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A coleta de dados está relacionada à definição das técnicas e dos instrumentos utilizados para a captação dos dados que fundamentam a compreensão sobre o fenômeno. Nessa pesquisa utiliza-se a técnica da triangulação de dados, como forma, de ampliação do conhecimento em relação ao fenômeno social estudado.

É importante ressaltar, complementando, que esse tipo de pesquisa não é excludente, ou seja, não dispensa a recorrência a outras fontes. Trabalhamos com técnicas diferenciadas, podemos nos valer, por exemplo, da observação participante, da visita domiciliar, além do recurso da imagem, como fotografias significativas para o sujeito e para a pesquisa. Na literatura técnica esse uso combinado de técnicas, a partir das finalidades da pesquisa, recebe a denominação de “princípio ou técnica da triangulação” (MARTINELLI, 1999, p.24).

Trata-se de uma articulação entre fontes de dados e informações a respeito do fenômeno que constitui o foco do estudo. Assim, o fenômeno é concebido sem isolamentos, mas inteiramente submerso na realidade social à qual pertence. O termo triangulação é utilizado nas abordagens qualitativas para indicar o uso concomitante de várias técnicas de abordagens e de várias modalidades de análise, de vários informantes e pontos de vista de observação, visando à verificação e à validação da pesquisa (MINAYO, 2010). Entende-se que, a triangulação endossa a busca pelo conhecimento na pesquisa, pois possibilita o uso de diversas técnicas, instrumentos, teorias e percepções para a compreensão dos múltiplos determinantes que interagem no desencadeamento do fenômeno.

Por inspiração advinda da triangulação foram previstas e executadas diferentes técnicas de coleta de dados e também de teorias. No sentido de reunir condições que viabilizassem uma leitura mais condensada do real e destacassem, nesse real, sua dinamicidade e as suas interconexões. Os dados da pesquisa qualitativa ocorrem em contexto fluente de relações e são colhidos interativamente, em um processo de ida e vinda e na interação com os sujeitos (MARTINELLI, 1999).

O entendimento de técnica que iluminou a pesquisa aponta para “um conjunto de preceitos ou processos de que se serve uma ciência ou arte; é a habilidade para usar esses preceitos ou normas, a parte prática” (MARCONI; LAKATOS, 2002). As técnicas escolhidas para a execução da pesquisa foram pesquisa documental, observação assistemática e entrevista de história oral temática. Para cada uma delas foi criado um instrumento de execução. Tais instrumentos são importantes para condicionar a objetivação da pesquisa.

A objetivação leva a repudiar o discurso ingênuo ou malicioso da neutralidade, mas exige buscar formas de reduzir a incursão excessiva dos juízos de valor na pesquisa. Os métodos e técnicas de preparação do objeto de estudo, de coleta e tratamento dos dados ajudam o pesquisador, de um lado, ter uma visão crítica de seu trabalho e, de outro, a agir com instrumentos que lhe indicam elaborações mais objetivadas (MINAYO, 2010, p. 62).

Pesquisa documental: constitui-se fonte de coleta de dados baseada em documentos escritos ou não sobre a matéria de estudo. Foram indicados sinteticamente os marcos regulatórios de proteção e de penalização de idosos na arena nacional e na internacional daqueles que o Brasil é signatário, pois, os documentos são produtos da sociedade e contêm em si intencionalidades e percepções sociais.

Os documentos são fontes de dados brutos para o investigador e a sua análise implica um conjunto de transformações, operações e verificações realizadas a partir

dos mesmos com a finalidade de se lhes ser atribuído um significado relevante em relação a um problema de investigação (CALADO; FERREIRA, 2004, p.3).

Observação participante: a observação é uma das maneiras do ser humano colher informações, porém, em uma pesquisa, a observação precisa emergir com qualidade. É um processo em que o pesquisador se aproxima da realidade do outro e coloca-se em seu lugar, com base na empatia. O pesquisador participa concretamente da realidade dos sujeitos pesquisados. “A observação participante, ou observação ativa, consiste na participação real do conhecimento na vida da comunidade, do grupo ou de uma situação determinada” Gil (2007, p.113).

Definimos observação participante como um processo pelo qual mantém-se a presença do observador numa situação social, com finalidade de realizar uma investigação científica. O observador está em relação face a face com os observados e, ao participar da vida deles, no seu cenário cultural, colhe dados. Assim, o observador é parte do contexto sob observação, ao mesmo tempo modificando e sendo modificado por este contexto (SCHWARTZ; SCHWARTZ, 1995, p.335).

Com base nesse entendimento a observação participante foi usada na aplicação da pesquisa. As notas e os registros foram realizados em um diário de campo, instrumento tradicional nesse tipo de observação.

História oral temática - entrevista: a história oral é um recurso moderno usado para a elaboração de registros, documentos, arquivamento e estudos referentes à experiência social de pessoas e de grupos. “Ela é sempre uma história do tempo presente e também reconhecida como história viva” (MEIHY; HOLANDA, 2010, p. 17). Uma das críticas relacionadas à

história oral é que ao se apoiar na memória, como fonte histórica, assume risco de se embasar em uma memória distorcida. Entretanto, entende-se, aqui, que as fontes documentais não são menos tendenciosas à distorção do real.

A história oral foi utilizada em sua modalidade temática que tem como marca a definição de um assunto específico, no caso, o encarceramento de idosos. Ela “[...] se compromete com o esclarecimento ou opinião do entrevistador sobre algum evento definido. A objetividade, portanto, é mais direta” (MEIHY, 1998, p. 51), o que necessariamente não anula os aspectos subjetivos. A escolha se mostrou coerente, pois, as entrevistas foram usadas como fontes de conhecimento da situação de encarceramento combinadas com as demais técnicas previstas e efetivadas no decorrer da pesquisa.

A história oral temática é peculiar. Diferente da história oral de vida, ela somente capta os detalhes da história pessoal do entrevistado se esses detalhes revelarem informações sobre a temática central.

Há projetos temáticos que combinam algo da história oral de vida. Nesses casos, o que se busca é o enquadramento de dados objetivos do depoente com as informações colhidas. Essa forma de história oral tem sido muito apreciada, porque, mesclando situações vivenciais, a informação ganha mais vivacidade e sugere características do narrador (MEIHY, 1998, p. 52).

Esse tipo de história oral é essencialmente social, pois faz da entrevista seu mecanismo de operação no direcionamento da pesquisa, “nela as entrevistas não se sustentam sozinhas ou em versões únicas” (MEIHY; HOLANDA, 2010, p.38).

Em geral, a escolha de entrevistas temáticas é adequada para o caso de temas que tem estatuto relativamente definido na trajetória de vida dos depoentes, como, por exemplo, um período determinado cronologicamente, urna função desempenhada ou o envolvimento e a experiência em acontecimentos ou conjunturas específicos (ALBERTI, 2005, p. 38).

As entrevistas temáticas são aquelas que versam prioritariamente sobre a participação do entrevistado no tema escolhido (ALBERTI, 2005). Em uma perspectiva mais ampla,

a entrevista é um encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha informações a respeito de determinado assunto, mediante uma conversação de natureza profissional. É um procedimento utilizado na investigação social, para coleta de dados ou para ajudar no diagnóstico ou no tratamento de um problema social (MARCONI; LAKATOS, 2002, p. 195).

Como instrumento para a entrevista de história oral temática evitou-se o uso de questionário, devido às características do público-alvo. Desse modo, para instrumentalizar a técnica elegeu-se um roteiro aberto, com tópicos-guia que seguem as orientações de um formulário. O formulário é um “instrumento de pesquisa similar ao questionário, porém a ser preenchido pelo próprio pesquisador (e não pelo sujeito da pesquisa)” (APPOLINÁRIO, 2004, p.100).

As entrevistas aconteceram face a face no interior do Presídio Central, em uma sala indicada pela direção desse estabelecimento prisional. Essa sala faz parte de um corredor extenso, com inúmeras outras salas nos lados esquerdo e direito. A arquitetura do espaço é o de uma galeria antiga do presídio e as salas ali dispostas já serviram de celas. É nessa área que também ocorrem os atendimentos técnicos de tratamento penal aos presos cujas salas não possuem portas, e as entrevistas da pesquisa só foram possíveis nesse espaço. A invasão de ruídos e sons era permanente, além do ruído de metal advindo dos participantes cujas mãos eram algemadas para trás. Uma pesquisa na prisão também não deixa de ser uma forma de violação e violência. “[...] o ambiente prisional não é afeito à democracia. E se há violência simbólica mesmo nesta, quanto mais em uma pesquisa realizada em uma unidade penitenciária” (RUDNICKI, 2011, p. 517).

As entrevistas duraram entre uma hora e duas horas e a flexibilidade, evidentemente, existiu, em geral, “a entrevista não deve ser “quebrada” ou “recortada” sem fortes razões” (MEIHY; HOLANDA, 2010, p. 57). As entrevistas foram trabalhadas em etapas diferentes: gravação – entrevista propriamente dita, com formulário aberto de tópicos-guia, confecção do documento escrito – passagem do oral para o escrito, aprovação e autorização do texto final pelos entrevistados a análise desse texto.

Na passagem do oral para o escrito estão imbricadas as atividades: 1) a transcrição da fonte; especificamente sobre a transcrição é importante destacar que foi assinalado “E” para entrevistador, “P” para pergunta e “R” para resposta. 2) a textualização que incluiu a comunicação não verbal da atmosfera da entrevista; 3) a transcriação: incluíam-se, por meio de uma linguagem “quase literária”, as emoções e os silêncios; 4) a conferência e a autorização realizadas com base na leitura do texto final da entrevista transcrita para o entrevistado, a fim de que este aprovasse o arquivo final.

Todas as entrevistas gravadas foram posteriormente transcritas pela própria pesquisadora. Não ocorreram casos de ressalvas em relação à gravação. A legalização das entrevistas, no que tange à autorização do uso da gravação e do texto final, consta no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Os textos finais das entrevistas transcritas com as devidas aprovações estão guardados juntamente com os TCLE, sob sigilo, na Faculdade de Serviço Social da PUC/RS.