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3. Computational Fluid Dynamics

3.3. Solvers

As concepções de mundo desempenham o papel de atuar como pontos de apoio sólidos para o sujeito, daí a dificuldade de se dispensar o apoio por ela fornecido. Freud traz uma discussão muito importante para o que estamos tratando sobre o desamparo ao definir o que, para ele, seria uma weltanschauung:

É um conceito especificamente alemão, de difícil tradução para outros idiomas...Para mim, uma weltanschauung é uma concepção intelectual que resolve unitariamente, sobre a base de uma hipótese superior, todos os problemas de nosso ser, e no qual, portanto, não fica aberta interrogação alguma e encontra seu lugar determinado tudo o que requer nosso interesse (FREUD, 1932, p. 3191).

Por esse motivo é que essa concepção de mundo é um dos ideais opcionais dos homens. Tendo fé nela, eles podem sentir-se seguros na vida, saber a que devem aspirar e como podem orientar mais adequadamente seus afetos e interesses. Nessa perspectiva é que Freud retorna aqui à discussão sobre a função das ilusões, articulando-as ao desejo. A religião seria o modelo, por excelência, da ilusão, um paradigma para avaliar as demais ilusões coletivas. Ele Inclui a arte e a filosofia também nesse campo, embora ressaltando que a única que pode disputar terreno com a ciência é a religião. A arte seria inofensiva e benéfica; a filosofia não é contrária à ciência, embora sustente a ilusão de poder procurar uma imagem completa e coerente do universo.

Freud dialoga com algumas concepções de mundo, entre elas a de Marx. Ao dizer que o conflito social seria determinado por relações de forças entre os adversários sociais, ele discorda da determinação exclusiva por motivos econômicos, por lhe parecer unilateral. A luta pelo controle da propriedade dos meios de produção, que se desenvolve no plano das classes, e só mediatamente entre os indivíduos pertencentes a essas classes se converte, assim, numa conduta que o marxismo atribuiria apenas a motivos econômicos, contra o que Freud argumenta que diferentes indivíduos ou povos se conduzem de modos diversos nas mesmas circunstâncias econômicas. Ele concebe que a luta é a origem da sociedade, em vez de surgir da oposição necessária das classes, a partir da posição antagônica que ocupam quanto à propriedade dos meios de produção, num determinado modo de produção. A contribuição de Marx teria sido, então,

demonstrar a “influência que as diversas formas de economia exercem sobre todos os setores da vida humana”. As circunstâncias econômicas exerceriam uma “força coercitiva” sobre nossas disposições psíquicas, porém não seriam a única força a determinar a conduta das pessoas na sociedade (FREUD, 1932).

O pensamento de Weber corrobora o de Freud. Weber demonstra que a atitude econômica pode ser orientada pelo sistema de crenças, tanto quanto o sistema de crenças pode ser orientado, num dado momento, pelo sistema econômico. Pondo à parte o problema da causalidade, ele tornou verossímil a afinidade entre uma atitude religiosa e um comportamento econômico, demonstrando que a direção do interesse de cada um é orientada pela sua visão de mundo. Dessa forma, a conduta econômica é função de uma visão geral de mundo, e o interesse que tem cada um nesta ou naquela atividade se torna inseparável de um sistema de valores, ou de uma visão total da existência. Não há, portanto, uma determinação unilateral do conjunto da sociedade por um elemento, seja ele o econômico, o político ou o religioso. Max Weber concebe as relações causais da sociologia como relações parciais e prováveis, que comportam um caráter de probabilidade, e não de determinação necessária (WEBER, 1965).

Para Freud, o que parece decisivo no pensamento marxista é a análise daquilo que se convencionou chamar de “ideologia” 20. Ele propõe reter apenas o modo como a ideologia atua sobre os indivíduos, que é mascarando o conflito social e apresentando a sociedade como una e indivisa. “Toda a existência do homem é marcada pelo temor de romper esse espaço no qual se cria a si próprio e sem o qual não existiria como ser” (SOUSA FILHO, 1995, p. 15). A ideologia, dessa forma, vai abolir do social tudo aquilo que entra como sua gênese e cria, no lugar da história real, uma história imaginária; no lugar da práxis humana, a divindade; no lugar do social, a natureza; no lugar do singular, o universal; no lugar do histórico, o eterno (MARX, 1984). A explicação dos fatos sociais estaria, portanto, ligada a uma ordem natural, e não histórica das coisas, devendo ser mantida pelos homens, sob pena da instalação de um caos social.

Na esteira dessa discussão é que as ideologias aparecem como ilusões coletivas e, da mesma forma que as religiões, se fundam no desejo de todo indivíduo de ser completo. A conclusão que se impõe é que as religiões e a ideologia seriam

20 Freud não utiliza o termo ideologia, mas fica subentendido em seu texto que ele a trata no sentido de uma

formas de visão de mundo. A ideologia é um fenômeno ligado à dominação e ao poder, portanto está presente em qualquer construção social. Seria um discurso que se faz sobre o social e que permite dar-lhe coesão e sentido. Nesse discurso, não aparece o mundo humano como produzido, e sim como dado, condição de possibilidade para a dominação. A ideologia é capaz de tornar a dominação uma coisa invisível, portanto a classe dominante recorre a ela para se beneficiar; lança mão dela, não é quem a produz. Ela não estaria, portanto, atrelada à sociedade capitalista (SOUZA FILHO, 1995).

Consideramos, portanto, que a eficácia da ideologia está no fato de ela sustentar, de forma ilusória, a impressão de um mundo sem faltas, de um mundo prestes a se completar. Uma falsa promessa é, assim, construída de modo a fazer o sujeito crer que, se for obediente, se seguir padrões estabelecidos, terá aquilo que procura, ou seja, a garantia de que seu ser continuará intacto. Fica claro agora como se articulam ideologia e desamparo: é porque estamos desamparados que precisamos de aparatos imaginários que permitam dar ao mundo a aparência de equilíbrio e harmonia.

A relação homem-cultura, está, no entanto, permeada por um caráter conflituoso irrevogável. Por isso mesmo é marcada pela tragicidade, pois, se a inscrição nesses registros da cultura é a exigência fundamental para a constituição do sujeito, nem por isso ele aí se deixa absorver inteiramente, marcando a sua diferença simbólica. O desamparo é a condição direta dessa impossibilidade de o sujeito ser inscrito totalmente na cultura.

A genialidade da descoberta de Freud está em ele ter reconhecido o modo como o homem se insere e toma parte nesse mundo. A forma original com que o autor tratou o inconsciente, podendo escutá-lo, foi um dos caminhos para a crítica que ocasionou uma queda dos fundamentos modernos da subjetividade. O saber da racionalidade moderna foi orientado por Freud para o inconsciente .

Da leitura de sua experiência, podemos observá-lo como um pensador de um resto que a história não pode modificar, de um caminho que não é controlado pelo sentido, de um recalque que não se resolve pela tomada da consciência, e de um enredo histórico que não pode existir sem mal-estar.

Freud conclui, a partir das suas análises, que a psicanálise não pode ter uma concepção própria do mundo; isso porque, para esse pensador, a concepção científica do mundo lhe basta: “Em minha opinião a psicanálise é incapaz de criar

uma concepção do mundo, por si mesma. A psicanálise não precisa de uma weltanschauung, ela faz parte da ciência, e pode aderir à weltanschauung científica” (FREUD,1981, p. 3191).

Nesse contexto, o discurso freudiano pôde opor os discursos da ciência e das visões de mundo. A pretensão da ciência deveria ser realizar sempre uma leitura parcial do real, restrita a campos experimentais e fenômenos bem delimitados. Portanto o discurso científico deveria reconhecer a impossibilidade de uma interpretação totalizante do real, sendo, pois, um contra-senso uma concepção totalizante da ciência.

Dessa maneira, o discurso científico pressuporia a existência de um sujeito que se defronta com os enigmas do real. Portanto a condição do sujeito nesse campo seria a de desamparo face ao real, já que, destituído de qualquer discurso totalizante e absoluto, não poderia tamponar as brechas por onde se constituem os enigmas. Em contrapartida, seria essa posição do sujeito de ser desamparado a condição de possibilidade para a produção e a reprodução do desejo de saber.

Nessa perspectiva, as descobertas científicas primordiais estariam nas origens das feridas narcísicas cruciais infligidas na memória coletiva, rasurando o sonho totalizante que caracterizaria as visões de mundo. Foi nessa série de rupturas científicas com as visões de mundo que o discurso freudiano inscreveu a descoberta psicanalítica, retirando o fundamento do psiquismo dos registros da consciência e do eu e deslocando-o para o inconsciente. Com isso, o eu e a consciência não teriam mais domínio e controle sobre a totalidade dos processos mentais, passando a estar submetidos aos efeitos imponderáveis do inconsciente e das pulsões. Portanto, com a psicanálise, o sujeito está lançado na sua condição originária de desamparo, sem poder acreditar-se no centro do mundo psíquico. Dessa maneira, seria a onipotência narcísica do eu o que fundaria as visões de mundo totalizantes, impedindo que o sujeito se defronte com o seu desamparo.

Percebe-se, enfim, que essa adesão de Freud à ciência é de forma a considerar seus efeitos de esclarecimento permanentes, crescentes, mas nunca a fazer sistema, nunca a se fechar em torno de uma coisa que tenha função de absoluto, de uma idéia totalizante.

Vimos aqui o papel fundamental da ideologia em seu caráter ilusório e alienante, que, através da construção de um discurso, vai engendrando um conjunto de representações às quais a população adere com facilidade. Essas

representações permitem pensar a realidade como dada, portanto não sendo possível intervir para a mudança. Quanto mais desconhecimento e envolvimento com uma visão de mundo fechada, portanto ideológica, menor o lugar para o sujeito.

Nesse contexto, ao pensarmos as escolhas eleitorais, estamos observando o mundo no qual o sujeito está inserido, para tentarmos identificar como ele subjetiva os contornos de sua época.

Como aponta Freud, se uma visão de mundo protege o sujeito do seu desamparo, podemos ver no recrudescimento das práticas religiosas fundamentalistas, na proliferação de seitas, cada vez mais segregacionistas, respostas possíveis diante do desamparo. Numa época em que os ideais sociais estão precários, em que a política não serve como uma referência, só resta a uma grande parcela da população refugiar-se no conforto protetor dessas práticas.

Percebemos quanto a política está se revestindo de um discurso religioso como forma de adquirir adeptos e quanto aqueles que ocupam cargos religiosos se aproveitam desse vácuo social para tirar proveito dos seus fiéis.

O desencanto da população pela política, principalmente do segmento de baixa renda, vem criando um círculo vicioso no mundo político: por estarem desgostosos, se desinteressam da política; por se desinteressarem escolhem sem parâmetros, sem estar firmados numa construção coletiva. E, por conseqüência, a possibilidade de continuar se decepcionando torna-se recorrente. Esse cenário traz dificuldades para a construção do processo democrático, criando um impasse na vida política da polis, o qual nos obriga a uma reflexão sobre o lugar do desamparo nas escolhas eleitorais.

4 DESAMPARO E MUNDO CONTEMPORÂNEO

Cada época apresenta as contradições e respostas dos homens para construir a vida, o seu estar no mundo e dar-lhe sentido. Neste quarto capítulo, delinearemos o contexto a partir do qual se estrutura a subjetividade de nosso tempo, pondo em destaque apenas os aspectos que consideramos relevantes para pensarmos como, no mundo atual, onde os ideais culturais estão pouco estabelecidos, o sujeito lida com o seu desamparo e como isso se reflete nas escolhas eleitorais.

Partimos do princípio de que os ideais, os pactos sociais, são modalidades consoladoras. A cultura, com seus aparatos, serve como um anteparo para os indivíduos sem o qual eles se fixam em suas particularidades, sem comprometer-se com um projeto civilizatório.

Acreditamos também que não é possível compreender o significado da política contemporânea sem o resgate de significados e momentos de articulação que a antecederam. Os vários aspectos de uma história não podem ser construídos abruptamente; ao contrário, eles se constituem num trabalho através do tempo. Por isso pretendemos retomar algumas problemáticas postas pelo projeto da modernidade, pontuando as modificações que elas foram trazendo para a sociedade, para a estruturação das subjetividades e, conseqüentemente, para a política na contemporaneidade.