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3. Conceptual Framework

5.3. Livelihoods vulnerability

5.3.5. Social capital vulnerability

Neste capítulo, farei uma análise do capítulo 31 do livro dos Provérbios com a possibilidade de que todo o capítulo forme uma unidade literária tecida pela figura da mulher sábia. No item 3.1, farei a tradução e a crítica textual de todo o capítulo. No item 3.2, apresentarei a delimitação do texto, buscando encontrar sua coesão interna e passarei a analisar separadamente cada subunidade. Desta maneira, no item 3.3, investigarei sobre o gênero literário, tendo em vista a delimitação feita no item anterior. No item 3.4, buscarei encontrar aspectos que indiquem o contexto de Pr 31: a época, a situação histórica, o ambiente onde o texto foi gerado e suas raízes no chão da história do povo bíblico. No item 3.5, apresentarei os conteúdos de todo o texto, concluindo com um resumo do caminho percorrido.

Algumas perguntas conduzem minha pesquisa. O primeiro poema (31,1-9) registra ensinamentos e correções feitas ao rei Lemuel por sua mãe. O texto chama a atenção para algo pouco comum na literatura bíblica, onde são registrados, quase exclusivamente, discursos masculinos. Qual a realidade que a apresentação do ensinamento da mulher sábia em Pr 31,1-9 desvela?

O segundo poema (31,10-31) registra elogios à “mulher de luta”264 ’exet hayil, em

uma forma muito elaborada. Este belo poema é uma estratégia para construir um padrão idealizado de mulher ou carrega a memória de histórias reais que narram a atuação de mulheres competentes na administração econômica e nas relações em suas casas? Na família estendida, em especial na casa do período pós-exílico, estariam sendo recolhidas antigas tradições religiosas com a finalidade de iluminar a difícil situação em que viviam? As antigas tradições, ligadas aos desafios da situação das famílias no pós-exílio, estariam possibilitando novas visões da mulher, de Deus, do mundo, da vida?

3.1 – Tradução e crítica textual

1. Palavras de Lemuel265, rei de Massa,266

que lhe ensinou267 sua mãe:

2. Como268, meu filho269, e como, filho do meu ventre,

264 Literalmente

lyIx;-tv,ae

’exet hayil significa “mulher de luta”, mas algumas vezes usarei a expressão “mulher de força” ou “mulher forte” para indicar esta personagem.

265 Em Pr 31,1 do texto massorético encotramos a frase “palavras de Lamuel, rei de Massa, que lhe ensinou sua mãe”

AMai WTr;S.yI-rv,a] af'm; %lem, laeWml. yreb.DI

dibre lemu‘el melek ma sa ’axer-yisratu ’imo . No entanto, os versos seguintes (v.2-9) trazem o discurso da mãe de Lemuel. Teria este

cabeçalho do texto a função de tornar aceitável o ensinamento de uma mulher, dando-lhe oficialidade? 266 O nome

af'm;

masa tanto pode significar “oráculo”, “pronunciamento”, “peso” ou “sentença pesada”, como um nome próprio masculino (conferir Gn 25,14), ou um lugar que guarda a memória da tentação no deserto (Ex 17,7; Dt 6,16; 9,22; 33,8 e Sl 95,8). A Bíblia de Jerusalém entende Massa como nome de uma tribo ismaelita do norte da Arábia (Gn 25,14). Veja Bíblia de Jerusalém, nota z, p.1163. Minha opinião é que o sentido da palavra

af'm;

masa, que aparece 27 vezes na Bíblia Hebraica, deve ser entendida de acordo

com o seu contexto literário. Em Pr 31,1 ela tem o sentido de lugar e identifica uma tradição árabe que registra a memória da sabedoria da mulher.

267 O verbo “corrigir”

rsy

ysr e o substantivo musar “correção ou castigo” aparecem repetidos várias vezes na seção 1-9 de Provérbios. Ao traduzir este verbo por “ensinou” entendo a proximidade das duas ações: corrigir e ensinar. Este verbo pode conter um significado de castigo corporal, sobretudo quando está no piel: Pr 19,18; 29,17. Encontramos “correção” musar junto com “vara” xebet, em Pr 13,24; 22,15; 23,13. Porém, o substantivo musar é usado mais freqüentemente no sentido de “correção” pela palavra. A LXX traduziu o verbo “corrigiu”

WTr;S.yI

yisratu como evpai,deusen, um verbo que traz o sentido de “educar”, “corrigir”. Confira pesquisa de M. Sæ bø, ysr, Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, editado por Ernst Jenni e Claus Westermann, vol. 1, col.1016-1021. Esta forma, em estado construído, aparece somente em Pr 31,1.

e como, filho de meus votos? 3. Não dês a tua força270 às mulheres

e teus caminhos ao que corrompe271reis.

4. Não (é) para os reis, Lemuel, beber vinho não (é) para os reis, nem para os governantes o desejo272 de bebida,

5. Porque bebendo se esquecem do decretado273 e torcem o julgamento de todos os filhos de aflição274 6. Dá bebida forte ao moribundo275

e vinho aos amargados.

7. Que beba e se esqueça de sua pobreza e não se lembre mais de sua aflição. 8. Abre tua boca pelos mudos,

na causa de todos os filhos de abandono276.

268A partícula interrogativa ou exclamativa

hm'

mah, que traduzi por “como?”, pode significar, também, “o que?”, “qual?”, “quanto?”. Ao optar por “como?”, entendo que a pergunta da mãe questiona um comportamento, um modo de ser do seu filho, que ela não entende ou não aceita.

269 A palavra “filho”, na forma aramaica

rB;

bar, aparece repetida três vezes neste verso.

270 Esta palavra

lyix;

hayil pode ser entendida como “poder”, “riqueza”, “força”. Confira Luis Alonso Schökel, Dicionário bíblico hebraico-português, p.217 e Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebráico-português & aramaico-português, p.67.

271 O termo

tAxm.

mehot, cuja raiz é

hxm

mhh, é um particípio no feminino e pode ser lido como “apagada”, “cancelada”, “lavada”, “riscada” (confira Jz 21,17). O sentido figurado deste termo e sua complementação,

!ykil'm.

melakin levaram-me a fazer esta leitura: “ao que se corrompe”.

272 É duvidoso o sentido deste termo

wae

’en, que traduzi por “desejo”. Poderia ser uma negação? Não encontro outro sentido senão desejo, lendo

wae

’en como forma resumida do infinitivo

#pxe

hepez.

273 A raíz

qqx

hqq aparece aqui como um particípio pual que, nesta forma, ocorre apenas nesta passagem da Bíblia Hebraica. No hebraico, este verbo é usado no sentido de “inscrever”, “governar”, “decretar”. Por isso, foi traduzido como “decretado”.

274 A expressão que traduzi como “todos os filhos da aflição”

yni[o-ynEB.-lK'

kol bene ‘oni tanto pode significar uma atitude como uma situação. Veja Luis Alo nso Schökel, Dicionário bíblico hebraico-

português, p.508. Neste caso, indica a situação de desamparo, marginalização e injustiça, indicada pelo

conjunto dos elementos que formam a frase.

275 O termo

dbeAa

’obed vem de

bAa

’ob, que significa “fantasma”, “es pírito”, “espectro”. Confira Luis Alonso Schökel, Dicionário bíblico hebraico-português, p.32 e Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebráico-português & aramaico-português, p.5. A

Bíblia de Jerusalém traduz este termo como “moribundo” (veja p. 1163) e a versão revisada da tradução de

João Ferreira de Almeida, p.570, traduz a frase como: “dai bebida forte ao que está para perecer”.

276 O termo

@Alx]

halop é um infinitivo ou nome verbal que qualifica filhos. Entendi

@Alx yneB.-

lK'

kol bene halop como “todos os filhos do abandono”. Não é difícil intuir a situação social expressa

9. Abre tua boca, julga (com) justiça, e julga o pobre e necessitado277. 10. Mulher de força278, quem encontrará?

Pois seu valor (é) muito maior que pérolas. 11. Confia nela (o) coração279 de seu marido

e não lhe faltam lucros280.

12. Ela lhe proporciona281 bem e não ma,l todos os dias de sua vida

13. Busca282 lã e linho283 e suas mãos284

descrição iniciada no verso an terior: “abre tua boca pelos mudos”. São todos aqueles que não são escutados e cujas reivindicações não são atendidas e cujos direitos não são respeitados.

277 O termo

!Ay*b.a,

ebion, que também aparece em Pr 31,20, tem o sentido específico de “pobre”, “sem dinheiro ou recursos” e o sentido genérico de “desvalido”, “desamparado”, “indigente”, “falto”, “necessitado”. Veja Luis Alonso Schökel, Dicionário bíblico hebraico -português, p.22. O verso final desta instrução da mãe que recomenda ao seu filho rei a prática da justiça, lembra o discurso da sabedoria mulher em 8,15-16 e 20.

278 O termo

lyIx;-tv,eae

’exet hayil pode ser traduzido por “mulher de força” ou “mulher de guerra”. Tanto a Septuaginta como a Vulgata o traduziram como “mulher forte”. Algumas versões da Bíblia, em português, trazem o termo “mulher talentosa” (Bíblia de Jerusalém, p.1163), “mulher virtuosa” (versão

revisada da tradução de João Ferreira de Almeida, p.570). Embora não esteja longe da raiz original, pois

etimologicamente a palavra virtude provém de virtus e tem a ver com força e vigor. No entanto, nas interpretações e nos discursos sobre este tema a conotação moral é mais sublinhada.

279 No hebraico, o termo leb tem muitos significados. Um deles é designar toda a região cardíaca (2Sm 18,4; Sl 17,15) e a força vital (Gn 18,5; Jz 19,5.8; Sl 104,15). Outro é representar a potência e o desejo sexual (Os 4,11; Jó 31,9; Pr 6,25). Veja mais dados sobre

ble

leb na pesquisa realizada por F. Stolz, Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, editado por Ernst Jenni e Claus Westermann, vol.1, p.1176-1185.

280 O termo

ll'v'

xalal tem o significado de “botim”, “presa”, “despojo”. Em sentido figurado significa “prosperidade”, “negócio rentável”. Confira Luis Alonso Schökel, Dicionário bíblico hebraico-português, p.675.

281 A raiz

lmg

gml está documentada com segurança somente em acádico, hebraico e árabe, porém o seu significado apresenta grandes diferenças, nestas línguas. No AT, gml aparece 60 vezes, sendo que 15 vezes nos Salmos, 12 vezes em Isaías, 6 vezes em 1Samuel e 5 vezes em Provérbios. O substantivo gemul é também usado para descrever ações benéficas de Deus com a humanidade (Is 63,7; Sl 13,6; 103,10; 116,17, 142,8). Confira G. Saber, gml, Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, editado por Ernst Jenni e Claus Westermann, vol.1, p.606-609.

282 A forma verbal

hv'r>D'

darxah está no qal, perfeito, feminino, singular. Sua raiz é

vrD

drx, um verbo próprio do semítico ocidental e que está documentado em ugarítico, aramaico, etíope e árabe, além do hebraico, com o significado de “procurar”, “examinar”, “pesquisar”, “indagar”, “exigir”. Sua raiz coincide com um verbo que significa “caminhar” drk , em hebraico e aramaico. Tem um campo semântico profano bastante reduzido, embora esteja abundantemente documentado no hebraico, aparecendo no AT cerca de 155 vezes no qal e 9 vezes no nifal.Veja os diferentes significados de drx em pesquisa feita por G. Gerleman e E. Ruprecht, Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, editado por Ernst Jenni e Claus Westermann, vol.1, p.650-659.

trabalham com alegria285.

14. É como as naves mercantes286 de longe traz seu pão.

15. E se levanta quando ainda é noite

e dá alimento à sua casa287 e porção para suas criadas288. 16. Examina289 um terreno e o compra.

Do fruto de suas mãos planta uma vinha. 17. Cinge a cintura com decisão

e fortalece290 seus braços291. 18. Percebe292 que seus negócios vão bem

283 Segundo Os 2,7.11, era o homem que devia prover a mulher de lã e linho. Neste poema, a mulher de luta tem autonomia para conseguir a matéria prima necessária para fazer seu trabalho e para comercializá -lo. É esta autonomia que lhe garante o prazer de trabalhar.

284 A palavra mão

dy'

yad aparece no v.19, no v.20 e no v.31. Aqui, no v.13, a palavra é “palmas”

h'yP,K;

kapeha, um termo também repetido nos v.16.19 e 20.

285 O termo

#p,xe

hepez tem o significado de “agrado”, “gosto”, “interesse”, “vontade”. Veja mais informações em Luis Alonso Schökel, Dicionário bíblico hebraico-português, p.238.

286 Nesta comparação da mulher forte e sábia com uma nave mercante há algo de inédito dentro do contexto do poema, pois apresenta a mulher com uma aureola de majestade e de abundância. A lamentação sobre Tiro que se encontra em Ezequiel 27 é um exemplo do uso do navio mercante como símbolo de poder e majestade. Confira Luis Alonso Schökel e José Vílchez Líndez, com a colaboração de A. Pinto, Sapienciales y

Proverbios, p.529.

287 Em hebraico e nas línguas vizinhas, o significado de “casa” bayit se estendeu a tudo o que há na casa. Veja o estudo apresentado por E. Jenni, Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, editado por Er nst Jenni e Claus Westermann, vol. 1, p.449-457. É interessante observar a repetição neste poema do termo com possessivo em feminino: “sua casa”

Ht'yBe

betah. Este nome em feminino aparece no v.15, no v.21, e duas vezes e no v.27.

288 Este verso quebra o ritmo da poesia. Luis Alonso Schökel afirma que se uma das frases for suprimida, o sentido do verso não fica mutilado. Este autor sugere a seguinte tradução: “Reparte rações e tarefas a criados e criadas”. Veja Luis Alonso Schökel e José Vílchez Líndez, com a colaboração de A. Pinto, Sapienciales y

Proverbios, p.530.

289 O verbo “examinar”

hm'm.z'

zamemah está no qal, perfeito, feminino e expressa uma ação intelectual. A mulher de Pr 31,10-31 não trabalha apenas com habilidosas mãos e com tino administrativo. Ela pensa, estuda, examina, já que zmm indica atividade intelectual. Como verbo,

~mz

zmm, ocorre somente duas vezes

em Provérbios. Uma vez com o sentido mais comum de tramar (30,32) e uma única vez como realização de uma atividade intelectual de investigar sobre um assunto, antes de tomar uma decisão (31,16). Confira Luis Alonso Schökel, Dicionário bíblico hebraico-português, p.194.

290 A palavra

z[o

‘oz

o

, cuja raíz é

zw[

, significa “vigor”, “força”, “poder”, “firmeza”. Confira Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebráico-português &

aramaico-português, p.176.

291 O verso 17 mostra um aspecto inverso ao 16, pois o gesto de cingir a cintura com decisão e fortalecer os braços faz parte do ritual de preparação para o trabalho manual. No Sl 65,7 Deus se cinge de poder para criar o mundo.

e sua lâmpada não se apaga de noite. 19. Abre suas mãos293 ao fuso

e suas palmas sustentam a roca. 20. Estende sua mão ao pobre

e ajuda o necessitado294.

21. Não teme pela sua casa (quando) neva,

pois toda sua casa está vestida duplamente295. 22. Faz colchas para si

e sua roupa é de linho e púrpura296. 23. Seu marido é conhecido297,

quando se senta nas portas com anciãos da terra298. 24. Faz roupa de linho e vende

e provê de cinturões ao comerciante299.

292 O verbo

hm'[]j'

ta‘amah está no qal, feminino e indica em primeiro lugar saborear algo, como em Jó 12,11; 34,3. Saborear tem algo a ver com sentir prazer e, ao mesmo tempo, com uma fina percepção de diferentes sabores. Confira Ralph H. Alexander, em R. Laird Harris, Gleason L. Archer Jr., e Bruce K. Waltke, Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento, p.575-576, verbete 815.

293 O termo “mãos dela”

h'yd,y"

yadeha está repetida 5 vezes neste poema (31,10-31), nos v.13.16.19.20. 31 e tem a ver com o seu campo semântico e sua estrutura.

294 O autor (ou autores) deste poema uniu os v. 19 e 20 através de palavras semlhantes: iadeh xilehah kapeha /

kapah yadeja xilehah, para expressar que o trabalho da mulher sábia e forte está direcionado à solidariedade

para com os pobres. Não é um trabalho voltado para a acumulação, mas para a solidariedade e a partilha. Este texto lembra Dt 15, que manda abrir a mão ao necessitado.

295 O termo

~yniv'

xanim significa “vestido duplo ou forrado”. Veja mais detalhes em Luis Alonso Schökel e José Vílchez Líndez, com a colaboração de A. Pinto, Sapienciales y Proverbios, p.532. Segundo Dicionário

hebraico-português & aramaico-português, elaborado por Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes,

Acir Raymann e Rudi Zimmer, p.257, o nome xanim está no plural, e significa “roupa escarlate”. Poderiam ser fios de lã tingidos com “ovos de uma espécie de cochinilha”.

296 A expressão

!m'g'r.a;w. vve

xex ve-’argaman, que traduzi como “linho e púrpura”, deve ser entendida especialmente no sentido de cor. Quando

vv

xex se opõe ae

!m'g'r>a;w>

ve-’argaman o

sentido muda, pois uma cor se opõe à outra. Confira Luis Alonso Schökel, Dicionário bíblico hebraico-

português, p.75. Podemos, então, entender que aqui se trata do tecido e da qualidade da vestimenta e não

somente da cor.

297 A raiz

[dy

yd‘ aparece 35 vezes no livro dos Provérbios e faz parte do campo semântico da sabedoria. Mas, no cap. 31, aparece somente esta vez e como nifal particípio

[d'Ano

noda‘. Confira Luis Alonso

Schökel, Dicionário bíblico hebraico-português, p.268.

298 Somente, agora, aparece o marido. Sua boa reputação na porta da cidade, lugar onde se realizam os julgamentos, parece que se deve à sua esposa.

299 O poeta retorna à sua descrição da competência da mulher forte e sábia, repetindo palavras dos versos anteriores, como “preço” e “valor”

hr'k.mi

mikrah do v.10; “faz”

ht'f.['

‘astah dos v.13 e 22; “cinturões”

25. Está vestida de força e dignidade300

e sorri para o futuro. 26. Abre sua boca com sabedoria

e ensina com bondade301. 27. Vigia a caminhada302 de sua casa303

e não come pão de ociosidade. 28. Seus filhos se levantam e a felicitam,

seu marido a louva, dizendo: 29. muitas filhas agiram valiosamente,

mas tu superas a todas elas.

30. A mentira da graça (é) o vazio da beleza. A mulher do temor de Javé,

ela é louvada.304

31. Dai-lhe do fruto de suas mãos

e louvem-na suas obras nas portas.305

3.2 – Delimitação e divisão, buscando encontrar a coesão interna

Neste item, buscarei encontrar os termos que delimitam Pr 31 e também aqueles que enlaçam as subunidades do texto, formando o seu tecido semântico. Analisarei

“para canaane”, parece indicar a antiguidade do tema, embora sua composição seja recente. Veja André Barucq, Le Livre des Proverbs, Paris: Lecoffre, 1964, p.18.

300 Esta é a terceira vez que se menciona vestido, neste poema. Encontramos uma frase semelhante no Sl 104,1, onde “Javé está vestido de esplendor e majestade”.

301 Este verso lembra Pr 1,8; 6,20 e 31,1 que reiteram a função da mãe como sábia educadora de seus filhos. Chama a atenção a sua forma de ensinar: “e torah de bondade en sua língua”

hn'Avl.-l[;ds,x,©÷-

tr;Atw.

vetorat- hesed al lexonah .

302 O termo que traduzi por “caminhada” é

tAk'ylih]

halicaot está no plural. Segundo Luis Alonso Schökel, este termo pode ser traduzido por “andanças”. Confira Luis Alonso Schökel, Dicionário bíblico

hebraico-portugués, p.176.

303 A expressão “casa dela”

Ht'yBE

betah aparece pela quarta vez neste poema e delimita esta subunidade. No v.15, ela “dá alimento à sua casa” e no v. 27, ela “vigia a caminhada de sua casa”.

304 Muda-se, de repente, o conteúdo e quebra-se o ritmo da poesia. Buscarei entender este

305 Há, aqui, um convite para um louvor público, na porta da cidade, no espaço comumente reservado aos homens. Este aspecto será retomado no estudo do conteúdo deste capítulo.

separadamente a estrutura literária de cada subunidade que forma o capítulo 31: v.1-9 e v.10-31, observando suas particularidades e, também, os enlaces semânticos e temáticos entre os dois poemas que o compõem.

A delimitação de cada poema é feita por uma introdução: O v.1 introduz o discurso da sábia mãe do rei Lemuel, com a estranha afirmação de que são palavras do rei. O v.10 introduz o poema da mulher forte e sábia, com uma interrogação sobre a possibilidade de encontrá-la. Desta maneira, o cap.31 é tecido com a temática da mulher que ensina sabiamente e daquela que trabalha com autonomia e competência, formando uma unidade literária a partir do tema da mulher. Outro sinal da delimitação do texto é indicado pela pausa

@

colocada depois do ponto final

`

do v.9, separando desta maneira as duas subunidades do cap.31 de Provérbios.

Antes de analisar os temas que enlaçam os dois poemas, criando coesão dentro do capítulo, é necessário verificar a estrutura de cada unidade literária.

1º poema: Pr 31,1-9

v.1 – Introdução ao texto, mostrando sua procedência

v.2-3 – Questionamentos da mãe sobre a maneira como seu filho se expõe v.4-7 – Instruções da mãe sobre o uso da bebida

v.8-9 – Conselhos da mãe sobre a forma de realizar a justiça

2º poema: Pr 31,10-31

A forma acróstica com que se elaborou este poema é bastante conhecida, na Bíblia. O acróstico se usa para ajudar a memorizar. Portanto, é um recurso mnemotécnico306

Tomando a primeira letra de cada verso307, forma-se o alfabeto hebraico. Ao fazer uma

opção pela forma acróstica, o poeta demonstra seu objetivo didático. Percebe-se o seu esforço para controlar a seqüência do tema e ao mesmo tempo manter a ordem alfabética, o que demonstra a forma altamente elaborada desta subunidade. Há um crescendo no desenvolvimento de todo o poema, levando-o a culminar com um louvor geral a ’exet hayil.

v.10 – Pergunta retórica sobre a mulher, salientando sua importância v.11-12 – Ela é motivo de felicidade para seu marido

v.13-20 – Competente nos negócios, ela se cinge de força e autonomia v.21-27 – Vestida de beleza e dignidade, ela ensina com sabedoria v.28-29 – Louvação da mulher pelos filhos e pelo marido

v.30 – Considerações dos sábios sobre a mulher v.31 – Louvação da mulher nas portas da cidade.

Enlaces entre o primeiro (31,1-9) e o segundo(31,10-31) poemas

O substantivo

lyIx;

hayil é um dos enlaces entre o primeiro poema (v.1-9) e o segundo (v.10-31). Encontra-se no v.3, no contexto do questionamento que a mãe do rei Lemuel lhe faz: “não dês às mulheres tua força!”. O termo hayil encontra-se, também, no v.10, iniciando o segundo poema do cap.31 de Provérbios. No v.10, hayil está no estado contruído, mostrando uma qualidade da mulher.

Ao enlaçar os dois poemas, o termo

lyIx;

hayil transforma a visão sobre a mulher.