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SLEPT Analysis

In document The UK sports- and underwear market (sider 54-57)

O estudo sobre a ortodoxia nos boletins de ocorrência encontra no desenvolvimento temático da narrativa, a incoerência ideológica gerada pela negação de medidas protetivas pelas mulheres, que vão à delegacia relatar a sua situação vivida e, assim, retiram do Estado o poder de agir com medidas protetivas a seu favor. O elo perdido na compreensão desta atitude pode ser encontrado no cruzamento da ortodoxia com a situação social, o que gera a coesão entre o discurso anterior vivido com o discurso da narração. Neste aspecto, lembramos os estudos de Foucault (2002; 2007) sobre o contexto histórico, que possibilita uma relação entre o discurso e o contexto histórico em que ele é produzido numa relação de intercompreensão.

O cruzamento do fórum com o boletim de ocorrência traz informações que podem compreender melhor o motivo das mulheres não exigirem as medidas protetivas de urgência, apesar de sofrerem ameaças como no boletim de ocorrência 24:

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[...] o referido ameaçou a declarante dizendo que iria agredi-la fisicamente; que o referido ameaça agredir os filhos fisicamente; que o referido ainda agride verbalmente toda a família; que não deseja requerer Medidas Protetivas de Urgência [...].

Como o fórum virtual é um gênero que permite a produção do relato sem grandes restrições e a própria mulher pode relatar os fatos apresentados sem a interferência de terceiros, as narrativas são produzidas tendo o medo como fator explicativo das ações de submissão em que as mulheres estão vivendo. Podemos verificar a presença do medo no relato 3:

Tenho sofrido de violência doméstica e meu psicológico está muito abalado...meu coração acelera quando o meu companheiro chega do trabalho... mas tenho receio de colocá-lo na justiça pois tenho uma filha que nasceu prematura, tive muitas complicações no parto, tenho medo de sair de casa pois ele disse que se sair vai na delegacia alegando abandono de lar.

Tais fatos nos fazem recordar de Foucault (1999) novamente para quem a disciplina estabelecida pelo opressor possibilita o adestramento do corpo que, por sua vez, se torna frágil e dócil o que impossibilita que este corpo ofereça alguma resistência. Neste contexto, a mulher

age como esse “corpo dócil” por aceitar numa posição de consciência servil o poder do

opressor neste relacionamento de falso amor, pois está baseado em ameaças, agressões e opressões. O poder do agressor dita regras ao relacionamento estabelecendo, silenciosamente, um princípio de visibilidade obrigatória sobre estas normas do agressor, que a mulher deve manter para não ser condenada e agredida pelo parceiro. Socialmente, tais regras de mulher submissa, servil, compreensiva e, principalmente, fiel devem ser mantidas a qualquer custo neste modelo de mulher ideal defendido nos relacionamentos dentro da dicotomia mulher respeitável x mulher não-respeitável. A partir desta dicotomia, a mulher denuncia o marido de acusá-la de não estar no estereótipo da mulher respeitável, sendo ele o próprio juiz e carrasco.

A mulher hospeda o agressor dentro dela, aceitando e submetendo-se às suas normas, pois não demonstra o desejo de liberdade deste relacionamento. A incoerência ideológica surgida nos relatos do BO demonstra que este medo de pedir medidas protetivas de urgência, que resultariam em imediata separação de corpos, é o medo da real liberdade de viver sem este preço de ter um marido. Ocorre, assim, a aderência à disciplina do poder do opressor, por diversos motivos também comentados no fórum: os filhos ameaçados de morte, o desemprego, ameaças de perder os filhos, entre outros. O desejo de manter a disciplina do poder do parceiro está presente nos relatos não só como incoerência ideológica, mas por concordar que o modelo de mulher respeitável deve ser colocado como modelo de auto-análise e, aceitar que está sendo agredida, pois é acusada de não estar de acordo com este estereótipo.

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Neste sentido, percebemos que o agressor sempre vai existir nos seus relacionamentos, pois ele está dentro dela.

A coerção estabelecida no boletim de ocorrência no espetáculo enunciativo (na delegacia diante das policiais e da delegada registrando um documento) previamente estabelecido devido à seriedade da situação pode ocasionar consequências para a delatora e para o acusado e influenciar negativamente as decisões a serem tomadas. Este é o momento em que ela pode decidir a situação, colocando ‘ponto final’ em toda a situação de agressão sofrida. O medo da liberdade de como viver sem ser com a presença do agressor que está dentro dela e representado pelo homem-parceiro é maior do que o medo de viver com as agressões e insultos.

Nesse sentido, mulheres sancionam o poder do Estado de não pedir medidas protetivas de urgência que poderiam melhorar ou mesmo resolver a situação definitivamente, pois em muitos casos o marido delatado pede desculpas à mulher, afirmando que não vai mais fazer isso. Entretanto, esse pedido só ocorre depois que sofre as consequências com o resultado da denúncia na delegacia, pois o processo continua mesmo que não haja medidas protetivas de urgência, como vemos no relato 4: “[...] hoje faz dois dias que denunciei meu marido. Hoje ele me procurou na parada de ônibus e disse que está muito abalado, parece outra pessoa [...]”.

A partir destas reflexões, percebemos que o fórum possibilita a construção de uma narrativa de estrutura heterodoxa de acordo com Maia-Vasconcelos (2014) em que o sujeito relata os fatos vividos como acha que deva ser a sequência argumentativa do seu relato comparando com casos de agressão contra mulheres e divulgados na mídia como, por exemplo, o caso do goleiro Bruno e o assassinato de Eliza Samudio: “todos nós somos tratadas como

Elizas” (relato 8). Assim, se constrói uma narrativa de estrutura híbrida produzida em um

processo de interação que é a natureza do fórum tendo, como característica, a produção documental por ter o caráter de denúncia e relato de fatos escritos e arquivados no fórum com data e hora de publicação.

Podemos afirmar, então, que temos uma terceira categoria a ser acrescentada às categorias de Nóvoa (2010): primária e secundária. A produção da narrativa biográfica na web possibilita a formação de textos autobiográficos produzidos com características de formalidade dos documentos (data, hora e acesso) e de interação (elas podem responder e construir outros relatos). Assim, podemos denominar uma categoria terciária para as produções narrativas desenvolvidas no ambiente virtual.

A relação entre os dois gêneros discursivos: fórum e boletim de ocorrência já nos permite afirmar que temos uma subjetividade presente no boletim de ocorrência, nas escolhas dos fatos, que devem ser relatados pelas mulheres, formando uma comunidade que partilha

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uma postura ideológica (denúncia seguida de não desejo de pedir medidas protetivas). Temos também, no fórum, uma subjetividade que escolhe os fatos que devem ser relatados em um processo de ressignificação do vivido e partilham de uma comunidade discursiva inserida em uma prática social historicamente estabelecida.

A comunidade inserida, no fórum virtual e no BO, traz a compreensão de que há uma comunidade maior que engloba as duas. Percebemos que mesmo se tratando de dois tipos de narrativas: heterodoxa no fórum e em uma narrativa ortodoxa e heterobiográfica no BO, temos muitas características convergentes, que nos levam a acreditar que estas comunidades estão inseridas em uma comunidade discursiva englobante.

Trata-se de valores culturais, insultos estabelecidos socialmente (vagabunda, puta, piranha) que retratam o mesmo estereótipo, que rege o julgamento das mulheres tanto para os homens quanto para as mulheres, atores deste cenário; quanto para os policiais que, ao registrar o relato, concordam que o fato está inserido em uma infração penal e quanto para as mulheres que gerenciam o site www.leimariadapenha.com.br, que criaram um fórum virtual “Casos e

Testemunhos” com a finalidade de relatar e discutir sobre essas narrativas de vida. O medo de

liberdade do agressor, que vive dentro delas está presente nos relatos no fórum e no BO. Assim, mesmo falando com estruturas narrativas diferentes tais características estão perceptíveis em ambos. Esta convergência de comportamentos culturais, semânticos nos traz a compreensão de que estamos refletindo sobre uma mesma comunidade discursiva e um mesmo sujeito coletivo. Há uma construção, segundo Bertaux (2010), de uma categoria de situação vivida em que indivíduos ao relatar os fatos vividos possibilitam verificar uma historicidade semelhante. Cada sujeito relata fatos pertencentes a sua vida que são singulares e, ao mesmo tempo, coletivos. A relação entre cada relato produz uma construção interativa de um todo em que cada parte (relatos vividos) não são menos significativos do que este todo coletivo. O todo coletivo é uma nova construção discursiva e não apenas a união destas partes. Este todo coletivo formado pela união dos sujeitos apresentados no fórum é chamado, por nós, de sujeito coletivo mulheres, que sofrem de violência doméstica.

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