A forma como os pais exercem a sua função é bastante diversificada, influenciando o desenvolvimento de características da criança e adolescente. Os modelos afetivos e de interação que os pais utilizam para lidar com os seus filhos, influenciam de modo significativo a forma como estes aprendem e se relacionam com os outros no futuro (Matos & Sampaio, 2009).
Os modelos de funcionamento de relações, desenvolvidos no contexto familiar, e partilhados pelos membros, orientando o comportamento dos membros da família. Estas representações estão contidas nas histórias familiares, cujo conteúdo é revelador das atribuições, das regras de interação e das crenças sobre as relações que caracterizam cada família. Como é evidente, as famílias diferem na forma como conseguem construir representações coerentes das experiências vividas (Sameroff & Fiese, 2000).
Crescer e ser criado numa família onde exista um bom e íntimo relacionamento entre os pais e filhos, torna um indivíduo capaz de formar relações duradouras, satisfatórias e íntimas com os outros. A maneira como os pais educam os seus filhos exerce uma poderosa influência sobre aquilo em que eles virão a tornar-se mais tarde.
Assim, poderemos considerar que as primeiras funções da família estão diretamente relacionadas com os valores orientados por objetivos universais. Deste modo, assume-se a sobrevivência física e a saúde como o primeiro desses valores. O desenvolvimento de capacidades de conduta, necessárias para que
os descendentes possam ser independentes, surge posteriormente e por último, realça-se o desenvolvimento de capacidades de conduta que enfatizam outros valores característicos de cada cultura, tais como valores morais, emocionais e intelectuais (Larrosa & Carranza, 2003).
Neste sentido, Eccles (1993) refere que um desenvolvimento saudável acontece quando existe uma conjugação entre as necessidades de desenvolvimento individual e as oportunidades proporcionadas pelos seus ambientes sociais.
Assim, a investigação indica que os indivíduos que mantêm um relacionamento próximo, positivo, baseado no respeito mútuo com os pais ao longo da adolescência demonstram mais autoconfiança e independência do que aqueles que relatam maior distância emocional (Schultheiss & Blustein, 1994; Eccles, 1993).
Desta forma, a autoconfiança é fundamental para o desempenho do papel dos pais, permitindo, assim, fazer frente aos desafios diários da vida das famílias; é ela que dá energia para as mudanças que desejamos no dia-a-dia das nossas famílias (Belo & Coelho, 2010).
No ambiente familiar, as mudanças ocorridas, por exemplo no adolescente, implicam uma reorganização e reajustamento de toda a família. Esses movimentos dos membros dos agregados familiares são necessários, fundamentais e desejáveis para que se mantenha uma interação estimulante. Para que o jovem cresça emocionalmente, toda a família tem de crescer (Matos & Sampaio, 2009). Na maioria dos casos, existe certa turbulência nas relações entre adolescentes e seus pais, que se tornam compreensíveis pela necessidade de o jovem ganhar espaço junto dos mais velhos. Essa divergência está por vezes centrada nas questões do quotidiano e serão sempre ultrapassadas pelo diálogo e negociação entre os pares. Famílias onde não surgem discordâncias e onde, aparentemente, nada se passa pode indicar conflitualidade escondida, porque os seus membros não são capazes de a enfrentar.
A capacidade de adaptação à mudança e a possibilidade de manter um clima de empatia, respeito mútuo e aceitação das diferenças individuais contribuem para um bom percurso do jovem na construção da sua identidade e autonomia. Assim, a família deve sempre considerar o jovem como pessoa única, digna de respeito, que tem direito de avaliar a sua experiência à sua
maneira, com poderes de escolha e autonomia. Os pais terão que encontrar as soluções para formar, fomentar e promover essa mesma autonomia.
Nesta relação, a escolha eventual cabe à pessoa, assim como a responsabilidade por essa escolha. A relação caracteriza-se por uma mudança na expressão de sentimentos e atitudes, tentando o outro ouvir e perceber com aceitação, mas também com direito aos seus próprios sentimentos e atitudes, que precisam, igualmente, de ser ouvidos com aceitação. É um tipo de relação muito difícil de ser atingida e nem sempre com resultados positivos (Roger, 2011).
Assim, para que os resultados sejam positivos os jovens precisam dos pais para manterem os seus valores, mas não para tomarem um papel demasiado ativo em afirmá-los. A razão desta aparente contradição é que o jovem precisa, também, de se definir a si próprio, não apenas em relação aos pais e na base da aprovação destes, mas também contra eles, de forma a construir a sua própria personalidade (Bettelheim, 2003).
Os adolescentes necessitam de se confrontar com os seus pais, porque isso é essencial para o seu crescimento e maturação. Este confronto não é necessariamente afrontar, por isso, é importante que exista um sentimento de respeito recíproco entre os membros familiares, essencialmente para garantir um ambiente que possibilite uma reação adequada aos acontecimentos da vida (Sampaio, 2006b).
A investigação tem demonstrado que o equilíbrio entre autonomia do adolescente e controlo paternal é o melhor garante para uma evolução adequada. Desta forma, os pais devem exercer controlo não rígido sobre a vida dos filhos, e os filhos devem lutar pela sua autonomia, tendo capacidade para ouvir as recomendações dos familiares, ditadas pela forma como integraram as experiências anteriores e lidam com os dilemas da sua vida (Matos & Sampaio, 2009).
A existência de uma rede alargada de contactos (outros familiares, vizinhos, amigos, colegas de escola) é um espaço de educação mútua, de aprendizagem entre todos, útil para o quotidiano da família com o adolescente porque, para além de mostrar novas formas de relacionamento, pode contribuir com soluções inovadoras para questões surgidas no seio familiar (Serrão, 2012).
O processo de independência dos adolescentes implica uma transformação e não uma rotura ou deterioração das relações familiares, pelo que a rejeição tempestiva dos laços paternais não pode ser um requisito para se alcançar o estatuto de adulto bem formado e competente.