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José Israel Vargas foi ministro da Ciência e Tecnologia dos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso; chefe da Divisão de Física Nuclear e diretor do IPR/UFMG; vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências e da Comissão Internacional Independente sobre os Oceanos da ONU. É doutor em Química Nuclear pela Universidade de Cambridge.

Depoimento concedido a Marly Motta e Tatiana Coutto em sessão realizada no Rio de Janeiro no dia 29 de junho de 2010.

As origens do programa nuclear brasileiro

Em 1952, o senhor completou o bacharelado em Química, na Universidade de Minas Gerais (UFMG). O que o levou para a física nuclear?

As figuras mais importantes da ciência mundial nos anos 1930 e 1940 buscaram uma compreensão do núcleo atômico. O modelo do átomo já tinha sido feito com certo sucesso na década de 1910 por Ernest Rutherford, talvez o maior físico nuclear até os anos 1930. Para a minha geração, a energia nuclear tinha um duplo aspecto. De um lado, ela era a salvação da humanidade. Ela ia gerar não só energia, mas também trabalho e o fim da pobreza. Para se ter uma ideia, a fissão nuclear produz 200 milhões de elétrons-volts. A força muscular humana, do cavalo, etc. gera fração de elétron-volt. Então, tínhamos ali a promessa de um mundo absolutamente novo, do ponto de vista do impacto da ciência sobre a vida humana, sobre o conforto. Por outro lado, tínhamos a bomba atômica. Então, como disse Robert Oppenheimer, pai da bomba atômica americana, o homem conheceu o pecado, conheceu o inferno. E a humanidade se viu diante de um dilema, também expresso por Oppenheimer, de uma maneira magistral: “You cannot undiscover what has been discovered.”111 Você não pode desdescobrir o que foi descoberto. Então, esse é o tema central que se coloca para a humanidade, desde a emergência da energia nuclear.

No Brasil, há toda uma geração de grandes cientistas, das décadas de 1930 e 1940, nessa área: César Lattes, Oscar Sala, Marcelo Damy de Souza Santos, Abrahão de Moraes... Uma geração formada por Gleb Wataghin e Giuseppe Occhialini na Universidade de São Paulo e que projetou a ciência

brasileira a nível mundial. Não podemos esquecer que, nesse período anterior à Segunda Guerra, a ciência nuclear brasileira era tão adiantada quanto a da Suécia ou a de outro país desenvolvido. Graças a esse grupo de São Paulo, com o qual eu tive a ventura de ter tido contato muito cedo.

Durante a Segunda Guerra, Marcelo Damy de Souza Santos112 e Oscar Sala113 trabalharam na fabricação de sonares para a guerra antissubmarina.114 O que o senhor pode nos dizer dessa relação entre a comunidade de físicos e a Marinha brasileira?

A Marinha, diferentemente do Exército, nunca teve laboratórios próprios. A Marinha usava as universidades. Não é por acaso que o enriquecimento isotópico, desenvolvido no programa nuclear paralelo pelo almirante Othon Pinheiro e o grupo da Marinha, ocorreu no Instituto de Energia

Atômica da USP. Essa relação começou durante a guerra, quando o Damy, mais do que o Sala, produziu esses sonares.115 E o Exército, por outro lado, se atrasou muito, até a criação do Instituto Militar de Engenharia (IME).

Em 1952, mesmo ano no qual o senhor se formou na UFMG, foi criado na universidade o Instituto de Pesquisas Radioativas (IPR, hoje CDTN) junto à Escola de Engenharia, tendo Francisco de Assis Magalhães Gomes como seu primeiro diretor.116 Em 1958, a Escola de Engenharia

adquiriu um reator de pesquisa, do tipo Triga Mark I, fabricado pela General Atomic, divisão da General Dynamics Corporation.117 O reator serviria ao triplo propósito de treinar pessoal na área nuclear, realizar experimentos nesta área e produzir radioisótopos para pesquisa científica e tecnológica. Qual a sua avaliação sobre essa iniciativa?

Nessa época eu estava na Universidade de Cambridge, onde defendi minha tese em 1959. Se eu estivesse no Brasil, não teria deixado o Francisco de Assis Magalhães Gomes comprar esse reator, porque, já naquela época, eu estava convencido de que nós íamos utilizar o melhor capital humano para lidar com uma máquina de potência limitada. Havia muitas coisas importantes que não se podia fazer com ela, como, por exemplo, o estudo do magnetismo utilizando nêutrons fora do reator.

Estávamos mobilizando recursos financeiros e humanos e, no entanto, estávamos limitados pela condição definida pelo programa Átomos para a Paz118 para o fornecimento do reator, que era o controle completo do combustível pelos americanos. Politicamente, foi uma coisa de imensa

sabedoria dos americanos, pois desviou a comunidade científica de países como o Brasil da busca de sua independência para, ao invés disso, ficar “brincando de nêutrons”. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) foi criada para a promoção dos usos pacíficos da energia nuclear. Seu estatuto inicial previa o financiamento de bens de capital, quer dizer, de reatores de potência. No entanto, um dos primeiros atos do programa Átomos para a Paz foi alterar o estatuto da Agência e proibi-la de financiar bens de capital. Então, isso foi deliberado. Marcelo Damy, Magalhães Gomes e eu defendíamos um programa nuclear com urânio natural ou tório, ou seja, o desenvolvimento de uma tecnologia própria. Um pouco o modelo Candu (Canadian Deuterium Uranium), desenvolvido no Canadá. Porque esse modelo Candu tinha a vantagem de não precisar de urânio enriquecido. Com o tipo de reator que nós temos, o domínio completo do ciclo de combustível pressupõe a recuperação do urânio enriquecido depois de certo tempo de queima do combustível, em que se separa o urânio enriquecido valioso e os produtos de fissão, que terão que ser colocados em algum lugar por mil anos. Então, a vantagem do Candu é que o uso da água pesada permitia uma queima muito mais intensa do combustível; e não era preciso reprocessar, não era preciso dissolver quimicamente o combustível para separar, como é o caso dos reatores de urânio enriquecido, para recuperar o urânio enriquecido, que é excessivamente valioso para que se estoque e jogue fora. Então, quem usa reator a urânio enriquecido precisa desenvolver o processamento. Ao desenvolver o processamento, se

produz também um segundo elemento valioso, tanto como combustível como para armas nucleares, que é o plutônio. Então, reprocessar o elemento combustível utilizado implica recuperar urânio enriquecido, separar o plutônio e jogar o resto fora. Então, nós defendíamos a utilização do urânio natural.

Sim. E já havia entendimentos do Brasil com a França, mas não explicitados como acordo.119 Até porque o desenvolvimento nuclear da França era limitado. Ainda no início da década de 1950, o almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva120 fez um contrato com uma firma francesa de química de terras raras, a Societé des Produits Chimiques des Terres Rares, em que pela primeira vez foi

processado um minério brasileiro, resultando na extração de 900 gramas de urânio metálico.121 Esse processo teve a participação de um grupo brasileiro, nomeado pelo Álvaro Alberto no Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq),122 e de um pessoal do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). Então, houve essa experiência inicial com a França, depois rompida. Em 1954, o Álvaro Alberto trouxe da Alemanha, clandestinamente, três turbinas de enriquecimento isotópico por

centrifugação. Essas turbinas foram utilizadas em São Paulo, na Escola Politécnica, por um assistente do Teodureto de Camargo, que se chamava Ivo Jordan. E ficou sumida por lá. Lá pelas tantas, fui procurado por um oficial do Estado-Maior do Exército, que queria saber se eu tinha ideia de onde estavam essas centrífugas. Eu falei: “Tenho, sim. Está lá no IPT.123 Procura.” E foi com isso que o Othon Pinheiro recomeçou mais tarde essa história no chamado Programa Paralelo.

Voltando à questão do programa Átomos para a Paz e da crítica que o senhor faz em relação aos reatores: que opção que o senhor defendia?

Em vez de ter esses reatores a urânio enriquecido sob inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica e dos americanos, meu ponto de vista era que devíamos construir um reator a urânio natural, de 40 megawatts. Não era um produtor de energia, mas era um reator. Eu não estava inventando a roda. Havia já um modelo de um reator, um cíclotron, em Chicago, chamado NTX, Nuclear Testing Reactor. Era um reator com o qual era possível testar a resistência dos materiais estruturais para um reator e fazer a química nuclear. Isso era algo factível. E foi nesse sentido que em 1960 Jean

Debiesse, diretor do Laboratório Nacional Saclay, do Centro Nacional de Energia Nuclear da França,124 veio ao Brasil. Ele decidiu que eu era a pessoa-chave. Então, no início de 1961 fui convidado para ir à França, onde passei quarenta dias visitando todas as instalações nucleares francesas. Eu fui a Grenoble e conheci o Louis Néel,125 que, curiosamente, me disse: “Isto aqui vai ser um negócio pequeno. Vai ter, no máximo, seiscentas pessoas.” Mas quando eu fui trabalhar lá, em 1965, já tinha mil e oitocentas. Hoje tem cinco mil físicos. É o maior centro de física da Europa. Foi criação do Néel. Nessa viagem de 1961, visitei também uma usina de 40 megawatts, em Reims, e os reatores de potência no Vale do Loire, em Chinon, de 100 megawatts. Então, após essa visita, os franceses nos deram, para o IPR, uma tonelada de urânio metálico puro, para fazermos a chamada “montagem subcrítica”, em que você faz experiência de neutrônica, permitindo fazer o projeto desse tipo de reator. Essa montagem serviu para o projeto do tório e para várias outras coisas. Eu trouxe de Grenoble um acelerador de partículas capaz de gerar nêutrons de 14 milhões de volts. Você fazia a neutrônica, isto é, injetava esses nêutrons nessa montagem subcrítica a urânio, para estudar a

multiplicação dos nêutrons etc. Eu devo dizer que a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), presidida pelo Damy durante o governo Jânio Quadros, não criou a menor objeção a essa relação nossa com os franceses. E eu fui muito usado pela Cnen, como seu consultor.

O Grupo do Tório

atividades nucleares?

A Lei 4.118 estava engasgada no Congresso Nacional. Então, fui a Brasília com o Damy e, dadas as minhas relações familiares com o Zezinho Bonifácio, que era o primeiro-secretário da Câmara dos Deputados,126 nós conseguimos que ele exigisse que o deputado em questão desse o parecer em 24 horas. Era um deputado que, seguramente, estava servindo aos interesses da Orquima. A Orquima era uma empresa privada que processava as areias monazíticas e produzia tório. Ela foi absorvida pela Cnen. E essa questão do tório é o que havia gerado a ruptura do acordo com os americanos, ainda na década de 1950, o que foi anterior ao acordo com a França.127 Os americanos vieram para cá, entre eles o geólogo Max White, que veio trabalhar com o Djalma Guimarães128 na pesquisa mineral de urânio e tório. Era a Geological Survey americana que veio para cá. Às tantas, os americanos

queriam comprar cem toneladas de óxido de tório. Mas o Conselho de Segurança Nacional já havia editado um decreto, o dispositivo das chamadas compensações. Então, só se podia fornecer o tório se houvesse uma compensação tecnológica. Os americanos se recusaram às tais compensações. Houve um imbróglio, uma Comissão Parlamentar de Inquérito, em 1956. O Juarez Távora, que era o encarregado desse assunto no Conselho de Segurança Nacional, foi exonerado porque era favorável à exportação desses óxidos de tório. O José Leite Lopes teve um papel importante nessa Comissão Parlamentar de Inquérito. Ele foi contra a exportação. A meu ver, erroneamente. Havia ilusões sobre o tório. O tório não é combustível, ele não é físsil, ele é fértil. Para ser utilizado como combustível é preciso que ele se transforme em urânio. Onde? No reator nuclear. Primeiro você precisa ter um reator a urânio. Depois, você irradia o tório lá, ele captura um nêutron, vira esse urânio-233, e esse sim é físsil. Não havia, até recentemente, nenhum reator que funcionasse a tório. Só agora os indianos fizeram o lançamento de um reator que utiliza tório e urânio, que é o chamado breeder. Ele vai

produzir mais combustível do que consome. Mas, enfim, a ruptura do acordo com os americanos levou ao acordo com a França.

De 1965 a 1973 formou-se no IPR o chamado Grupo do Tório, do qual o senhor fez parte. Qual foi a atuação desse grupo?

Embora existisse um documento do Conselho de Segurança Nacional que definia uma política nuclear para o Brasil, não se fazia nada. Então, foi nesse vácuo que o Grupo do Tório iniciou seu trabalho. Eu não participei do Grupo do Tório aqui no Brasil, mas sim na França, onde fiquei de 1966 a

1972.129 Em São Paulo havia um grupo de tradição na área nuclear, teórica e experimental. Tinha o Mário Schenberg, o Abrahão de Moraes, o Paulus Aulus Pompéia, o Damy, o Sala, o Lattes... Mas eles não tinham opção tecnológica. A criação do Instituto de Energia Atômica,130 em 1956, é obra do Damy. O Schenberg e o Sala eram contra.

O Damy apoiava essas posições do IPR?

Apoiava. A grande força do Damy vinha do Jânio Quadros, então governador de São Paulo (1955- 1959). Foi, inclusive, o que permitiu ao Damy comprar o reator dentro do programa Átomos pela Paz. E depois, como presidente da República, Jânio nomeou o Damy para a presidência da Comissão Nacional de Energia Nuclear.131

Qual foi a contribuição do estado de Minas Gerais para a área nuclear?

Primeiramente, o grupo do Djalma Guimarães descobriu, em 1929, o primeiro minério de urânio no Brasil, em São João del-Rei. Segundo, o Djalma Guimarães foi também o descobridor do urânio em Poços de Caldas, a única fonte de urânio que o Brasil tinha. Depois ele descobriu a maior jazida de nióbio do mundo.

Por que o senhor acha que esse grupo de Minas ficou tão esquecido pela história?

Não sei. O Djalma e o Magalhães Gomes foram membros do Conselho Nacional de Pesquisa e da Comissão do Conselho Nacional de Pesquisa. O IPR era cópia do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), fundado pelo Lattes em 1949. E começou com o estudo dos raios cósmicos, através da utilização de emulsões nucleares, que é a técnica que o Lattes desenvolveu. O projeto do

almirante Álvaro Alberto para o CBPF era a construção de um cíclotron no Arsenal de Marinha, em Niterói, porque era o único lugar no Brasil que tinha competência e instalação para mecânica pesada, usada na construção naval. O Lattes então trouxe para o Brasil o Richard Miller, que foi o construtor do cíclotron de Chicago, um dos primeiros cíclotrons do mundo. Veio também um holandês chamado Hepp, que era da Phillips.132 A Phillips construiu um cíclotron antes da guerra. Quando os alemães invadiram a Holanda, eles desmontaram o cíclotron e enterraram para que os alemães não tivessem acesso. Mas o que aconteceu no CBPF foi que o administrador fez um desvio de dinheiro, e isso levou a um inquérito. O programa do Rio então parou. O Álvaro Alberto, que tinha apoio do Getulio, perdeu o prestígio. É importante notar o seguinte: a descoberta do méson pi pelo Lattes foi seminal para a ciência brasileira e gerou grande prestígio internacional.133 O prestígio do Lattes e do CBPF era tal que havia um telefone direto para a Presidência da República. O Lattes falava com o Getulio. Quem convenceu o Lattes a criar o CBPF como entidade privada foi o João Alberto Lins de Barros, que estava nos Estados Unidos quando da segunda descoberta do Lattes. Porque, primeiro, o Lattes descobriu o méson natural na radiação cósmica ao examinar chapas expostas na Bolívia, em

Chacaltaya. Depois ele foi para Berkeley, na Califórnia, onde descobriu o méson artificial. Isso então gerou uma enorme repercussão, que permitiu a criação do Conselho Nacional de Pesquisa. A criação do Conselho Nacional de Pesquisa baseou-se nesse prestígio do Lattes. E então Joaquim Costa Ribeiro,134 físico do Rio de Janeiro, juntou-se a ele. Mas não existia física no Rio de Janeiro. O Leite Lopes foi para o CBPF. O Rio entrou em crise por causa desse episódio. O CBPF era uma entidade privada, passou a não ter recursos, e o projeto da construção do cíclotron morreu. O CBPF transformou-se, basicamente, numa instituição de física nuclear teórica. Ele só renasceu com a

reforma do CNPq no governo Geisel, quando o CCT do CNPq nomeou uma comissão, que eu presidi, para examinar a transferência do CBPF para o CNPq. O que foi feito, por recomendação minha, com muitas resistências.

Voltando a Minas...

Em Minas foi o seguinte. No governo Milton Campos (1947-1951), foi criado, pelo Américo René Giannetti, então secretário de Agricultura, o chamado Imposto de Recuperação Econômica. Foi com o dinheiro desse imposto que o reator foi comprado, já no governo de Bias Fortes (1956-1961). A compra do reator Triga teve o apoio do Tancredo Neves, que era o secretário de Finanças de Minas

Gerais (1958-1960).

E, na sua opinião, a decisão pelo urânio enriquecido foi uma opção errada?

Sim, e a prova é que, mais de cinquenta anos depois da compra desses reatores de pesquisa, adquiridos na década de 1950, como está a energia nuclear no Brasil? Em termos de geração de energia, a situação é muito limitada. Angra 1 e Angra 2 levaram vinte, trinta anos para demarrar. E o programa previa a construção de nove reatores nucleares! Estamos parados há vários anos, com a comunidade técnica nuclear envelhecida, eu diria mesmo que praticamente não mais existente.

Devíamos ter buscado uma opção de independência, como fizeram a Suécia, a Dinamarca e a França. E a linha nacional independente, que estava de acordo com os meios brasileiros, era a do urânio natural. Os americanos achavam que o monopólio deles sobre a tecnologia nuclear ia ser eterno. Mas a primeira bomba atômica russa é de 1949. O Plano Baruch pretendia o controle internacional de todos os minérios nucleares do mundo.135 O Álvaro Alberto, representante brasileiro na Comissão de Energia Atômica do Conselho de Segurança da ONU, se contrapôs ao Plano Baruch, ao

reconhecer que ele significava uma restrição à soberania nacional. As sessões da Comissão de Energia Atômica, entre 1946 e 1948, resultaram na criação da Agência Internacional de Energia Atômica, inaugurada em Viena em 1957.

Quem defendia a opção pelo urânio enriquecido, aqui no Brasil?

A linha do urânio enriquecido foi uma decisão do regime militar, irmanado com os Estados Unidos, por uma quantidade de razões, entre as quais a possibilidade de uma terceira guerra mundial. Para nossa infelicidade ou desgraça, entre 1964 e 1968, a Inglaterra e a França abandonaram a linha do urânio natural e adotaram os Pressurized Water Reactors (PWR), porque isso era indispensável à construção de submarinos nucleares. O presidente Kennedy ofereceu a tecnologia do submarino nuclear ao primeiro-ministro Harold Macmillan e ao presidente Charles de Gaulle, desde que não fizessem a bomba. A França recusou, e fez o submarino. Os ingleses também recusaram, mas adotaram uma linha própria ruim. A França desenvolveu, sozinha, a linha PWR. Eles tinham uma longa tradição de construção de submarino. Também na França a Marinha teve um papel importante na energia nuclear.

O golpe de 1964 e a energia nuclear

Após o golpe de 1964, o senhor respondeu a inquéritos policiais militares (IPMs), Mário

Schenberg foi preso, Leite Lopes foi para o exílio, assim como outros cientistas brasileiros. Qual o resultado disso para a energia nuclear brasileira?

No Rio, a Cnen foi ocupada militarmente pelo general Arthur Mascarenhas Façanha, que era

engenheiro nuclear e presidiu então a Cnen por um curto período em 1964. O Façanha já trabalhava anteriormente na Cnen. Não era um dos cinco comissários. Os cinco éramos eu; o Damy, que era o presidente; o Magalhães Gomes; o coronel Carlos Cairoli, representante do Conselho de Segurança Nacional; e o Elisiário Távora, que cuidava da área mineral. Depois do golpe de 1964, eu fui

defendiam a linha do urânio natural foram exonerados e perseguidos. O Magalhães, o Damy e eu fomos exonerados. Eu estava trabalhando em várias coisas no laboratório da Faculdade de Filosofia, que também foi ocupado militarmente, de metralhadora na mão.

O senhor foi aconselhado a deixar o Brasil?

Fui. Mas só deixei o Brasil em 1965. Em julho de 1964, ainda fiz concurso para catedrático na UFMG. Havia o receio de que os militares interviessem no meu concurso. Isso era um pouco moda. O diretor da Faculdade Nacional de Filosofia tornou-se useiro e vezeiro dessas coisas. A certa