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O acompanhamento dos usuários em situação de desemprego foi feito por uma observação sistemática e pelo registro do seu discurso nas redes virtuais em questão, sobretudo no que se referia a:

 Dados que publicavam a seu respeito e se eles eram mudados ao longo do tempo;  Posts que publicavam ou comentários que faziam sobre posts de outros, tanto no

que se referia à frequência com que o faziam, mas sobretudo em relação ao seu conteúdo.

O primeiro acompanhamento iniciou-se em janeiro de 2012 e terminou em outubro de 2013, junto com os demais, que foram entrando na pesquisa durante esse período. Mesmo quando os sujeitos conseguiam um novo emprego, eu continuava a acompanhá-los, a fim de

verificar possíveis alterações nas suas publicações, no seu perfil, no seu discurso de maneira geral.

Eu já era usuário tanto do Facebook, quanto do LinkedIn, e a coleta de dados foi feita pela cópia direta de conteúdos da página pessoal dos sujeitos envolvidos nas duas redes sociais, utilizando-se o recurso de printscreen (cópia em forma de imagem de tudo o que aparece na tela do computador) e posterior colagem num editor de texto (Microsoft Word). Também foi feita por registro do que foi sendo observado (anotações de campo).

O Facebook mantém um registro de toda a atividade de seus usuários – a Linha do Tempo – como já descrevi anteriormente. Isso foi muito útil no sentido de resgatar publicações anteriores à data de quando comecei a acompanhar cada um dos sujeitos na rede social, principalmente porque eles foram demitidos antes de eu começar tal acompanhamento. Como eu queria verificar mudanças nas publicações deles, se comentaram algo sobre a demissão e assim por diante, era necessário verificar os posts do passado.

No LinkedIn essa funcionalidade da Linha do Tempo não existe, embora as atualizações dos usuários fiquem visíveis para os seus contatos durante 15 dias. Isso significa que, nessa rede social, não pude ver como era, por exemplo, o título do perfil antes da demissão do sujeito e tampouco se ele publicou algo na rede naquela ocasião. Apesar disso, imagino que a perda de informação não tenha sido grande, até porque poucas pessoas publicam coisas no LinkedIn (no caso da pesquisa, apenas um dos sujeitos o fez), sendo a rede usada muito mais para uma exibição de currículo online.

No que se refere ao acompanhamento, os sujeitos não foram avisados previamente que suas ações na rede e seus conteúdos estavam sendo pesquisados, a fim de que o conhecimento do fato não interferisse diretamente na maneira como se comportavam, no que enunciavam e na forma como o faziam. Tratou-se, pois, de um procedimento de covert research, similar ao

utilizado por Schaap (2002), que sondou uma comunidade virtual antes de efetivamente dela participar.

Posteriormente, depois de vários meses de coleta "silenciosa" de dados, entrei em contato com quase todos os sujeitos (oito deles)51, informando-os sobre a pesquisa. Com aqueles que concordavam em participar dela (no fim das contas, cinco deles), ainda inspirado na netnografia e na etnografia tradicional como sua base, conduzi diálogos informais (que poderíamos chamar de “entrevistas netnográficas”), usando a própria rede para tal (mensagens no Facebook e no LinkedIn). O objetivo era complementar a observação do discurso dos sujeitos, tentando captar como viviam a condição de usuários da rede social, em particular estando em situação de desemprego. Descobrir no que acreditavam, o que faziam com o tempo que tinham e, sobretudo, como se sentiam – se estavam bem ou não, se choravam, se riam, como era a relação com os amigos e assim por diante, de maneira similar à como Delamont (2004) descreveu o trabalho de campo e a observação participativa da etnografia, que envolve uma mistura de observação e entrevista.

É importante frisar que parti do pressuposto de que os mundos virtual e presencial (online e off-line) não são necessariamente realidades separadas, podendo ser considerados um continuum da mesma realidade (Noveli, 2010) ou uma mescla de duas realidades que se fundiram (Kozinets, 2010).

Nesse sentido, mesmo que os posts de determinado usuário não tivessem manifestamente nenhuma relação com o que ele estava sentindo de fato, como me relatou de maneira privada, ou mesmo que houvesse mentiras no seu perfil, por exemplo, ainda assim aquele discurso no Facebook e no LinkedIn diziam respeito ao sujeito de carne, osso e psique em questão e também ao contexto social em que está inserido.

Os diálogos com os sujeitos (mensagens trocadas com eles) foram realizados começando-se por avisá-los de que eu estava conduzindo uma pesquisa de pós-graduação sobre o tema de pessoas que estão ou estiveram em situação de desemprego, em particular no que se referia à sua atividade nas redes sociais, e que gostaria de convidá-los a participar anonimamente dela.

Depois disso, eu começava com uma pergunta mais aberta: “Como tem sido para você o contato com as pessoas pelo Facebook e pelo LinkedIn?”. A partir do que respondiam, fazia questões mais específicas, visando a explorar a relação deles com a própria rede e com os seus contatos nela, em particular no período em que estiveram desempregados.

A ideia dos diálogos era também comparar o que iam dizer manifestamente sobre a rede e sua relação com os contatos, e seu discurso como usuários dela, o tipo de conteúdo que veiculavam, se veiculavam e assim por diante. Permitir aos sujeitos não só se expressar e revelar indícios de aspectos singulares deles, mas também das relações inconscientes estabelecidas na sociedade em que vivemos e, em particular, no laço social da rede virtual.

Os diálogos foram conduzidos ao longo do período em que fiz o trabalho de campo (isto é, o acompanhamento dos sujeitos). Sempre que me surgiam novas questões ou dúvidas, eu entrava em contato novamente, assim como para saber se continuavam em situação de desemprego, como estavam se sentindo e assim por diante.

Ao final do processo, solicitei, formal e explicitamente, a todos os sujeitos que entrevistei na pesquisa (cinco pessoas, de um total de dez) autorização para usar, na Tese, as mensagens que trocamos de forma privada e todo o conteúdo das páginas deles no Facebook e no LinkedIn (posts, etc.) (ver Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – Apêndice I).

Dos cinco outros casos que acompanhei – os quais incluí num capítulo "Outros casos"52 – usei na pesquisa apenas o material que publicaram nos seus perfis como sendo "público", ou seja, o que qualquer pessoa com acesso à internet consegue ver, se entrar nos perfis deles. O que aconteceu com esses casos foi o seguinte:

 Três não responderam às minhas mensagens perguntando se gostariam de participar da pesquisa. Destes, apenas um aceitou entrar como meu "contato"/"amigo" no LinkedIn e no Facebook. Mesmo assim não respondeu às minhas mensagens, o que me levou a incluí-lo no capítulo "Outros casos", em que discuto apenas bem genericamente alguns aspectos que observei, descrevendo-o juntamente com os outros quatro sujeitos, sem entrar em qualquer detalhe que fosse.

 Os dois sujeitos restantes entraram na pesquisa apenas com os dados que publicaram nas redes sociais53. Com eles não tentei fazer contato para entrevista. A razão disso foi o fato de eu ter uma relação pessoal ou profissional um pouco mais próxima com eles, o que fez com que não me sentisse à vontade para entrevistá-los.

A ideia, com o uso desses instrumentos acima descritos, era valer-me de certa “bricolagem”, produzir um “conjunto de representações que reúne peças montadas que se encaixam nas especificidades de uma solução complexa”, sendo o resultado uma construção do real que “sofre mudanças e assume novas formas à medida que se acrescentam diferentes instrumentos, métodos e técnicas de representação e de interpretação a esse quebra-cabeça” (Denzin & Lincoln, 2006, p. 18).

52 Ver análise de todos eles nos capítulos seguintes, tanto os casos que são discutidos um a um, quanto esses

que foram agrupados em "Outros casos".

53 Também com eles não entrei em nenhum tipo de detalhe na descrição feita no capítulo em que aparecem –

Uma vez que nunca teremos uma apreensão total do real, conforme discutido anteriormente, podemos conhecer algo somente por suas representações. Assim, o “uso de múltiplos métodos, ou da triangulação54, reflete uma tentativa de assegurar uma compreensão em profundidade do fenômeno em questão” (Denzin & Lincoln, 2006, p. 19).