A Bioética, entendida como a ética da vida, despontou na década de 1970 como uma proposta inovadora com o objetivo de subsidiar a análise das questões éticas relacionadas a problemas morais e normativos na área biomédica. 88-89
Utilizando-se de bases filosóficas, a bioética é considerada a ciência que estuda a sobrevivência humana e atua na defesa da melhoria das condições de vida. Neste contexto, o inicio e o fim da vida são temas de estudo contínuos por envolver conflitos éticos atuais. 82 Especificamente, o fim da vida passa por modificações decorrentes do avanço tecnológico e dos estudos científicos realizados, resultando em maior longevidade e sobrevida das pessoas doentes em acompanhamento. 22, 90-93
O portador de enfermidade progressiva e incurável, quando em fase terminal da mesma, ou seja, apresentando quadro de deterioração clínica com consequente perda de peso, fraqueza generalizada, comprometimento da mobilidade e dificuldades em manter a higiene pessoal, sofre em companhia dos familiares pela não possibilidade de cura. 94
O apoio vindo da família, do cuidador ou do sistema de saúde tem como propósito acompanhar e auxiliar os doentes terminais no processo de morte e morrer. A falha nesse apoio pode levar a um sofrimento maior durante a trajetória de sobrevivência. 95
O neologismo ‘finitude’ surgiu em meados do século XVII, na língua inglesa, com o propósito de definir o que é finito, ou seja, o que se limita no tempo e espaço. Desta forma, utilizada para a condição humana como o fim da vida. Sempre se reporta ao seu antagônico, o infinito. 96
A finitude pode ser entendida como característica universal da condição existencial humana ou como vulnerabilidade, já que representa a possibilidade do ser humano de ser ferido, de adoecer e de morrer. 96
A Bioética, disciplina que aborda os pontos de vista de cientistas e pensadores sobre os temas polêmicos que envolvem a ética da vida e seus valores, entende como finitude humana a possibilidade de adoecimento singular ou por epidemias que podem reduzir a qualidade de vida e o número da população envolvida. 17
O pensamento e a discussão sobre a finitude não faz parte do ser humano em todas as fases da vida. Costuma-se pensar neste fim somente em condições extremas de perigo ou ameaça. Associa-se este pensamento quando da presença de condições crônicas. O envelhecer traz como consequência a aproximação do fim da vida de forma natural e compreensível, porém, não melhor aceita por parte do idoso, do que em sua fase juvenil. No entanto, é aceita de forma menos traumática pela sociedade, quando vista como a finitude do ‘outro’. 94, 98
A dificuldade em pensar sobre a própria morte pode ser percebida como uma forma de proteção própria contra o sofrimento. As pessoas, não obstante o reconhecimento da vulnerabilidade humana frente à morte, a pensam como situação alheia à sua individualidade, presente somente no ‘outro’. A aceitação da morte é mais fácil quando associada à terminalidade do processo de doença a qual o ‘outro’ sofre. 94, 99
O medo da morte está presente nos seres humanos a ponto de causar uma busca incessante pela imortalidade. Vários rituais, presentes no Ocidente e no Oriente buscam explicar de diversas maneiras o que é e o que há entre o nascimento e a morte. O luto invocado após a morte de alguém próximo representa a perda e o rompimento de um vínculo existente entre as pessoas. Os profissionais de saúde que lidam com a morte no seu cotidiano devem estar preparados para enfrentar a situação e auxiliar a família e os amigos a entender esse processo que é considerado doloroso por todos que dele participam. 94, 99
O progresso científico e tecnológico na área da biomedicina associado ao crescente consumo de medicamentos e à dificuldade em aceitar frustrações, além da extensa
necessidade de acompanhar as urgências das soluções diárias no trabalho e na sociedade atual com a esperança de saúde perfeita e longevidade aumentada, faz com que a complexa discussão sobre a finitude humana seja adiada infinitamente. 94, 99
A morte, nem sempre vem acompanhada de sofrimento ou de dor, mas representa o desconhecido e remete ao medo e a presença de pensamentos obscuros por parte da pessoa que vivencia o processo e por parte da sua família, que, muitas vezes, prefere se afastar do seu ente acreditando que não poderá auxiliá-lo neste processo e, também pela sua própria dificuldade em enfrentar a situação. 100-101
O apoio à família deve partir dos profissionais de saúde envolvidos no cuidado ao doente nesta fase terminal da vida. Esses profissionais devem buscar preparo específico e se atualizar nesta área que exige envolvimento de diversos conhecimentos sobre a existência humana e a saúde mental, além dos técnicos e científicos, baseados na doença e no tratamento. 11, 17, 75, 101-103
O fim da vida exige apoio psicológico ao doente, à família, ao cuidador domiciliar e, quando for o caso, ao profissional de saúde que se dedica ao cuidado técnico. O envolvimento psicossocial, cultural e espiritual da equipe de saúde é fundamental para que o rito de passagem, como pode ser chamado o processo da morte e do morrer, transcorra da forma natural e prevista. 17-18
Não obstante a morte ter sua ocorrência prevista desde o nascimento, ainda é considerada, em muitas vezes, como um acontecimento inesperado que rompe vínculos previamente estabelecidos entre todos os envolvidos no processo. O mistério que envolve este rito, explica o medo presente e a dificuldade em aceitá-lo. 100-101
Os profissionais de saúde devem estar preparados e ter desenvolvida a competência, a eficácia e a sensibilidade para enfrentar esta situação. As Instituições de Ensino Superior tem um papel importante na formação holística deste profissional para que ele tenha condições de acompanhar os doentes terminais e seus familiares, não só com foco no conhecimento teórico- prático visível, mas também o subjetivo vivido. 101, 103
Como princípios do cuidado paliativo estão: o conhecimento sobre a proximidade da morte; o controle sobre a situação vivenciada; a preservação da dignidade e da privacidade; o alívio da dor e de outros sintomas; a escolha do local da morte; o recebimento do suporte emocional e espiritual; o controle de quem participará deste momento; a possibilidade de ter tempo para dizer adeus e partir quando for o momento. Esses princípios representam um dos principais pontos fundamentais da bioética que é o respeito à pessoa. 17, 95
Dentre os mistérios do mundo, a morte é um dos mais impactantes e aterrorizantes. Afinal, o que há depois da morte? Para onde vamos? Estas perguntas fazem com que várias reflexões surjam. Quando a doença aparece e é preciso oferecer cuidados de saúde sem o propósito finito de cura, mas para oferecer dias de conforto e tempo para a preparação do fim, este medo se fortalece. Não é raro, perceber que a família toda adoece quando um dos membros está ferido e recebendo cuidados especiais. 17-18, 97, 99
O tema da morte é temido e negado por muitos até o momento fatídico, quando não há mais possibilidade de fuga ou de se esconder. E a equipe de saúde? Está preparada para atender as pessoas em situação de vivência do processo de morrer? Este preparo deve ser contínuo e permanente. Voltado para as questões humanitárias e de espiritualidade. No intuito de proteger as famílias, desde os primórdios, os moribundos eram afastados do convívio para que descansassem em paz nos últimos dias que lhes restavam em hospitais, onde, acreditava- se que as dores seriam amenizadas e o sofrimento diminuído. 96-99 Mas e o apoio espiritual e sentimental para o enfrentamento deste processo. De quem viria?
O avanço tecnológico não traz, por si só, dignidade no fim da vida, traz a proposta de longevidade, de ampliação do prazo. O processo de morrer envolve atenção, apoio e carinho, cuidados esses que podem ser dispensados pela equipe de saúde e pelos familiares do doente. 100-102-103
A finitude da vida humana é uma certeza. Como o processo vai ocorrer para cada pessoa é uma surpresa do destino. Quem terá o apoio de um cuidador para oferecer os cuidados paliativos se forem necessários? O papel dos serviços de saúde é estar ao lado do doente em todos os momentos preparando a família e o cuidador para que esse processo ocorra de forma natural e menos dolorosa.
4. MÉTODO