho de caráter nômade, ao gosto de aventureiros e dos que nada tinham a perder, conforme Dorval de Magalhães, não justificava para as famílias de “pioneiros” em Roraima a imagem de um garimpeiro com sua bateia, mostrando-se em plena atividade de garimpagem, exposta numa estátua no centro da praça principal cidade. Espaço que, por sinal, concentrava os prédios que abrigavam os poderes locais constituídos, a exemplo dos que aparecem no fundo das imagens apresentadas a seguir – na primeira, a Catedral, situada do outro lado da praça, e na segunda, o hoje Palácio Senador Hélio Campos, sede do Governo local, que se situa dentro da própria Praça do Centro Cívico.

91 POLLACK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos. 10 - Teoria e História. Rio de Janeiro, 1992, p.207.

Figura 1 - Monumento ao Garimpeiro – década de 1970.93

Figura 2 - Monumento ao Garimpeiro – década de 1970.94

Para Magalhães, o monumento erguido em homenagem aos garimpeiros era um dos “erros em Roraima”, visto que, a seu ver, “para atingir os diferentes valores, deveria ser tríplice”, ou seja, contemplar o fazendeiro, o indígena e o garimpeiro. Como se verifica, em sua partilha entrava também o índio, acredita-se, não só por ter sido o primeiro habitante da

93 Foto: Nonato Santos 94 Foto: Nonato Santos

região, mas pelo fato de ter recebido “pacificamente o colono branco”. Quanto ao garimpeiro, não apresentou uma justificativa para sua presença como símbolo local, se limitando a relatar que se tratava de um “eterno nômade e sonhador”95.

As características por ele atribuídas ao garimpeiro não estavam longe das imagens e práticas que comumente surgem quando se pensa nos povos indígenas. Nesse sentido, seu discurso remete a Zygmunt Bauman quando, de passagem e apoiado em Jim MacLaughlin, lembra “que o advento da era moderna significou, entre outras coisas, o ataque consistente e sistemático dos „assentados‟ [...] contra os povos e o estilo de vida nômades, completamente alheios às preocupações territoriais e de fronteiras do emergente Estado moderno”96 e vistos, dessa forma, como seres inferiores e primitivos que necessitariam de profunda reforma e esclarecimento.

Nessa concepção ganhava sentido o pensamento de Magalhães ao afirmar que, uma vez encontrada a luz da civilização, ou seja, os assentados, “não há mais força que reverta o pensamento do nativo”, que passava a depender dos instrumentos daqueles. O que, conforme o autor, não era uma característica exclusiva dos primitivos, mas condição inerente ao ser humano, que, se deparando com a civilização, passaria a “perseguir, com fúria incontrolável, todos os passos para também atingir patamares superiores [...]”. Era dentro dessa compreensão que se acreditava que seria importante “trazer os silvícolas à Civilização, para que eles desfrutassem das conquistas da Ciência, nas suas mais diferentes gamas.”97

Mas, voltando ao contexto local, o índio ganhava espaço na construção discursiva de Magalhães não por ser sujeito de suas ações, e sim pelo gesto de receber pacificamente os pioneiros. Tal ação foi expressa na figura de Macunaíma98, materializado em concreto posteriormente na Praça Barreto Leite, uma vez que os pioneiros, estes sim, seriam sujeitos de pensamento e ação, capazes de dar sentido ao lugar, plasmar sua economia e transformar os campos de Roraima no reino do pecuarista.

95 MAGALHÃES, Dorval de. Roraima: informações históricas. Rio de Janeiro, 1986, p.123. 96 BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p.19.

97 MAGALHÃES, op. cit., p.11-12. 98 Herói mitológico indígena.

Visto assim, Magalhães não estava preocupado com alguém que apenas recepcionou o sujeito central das ações efetuadas na região do rio Branco, mas com a imagem do pecuarista, que teria sido rebaixada pela do garimpeiro, sujeito desterritorializado e eterno sonhador. Entende-se que foi tomado dessa preocupação que o autor se dirigiu ao Governador para solicitar correção do equívoco cometido, pois a imagem de um garimpeiro não corresponderia com a ordem estabelecida pelo lugar.99 Então, ele, um descendente de fazendeiros e pioneiros na região, na posição de intelectual, agrônomo e historiador orgânico desse grupo, se sentia no dever de trabalhar por essa reparação, por esse ajuste na memória local.

Como se percebe, no trabalho de enquadramento das memórias, as disputas no campo simbólico conduzem a esforços físicos, como no caso de Magalhães ao procurar o Governador Hélio Campos, e de entendimentos, uma vez que aquele ato não parece ter cessado ali, pois em meados da década de 1990 foi construído um monumento aos pioneiros. Tratava-se do “Projeto Raízes”, desenvolvido em uma parceria entre a Fundação Banco do Brasil e a Prefeitura Municipal de Boa Vista, cuja finalidade era identificar e preservar os patrimônios arquitetônicos, artísticos, culturais e históricos da cidade. O trabalho envolveu reforma e pintura de fachadas de prédios antigos e reforma de praça. Conforme relatório de atividades da cidade de Boa Vista, esse projeto obedeceu aos critérios adotados para os conjuntos arquitetônicos considerados patrimônios da humanidade pela UNICEF, Fundo de Cultura das Nações Unidas.

Essas ações podem ser entendidas como um trabalho de reenquadramento das memórias tradicionais da região do rio Branco, visto que uma das etapas do Projeto Raízes abarcou obras no berço histórico da cidade de Boa Vista, incluindo a reforma da Praça Barreto Leite. Nesta foi construído um monumento que se tornou cartão-postal da cidade e, com certeza, atendeu às reivindicações dos historiadores orgânicos das memórias locais, compensando-os por seus esforços para mantê-las, uma vez que no centro da escultura, guiando a instalação da sociedade nacional na região, encontra-se um fazendeiro a cavalo reinando absoluto nos campos de Roraima.

99 CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1 - Artes de fazer. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes, 1994, p.201.

Figura 3 - Monumento aos Pioneiros – 1995.100

Entretanto, por mais que os investimentos na preservação dessas memórias continuassem em diligência, a partir da criação do Território Federal do Rio Branco elas foram se tornando presas ao passado de Boa Vista, despertando apenas reminiscências de uma atividade econômica que desempenhou papel central em um dado período de sua história, mas que passava a ser eclipsada por outras atividades. Pois questões de ordem geopolítica, intenso processo migratório e um novo projeto urbano fomentavam novos interesses nos planos de seus gestores.

Independentemente das controvérsias, em conversa no dia a dia com os moradores de Boa Vista observa-se que raramente alguém declara qualquer ligação com o garimpo. Entretanto, quando o diálogo se torna mais familiar, quase todos os moradores revelam algum tipo de relação com essa atividade – a própria pessoa, um parente ou alguém conhecido teve algum tipo de envolvimento com a exploração de ouro e diamante. Imagina-se que isso justifica a existência da estátua de um garimpeiro no centro da cidade.

1.5 DA PROCISSÃO AO DESFILE MILITAR: BOA VISTA ENTRE O LOCAL E O