Ao contrário de Marx, o escopo de Nietzsche era destruir a crença num passado histórico no qual os homens pudessem aprender qualquer verdade única e substancial, pois havia tantas verdades acerca do passado quanto fossem as perspectivas a respeito dele. A historiografia que acreditava encontrar o único modo eternamente verdadeiro de considerar o passado era considerada por Nietzsche como negadora da vida. O exato oposto dessa historiografia, que estimulava tantas visões do passado quantos projetos houvesse de alcançar uma
consciência de si nos seres humanos individuais, era a historiografia do tipo afirmadora da vida. Tal fato se justifica pela idéia de verdade em Nietzsche, que era antes estética do que científica. O próprio significado e o conteúdo de toda ciência e de toda religião eram estéticos, todas as verdades eram perversões do impulso estético originário, que tomava os sonhos pela realidade e tentava congelar a vida na forma suprida pelo sonho. Mas os impulsos estéticos são dinâmicos por natureza, transitando incessantemente entre o sonho e a realidade. A forma de arte capaz de executar esse movimento dialético do sonho para a realidade e de volta ao sonho autoconsciente é a arte trágica, pois foi somente nela que Nietzsche viu a possibilidade de se fazer uma historiografia “afirmadora” da vida.
O objetivo de Nietzsche era ultrapassar a ironia libertando a consciência de todas apreensões metonímicas do mundo (causalidade e ciência desumanizadora) por um lado e de todas as sublimações sinedóquicas (causas superiores) por outro, e restituir à consciência a fruição de seus poderes metafóricos, de sua capacidade de deleitar-se nas imagens. A tragédia de Nietzsche deveria ser vazada no tropo da metáfora, e ele encontrou esse tipo de tragédia na Grécia clássica. A arte trágica reflete o abandono pelos gregos de qualquer impulso de copiar o real, ela é ao mesmo tempo realisticamente ilusionista e criativamente destruidora de suas próprias ilusões. A tragédia destrói os velhos sonhos e prepara o terreno para a construção de novos sonhos através dos quais novas necessidades humanas podem ser satisfeitas, ela lembra o homem que toda forma não é senão uma criação humana. Assim, a arte trágica é dialética, ela é
capaz de impelir o homem a colisões heróicas com a realidade e também de reabilitar o homem para a vida depois dessas colisões.
Apesar de considerar sua época como o auge da alienação do homem com o mundo (afastamento da apreensão metafórica e trágica da realidade), Nietzsche encarava o futuro com otimismo. Ele previa uma nova idade trágica que levaria a uma nova barbárie. Essa nova barbárie diferia da primeira pelo ponto a que poderiam chegar os homens na conquista de um tipo de liberdade e de poder que nunca haviam desfrutado antes. Toda a história do homem ocidental desde os tempos primitivos era um grande e progressivo movimento desde a mera existência, passando pela alienação, até a reconciliação do homem com o seu próprio eu. Para Nietzsche,
“O espírito da tragédia começa por uma negação das concepções românticas e irônicas da realidade em defesa de uma apreensão metafórica do campo histórico para realizar uma fusão entre a tragédia e comédia. Essa visão tragicômica é esvaziada de todas implicações morais, é simplesmente uma aceitação da vida e da morte, do movimento. Os fenômenos se transformam em imagens que não têm significações fora delas, apenas se assemelham a tudo ou diferem de tudo quanto circunda.” (WHITE. Meta-História: A Imaginação Histórica do século XIX.p.348)
Nessa visão de processo histórico, o conhecimento histórico pode atuar criativamente ou destrutivamente na dialética peculiarmente humana de lembrar e esquecer. Ao mesmo tempo em que afirma que a aptidão do homem para agir
depende de sua capacidade de esquecer, Nietzsche também afirma que é dessa aptidão para relembrar o passado que emergem todas as construções especificamente humanas. Assim, o fato de ter memória é a glória e a perdição do homem. Contudo, o homem moderno desenvolveu excessivamente essa capacidade de lembrar, o que acabou ameaçando sua própria vida. O problema, para Nietzsche, consiste em purificar essa faculdade de lembrar de qualquer autodestrutividade que pudesse informa-la, pois a vida precisa do serviço da história, só um excesso de história é prejudicial à vida. A história capaz de fazer isso é artística e opera no modo da metáfora. A história pode servir à vida tornando-se uma forma de arte trágica e metafórica. O historiador seria, então, o mestre de identificações metafóricas de objetos que ocupam o campo histórico. O homem passa a ter o poder de agir, lembrar e esquecer, de entrar em seu presente e fazer o que quer com a história. A vontade de verdade é vista por Nietzsche como uma maneira de negar a apreensão das verdades das coisas. A vontade de verdade, como o ideal de objetividade que concebe a objetividade como a percepção do conhecedor desprovido de vontade, é a inimiga tanto da verdade como da vontade.
Assim, a história da consciência humana de Nietzsche pode ser posta em enredo como uma queda do modo original, metafórico, de apreender o mundo, nos modos sinedóquicos e metonímicos de compreende-lo. O homem deixa de viver e agir no mundo, apreendendo-o metaforicamente para tentar explica-lo através de uma consciência sinedóquica e metonímica que o impede de agir. É um movimento irônico que acaba negando a vida. Essa queda é caracterizada como uma transição da música, da poesia e do mito para os mundos áridos da
ciência, da religião e da filosofia. Mas esse movimento é irônico. A religião nega a arte, a ciência nega a religião e a filosofia nega a ciência de maneira que o homem é privado de fé na razão, na imaginação e na vontade. A moderna mentalidade historicista é um produto da esperança de que o passado fornecesse modelos para o comportamento no presente, e, como isso não se verifica, torna-se um divertimento, um narcótico. O pensamento histórico nos modos da metonímia, sinédoque e ironia não são somente um sintoma da doença, mas uma causa alimentadora da doença, pois lembra o homem de sua escravização em relação ao passado.
“A única alternativa possível é a história poética e metafórica, com sua aptidão para o esquecimento criativo. A historiografia metafórica é o meio pelo qual são abolidas as regras convencionais de explicação histórica e elaboração de enredo.” (WHITE. Meta-História: A Imaginação Histórica do século XIX.p.374)
A historiografia metafórica representa a dissolução do sonho de um método pelo qual a história em geral pode ser suprida com algum sentido. Ela se torna estória, sem enredo, nem explicação, nem implicação ideológica. A história se torna antipolítica, o pensamento está exonerado de responsabilidade perante qualquer coisa fora do ego e da vontade do indivíduo, ou seja, o passado, o presente ou o futuro. O conhecimento histórico é submetido à regra do princípio do prazer, pelo belo e pelo bom, pelo agradável.