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Retomo aqui uma discussão sugerida acima, sobre alguns pares, muitas vezes conflitantes no discurso das pessoas, que podemos articular como pesquisa e ensino- assistência; tecnologia e humanização; questões econômicas voltadas ao desenvolvimento tecnológico através das pesquisas e assistência humanizada; grande volume de atendimento interessante para fins de pesquisa e falta de tempo para uma atenção humanizada; entre outros que analisaremos detalhadamente adiante.

A pós-graduação é citada como independente e autônoma até das próprias disciplinas, e são representadas socialmente como o “carro-chefe” (U12, U32) da organização, uma vez que suas decorrentes pesquisas e publicações conseguem trazer verbas em grande escala para a universidade. A pesquisa além de dinheiro traz prestígio à universidade tanto pelo volume de publicações que consegue nos meios científicos renomados nacionais e estrangeiros, quanto pelo desenvolvimento tecnológico que promovem.

“É porque hoje, hoje, o que tem se valorizado, do ponto de vista de mercado e do ponto de vista acadêmico, são coisas diferentes da humanização. Um valoriza papers e se publica, e o outro é se vende ou se não vende bem aquele procedimento. Então seja pelo viés mercadológico, porque tecnologia, seja pelo viés acadêmico, nenhum dos dois valoriza a humanização. Portanto a humanização fica num plano absolutamente... esses são valorizados em

detrimento da humanização, do bom atendimento. Então o sistema brasileiro, eu acho, a nação brasileira ou ela presta atenção nisso ou a medicina vai ser mercantilista.” (ADM).

Outros entrevistados mencionaram a questão mercadológica e financeira, afirmando que a Universidade pública não sobrevive, hoje, com as verbas que recebe do governo e a pesquisa é um meio alternativo de captar recursos.

“Então hoje em dia, a capacidade que um docente tem de poder desempenhar atividades que rendam dinheiro, seja para o hospital, seja para a universidade, é muito bem vista, é muito valorizada.” (UP2).

Em contraste à pesquisa e à tendência tecnológica e mercantilista, o ensino e a assistência acabam vistos como os “primos pobres” dentro da organização. Alunos e professores, residentes e preceptores descrevem uma sensação de abandono, de falta de investimento e valorização de seu trabalho. Os professores reclamam dos baixos salários e sentem-se desmotivados. Os alunos percebem e absorvem a desmotivação sob a forma de “basta estar aqui para ser um bom médico”. O desânimo se mascara de ufanismo.

Escutei um depoimento muito franco e verdadeiro sobre a valorização da pesquisa e desvalorização do ensino e da assistência, ao perguntar a um entrevistado qual teria sido o momento emocionalmente mais difícil que ele vivenciou na organização:

“eu acho que a situação emocionalmente crítica que eu vivi foi ter perdido o concurso para professor titular aqui na escola. Não pelo fato da perda em si, que também conta obviamente, mas pelo fato de que eu entendi o que estava em jogo ali, que tudo o que eu tinha feito nos 30 anos, que de alguma forma eu tinha vivido dentro da universidade até então, na hora de um concurso como esse, apesar de eu ter absoluta consciência de que eram coisas que eu fiz com muita dedicação e até com bastante sucesso, eram coisas que não foram valorizadas. Que naquele momento o que se focava era fundamentalmente quantos trabalhos publicados você tem e qual a capacidade que você tem de trazer dinheiro para universidade, por exemplo, através de pesquisas do que outra natureza. Então isso foi uma experiência emocionalmente bastante traumática pra mim.” (UP2).

Essa valorização excessiva da pesquisa “em detrimento” do ensino na graduação e residência – o ensino na pós-graduação é obviamente valorizado – e em detrimento da assistência constrói critérios não apenas para os concursos e promoções dentro da

organização, mas dita critérios sobre a própria organização do trabalho. De forma que separar miomas de mamas e de contracepção em três serviços e atendimento diferentes atende às demandas da pesquisa que quanto mais especializada melhor, mas não contribui para a humanização da assistência. O volume de atendimentos, tão famigerado pelos residentes, que muito se queixam da falta de tempo para sentar e conversar com os pacientes é extremamente interessante para fins de pesquisa, principalmente pesquisa cuja metodologia é basicamente positivista e quantitativa.

E essa situação já foi pior:

“Outro exemplo que talvez, não sei se você sabe, essas distorções de especialidades fazem com que o especialista direcione as internações, ele interna aquilo que ele tem interesse momentâneo para uma pesquisa. O hospital criou há três anos o sistema de internação com filas na internação, então o especialista hoje não pode mais burlar a ordem cronológica, se ele quiser pegar alguém, digamos, quase do fim da fila e colocar pra operar agora, pra internar agora, ele tem que vir aqui na diretoria pra explicar, não aquele doente piorou muito, é muito grave, então eu... evidentemente a diretoria assina, então no sentido de humanizar a fila, ou seja, os que estão mais antigos na fila é que serão atendidos em primeiro lugar, mas eu acho que a gente tem que fazer isso em diversas outras instâncias administrativas.” (ADM).

Chamei a valorização de excessiva, pois aparece no discurso dos membros da organização, claramente um desequilíbrio de forças entre as três missões apontadas como centrais e essenciais para todos eles. Quero dizer que todos respondem que a missão do médico na organização consiste em assistir, ensinar e pesquisar, mas no final das contas, o que vale mesmo é a pesquisa. E aqueles que dedicaram os últimos trinta anos de suas vidas ensinando em sala de aula, atendendo pacientes e pesquisando, mas não em volume suficiente para passar num concurso nos moldes atuais?

“Aquele professor que pega na mão do aluno e que vai e que repete, e que utiliza uma hora, duas horas, três horas, com o residente ou com o aluno, este aí não tem absolutamente valor objetivo nenhum, ele não consegue passar em nenhum concurso, ele é tratado como se fosse de um escalão diferente, inferior, e essas pessoas estão terminando, não existem, não há... a universidade não acordou porque o sistema de valorização da pós-graduação está preponderando. Então é difícil, é muito difícil fazer isso, modificar, e a pós- graduação tem crescido tanto aqui dentro que você tem cérebros enormes, no

sentido de produzir conhecimento, paper, e, portanto eles inibem o professor que ensina, de vez em quando tem uma disciplina que sobressai que fala e que não fala e que fala um pouquinho no conselho, na pós-graduação, na graduação, mas algo... não consegue títulos pra isso. Então isso é um dificultador.” (UP2).