• No results found

O termo imersão social tem sido muito utilizado em pesquisas em diversas áreas, como já foi apresentado. O objetivo dessa parte do referencial teórico é fazer a delimitação do termo para essa pesquisa, pois como pôde ser percebido na discussão sobre imersão social e ação econômica diversos autores utilizam o termo de maneira diferente. Swedberg (1997) afirma que no artigo seminal de 1985, Granovetter expressa a necessidade da elaboração teórica do conceito de imersão social, mas não o faz.

Inicia-se a discussão a partir de uma concepção ampla de imersão social descrita por Zukin e DiMaggio (1990). Esses autores propõem quatro diferentes tipos

de imersão (embeddedness) ou com sugerem Dacin et al. (1999), mecanismos de imersão. A imersão cognitiva refere-se à maneira com que as regularidades estruturadas do processo mental limitam o exercício da razão econômica. A noção de racionalidade limitada é central nesse tipo, pois descreve como atores individuais e organizacionais encontram dificuldades em utilizar a racionalidade proposta pelos economistas neoclássicos. A imersão cultural refere-se ao papel dos entendimentos compartilhados na formação da ação econômica, ou seja, parâmetros culturais limitam a racionalidade econômica. Dancin et al. (1999) destacam que esses entendimentos compartilhados vão influenciar as atividades, estrutura, processos, objetivos e estratégias organizacionais. A imersão política refere-se à maneira como as decisões e instituições econômicas são moldadas pelas lutas de poder envolvendo atores econômicos, o Estado e classes sociais. Zukin e DiMaggio (1990) afirmam que as questões legais de cada sociedade são plenamente reconhecidas como influenciadoras do contexto econômico, mas completam dizendo que o contexto político da ação econômica é formado por uma rede complexa de inter- relações e expectativas que englobam, mas não se restringem a, o contexto legal. Esses três tipos de imersão não estão contidos no conceito desenvolvido por Granovetter (1985). O que ele conceituou como imersão social é um tipo específico chamado de imersão estrutural por Zukin e DiMaggio (1990). O foco desse trabalho é justamente a imersão social tal como definida por Granovetter (1985).

Em seu artigo de 1985, Granovetter não apresenta uma definição de imersão social. Como seu objetivo é contrastar a imersão social com as visões que ele chama de undersocialized e oversocialized, ele a trata também como uma visão ou perspectiva. Em apenas um momento do artigo ele se refere à imersão social como um conceito, “I proceed instead by a theoretical elaboration of the concept of embeddedness...”(GRANOVETTER, 1985, p. 483), no restante do texto ele se refere a ela como um argumento, uma visão ou uma posição. Ele não define, mas descreve o argumento da imersão social como “the argument that the behavior and institutions to be analyzed are so constrained by ongoing social relations that to construe them as independent is a grievous misunderstanding” (p.482).

Com o intuito de deixar mais claro o argumento de imersão social, Granovetter (1992) define o termo: “ ´embeddedness´ refers to the fact that economic action and outcomes, like all social action and outcomes, are affected by actors´

dyadic (pairwise) relations and by structure of the overall network of relations” (p.33, grifo no original). Nessa definição, o autor deixa claro dois pontos. Primeiro, que a ação econômica é considerada por ele uma ação social. Segundo, que o autor entende por relação social o contato direto entre dois atores, o relacionamento pessoal. Além disso, o autor detalha dois aspectos da imersão social. O primeiro aspecto é o que ele chama de imersão social relacional, o qual abarca as características da relação diádica entre os atores, como eles se relacionam. Gulati (1998) estreita essa definição tratando a embeddedness relacional como a força da ligação entre os atores, ou seja, os atores podem estar ligados por laços que variam de fortes a fracos. A força do laço influencia o tipo de informação flui por eles. O segundo aspecto é o aspecto estrutural e refere-se às características da rede de relacionamentos como um todo (Granovetter, 1992). Aqui também Gulati (1998) estreita a definição de embeddedness estrutural como a posição ocupada pelo ator na estrutura da rede, e essa posição é uma função do padrão relacional do ator na rede. Sendo assim, dois atores podem ocupar posição semelhante na rede se possuem ligações com o mesmo grupo de outros atores ou com outros grupos de atores parecidos. Já Rowley, Behrens e Krackhardt (2000) utilizam como embeddeness estrutural a densidade da rede como um todo. Granovetter (1992) argumenta que o aspecto relacional tem um efeito direto na ação econômica. Trabalhos, como o de Krackhardt (1992) e do próprio Granovetter (1973), demonstram a influência do tipo do relacionamento na ação individual. Já o aspecto estrutural tem um efeito mais sutil e menos direto, segundo o autor. Como exemplo, ele cita que o tipo de informação disponível para a tomada de decisão que está aos executivos das organizações depende da estrutura geral da rede, o que afeta indiretamente a ação econômica (GRANOVETTER, 1992). Apesar do detalhamento do argumento da imersão social, ele continua sendo tratado como uma perspectiva e não como um conceito que será operacionalizado. Para se entender as influências da imersão social nas ações econômicas são utilizados outros conceitos, tais como, densidade e intensidade de relacionamento, já bastante utilizados nas análises de redes.

Apesar de Granovetter não fazê-lo, alguns pesquisadores passam a utilizar imersão social como um conceito a ser operacionalizado. Dois trabalhos do pesquisador Brian Uzzi (1996, 1997) são fundamentais nesse sentido. O autor utiliza

imersão social como um conceito. Os relacionamentos entre empresa e fornecedores variam entre relacionamentos de mercado (arm´s-lengh ties) e socialmente imersos (embedded relationship). Uzzi (1996,1997) operacionaliza o conceito de relacionamento socialmente imerso por meio do conteúdo da ligação entre dois atores. O grau de imersão social é mensurado por meio de três indicadores do conteúdo da relação: (1) confiança entre os dois atores; (2) solução conjunta de problemas; e (3) quantidade de informação detalhada trocada na relação. As relações podem variar de mais imersas, aquelas que possuem maior quantidade desses três componentes, até menos imersas, ou relações de mercado, aquelas que possuem menor quantidade desses componentes. Assim, diferente de utilizar imersão como perspectiva de análise, a imersão social é utilizada como um conceito que pode ser mensurado quando ao seu grau.

Para compreender a utilização de imersão social em trabalhos empíricos, foi realizada uma pesquisa na literatura internacional, descrita no anexo 1. Foram encontrados 16 artigos de pesquisa empírica que tratavam de imersão social utilizando a mesma perspectiva que Granovetter (1985) utilizou, ou seja, imersão social como rede de relacionamentos sociais que influenciam a ação econômica. Nesses artigos foi possível identificar dois grupos, os que utilizam imersão social como perspectiva de análise e os que utilizam imersão social como um conceito. No primeiro grupo são utilizadas diversas variáveis na operacionalização de conceitos associadas aos aspectos relacionais e estruturais da imersão social propostos por Granovetter (1985). As variáveis utilizadas para a operacionalização de conceitos ligados aos aspectos relacionais são laços fortes e fracos (RAO, DAVIS e WARD, 2000; ROWLEY, BEHRENS e KRACKHARDT, 2000), duração do relacionamento e tipos de transações realizadas (UZZI e GILLESPIE, 2002) e o relacionamento com instituições regionais (McEVILY e ZAHEER, 1999). Para a operacionalização de conceitos ligados aos aspectos estruturais foram utilizadas variáveis tradicionais da análise de redes (WASSERMAN e FAUST, 1994), tais como, densidade da rede (SEDAITIS, 1998; ROWLEY, BEHRENS e KRACKHARDT, 2000) e equivalência estrutural (REAGANS e McEVILY, 2003), além de outras variáveis também estruturais, tais como, diversidade da rede (REAGANS e McEVILY, 2003) e tamanho da rede (UZZI e GILLESPIE, 2002). Entre esses artigos alguns utilizam apenas o aspecto relacional (RAO, DAVIS e WARD, 2000; MITSUHASHI, 2003), outros

apenas o aspecto estrutural (SEDAITIS, 1998), mas a maior parte deles, seis ao todo, utilizam ambos os aspectos, como por exemplo, Batjargal (2003). Todos utilizaram métodos quantitativos em suas pesquisas.

No segundo grupo estão os artigos que utilizaram imersão social como um conceito. São sete artigos e todos seguem uma linha próxima à de UZZI (1997), o qual está entre os artigos que mensuram a imersão social em grau, ou seja, os atores podem variar de mais imersos a menos imersos, dependendo das características dos relacionamentos que mantêm. Entre esses artigos, alguns usam métodos quantitativos, e outros qualitativos, diferentemente do grupo anterior em que todos utilizaram pesquisa quantitativa. A ênfase em todos os artigos foi nos aspectos relacionais da imersão social e em nenhum deles foram utilizadas as tradicionais variáveis de análise de redes. Apenas dois artigos operacionalizam o aspecto estrutural da imersão social, Blumberg (2001) e Hardy, Phillips e Lawrence (2003). Este último artigo tem duas características interessantes: é um artigo que utiliza método qualitativo de pesquisa e mensura de maneira diferente esse aspecto estrutural da imersão. Essa medida leva em consideração não apenas a díade, mas a ligação da díade com um terceiro ator, o que acaba por captar características estruturais da imersão. Apesar de estes artigos utilizarem imersão social como um conceito, e de algumas inovações na maneira de operacionalizar as variáveis utilizadas nas pesquisas, eles não se diferenciam muito dos outros que utilizam imersão social como perspectiva de análise, pois ao tratar dos aspectos relacionais da imersão acabam mensurando a intensidade de relacionamento também.

A partir da discussão realizada acima, a opção adotada nessa pesquisa é tratar a imersão social como uma perspectiva de análise. Para analisar a imersão foram pesquisados os relacionamentos que as empresas montadoras mantêm com outras organizações. A opção de pesquisa foi trabalhar a rede autocentrada a partir das duas montadoras pesquisadas e não a rede que abrange todo o campo, portanto a ênfase da pesquisa será nos aspectos relacionais da imersão social.

Até o momento foram discutidas nesse referencial teórico quais as influências da imersão social sobre a ação econômica e foi especificada a maneira como será utilizada a imersão nessa pesquisa. Faz-se agora necessário discutir a outra ponta da relação, ou seja, o que influencia a formação da rede de relacionamentos que caracteriza a imersão social.