A imagem do Ver-o-Peso é constante na vida dos belenenses tanto fisicamente, sendo um local que marca a centralidade econômica da capital paraense, para onde convergem a maioria dos transportes coletivos vindos de vários bairros e até de outros municípios da Região Metropolitana de Belém, como também tem sua imagem presente na memória mais íntima de cada morador da cidade de modo incontinente, pois é fato comum se
falar do Ver-o-Peso no dia-a-dia, é muito comum sair matérias nos jornais e telejornais sobre algo ali relacionado. Tudo isso faz com que a fixação de sua imagem esteja presente no imaginário da população local de modo ininterrupto. Para Leitão (2011, p. 22):
Uma ida ao Ver-o-Peso, além dos sentidos para cheiros, cores e sabores, certamente aguça as ideias apontando para as quase infinitas possibilidades de reflexão sociológica que este mercado provê, uma vez que se constitui em ponto de convergência de produtos e saberes, onde os conteúdos das práticas sociais são mais culturais que econômicos.
Possuindo a maior feira livre no âmbito nacional, tornou-se, ao longo de sua existência, um grande mercado popular de trocas, saberes, sendo [...] “responsável pelo abastecimento de domicílios, restaurantes, lojas e supermercados” [...], isso de modo direto, mas também de modo indireto é [...] “ponto central da rede mais extensa de mercados e feiras da cidade [...] (LEITÃO, 2011, p. 24). A autora se refere ainda aos municípios e cidades vizinhas, considerando que parte dos consumidores são feirantes de bairros e dessas localidades. AGeovana. 41 anos, dona de um hotel no município de Salvaterra, embora esteja estabelecida em um município próximo de tradicional ponto pesqueiro, que é Soure, abastece seu estabelecimento com o pescado da Pedra do Ver-o-Peso, “porque só lá se encontra constantemente o pescado em grande quantidade e boa qualidade” e por isso vem periodicamente a Belém em busca desse produto, após se deparar “por várias vezes” com a falha do pescado em sua localidade de origem. Os trabalhadores da Pedra exportam pescado para outras cidades do estado, do Brasil e de outros países.
Mas o Ver-o-Peso tem grande influência mesmo é no abastecimento das outras feiras da cidade, com produtos regionais, mas principalmente com abastecimento de pescado, frutas, verduras e leguminosos, os quais diariamente são adquiridos por feirantes e outros comerciantes que os revendem nos diversos bairros da cidade.
Dentro desses parâmetros, podemos apresentar o Ver-o-Peso como um exemplo, por excelência, de um mercado popular, de tradição regional e local e, ao mesmo tempo, como um espaço translocal, transnacional, onde se articulam novas e antigas formas de organização e venda de produtos, sociabilidades e identidades, num contexto de modernidade amazônica. (LEITÃO e RODRIGUES, 2011, p. 1).
Leitão (2011) realizou pesquisas socioantropológicas sobre esse lugar “emblemático na cidade de Belém” e ainda reuniu seus trabalhos com de outros pesquisadores em uma publicação específica sobre essa temática com o título “Ver-o-Peso: Estudos antropológicos no mercado de Belém”, no ano de 2011, trazendo contribuição a quem se
arvore em conhecer um pouco mais sobre esse locus tão importante para a cidade e sua população, mostrando seu cotidiano, as ricas relações sociais ali empreendidas, vendo (...) “o Ver-o-Peso como um lugar privilegiado tanto pela magnitude sociológica, quanto pelas facilidades operacionais” (...) (LEITÃO, 2011, p. 9), o que permite aos interessados um campo inesgotável de pesquisas.
Na figura 11 é apresentada a imagem de grande parte do Ver-o-Peso, onde notadamente, da direita para a esquerda estão a enseada das embarcações (doca do Ver-o- Peso) e, em volta dessa, a Pedra do Peixe (em forma de um “L” invertido), o Mercado de Peixe ao centro, em sua frente na margem da Baía do Guajará, as barracas da feira e à esquerda, ainda na margem, a continuação das barracas, o prédio do Solar da Beira e atrás desse o Mercado de Carne. É nesse microcosmo que pessoas interagem por meio das diversas atividades que se desenvolvem desde o despertar na madrugada até o novo despertar, que se segue reafirmando o Ver-o-Peso como sendo não somente um espaço físico, mas, sobretudo um espaço de relações interpessoais e interculturais.
Figura 11 – Imagem do Ver-o-Peso com a enseada das embarcações, a Pedra, o Mercado de Peixe ao centro, barracas da feira, o Solar da Beira e atrás deste o Mercado de Carne
Fonte: fau.ufpa.org - 2012/04.
O Ver-o-Peso é referência para muitos feirantes que comercializam produtos nos bairros e ainda de madrugada lá se abastecem, no momento da venda por atacado, quando
encontram o produto a um valor competitivo em um ambiente propício para a socialização e a formação de redes de compras e de sociabilidade, como é retratada na figura 12, onde se pode observar no local entre a Pedra e o Mercado de Peixe, a venda e compra de diversos produtos, dentre os quais o pescado in natura e salgado, camarão e caranguejo, sendo que nesse espaço predomina o pescado fresco e as pessoas interagindo nesse grande evento.
Figura 12 - Imagem da Pedra do Peixe próximo ao Mercado de Ferro
Fonte – Autor, 2014.
Muitos são feirantes que vem de seus bairros para se abastecer nesse ponto referencial da cidade e levar sua mercadoria que será revendida em feiras, mercados, carrinhos ambulantes ou utilizadas no preparo de comidas nos restaurantes formais ou não formais; o Ver-o-Peso continua, assim, sendo um exemplo que deve ser seguido pelos feirantes das demais feiras de Belém.
O “seu” Luiz Gonzaga, que vende verduras na feira da Tavares Bastos em Belém, compra seus produtos no Ver-o-Peso em torno de três a quatro vezes por semana, foi entrevistado nesta pesquisa porque ele se associa, quanto à condução, a um grupo de vendedores de pescado, o qual eu pesquiso na mesma feira, para deslocamento nas madrugadas em busca de comprar seus produtos e quando perguntado sobre o porquê de se abastecer naquele local ele respondeu que “o Ver-o-Peso é a mãe de todas as feiras de Belém, lá tem de um tudo e tudo bem fresquinho, não é esse produto que vem pela estrada
demorando séculos pra chegar aqui pra nós”. Ir diariamente ao Ver-o-Peso para feirantes das diversas feiras de Belém é algo que faz parte do seu trabalho, embora alguns se abasteçam na Central de Abastecimento – CEASA; mas os que compram seus produtos no Ver-o-Peso o fazem considerando aquela feira como sendo uma matriz que fornece produtos para sua filial, isto é, a feira do bairro, onde trabalham, como definiu o “seu” Gonzaga.
O que o “seu” Luiz Gonzaga relatou, quanto à qualidade dos produtos oferecidos no Ver-o-Peso, é uma opinião muito presente no senso comum de feirantes e de consumidores finais, pois o abastecimento daquela feira é diário e são diversos os produtos, os quais vêm de localidades ribeirinhas ou dos centros dos municípios das proximidades de Belém, por via fluvial e também pelas estradas.
Assim, “vindos de dezenas de lugares e fontes, os produtos vendidos naquela feira originam-se em locais espalhados nas mais diversas localidades do Pará” (MORAES e RODRIGUES, 2014, p. 68). Um desses muitos locais que abastecem a grande feira é Macapazinho, comunidade quilombola localizada no município de Santa Izabel e de onde pelo menos duas vezes por semana os produtores arrumam o que produzem em sacas e trouxas formadas por maços de hortaliças; o que é executado através de dois representantes da comunidade, denominados de marreteiros.
Os produtos são transportados em um ou dois caminhões que ficam estacionados num espaço próprio em frente à pedra do peixe. De lá, as trouxas e demais produtos são baixados para os carretos e levados até a calçada atrás do mercado de ferro, onde são dispostos lado a lado; enquanto isso, os marreteiros começam a abrir as trouxas e arrumar os produtos em cima de bancadas para vendê-los. Nesse momento também os feirantes e outros marreteiros de diversas feiras de Belém já começam a fazer a escolha do que vão comprar. Geralmente, antes de terminarem de arrumar tudo, metade do que foi levado à feira é vendido (MORAES e RODRIGUES, 2014, p. 66-67).
Os autores apresentam suas observações e ressaltam que o modo como ocorre essa comercialização de produtos de Macapazinho, através dos dois marreteiros encarregados pela comunidade dessa venda, se multiplica aos montes naquela feira, “pois sendo umas das maiores feiras do país, o Ver-o-Peso dificilmente ficaria restrito a um fornecedor, até mesmo porque não é restrita a um vendedor, mas a centenas (MORAES RODRIGUES, 2014, p. 68), sendo que eles não podem vender seus produtos nos horários de funcionamento diários da feira, para não conflitarem com os feirantes daquele local. Desse modo os produtores que abastecem o Ver-o-Peso, trazem seus produtos à noite e atravessam a madrugada, até os primeiros raios solares, na comercialização com feirantes do próprio Ver-o-Peso e de outras muitas feiras de Belém.
Na minha interpretação, o seu Luiz Gonzaga traz em sua narrativa, sobre o porquê se abastecer no Ver-o-Peso, uma opinião coletiva e mais abrangente dos feirantes de bairros sobre essa questão. Quando considerou o Ver-o-Peso, a mãe de todas as feiras, ele fez clarear a interpretação das interpretações, lembrando (GEERTZ, 1989, p. 16), dos outros companheiros de compras da feira da Tavares Bastos, os quais no momento da entrevista, vibraram com sua resposta, concordando em aceno afirmativo com a cabeça, e com palavras em exclamação, como: “É isso aí! ” – ou - “Disse tudo! ”. Eles agiram em uma participação espontânea e intrometida na entrevista, àquela altura, sobre o significado do Ver-o-Peso para eles. Essa entrevista foi uma das “mais curtas” e marcantes que realizei nesta pesquisa, pois se constituiu de uma pergunta só, seguida de um silêncio e uma gostosa gargalhada de encerramento.
É que a resposta do “seu” Luiz Gonzaga foi tão intensa que evitou outras perguntas; não precisava, ele mostrou em poucas palavras que a cultura é densa (GEERTZ, 1989, p. 27) e que cabe ao pesquisador interpretá-la considerando suas minúcias. Pois sendo “Símbolo de identidade paraense, em especial da cidade de Belém, o Ver-o-Peso pode ser visto como um ícone citado por várias camadas da população, sem nenhuma contradição entre elas [...]” (CAMPELO, 2011, p. 63-64).
A Feira do Açaí é um setor que mede em muito essa relação direta e indireta que a cidade tem com o Ver-o-Peso, pois diariamente é frequentada por compradores que buscam o açaí, fruto que é batido com água em máquina apropriada para a extração do seu suco tão apreciado na mesa do paraense. Ao mesmo tempo em que é uma feira dentro da feira do Ver- o-Peso, é também a representação de outras feiras da cidade, como é comentado por Sales (2014, p. 80) ao se referir àquele espaço:
Chegando à feira logo se avista a movimentação resultante da comercialização do principal produto daquele setor, que é o açaí in natura. O movimento frenético de compradores, carregadores, marreteiros, maquineiros, etc. torna-se a marca daquela feira dentro de outras feiras. Sales faz uma descrição da Feira do Açaí e contextualiza-a em um complexo formado por outras feiras e mercados, entreposto pesqueiro e setores diversos, todos considerados importantes nas suas especificidades que, reunidos, formam o Ver-o-Peso.
Aquele espaço se torna assim uma centralidade comercial de Belém e essa referência se manifesta através dos meios de transporte coletivo que vêm dos diversos bairros trazendo e levando passageiros para vários pontos da cidade, mas passando no Ver-o-Peso, disputam espaço na via pública onde estão vendedores a tentar burlar o Poder Público para
expor seus produtos e é assim que muitos desses atores sociais chegam para as compras. Após realiza-las voltam de ônibus aos seus bairros, os quais, no início da manhã são bem demandados para transportar seus produtos, mas contratam carreteiros para transportar os produtos aos seus locais de trabalho, quando em maior quantidade.
A figura 13 retrata a disputa dos veículos com vendedores na via ao lado da Pedra do Peixe, onde se pode perceber que os vendedores de pescado sobre caixotes, localizam-se na caixa da via, a poucos centímetros da trajetória do veículo coletivo que aparece na imagem, e entre o vendedor sentado e o coletivo ainda transita um pedestre por trás de um freguês do vendedor de peixe.
Figura 13 - Imagem da disputa entre veículos e vendedores de peixe na via pública ao lado da Pedra
Fonte – Autor, 2014.
O Ver-o-Peso é a feira mãe das demais feiras de Belém, não só por ter sido a primeira, mas por inspirar a criação das demais e por ter um significado de consenso entre aqueles que estão presentes no seu dia-a-dia, entre os seus feirantes, os feirantes de bairros e a população em geral. Cada belenense tem sua opinião sobre o que significa o Ver-o-Peso, que vai sempre além do aspecto econômico e cultural para Belém. “Ninguém, nesta terra, lançou os olhos para a vida, sem tê-lo como a tônica, o traço perfeito entre os caracteres mais sugestivos da cidade (MEIRA FILHO, 1973, p. 169) ”, nessa tônica característica, está inserido o Ver-o-Peso, cheio de significados para a cidade de Belém.
2.3 VER-O-PESO: IMPORTÂNCIA CULTURAL E A VISÃO POPULAR SOBRE