O grupo utilizou duas aulas de 50 minutos para a apresentação do subtema. Eles iniciaram a apresentação encenando uma entrevista de emprego e simulando várias situações entre entrevistador e entrevistado. Para a elaboração
da encenação sobre a entrevista de emprego, eles utilizaram os conhecimentos obtidos nas aulas de teatro, curso extracurricular oferecido aos aprendentes no colégio. Nessa apresentação, todos os integrantes do grupo participaram da encenação e expuseram vários comportamentos adequados/inadequados tanto do entrevistador como do entrevistado. Essa encenação durou cerca de 15 minutos, eles criaram uma situação de procura de emprego desde a hora que o candidato chegou à empresa e preencheu um questionário (simulação da ação) sobre assuntos inerentes ao cargo a ser ocupado, à formação, à experiência profissional e à personalidade do candidato, até o término da entrevista e contratação do candidato.
Na sequência, o grupo perguntou aos colegas da sala sobre suas percepções acerca do comportamento dos participantes. Após ouvir as respostas dos colegas de sala, o grupo explicou qual é a função social de uma entrevista de emprego e baseou sua apresentação em esclarecimentos muito importantes sobre o que é considerado adequado e inadequado nessa situação.
Além disso, o grupo deu várias dicas sobre os cuidados especiais que o entrevistado precisa ter com a linguagem, com suas escolhas lexicais e gramaticais, tais como o uso de gírias e vícios de linguagem. A importância de falar com clareza, naturalidade e simplicidade, cuidado para transmitir uma imagem compatível com o cargo desejado na empresa e outros.
Para finalizar, o grupo mostrou uma reportagem da rede globo contendo várias entrevistas em que o jornalista analisava ao final de cada entrevista quais tinham sido as atitudes adequadas e inadequadas do entrevistado. Nessa reportagem, o jornalista também deu outras dicas importantes e consideradas educadas sobre o que se deve fazer após a entrevista, tais como enviar um e- mail agradecendo a oportunidade da entrevista.
Ao propor o subtema entrevista de emprego, o nosso objetivo era voltar nossa atenção também para um gênero oral. Mas o que é ensinar a oralidade? Em nossa concepção, ensinar os gêneros textuais orais implica observar toda a sua condição de produção e realização. Consideramos que o trabalho com a oralidade em sala de aula não diz respeito a ensinar o aprendente a falar, trata-se
de identificar, refletir e utilizar a variedade de usos da língua na modalidade oral. Por isso, consideramos a entrevista de emprego uma excelente oportunidade para a abordagem de gênero textual, tendo em vista que envolve situação de interlocução real. Como apontam vários estudos de Marcuschi (2007), oralidade e letramento são atividades interativas e complementares no contexto das práticas sociais.
No que diz respeito aos gêneros orais, cabe enfatizar que Dolz, Noverraz e Schneuwly (2010) também observaram que a concepção de oral está fortemente ligada ao cotidiano, por isso é importante que a escola considere as inúmeras situações discursivas faladas, tendo em vista que trabalhar com os gêneros orais pode propiciar o acesso do aprendente a várias atividades de linguagem.
Dolz e Schneuwly (2004) também reforçam a necessidade de percebê-lo como um eixo autônomo, mas também interdependente dos outros eixos didáticos, que, articulados, se movem para uma perspectiva de oralidade letrada. Eles ressaltam sobre a necessidade de se planejar um trabalho sistemático com o oral, com o objetivo de propiciar ao indivíduo competência para que ele crie estratégias de negociação em situações de interlocuções públicas.
Optamos por inserir o gênero entrevista de emprego em nosso projeto de letramento, pois consideramos a entrevista um recurso didático muito relevante para o aprendizado, uma vez que nela ficam bem evidentes os papéis sociais desempenhados por entrevistado e entrevistador. Trata-se de um evento comunicativo no qual pessoas interagem e realizam propósitos comunicativos, sendo um gênero que possibilita muitos estudos sob o viés da teoria dos gêneros textuais, uma vez que os participantes de uma entrevista ocupam dois papéis claramente delimitados, sendo uma situação com claro grau de hierarquização, dado que o controle e o comando da situação são ditados pelo entrevistador.
Segundo Chiavenato (2009), a entrevista pode ser conduzida pelo entrevistador de forma estruturada e padronizada ou de forma livre, a entrevista não é um gênero rígido, mas dinâmico e heterogêneo. Segundo o autor, a entrevista de emprego passa por cinco etapas: a preparação da entrevista, a
preparação do ambiente, o processamento da entrevista, o encerramento e a avaliação do candidato.
Nesse sentido, Hoffnagel (2002) observa que a grande maioria das entrevistas – entrevista de emprego, entrevista com médico, entrevistas em programas de rádio ou televisão – consiste em interações orais. A autora menciona ainda o fato de até as entrevistas publicadas em jornais ou revistas serem feitas, de maneira geral, oralmente, para depois serem transcritas e publicadas. Sendo assim, a entrevista geralmente é composta por pelo menos duas pessoas – um entrevistador e um entrevistado –, as quais possuem papéis específicos: o entrevistador é aquela pessoa responsável por fazer as perguntas e o entrevistado por respondê-las.
Segundo Marcuschi (2007), pode-se dizer que esse gênero possui itens gerais comuns a todos os subgêneros, a saber: 1) sua estrutura será sempre caracterizada por perguntas e respostas, envolvendo pelo menos dois indivíduos – o entrevistador e o entrevistado; 2) o papel desempenhado pelo entrevistador caracteriza-se por abrir e fechar a entrevista, fazer perguntas, suscitar a palavra ao outro, incitar a transmissão de informações, introduzir novos assuntos, orientar e reorientar a interação; 3) já o entrevistado responde e fornece as informações pedidas; 4) é um gênero primordialmente oral, podendo ser transcrito para ser publicado em revistas, jornais, sites da Internet.
Durante a realização das pesquisas e a opção pela escolha de uma encenação sobre a entrevista de emprego, orientei bastante o grupo que enfatizasse os jogos de poder presentes nas situações de entrevista. Ao elaborar o roteiro da encenação, notamos que os aprendentes estavam despreocupados com as teorias que envolviam os aspectos desse gênero, tais como tipo de linguagem, postura, mudança de turnos, polidez e outros.
Nosso papel como mediadora durante o desenvolvimento desse subtema sempre foi trazer novos questionamentos de embasamento teórico, com o objetivo de os aprendentes refletirem sobre o aperfeiçoamento, em termos de conteúdo, na encenação. Um desses questionamentos foi, por exemplo, fazer o grupo perceber que nem sempre o poder está sob o domínio do entrevistador,
pois o entrevistado também possui estratégias de resistência, exercendo seu poder – não respondendo a uma pergunta que lhe foi feita, respondendo evasivamente, enfatizando um aspecto da pergunta e ignorando outro, interpretando o que lhe foi perguntado de outra maneira, enfim, o entrevistado não está totalmente subjugado ao entrevistador. Para a preparação da apresentação, o grupo utilizou outros espaços do colégio, para manter o sigilo em relação ao resto da classe.
Ainda no que diz respeito às características da entrevista, de acordo com Hoffnagel (2002), as perguntas podem ser abertas ou fechadas, diretas ou indiretas, mais ou menos polidas. Perguntas abertas, segundo a autora, propiciam ao entrevistado falar livremente a respeito de um tópico, o que lhe confere mais chances de se expor, ao passo que perguntas fechadas limitam a resposta a uma afirmação ou negação. Diante disso, pedimos também que o grupo tentasse mostrar aos colegas as duas possibilidades de perguntas, uma vez que não é possível prever qual é o estilo do entrevistado e o nosso objetivo era preparar os aprendentes para as duas situações.
Além disso, lembramos que os aprendentes deveriam ater-se aos diálogos presentes na entrevista, porém há vários elementos que devem ser considerados e que compõem a entrevista: os olhares, os silêncios, a maneira como ocorrem as trocas de turnos. Para isso, solicitamos que os aprendentes estudassem sobre a importância dos turnos, considerados elementos importantíssimos em uma conversação, já que eles têm a função de regular as trocas dos participantes na conversação, distribuir as intervenções feitas por eles, além de regular o tempo que cada participante fala.
Indo mais adiante, considerando os gêneros como ações sociais, entendemos que eles são fenômenos multimodais, consequentemente os gêneros textuais falados são também multimodais porque, quando falamos, estamos empregando no mínimo dois modos de representação: palavras e gestos, palavras e entonações, palavras e sorrisos etc. (Dionísio, 2006, p. 161-162).
Para Marcuschi (2008, p. 161), os gêneros são atividades discursivas socialmente estabilizadas que se prestam aos mais variados tipos de controle
social e até mesmo ao exercício de poder. Sendo assim, podemos dizer que é muito importante conhecer os vários gêneros textuais que circulam em nossa sociedade, pois devido a sua característica sociocomunicativa, ter conhecimento de gêneros permite compreender de forma mais crítica a sociedade em que vivemos. Em consonância com o entendimento do autor, acreditamos que a entrevista de emprego é uma oportunidade de os aprendentes também terem contato com esse gênero e se tornarem um falante competente.
Ademais, o grupo enriqueceu o trabalho mostrando aos colegas uma reportagem televisiva sobre entrevistas de emprego, por meio da qual foi possível verificar características específicas desse gênero: idade, posição social, sexo, papel social dos entrevistados e outros, ou seja, é necessário identificar os papéis dos interlocutores e como eles se refletem nas tomadas de turnos, uso da linguagem formal e informal e outros.
Outro ponto interessante que os aprendentes puderem apreender desse gênero é a argumentação na língua falada, foi possível perceber como as pessoas convencem umas às outras durante a interação verbal e até mesmo na compreensão das intenções do falante. No que se refere à oralidade, consideramos que a proposta de trabalho com entrevista de emprego está em consonância com a proposta dos PCN, uma vez que nesse documento é considerada importante a formação de falantes competentes, que saibam utilizar as mais diversas modalidades da linguagem oral – forma e informal. Isso, de acordo com a situação comunicativa. Para tanto, o documento propõe a abordagem de atividades focadas na fala, na escrita e na reflexão linguística. Destaca-se, sobretudo, o fato de os PCN trazerem consigo uma concepção de oralidade de cunho sociointeracionista, opondo-se veementemente à concepção dicotômica em face da escrita.
Considerando que os princípios do projeto pedagógico do colégio é a contextualização, priorizando que toda aprendizagem ocorre em um contexto determinado, com propostas significativas para a construção do conhecimento, entendemos que as vivências propiciadas pelo grupo que desenvolveu esse subtema propiciou que os aprendentes percebessem que em uma entrevista de emprego é necessário considerar, pelo menos, os seguintes elementos: as
características da situação de produção (quem é o interlocutor, em que papel social se encontra, a quem se dirige, em que papel se encontra o locutor, em que local é produzido, em qual instituição social se produz e circula, em que momento, em qual suporte, com qual objetivo, em que tipo de linguagem, qual é a atividade não verbal a que se relaciona, qual o valor social que lhe é atribuído etc.).
Retomando nossa sondagem inicial a respeito do conhecimento dos aprendentes no que diz respeito ao gênero entrevista de emprego, notamos que 83% dos aprendentes não tinham conhecimento desse gênero. A encenação de uma entrevista de emprego e a reportagem apresentada no youtube possibilitaram que os aprendentes ampliassem seus repertórios acerca desse gênero, na medida em que eles interagiram, apresentaram vários questionamentos para os colegas da sala puderam refletir sobre sua importância no contexto do mercado de trabalho. Diante disso, em que medida a utilização dos gêneros textuais pode propiciar que os aprendentes se tornassem letrados nesse projeto de letramento? Entendemos que se valer da contribuição de gêneros textuais para o ensino de linguagem é chamar atenção para a importância de se vivenciar na escola atividades sociais, das quais a linguagem é parte essencial, e que, muitas vezes, o aprendente não terá acesso a não ser pela escola, o mundo letrado deve ser desmitificado, deve se tornar algo real, palpável para os aprendentes.