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Um dos mais graves erros que o historiador pode cometer é o do anacronismo, ou seja, enxergar determinada época com um olhar do presente. Para muitas das pessoas das gerações do Brasil atual (início do século XXI), criadas numa sociedade altamente individualista e hedonista, talvez possa parecer loucura o que aquelas pessoas dos anos 1960 realizaram, pegando em armas e deixando “tudo” (família, amigos, emprego, etc.) para trás. É necessário cuidado com esse tipo de visão. É um grande equívoco imaginar que se pode entender as idéias e as ações de uma pessoa sem considerar o contexto histórico que as gerou. Dessa forma, não se pode esquecer a contextualização político-social dos anos 1960 para compreender o porquê da

64 Grande repressão sobre o PCB deu-se em abril de 1973, quando aparelhos do Partido em Fortaleza e uma gráfica em Croatá-CE (onde era impresso o jornal comunista Voz Operária, distribuído por todo o Nordeste) foram estourados pela Polícia Federal, sendo presos vários militantes. O Povo, 3/04/1973, p. 7; 10/04/1973, p. 12; 12/05/1973, p. 7; 16/05/1973, p. 7.

opção de parte das esquerdas brasileiras pela luta armada. Aquele período foi bastante agitado, não só no Brasil, mas na maior parte do mundo, com promessas de transformações as quais questionavam os sistemas políticos e sociais vigentes.

Internacionalmente, aconteceram vários confrontos, como a Revolução Cubana (1959), a Independência da Argélia (1962) e a Guerra do Vietnã (1962- 75) – o triunfo militar desses movimentos é básico para entender as lutas, os sonhos e o ideário questionador da década de 1960. Parecia que todos os povos oprimidos e explorados do mundo estavam em franca revolta conta a ordem capitalista, no firme propósito de criar uma nova realidade. Daquelas revoltas, foi mais impactante a Revolução Cubana para as esquerdas latino- americanas, sobremaneira as brasileiras, não somente por demonstrar que era possível vencer o imperialismo ianque no continente, mas também por haver rompido com um dos padrões clássicos da esquerda marxista-leninista da época: a vitória não foi obtida através de um partido revolucionário e de vanguarda, como na Revolução Russa de 1917, ou como resultado de uma vitória militar camponesa, conforme ocorrera na Revolução Chinesa liderada por Mão Tse Tung em 1949. Não. Em Cuba, a revolução teria sido resultado das vitórias políticas e militares de uma guerrilha65. Não por acaso, uma das teorias de luta armada mais difundidas nos anos 60 foi a do foquismo, inspirada no triunfo de Fidel Castro, Ernesto Che Guevara e outros no País Caribenho.

Com base nos escritos de Guevara e do francês Régis Debray, o foquismo partia do pressuposto de que havia amplas condições para o triunfo revolucionário em todos os países latino-americanos – a revolução seria continental, acima de “diferenças nacionais secundárias”, e diretamente socialista. Faltavam apenas as “condições subjetivas” para iniciar a revolução, um “motor” para acionar as massas, e este seria o foco revolucionário. O foco, a “vanguarda revolucionária”, começava com um punhado de homens (“a partir do zero”) e se punha a atuar entre os camponeses de uma área cujas condições geográficas facilitassem a defesa contra ataques do exército oficial. Posteriormente, colunas guerrilheiras se deslocariam, levando a luta armada a

65 BARÃO, Carlos Alberto. A Influência da Revolução Cubana Sobre a Esquerda Brasileira nos Anos 60. In: MORAES, João Quartim de, e AARÃO, Daniel (organizadores). História do Marxismo no Brasil. Campinas-SP: Editora da Unicamp, volume I, 2003, p. 263.

outras regiões e se justariam para formação de um exército que derrotaria, por fim, o inimigo. Salientava-se, pelo que se percebe, a importância da guerrilha e luta no campo – seria impossível a luta revolucionária nas cidades, onde o inimigo concentrava seu poder. Os grupos armados revolucionários brasileiros, não por coincidência, e apesar de suas divergências, objetivavam instalar a luta armada rural (as ações nas cidades visavam sobremaneira acumular recursos para tanto)66.

O foquismo trouxe igualmente como novidade a idéia da primazia do militar e guerrilheiro sobre o político e o partido. Era uma crítica à burocracia e inércia de certos partidos comunistas acomodados à lógica da Guerra Fria. No lugar de esperar pelo partido, o foco tomava a iniciativa de começar a luta (isso, obviamente, não foi de agrado dos tradicionais partidos comunistas, assim, descartados). Daí se entende por que, com base no foquismo, eclodiram no continente latino-americano, várias guerrilhas – esquecia-se, contudo, que a Revolução Cubana fora vitoriosa não só devido a “ação heróica” de duas dezenas de revolucionários (um mito infantil das esquerdas), mas, porque os guerrilheiros contaram desde o inicio com simpatia de amplos setores da sociedade cubana, descontentes com a ditadura de Fugêncio Batista, e com certa leniência dos EUA. Nem em Cuba o foquismo foi aplicado e a morte de Che na Bolívia em 1967 era um aviso das limitações da teoria67... Como veremos adiante, poucas organizações armadas brasileiras não deixaram de fazer restrições ao foquismo, embora, no geral, o grosso da teoria continuasse prevalecendo.

Igualmente existia nos anos 1960 uma crítica ao modelo socialista soviético, visto já como burocrático, autoritário e acomodado ao jogo internacional da Guerra Fria. O líder russo Nikita Kruchev falava de “coexistência pacífica” entre URSS e EUA, entre comunismo e capitalismo – o socialismo iria mostrar sua “superioridade” em todos os níveis, conquistando cada vez mais adeptos e simpatias, de modo que o capitalismo seria derrotado com custos sociais e humanos mínimos68. Se teve grande repercussão

(negativa) entre as esquerdas a invasão da antiga Thecoeslováquia em 1968

66 Ib. Idem., p. 271-282.

67 GORENDER, Jacob. Op. Cit., p. 87-92. 68 BARÃO, Carlos Alberto. Op. Cit., p. 261.

por tropas soviéticas (episódio óbvia e igualmente usado pelas direitas para demonstrar a brutalidade e contradições dos comunistas), recebeu-se com simpatias a Revolução Cultural Chinesa a partir de 1966, que se imaginava como um “sopro jovial socialista” em resposta aos burocratas.

Daí se entende por que aconteceram tantos protestos e agitação política pelo mundo, especialmente em 1968. A utopia que ganhava corações e mentes nos anos 60 era a da revolução (não a democracia ou a cidadania como hoje) – tanto que os golpistas de 64 no Brasil chamaram seu movimento de “Revolução de 1964”. Não queremos afirmar, outrossim, que a luta armada no Brasil constituiu-se mero reflexo dos movimentos internacionais, que as esquerdas, conforme a imagem difundida pela grande imprensa e Ditadura Militar, fossem “fantoches” submissos às diretrizes de Moscou, Pequim e Havana. Não se nega a influência dos movimentos internacionais, porém não a ponto de determinar a ação revolucionária brasileira, mesmo porque os militantes realizavam uma “leitura seletiva” das experiências internacionais. Os

comunistas brasileiros liam as “orientações” externas com o auxílio de “chaves” próprias, para atender suas necessidades específicas69. A morte de Che Guevara na Bolívia em 1967, em geral, não foi vista como um alerta para as dificuldades da luta armada no Continente, mas como um exemplo de sacrifício pessoal em nome da causa revolucionária triunfante e inevitável.

Nessa perspectiva, não se pode desconhecer as razões políticas internas, do Brasil, que levaram à ação da esquerda armada nos anos 1960 e 1970. Em destaque, a grande mobilização popular no inicio dos anos 60 em defesa das reformas de base propostas pelo governo João Goulart, o que foi abruptamente interrompido pelo Golpe Civil Militar de 1964. Este encerrou as crescentes mobilizações de operários, estudantes, trabalhadores rurais, militares de baixa patentes, entre outros, que ameaçavam a ordem sócio- econômica imperante.

Verdade que já antes de 64 segmentos das esquerdas tentaram a luta armada no Brasil, no caso, militantes ligados às Ligas Camponesas e ao advogado (depois deputado federal) Francisco Julião, que, em contato com Cuba, fundaram o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) e montaram

campos de treinamentos de guerrilheiros em algumas fazendas – foram logos descobertos pelos órgãos de segurança em 1962 e desarticulados, sendo o fato amplamente divulgado pela imprensa70. Importa ressaltar que embora

Cuba fosse solidária e ajudasse materialmente várias organizações revolucionárias no Continente, estas mantinham sua autonomia, não havia intervenção direta nas ações por parte dos dirigentes cubanos71.

Após o Golpe, surgiria uma série de grupos armados de esquerda, isso em meio a um descenso dos movimentos populares, desmantelados de modo geral com a repressão de 1964, à exceção do meio estudantil, que conseguiu se rearticular nos anos seguintes nacionalmente, promovendo expressivas manifestações e passeatas, sobretudo no ano de 1968.

Não obstante, foram elementos nacionalistas, ligados a Leonel Brizola (que igualmente manteve contatos com Cuba) e militares de baixa patente das Forças Armadas (sargentos, cabos, marinheiros cassados após o Golpe), que tentaram, a seguir, instalar um foco de luta armada no País, entre 1965 e 1967, na Serra do Caparó, na divisa de Minas Gerais e Espírito Santo, com o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). Mais um fracasso, com vários guerrilheiros presos. Vários desses elementos militares nacionalistas de baixa batente e estudantes entrariam depois nos grupos marxistas guerrilheiros que começaram a se organizar no Brasil a partir de 1967. Vale ressaltar que se fundou no Ceará um grupo de apoio a esse projeto de Brizola em desencadear uma guerrilha no Brasil, a Frente Popular de Libertação (FPL), que contando com vários estudantes, chegou até a praticar ações de expropriação em Fortaleza, numa evidência de como o desejo de realizar a luta armada estava disseminado entre muitos militantes de esquerda local. Tal informação foi-nos passada por um dos integrantes da FPL, Mário Albuquerque, e que depois participaria da fundação do PCBR no Ceará72.

70 GORENDER, Jacob. Op. Cit., p. 52.

71 BARÃO, Carlos Alberto. Op. Cit., p. 284. ROLLEMBERG, Denise. Esquerdas Revolucionárias e Luta Armada. In: FERREIRA, Jorge, e DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil Republicano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, volume IV, 2003, p. 63.

72 Informação passada por Mário Miranda de Albuquerque, ativista de esquerda nascido em Fortaleza no ano de 1948. Líder estudantil dos anos 1960, participou da luta armada no PCBR, o que lhe valeu a condenação de 34 anos de prisão, dos quais cumpriu nove, sendo liberto apenas com a Anistia em 1979. Atualmente preside a Associação 64/68 Anistia. Entrevistado a 20/01/2003.

Apesar desses fracassos, o ideal revolucionário e de luta armada continuavam presentes no imaginário do militante de esquerda, o que foi intensificado pela agitação toda em 1968 acontecida no Brasil e no exterior. Havia uma crença que grandes transformações estavam prestes a acontecer, bastando uma “firme vontade para tanto”73. Tudo parecia ratificar a idéia da

viabilidade da luta armada. Eram, contudo, principalmente “apenas” manifestações estudantis – os movimentos populares, em seu bojo, estiveram praticamente inertes, salvo algumas greves. De certo modo, as esquerdas repetiam o mesmo erro de 1964, em supervalorizar sua força e a mobilização popular. Essa análise estreita, ante o endurecimento cada vez maior do Regime (expresso pelo AI-5, de dezembro de 1968), conduziria muitos dos militantes a enxergar a luta armada como caminho exato a seguir.

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