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Culioli (1999a, p.23-24) elucida que:

a) Nada conduz a semântica das línguas naturais à semântica interpretativa dos sistemas formais.

b) Todo signo e todos os operadores sintáticos podem ser utilizados como símbolos: toda mudança sintática ocasiona uma mudança semântica. Nesse sentido, tudo reside na força da equivalência, podendo-se estabelecer uma distância crescente entre a transformação idêntica e uma frase profundamente remodelada, mas é difícil garantir que a estrutura profunda receba uma interpretação semântica e que as transformações não mudem nada.

c) É possível formular a existência de uma gramática de relações primitivas num nível muito profundo (verdadeiramente pré-lexical) onde a distinção entre sintaxe e semântica não tenha qualquer sentido. Com isso, tem-se um filtro lexical com certo número de regras, sintaxes e semânticas, incluindo modulações retóricas (entre elas a metáfora) que não saberiam estar limitadas à sintaxe. Trata-se do contínuo e não do descontínuo e nenhuma representação do tipo sintática dá conta, por exemplo, da linguagem poética, a menos que se tenha como argumentos o desvio e a anomalia.

Para Culioli, a lexis é pré-assertiva e a passagem à asserção, isto, é a uma situação de enunciação realizada por um sujeito, implica uma modalização. Modalizar é afetar uma modalidade, a qual é compreendida por quatro sentidos diversos. São eles: (i) afirmativo ou negativo, injuntivo, etc.; (ii) certo, provável, necessário, etc.; (iii) apreciativo e (iv) pragmático. Além da modalização, a passagem à asserção implica num outro tipo de modulação denominada estilística que se diferencia da primeira por aquela ser de ordem retórica. Assim, a asserção seria uma ponderação de elementos, uma sequência pré-terminal cujos elementos são parcialmente ordenados e ponderados. A projeção dessa ordem parcial

culminará num conjunto sequencial de termos, sobre o qual está definida uma relação de ordem total não absoluta.

Na realidade, o que Culioli faz é mostrar que a separação entre sintaxe e semântica é menos frutífera do que mostrar que existem enunciados com boa formação semântica e má formação sintática, o que demonstra que a dificuldade central da formalização em linguística não reside na formalização de sistemas algébricos sintáticos, nem no estudo distribucional de combinações de palavras- objetos em correspondência pontual com o extralinguístico, mas no domínio intermediário específico das línguas naturais.

Assim, Culioli (1999a, p. 25-29) aponta algumas concepções que julga pertinentes:

1. Conduzir todas as operações em estado de unidade de predicação a uma aplicação acrescentando-lhe uma teoria do predicado. Como resultado, ter-se-á uma tipologia dos processos, uma classificação de operações que podem ser efetuadas sobre o conjunto de partida e / ou sobre o conjunto de chegada, sobre a seta que simboliza o operador. Trata-se da necessidade de analisar formalmente as situações empiricamente encontradas nas línguas.

2. Dar valores de um sistema verbal (definido como uma rede de valores), uma representação topológica que permite explicitar melhor certos problemas concernentes aos sistemas de modalidades e de religar os sistemas modais, aspectuais e temporais.

3. Conduzir as operações sobre as unidades num conjunto de partida e num conjunto de chegada a uma lista finita de operadores combináveis.

4. Buscar as relações de dualidade que existem entre as expressões, mas considerando que na linguagem (onde tudo é orientado) se encontram áreas nas quais o princípio de dualidade age de modo estrito e áreas em que os fenômenos são mais complexos.

5. Representar certas categorias por vetores de propriedades de modo que se poderá ter vetores de vetores. Nesse sentido, numa teoria dos complementos, o sujeito em línguas cuja presença é obrigatória é necessário como elemento do conjunto de partida a fim de que o enunciado seja canonicamente bem formado. Assim, qualquer termo de um enunciado pode receber um valor nulo, com exceção desse sujeito. Tal observação permite-nos eliminar as ambiguidades e os incômodos

modo, acabariam rapidamente. Na verdade, o que se está tratando aqui é de uma combinatória muito mais complexa que a análise tida como estrutural.

6. Construir sistemas lógicos particulares que fazem com que se reencontre o conceito de marca e que se compreenda que só uma decisão teórica (teoria da linguagem) permite atribuir a tal unidade o estatuto de origem, o estatuto de sucessor, etc.

7. Ter em mente que numerosos sistemas são munidos de uma estrutura mecânica, de um esquema em espiral não dimensional importante nas línguas naturais por permitir conservar melhor certos problemas relacionados à ambiguidade, à ambivalência; além de trazer à tona uma propriedade fundamental da linguagem.

Das aplicações que Culioli (1999a, p. 29) fornece, nos é fundamental seu conceito acerca da asserção, pois se a asserção positiva (afirmação) tem a mesma forma da lexis, e a diferença entre a lexis e a asserção negativa (negação) se assinala pela adjunção de uma marca, fica demonstrada a tese de que não existe lexis negativa, nem afirmativa. Ela é, de fato, pré-assertiva.

Assim, o modelo da TOPE permite a resolução de problemas acerca das línguas e da linguagem, com destaque para a ambiguidade da lexis; sua construção implica numa recusa de reduzir a linguagem e de conduzir a linguística a um estado de coleta de fenômenos individuais. Isto é, esse projeto permite a colocação de problemas teóricos, a fixação a uma metalíngua comum e a modos razoavelmente rigorosos. Em outros termos, axiomatizar a linguística e possivelmente a formalizar.

A exigência teórica de tratar as línguas formalmente, isto é: (i) não aceitar o reducionismo da linguagem, (ii) não aceitar o condicionamento da linguística a fenômenos individuais, (iii) permitir a colocação de problemas teóricos, (iv) prender- se a uma metalíngua comum e a modelos rigorosos, associada ao rigor técnico e à ânsia em respeitar os fenômenos observáveis, leva Culioli (1999a, p. 32-33) a apontar algumas direções fundamentais que permitem a construção de um conjunto de hipóteses de estados metalinguísticos e operações. São elas:

1. Na medida em que o campo da pesquisa se amplia e que se estuda um número crescente de fenômenos nas línguas diferentes, deve-se verificar a validade da teoria e a adequação da metalíngua. Em muitos casos, há de se dar várias soluções não contraditórias, e caso surja uma contradição faz-se necessária a mudança de teoria, de metalíngua ou de ambas. Vale considerar que não existem

procedimentos de descrição que garantam a exaustividade, isto é, a explicação do porquê de certos enunciados serem inaceitáveis numa família parafrástica. Da mesma forma, ser exaustivo é considerar a tradução como um caso particular de paráfrase, além de se dedicar a dar conta, na mesma teoria, de fenômenos aparentemente heterogêneos.

2. Nada permite ao linguista delimitar seu campo teórico por simples critérios de conveniência e confundir, gratuitamente, o linguístico, o metalinguístico e o linguagístico. Caberá a ele, portanto, formular suas hipóteses e construir sua metalíngua de modo que a psicologia possa fazer aflorar fenômenos frequentemente fugazes por serem retomados de modo imediato.

3. O linguista não pode imitar o matemático. Seu trabalho é o de construir uma teoria pré-formalizada que comporte expressões primitivas e regras explícitas de construção, seja por descoberta gradual das relações profundas entre unidades de superfície (as invariantes serão descobertas por aproximações sucessivas), seja pela construção de uma metalíngua perfectível, mas eficaz, a partir de experimentos (observações teorizadas).