• No results found

Solution of Nonlinear Eigenproblem

In document the 13TH (sider 151-159)

O relacionamento de Arima e Avalor inicia-se também, ainda que de forma indirecta, com base num sentimento de piedade, por sua vez inserido no contexto da amizade que a donzela lhe devota. Conhecedora dos amores encobertos entre o cavaleiro e a Senhora Deserdada, Arima torna-se sua confidente e, sentindo «dó» dele, promete ajudá-lo no que estiver ao seu alcance: «enfim lhe viera Arima descobrir que eram cousas da Senhora Deserdada, e Avalor não lho negou, que até aquilo não lhe podia já negar, fazendo-se ela muito da sua banda …» (160).

Apesar desta auspiciosa proximidade, a revelação do serviço à Senhora Deserdada não tarda em comprometer a expectativa de Avalor relativamente à possibilidade de ter um relacionamento de outra natureza com Arima. A sua hesitação inicial, acrescida do facto de

tentar dissimular a todo custo os seus sentimentos, desemboca numa amarga consequência. Se, por um lado, a amizade da jovem contribui para reforçar a inclinação que Avalor já sentia por ela («Estes ofrecimentos lhe fazia ela […], mas pera ũa cousa os fazia ela, e pera outras cousas se faziam eles, que Avalor tudo via e olhava com os olhos que lhe punham tudo na alma e no coração» (161)), por outro, condiciona a atitude de Arima para consigo. Seguidora de um código de honra, Arima, sabendo-o obrigado à outra Senhora, nunca poderá assumir a hipótese de partilhar com o cavaleiro mais do que esta amizade. Em outro ponto da narrativa, confirma-se o propósito da donzela: «recebendo-o com ũas acolhenças como que o não vira dias havia»; «Folgo muito […], que cuidei que eu só era a que perdera em me leixardes» (163). As palavras de Arima, fora de qualquer segunda intenção e expressivas da sua amizade, são, no entanto, compreendidas de maneira diferente por Avalor, que fica ensoberbecido ao ouvi-las: «Estas palavras, que ela a boa parte dezia, ensoberbeceram e enlevaram tanto a Avalor que o poseram em condição de lhe descobrir logo sua vontade» (163).

Os efeitos que têm no cavaleiro os oferecimentos de Arima, à primeira vista, parecem contradizer a tese da Dona de que a «aspereza d’obras» é um meio eficaz para conquistar os homens. Porém, eles inserem-se no compromisso de amizade e confidência em que Arima se envolve. Ela é o terceiro elemento de um triângulo amoroso cuja existência desconhece. Enquanto confidente, afasta, à partida, do horizonte de expectativa de Avalor a hipótese de ser mais do que uma amiga. Por isso se diz que só ele se enamora dela («namorando-se ele só dela» (161)). Assim, a inacessibilidade de Arima, posicionada desta forma no triângulo amoroso, permite-lhe ser generosa sem que o cavaleiro se desinteresse dela. A sua afabilidade aproxima-a também do perfil piedoso da donna angelicata, muito distante da atitude cruel da

belle dame sans merci. São ambas, apesar da diferença que as separa, dois modelos de mulher

inalcançável: a primeira, porque se relaciona com o poeta que a serve a partir de um plano extra-mundano, a segunda, porque recusa apiedar-se dele.

O ter de se afastar do seu amigo por azo dos mexericos movidos contra ambos, mexericos que têm, afinal, o condão de tornar a jovem conhecedora dos sentimentos de Avalor, faz com que Arima se aperceba do quanto lhe é caro. A narradora, penetrando no íntimo de Arima, descobre-nos algo mais sobre a amizade que a liga ao cavaleiro. Amizade e amor confundem-se, no dissecar das razões e modos do enamoramento: «Todas estas cousas […] trouxeram Arima grande tempo em muitas e diversas dúvidas, ca também lhe era caro o partir daquela amizade (tanto pode o amor consigo)» (169).

Se a piedade tinha o poder de mascarar o desejo, não são menos os meios da amizade para esconder o amor, sentimento com o qual se mistura, porque, afinal, quem ama não pode abdicar da presença do outro, da companhia do seu consolo e conversação, da partilha do tempo. Amor e amizade surgem associados de forma semelhante no prólogo da MM, como verificámos na segunda parte deste trabalho. Esta associação representa um marco decisivo na diferenciação da MM relativamente a grande parte da produção tratadística e literária sobre o amor no Ocidente medieval e renascentista. A noção de amizade corresponde perfeitamente à concepção de amor descrita no mito do andrógino (o amigo, tanto como o amado, é a outra parte de mim mesmo). Além disso, como a sua tematização dispensa a introdução de motivos associados à paixão amorosa (o ardor e os grilhões do «fero amor»), o discurso sobre esta forma de afecto permite colocar na narrativa aspectos do relacionamento entre homem e mulher isentos da dimensão erótica. Sendo que a amizade confere às relações humanas um valor ético ‒ fundado em qualidades como a fidelidade e a capacidade de ouvir e ajudar o outro ‒ , a sua contextualização, nas histórias de amor da MM, contribui para fazer a apologia da dignidade e nobreza de carácter, como virtudes dignas de ser amadas. Por isso, na análise da construção da relação entre o par Avalor/Arima, não podemos deixar de notar a caracterização que Platão faz do amante e do amado. O segundo define-se não pelo estado de arrebatamento da loucura amorosa, mas pela qualidade da benevolência que revela no convívio com o primeiro, tornando-se «naturalmente amigo de quem o serve» (1995: 255a).

Em resumo, ao contrário da loucura amorosa, do eros que faz desesperar o amante na ausência do amado, e também na sua presença, levando-o a perder o domínio sobre si mesmo, a amizade vive de «acolhenças» e «oferecimentos» que se fazem desinteressadamente. No discurso da narradora, a personagem de Arima, quer pela ênfase dada às suas qualidades morais, quer pelo seu comportamento, revela todos os atributos de uma amiga, qualidade essencial do amado, de acordo com a doutrina platónica sobre o amor. Bernardim dota-a assim de um conteúdo psicológico invulgar na caracterização da mulher da literatura do seu tempo.

2.Os efeitos do enamoramento

Na primeira parte desta dissertação, registámos vários efeitos do enamoramento presentes na lírica trovadoresca e na prosa sentimental e tratadística de quatrocentos e quinhentos. Vimos que um dos temas mais versados e que melhor serve para definir o amor é

o da alienação do amante no amado, a que subjaz a noção de que a vontade do amante se anula no acto de amar, passando a existir em função do amado e da constante lembrança deste (recorde-se o tópico anima verius est ubi amat, quam ubi animat).

Na MM, a exploração da noção de arrebatamento do amante no amado é feita de duas formas distintas. Por um lado, alude-se à perda de autonomia por parte dos amantes, que, ao despertarem para o amor, se sentem de tal forma presos ao amado, que crêem colocar na posse deste uma parte essencial da sua existência. Para concretizar esta noção, Bernardim recorre com frequência aos motivos do intercâmbio de corações e da morte simbólica, cuja proveniência do contexto religioso atestámos. Por outro lado, o autor explora os efeitos psíquicos da alienação, pondo em cena inúmeras situações em que os amantes melancólicos, imersos na contemplação do amado e na aspiração nunca satisfeita de realizar a união com ele, saem de si, perdendo o controlo sobre os sentidos. Binmarder e Avalor são os protagonistas das cenas em que figura este tipo de alienação chamada de «transporte». Estamos em crer que as situações de arrebatamento encenadas na novela de Bernardim justificam as leituras místico-filosóficas que dela têm sido feitas, uma vez que esse estado constitui um dos vectores da experiência de ascese tal como configurada pelos pensadores neo-platónicos. Neste capítulo, questionaremos a pertinência de tais leituras.

Considerando que Bernardim procura na MM, antes de mais, fazer uma análise dos efeitos do amor humano (tal como ocorre na lírica cortês do seu tempo, embora na primeira pessoa: «Más que cualquier outro motivo, el poeta cancioneril muestra su interés por exponer su estado anímico» (Chas Aguión, 2000:110)), não podemos deixar de ter em conta a sua receptividade às concepções teóricas naturalistas, que, a partir de meados do século XV, se imiscuem na literatura peninsular. Como afirma Aguión, «en el siglo XV el afecto humano también traspasa el interés de los poetas e implica a teólogos, filósofos y científicos. […] el amor ya estaba catalogado como una de las variantes de la locura, susceptible de diagnosis y terapia» (2000: 60). Indagaremos por isso acerca da presença de um conjunto de elementos que reflectem o conhecimento por parte de Bernardim da sintomatologia do amor hereos.

In document the 13TH (sider 151-159)