3.5 Begrensninger og feilkilder
4.2.1 Sommer
As pesquisas realizadas no GT21, na 29ª Reunião da ANPEd, contribuem enormemente para a compreensão do contexto no qual estão inseridos os afro-brasileiros, revelando a preocupação dos pesquisadores com essa complexa temática. Ainda que não tenham a pretensão de serem mecanismos de denúncia, acabam fazendo-o e promovendo a reflexão-ação-reflexão.
A análise feita das produções do GT21, com base nos textos produzidos pelos pesquisadores, demonstrou que a falsa integração e aceitação daquele que é racialmente diferente permanece nos dias atuais, se atualiza, se cristaliza e se perpetua na educação e noutros contextos, nas matrizes adotadas, no processo excludente no tocante à cultura afro-
brasileira, mutilando o entendimento da verdadeira história de nosso povo, pois renega parte importante dela.
A eleição dos currículos escolares, segundo uma lógica racista, alicerçada em escusos interesses ideológicos e políticos e nas relações de poder, converte-se em exclusão na sala de aula, materializando-se na adoção de um currículo embranquecido que valoriza e destaca as qualidades positivas originárias do colonizador europeu e, mais modernamente, na matriz estadunidense. Um currículo, nem sempre oculto, que discrimina, reduz a auto-estima, a auto- imagem, o autoconceito e a autoconfiança dos alunos afrodescendentes, promovendo a repetência e a evasão escolar. Mesmo assim, resistindo a tantas agressões e desafetos, muitos alunos permanecem na rede de ensino por insistência da família e por saber que a certificação formal é indispensável à sua ascensão nas diversas esferas.
Nesse sentido, é necessário que sejam revistos, de imediato, os currículos escolares com a inclusão de conteúdos que ressaltem positivamente a participação do negro na história do Brasil, seus heróis, suas lendas, seus mitos, sua origem, suas qualidades idiossincráticas e seu papel no presente e no futuro de prosperidade a que todos devem poder compartilhar.
A abordagem das questões relativas à discriminação racial, embora tenha imposição em virtude de lei específica, quando trabalhadas em aula, são tratadas de forma fragmentada, em datas pontuais, sem a composição de um trabalho integrado, negando a alteridade aos negros, isto é, o reconhecimento da sua identidade e o seu crescimento enquanto sujeito na relação com o outro.
O Brasil está longe de seu ideal de uma política de igualdade para todos. Embora legisle a respeito, carece de uma consciência mais universal do entendimento por parte de seus segmentos, notadamente, os educacionais, de que um País justo com oportunidades iguais depende precipuamente da consciência de seu povo.
É no coletivo que atenderemos os anseios individuais daqueles que vêm sendo, há alguns séculos, preteridos em suas pretensões de ter acesso à mobilidade cultural e profissional posta à disposição quase que exclusivamente aos detentores de poder.
Se atingirmos esse patamar de dignidade humana certamente o poder paralelo que ameaça e destrói precocemente nossas crianças negras será paulatinamente reduzido até definhar completamente.
A análise realizada, longe de exaurir o tema, pretende somar-se a outros, no intuito de sensibilizar a todos e a todas que sonham com um presente e um futuro pleno de oportunidades, no qual todas as formas de discriminação sejam banidas, repudiadas e condenadas legalmente. Objetiva, também, através da síntese realizada, valorizar a produção científica dos trabalhos apresentados no GT21, em 2006, na 29ª Reunião da ANPEd, enaltecendo o brilhante trabalho desses investigadores que dão voz e visibilidade aos seus entrevistados, que muitas vezes foram silenciados tácita ou verbalmente.
2 OBJETIVOS
2.1 OBJETIVO GERAL
A presente investigação tem por objetivo fornecer elementos substanciais que identifiquem como alguns afrodescendentes desenvolveram a sua resiliência, no intuito de suscitar na sociedade como um todo a importância de uma revisão legal e operacional nas políticas públicas até então implementadas para que efetivamente se democratizem as oportunidades e, como conseqüência, se promova a idealizada transformação social.
É preciso que os negros se vejam contemplados na história do País e da Educação de uma forma mais positiva, por isso necessitam exercer o seu papel protagônico. Reler esta história segundo a narrativa dos próprios negros é premente e inadiável. É mister ler-se a si mesmo para conscientizar-se daquilo que se é e refletir sobre aquilo em que se (trans)forma, diante da complexidade inerente ao ser humano e das circunstâncias impostas pela sociedade.
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS:
1. identificar qual a participação do Estado na promoção da resiliência dos afrodescendentes;
2. construir um documento com relatos de negros (dos diferentes níveis de ensino) sobre a sua experiência na área educacional;
3. elencar quais os elementos que obstaculizam/favorecem o desenvolvimento da resiliência nos afrodescendentes;
4. reconhecer quais os mecanismos, experiências, atitudes e procedimentos são propulsores da resiliência;
5. propor ações, a partir das indicações dos próprios participantes da pesquisa, a serem adotadas nas políticas públicas voltadas à inserção/ascensão do negro na pirâmide social.
3 REVISÃO DA LITERATURA
3.1 A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE
Na concepção culturalista de filósofos do século XVII, o ser humano nasce indivíduo e através da cultura e da socialização transforma-se em pessoa. Neste pensar, o que personaliza o indivíduo é a cultura, processo chamado de “personagêneses”, isto é, a origem da pessoa. Assim, não é possível falar em identidade sem considerar a cultura de um grupo, posto que, nessa, costumes e valores expressam-se e são transmitidos de geração a geração. Nesse sentido, é forçoso conceituar o que se entende por “cultura” e para tal o que propõe Pérez Gómez (2001, p. 17) está em consonância com a proposta desta Dissertação, pois, segundo o autor, cultura é
[...] o conjunto de significados, expectativas e comportamentos compartilhados por um determinado grupo social, o qual facilita e ordena, limita e potencia os intercâmbios sociais, as produções simbólicas e materiais e as realizações individuais e coletivas dentro de um marco espacial e temporal determinado. A cultura, portanto, é o resultado da construção social, contingente às condições materiais, sociais e espirituais que dominam um espaço e um tempo. Expressa-se em significados, valores, sentimentos, costumes, rituais, instituições e objetos, sentimentos (materiais e simbólicos) que circundam a vida individual e coletiva da comunidade.
Pierre Verger – Oshogbo (Nigeria) 1949-1979 (no 12212)
O papel da cultura é o de codificar e decodificar o mundo. O indivíduo decifrando esse código movimenta-se facilmente no universo de sua cultura, por ter seu comportamento confirmado. Assim, é da essência da raça negra a oralidade, o gosto pela música, pela dança, o realizar atividades em grupo. Características que, em certos contextos, são menosprezadas, ou, quando muito, consideradas como pertencentes a indivíduos de capacidades reduzidas.
Os negros para transitarem “incólumes” em espaços demarcados por uma minoria que detém o poder e estabelece o que é bom, correto, humano, divino, apropriado, num processo de despersonalização, precisam, em alguns casos, omitir a sua cultura. Assim, sua identidade é (re)negada, num processo de aculturação, para que adquiramos uma cultura que nos é imposta, lançando a nossa identidade ao desvão.
O que se propõe buscar é a releitura do negro, mas, dessa vez, sob o prisma do próprio resiliente, com o seu conhecer-na-ação e o seu refletir-na-ação. Tarefa árdua, já que poucos se dedicaram a examinar criticamente esta situação, sem cair no extremismo de discriminar outras etnias. Com freqüência, a identidade envolve reivindicações essencialistas sobre quem pertence e quem não pertence a um determinado grupo identitário. Algumas vezes essas reivindicações estão baseadas na “raça” e nas relações de parentesco. Entretanto não se podem discriminar raças para afirmar a outras. O que se pretende é a conjunção, a harmonia, posto que a riqueza de uma sociedade globalizada reside, também, nos diferentes matizes que a compõem, na pluralidade étnico-cultural, na soma das suas partes que excedem o seu todo. Dentro deste paradigma holístico, considera-se importante a globalidade da pessoa e esta necessita sentir-se aceita não somente de forma tácita, mas, também, explicitamente pelos demais.
Para compreendermos como a identidade funciona, precisamos conceitualizá-la e dividi-la em suas diferentes dimensões. A identidade é relacional e a diferença é estabelecida por uma marcação simbólica relativamente a outras identidades.
A conceitualização da identidade, segundo Hall (2000), envolve exame dos sistemas classificatórios que mostram como as relações sociais são organizadas e divididas; por exemplo, em forma de oposições – “nós e eles”, “brancos e negros”, “ricos e pobres”, “sábios e ignorantes”, “culto e popular”. Estas dicotomias estabelecem as diferenças e reivindicam para si categorias valorativas, obstaculizando a aceitação e o acolhimento daquele que é
desigual. Tais diferenças localizam as pessoas hierarquicamente e estes conceitos se universalizam, naturalizam e, até mesmo, se petrificam através dos tempos.
A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é “preenchida” a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros. (HALL, 1999, p.39)
O fato de as pessoas assumirem determinadas posições de identidade e se identificarem com elas é uma constatação que estará presente nesta pesquisa, já que o homem é um ser gregário e busca a sua completude no grupo que possui mais elementos com os quais ele se identifica, crescendo na interação com o Outro. O sentimento de pertencimento reafirma a identidade, favorece o pensar-se individualmente e o refletir-se nos e com os demais.
As identidades são diversas e cambiantes, tanto nos contextos sociais nos quais elas são vividas quanto nos sistemas simbólicos por meio dos quais damos sentido às nossas próprias posições.
A identidade cultural das pessoas que pertencem a um determinado grupo oprimido ou marginalizado tende a ser (re)negada, posto que provém de pessoas que, muitas vezes, desconhecem a sua influência nas esferas decisórias.
Cada cultura tem suas próprias e distintivas formas de classificar o mundo. É pela construção de sistemas classificatórios que a cultura nos propicia os meios pelos quais podemos dar sentido ao mundo social e construir significados. Sistemas partilhados de significação são, na verdade, o que se entende por “cultura”.
No argumento durkheimiano a cultura, na forma do ritual, do símbolo e da classificação, é central à produção do significado e da reprodução das relações sociais. Esses rituais se estendem a todos os aspectos da vida cotidiana: a preparação de alimentos, a limpeza, o desfazer-se de coisas- tudo, desde a fala até a comida.
A diversidade cultural é um manancial de riqueza para o desenvolvimento da nação e essa percepção nem sempre está presente no ideário dos diferentes grupos sociais.
Anteriormente, viu-se que a identidade cultural está marcada pela diferença e que esta relação pressupõe a valorização de um grupo em detrimento do outro. Paradoxalmente me pergunto: por que a produção advinda da cultura negra, na maioria das vezes, é considerada como sendo de menos valia ou nem sequer a mencionam em sala de aula? Como romper com este paradigma excludente?
Aprendemos a voar como pássaros, e a nadar como peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos. Martin Luther King (PENSADOR.INFO)
Tendo em vista todo este contexto adverso alguns indivíduos afrodescendentes conseguiram superar as dificuldades e construir um futuro exitoso. Seriam eles resilientes?
3.2 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA