A literatura aponta que a capacidade de absorção é um dos principais condicionadores na geração de externalidades de produtividade positivas do IED (BLOMSTRÖM; GLOBERMAN;
KOKKO, 2000; CRESPO; FONTOURA, 2006, 2007; GORG; GREENAWAY, 2004). Crespo e Fontoura (2006) concluíram que capacidade de absorção é a pré-condição para que as empresas obtenham benefícios com as externalidades do IED. Cohen e Levinthal (1990) definem a capacidade de absorção da empresa como a habilidade de reconhecer o valor de uma nova informação, assimilá-la e aplicá-la para fins comerciais.
Vários aspectos influenciam a capacidade de absorção da empresa. Blomström, Globerman e Kokko (2000), baseados nos estudos empíricos de Kokko (1994) e Kokko, Tansini e Zejan (1996), salientam que a capacidade de absorção de uma empresa aumenta à medida que existe uma complementariedade entre os atributos da empresa local e os atributos necessários para absorção da tecnologia da multinacional. Quanto maior a complementariedade tecnológica entre a multinacional e a empresa local, maior será a capacidade da firma em absorver a tecnologia da multinacional (Crespo & Fontoura, 2007).
Segundo Cohen & Levinthal (1990) o nível de investimento da empresa local em pesquisa e desenvolvimento (P&D) é relacionado positivamente com a capacidade de absorção das empresas locais. A área de P&D promove o acúmulo de conhecimentos e capacita a empresa a assimilar mais rapidamente tecnologias com alto grau de complexidade. Dessa maneira, setores científicos e de alta tecnologia, caracterizados por alta complexidade, tem mais incentivos para investir em P&D (LORENTZEN, 2005).
Segundo De Negri (2005), vários fatores são determinantes para melhoria da capacidade de absorção das firmas. Estes fatores envolvem atividades contínuas na área de P&D, qualificação da força de trabalho e os investimentos em P&D. Outros aspectos identificados envolvem os esforços da empresa em P&D, que abrangem desde a aquisição externa de P&D, a aquisições de conhecimentos externos, aquisição de máquinas e equipamento e treinamentos (ARAÚJO, 2004; MARIN; COSTA, 2010). Estes gastos capacitam as firmas para o processo de internalização de conhecimento e na realização de suas inovações, já que a capacidade da empresa assimilar e reconhecer as informações depende da capacidade de seus colaboradores (MARIN; COSTA; 2010).
Rossi e Santos (2013) apontam que a capacidade de absorção das pequenas empresas pode ser afetada já que estas não têm uma estrutura interna adequada e consequentemente capaz de
absorver e aplicar os transbordamentos tecnológicos das empresas multinacionais nas suas atividades internas (ROSSI; SANTOS, 2013).
Barrios et al. (2004) buscaram evidências de externalidades de produtividade na Espanha e Irlanda. As externalidades de produtividade positivas são condicionadas a dois fatores determinantes, capacidade de a empresa local absorver as externalidades geradas pelas empresas estrangeiras e a definição correta do cut-off11 que indica se a empresa local recipiente de capital estrangeiro é considerada como uma empresa de capital nacional (receptora de externalidades de produtividade) ou uma empresa estrangeira (geradora de externalidades de produtividade).
A capacidade de absorção também pode ser analisada no nível do país. Segundo Borensztein et al. (1998 apud CRESPO; FONTOURA, 2007) o nível de desenvolvimento e o estoque de capital humano se relacionam positivamente com a capacidade de absorção da indústria local, ou seja, quanto menor o desenvolvimento do país, menor é a capacidade das empresas locais absorverem tecnologia e produzirem externalidades de produtividade. Jorge e Dantas (2009) também apontam que conjuntamente com a presença do capital humano capacitado, uma infraestrutura bem desenvolvida e um clima econômico estável ajudam as empresas a absorverem os transbordamentos tecnológicos. Na meta análise desenvolvida por Havránek e Irsová, (2011), o capital humano foi apontado com um dos fatores determinantes na produção de externalidades de produtividade intra-setoriais.
Kinoshita (2001), por meio do seu estudo na República Tcheca, concluiu que as firmas locais que se beneficiam da presença externa via demonstração e imitação são aquelas que conduzem atividades de R&D e tem tecnologias complementares as da multinacional. Outro estudo, conduzido nos Estados Unidos por Keller e Yeaple (2003 apud CRESPO; FONTOURA, 2007), indicou que somente as empresas que atuam no segmento de alta tecnologia, caracterizadas por altos investimentos em P&D, se beneficiaram da presença do IED por meio de aumentos de produtividade.
11 O termo cut off nesse contexto significa o ponto a partir do qual uma empresa é considerada nacional ou
estrangeira. Segundo o Bacen, uma empresa é considerada nacional a partir do momento que o capital nacional detém mais de 50% do seu capital votante, ou seja, a partir do momento que o controle é nacional.
Kathuria (2000) distinguiu dois setores, científico e não científico, e observou que somente em um subsegmento do setor científico, o que tinha maior capacidade de absorção, apresentou a ocorrência de externalidades de produtividade. O estudo de Ponomoreva (2000) observou a existência de uma relação positiva entre o aumento da produtividade e as regiões da Rússia que usufruíam de um nível educacional mais alto.
O estudo de Damijan et al. (2003) apresentou uma das poucas evidências contraditórias em relação à capacidade de absorção e a produção de externalidade de produtividade. No seu estudo, que comparou vários países em transição, o pesquisador encontrou relações positivas entre capacidade de absorção e externalidades de produtividade na Hungria e Eslováquia, em contrapartida encontrou uma relação negativa nos casos de Estônia e da Letônia.
A maioria dos estudos empíricos sobre a capacidade de absorção relaciona a capacidade de absorção dos transbordamentos do IED ao nível educacional dos funcionários da empresa de capital nacional e do país receptor. Os estudos relacionam positivamente os investimentos em pesquisa e desenvolvimento da empresa de capital nacional à ocorrência de externalidades do IED. Além desses aspectos, estudiosos consideram que a complementariedade de atributos entre a empresa local e a empresa estrangeira facilita a absorção da tecnologia da empresa estrangeira pela empresa de capital nacional.