4. Results and discussion …
4.2 Soil characterization
Com base nas críticas e nos problemas empíricos relativos ao modelo H-O, surgiu uma série de novas explicações para o comércio internacional, dando origem à chamada nova teoria do comércio internacional (e.g., LINDER, 1961; KRUGMAN, 1979, 1991; e VERNON, 1966, 1979). Nos novos modelos, de modo geral, o livre comércio continua mostrando-se estaticamente a melhor solução. Contudo, percebe-se nessas teorias certa recuperação de idéias protecionistas, em função da introdução de problemas relacionados à incerteza, economias de escala e estruturas de mercado não concorrenciais.
A nova teoria do comércio internacional (NTT9) é, em alguns aspectos, uma extensão da teoria de Hecksher-Ohlin. De modo geral, o que se constata é que, além do comércio preconizado pelo modelo H-O (i.e., o comércio entre países desenvolvidos e periféricos), verifica-se também um comércio intenso entre países com igual dotação de recursos e a crescente troca de produtos razoavelmente parecidos, ou seja, o comércio intra-industrial. Apoiada na teoria da firma de Chamberlin (1933), a NTT sugere que tal padrão de comércio pode ser atribuído à existência de retornos crescentes de escala e concorrência imperfeita (KRUGMAN, 1979).
A idéia básica é que, em função dos rendimentos crescentes de escala, mesmo países idênticos no que se refere a suas dotações de fatores e suas preferências podem obter ganhos com o comércio mútuo. Esse comércio, no entanto, não se realiza em condições de concorrência perfeita, fazendo-se necessário certo grau de monopolização. Além disso, não há qualquer garantia de que esses ganhos sejam distribuídos proporcionalmente entre os países comerciantes.
A demonstração da importância dos retornos crescentes de escala e da concorrência imperfeita não apenas contribuiu para a reformulação da teoria tradicional do comércio internacional, mas também forneceu novos argumentos em favor de políticas comerciais protecionistas. Em uma economia caracterizada por retornos crescentes de escala, pode haver, no longo prazo, vantagens de custo adicionais associadas à introdução de tarifas de importação ou subsídios industriais.
No que se refere à relação entre comércio externo e crescimento, Krugman (1991) e Krugman & Venables (1993) sugerem a existência de uma relação de causalidade bidirecional. O modelo de Krugman (1991) demonstra que o comércio externo, sob a presença de externalidades positivas (economias externas)10, leva à concentração regional de indústrias escala-intensivas. Ao discutir os impactos regionais de longo prazo do comércio, Krugman (influenciado por Kaldor) destaca que estes impactos tendem a ser cumulativos e se auto-reforçar. Uma vez que determinado local se estabelece como um centro de produção e exportação, economias de aglomeração tendem a proporcionar a este vantagens de custo permanentes em relação a outras
9 Abreviação do termo original, em inglês, New Trade Theory.
10 Krugman (1991) define economias externas como externalidades pecuniárias associadas ao desejo das
firmas de se situar na proximidade dos mercados maiores e dos trabalhadores de viver perto das áreas nas quais se concentra a produção (porque lá os preços serão menores e, portanto, os salários reais serão maiores).
localidades. Estas vantagens de escala e de custo são reforçadas pelos salários relativamente mais altos pagos aos trabalhadores nas indústrias escala-intensivas. Krugman argumenta que estes salários mais altos atuam, por meio de um multiplicador Keynesiano da renda, como um estímulo ao crescimento dos mercados locais, resultando em economias de escala adicionais, que, por sua vez, levam a um novo crescimento das exportações.
Linder (1961) procurou enfatizar o lado da demanda a fim de explicar esse novo padrão de comércio (intra-industrial). Basicamente, a chamada hipótese de Linder postula que quanto mais parecida for a demanda dos países (ou seja, quanto mais próximo o nível de desenvolvimento dos países), mais fácil e maior é o comércio entre esses países, pois eles tenderão a produzir bens que mais facilmente atendem à demanda de potenciais importadores. De acordo com esta hipótese, evita-se produzir para exportação produtos cujo consumo interno é pequeno, em função da incerteza associada a esse mercado que é menos conhecido e controlável. Sendo assim, os produtos a serem exportados são preferencialmente aqueles já produzidos para atender ao próprio mercado doméstico. Isto requer, portanto, que os parceiros comerciais tenham estruturas de demanda relativamente parecidas. A concorrência entre países, neste contexto, é exercida com base em um processo de diferenciação de produto.
Por fim, existe a explicação baseada na teoria do ciclo do produto, originalmente apresentada por Vernon (1966). Pessoa & Martins (2007, p. 311), revisitando o modelo do ciclo do produto, sintetizaram a idéia básica por trás desta teoria:
Surgem novos produtos, estes se desenvolvem, atingem a maturidade, entram em declínio e, eventualmente, desaparecem. Essa é a essência da noção de ciclo de vida do produto. Vernon parte desse conceito e o articula a uma teoria do comércio que aponta para uma noção de vantagens comparativas de caráter dinâmico e a uma teoria do investimento (produtivo) que pressupõe racionalidade limitada e estrutura de mercado em concorrência imperfeita. O resultado dessa articulação é um modelo no qual o fluxo de comércio e a estratégia de localização da produção no exterior são explicados em função do ciclo de vida do produto.
Assim, segundo a teoria desenvolvida por Vernon (1966), os países desenvolvidos têm vantagens comparativas naquilo em que são pioneiros, em que conseguem introduzir inovações em função da qualificação de sua mão-de-obra, de seus recursos em P&D e da estrutura de demanda que possuem. Com a difusão internacional da demanda por tal produto, o país inovador passará a exportá-lo. Contudo, ao longo do tempo, a produção desse bem passa por um processo de padronização, o que faz com
que a importância da qualificação da mão-de-obra e dos recursos em P&D praticamente desapareça. Nesta fase do ciclo do produto, sua produção poderá mudar de país e situar- se em países menos desenvolvidos, os quais também passariam a exportá-lo. Nesta concepção, as exportações dos países desenvolvidos seriam de alta tecnologia e muito intensivas em mão-de-obra altamente qualificada. Por outro lado, os países em desenvolvimento se especializariam na produção e exportação de produtos padronizados (GREMAUD et al., 2007, p. 550).
No tocante à relação causal entre comércio externo e crescimento, o modelo de Vernon (1966) sugere que as características dos mercados domésticos determinam o crescimento das exportações no primeiro e segundo estágios (introdução e maturação, respectivamente) do ciclo do produto.