A paisagem sonora do campo possui um ritmo diferente da do espaço urbano. Atualmente, ambos os cenários passaram por bruscas modificações. O campo está cada vez mais mecanizado; enquanto as metrópoles são voltadas para o setor terciário, pois perderam seu caráter industrial. O que o autor busca nesta explicação é apresentar conceitos para diferenciar as paisagens sonoras mais amenas, que caracterizavam o ambiente rural; das urbanas, que se tornaram progressivamente mais agitadas até a atualidade. Lembre-se que este livro foi escrito na década de 1970.
Para gerar esta diferenciação, Schafer estabelece dois conceitos: Paisagem Sonora ‘Hi-fi’, e ‘Lo-fi’. Na primeira o nível de ruído equivalente é baixo, e por isso é possível perceber nuances do som, como explica o autor:
21 “We should draw attention to the fact that many of the signals communicated among animals – those of hunting, warning, fright, anger or mating – often correspond very closely in duration, intensity and inflection to many human expletives”.
22 “The definition of space by acoustic means is much more ancient than the establishment of propriety lines and fences.”
Na paisagem sonora Hi-fi os sons discretos podem ser ouvidos claramente por causa do baixo nível de ruído ambiente. O campo é, geralmente, mais Hi-fi do que a cidade; a noite mais que de dia; tempos antigos mais do que o moderno. Na paisagem sonora de Hi-fi, os sons se sobrepõem menos freqüentemente, e por isso há perspectiva - primeiro e segundo plano.23 (SCHAFER, 1976, p.43) É normal haver variações no nível de ruído equivalente em qualquer paisagem sonora, como por exemplo, do dia para a noite. Porém, quando esta diferença não é muito significativa, ou seja, trata-se de um ambiente sonoramente mais equilibrado, pode-se classificar como uma paisagem sonora Hi-fi.
A compreensão do espaço é muito mais imediata quando há perspectiva, tanto sonora quanto visual. Um espaço muito delimitado não oferece a noção do seu entorno, ou seja, do todo. Na sensação sonora é similar; em ambientes com maior amplitude, pode-se perceber melhor a situação espacial geral, como diz Schafer:
O ambiente calmo da paisagem sonora Hi-fi permite que o ouvinte possa perceber sons mais distantes, assim como o campo permite um longo alcance visual. A cidade abrevia esta facilidade para a audição distante (e visão também) consolidando uma das mudanças mais importantes na história da percepção.24 (SCHAFER, 1976, p.43)
23 “The hi-fi soundscape is one in which discrete sounds can be heard clearly because of the low ambient noise level. The country is generally more hi-fi than the city; night more than day; ancient times more than modern. In the hi-fi soundscape, sounds overlap less frequently; there is perspective – foreground and background.”
24 “The quiet ambience of the hi-fi soundscape allows the listener to hear farther into the distance just as the countryside exercises long-range viewing. The city abbreviates this facility for distant hearing (and seeing) marking one of the more important changes in the history of perception”.
Os grandes edifícios da cidade dificultam a percepção do espaço urbano, por isso é muito importante que o arquiteto tire partido das visuais possíveis em seus projetos, afinal do local onde se enxerga, também se recebe som direto.
Em oposição a primeira, o autor define a paisagem sonora Lo-hi, com nível de intensidade sonora muito elevada, o que mascara os sons mais característicos do local, com capacidade de emocionar:
Em uma paisagem sonora Lo-hi, sinais acústicos individuais são obscurecidos em uma densa variedade de sons. O som sutil - como pisadas na neve, um sino de igreja do outro lado do vale ou um animal passando por arbustos – é mascarado pela banda de transmissão de ruído. A perspectiva está perdida. Na esquina de uma rua, do centro da cidade moderna, não há nenhum distanciamento; há apenas a presença.25 (SCHAFER,1976, p.43)
Estes são os grandes problemas que caracterizam a cidade contemporânea, no viés da acústica: a falta de perspectiva, causada pela grande obstrução das diversas edificações, que resulta em uma percepção espacial deficiente, e assim o território é compreendido como ‘terra de ninguém’, e por isso é abandonado; o segundo problema são os níveis de ruído muito altos, que mascaram os sons agradáveis a vida cotidiana, como o cantar dos passarinhos, que só aumentam a tensão corporal do Homem e apóiam o ritmo frenético da vida urbana.
Como descreve Schafer, inicialmente "a paisagem sonora original era geralmente calma, mas foi deliberadamente pontuada pela aberração dos ruídos da guerra. A celebração religiosa era outra ocasião para ocorrência altos ruídos."26 (SCHAFER, 1976, p.51) Em tempos passados, mesmo as
25 “In a lo-hi soundscape individual acoustic signals are obscured in a overdense population
of sounds. The pellucid sounds – a footstep in the snow, a church bell across the valley or an animal scurrying in the brush- is masked by broad-band noise. Perspective is lost. On a downtown street corner of the modern city there is no distance; there is only presence.” 26 “The original soundscape was generally quiet, it was deliberately punctuated by the aberration noises of war. The other occasion for loud noise was religion celebration.”
vilas possuíam um ritmo mais tranqüilo, e somente os eventos destoantes como guerras alteravam a paisagem sonora, e sempre estavam atrelados a infelicidade.
Em relação a religião, esta precisava ser eloqüente, afinal se tratava de uma conexão divina, sobre-humana. Como acredita o autor "a palavra de Deus chegou até o homem originalmente através do ouvido, e não do olho. Ao reunir seus instrumentos e fazendo ruídos impressionantes, o Homem esperava por sua vez, chegar ao ouvido de Deus.”27 (SCHAFER, 1976, p.51)
A igreja foi o primeiro espaço interno no qual se explorou as propriedades da acústica, para gerar um espaço divino, do ponto de vista da introspecção Humana. Schafer descreve que "o interior da igreja reverberou os eventos mais espetaculares acústica, para este lugar o Homem trouxe não só a sua voz, elevada em música, mas também a mais sonora máquina que ele tinha até então produzido - o órgão".28 (SCHAFER, 1976, p.52)
Porém, como o próprio autor afirma que "Cidades pobres são mais silenciosas do que cidades prósperas."29 (SCHAFER, 1976, p.52) As
cidadelas dos tempos passados não seguiam a lógica do capital, com seu lema ‘tempo é dinheiro’, e o ritmo cotidiano era muito mais ameno, e a qualidade de vida muito melhor. Deve-se avaliar nesta frase o sentido de prosperidade.
Alguém quer um ritmo de vida tão acelerado, no qual só se visa ganhar dinheiro, em detrimento da qualidade de vida? Este pensamento não tem fundamentos. E além disso, não seria bom ter um espaço público com qualidade? Será que se o espaço é melhor percebido, sem ruído em excessos, mascarando os sons bons; e se visuais forem abertas, melhorando
27 “The word of God originally came to man thought the ear, not the eye. By gathering his instruments and making an impressive noise, man hoped in his turn to catch the ear of God”. 28 “The interior of the church reverberated with the most spectacular acoustics events, for to this place man brought not only his voice, raised in song, but also the loudest machine he had till then produced – the organ”.
nossa perspectiva deste espaço; não vamos nos aproximar deste, e cuidá-lo melhor? Defende-se que sim.