Nenhuma obra de arte é realmente “fechada”, pois cada uma delas congloba, em sua definitude exterior, uma infinidade de “leituras” possíveis.
Umberto Eco55
Diversas são as possibilidades de se analisar o tempo dentro da narrativa e muitos foram os teóricos, ao longo da história, a se aventurar em tão laboriosa tarefa. Também, muitas são as formas de se observar o tempo na composição de uma determinada obra e, por isto, para ilustrar o enfoque que decidimos empreender nesta tese, optamos por fazer uma pequena digressão, partindo da Sétima Arte, abordando o filme de suspense intitulado Ponto de vista56, um longa-metragem bem ao estilo americano, que assim pode ser resumido: Durante uma histórica conferência sobre o combate ao terrorismo mundial, realizada na Espanha, o presidente dos Estados Unidos da América é atingido por uma bala assassina. Oito cidadãos conseguem ver o ataque, mas se indaga sobre o que cada um deles realmente teria visto. À medida que os momentos anteriores ao tiro fatal são revistos, através dos olhos de cada testemunha, a identidade do assassino ganha sua forma real. Quando o espectador achar que descobriu a resposta, de onde partira o tiro, a chocante verdade será revelada.
Nos primeiros oito minutos do filme, o espectador é apresentado à visão panorâmica da ação, através da ótica de alguém que assiste à transmissão televisiva, ou seja, descobre, através da equipe jornalística que se encontra no local que, durante uma conferência em Salamanca, Espanha, o presidente dos Estados Unidos da América faria um pronunciamento em praça pública e, antes que começasse a proferir o seu discurso, é gravemente ferido por dois tiros. Alguns minutos após os disparos, quando o presidente já se encontra na
55 ECO, Umberto. Obra aberta. São Paulo: Perspectiva, 1976, p. 67. 56
Título original: Vantage point. PONTO de vista. Direção: Pete Travis. Hollywood: Columbia Pictures, 2008 [produção]. 1 filme (90 min.), DVD.
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ambulância a caminho do hospital, uma bomba é detonada no palanque onde ele havia sido atingido minutos antes, ferindo e matando dezenas de pessoas, inclusive a repórter que fazia a cobertura do evento.
Nesse momento, o narrador anuncia um retrocesso de vinte e três minutos na narrativa e o filme recomeça, a partir da ótica da personagem de Dennis Quaid, o guarda-costas. E o espectador revê toda a cena, mas, dessa vez, pela perspectiva de quem está dentro da ação.
E transcorrem mais quatorze minutos de filme até que, outra vez, somos convidados a rever a cena, agora pelo olhar da personagem Enrique, um policial local. Passam-se mais oito minutos.
Nesse momento, contados cerca de trinta minutos de exibição, retornamos ao início através do olhar da personagem Forest Whitaker, um solitário e curioso turista que, no afã de registrar cada segundo de sua viagem e devidamente equipado com sua filmadora, grava tudo ao seu redor.
O olhar dessa personagem nos conduz por cerca de doze minutos e contempla a totalidade da ação, ou seja, início, meio e fim da história. Mas o espectador ainda não sabe disso.
O narrador nos convidará a mais dois retornos, um sob o olhar do próprio presidente norte-americano e outro, o último, que nos conduzirá à conclusão da trama, sob o atento olhar dos prováveis terroristas.
A construção da narrativa em flashback não é uma novidade no cinema – em C’eravamo tanto amati (1974), filme dirigido pelo cineasta italiano Ettore Scola, por exemplo, as personagens Gianni, Antonio, Nicola e Luciana têm suas histórias de juventude narradas a partir de um encontro fortuito, após três décadas de separação – e nem na literatura, vide Os Lusíadas (c. 1556), de Luís de Camões, em que temos um conhecimento mais amplo das personagens por conta desse recurso. Mas, o que nos importa, no filme, são as possibilidades de leituras que ele nos oferece a partir da “focalização” que escolhamos para efetuar nossa análise.
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A diegése do filme é de cerca de noventa minutos e a ação em si ocorre num espaço de tempo de, aproximadamente, quarenta minutos. É evidente que os recursos fílmicos diferem muito dos literários, mas nos utilizamos deles, e, em particular, desse filme, para definir que o nosso olhar em relação à construção do tempo nos contos de Dino Buzzati será o do guarda-costas atento que, além de registrar o que o cerca e que é comum a todos, enxerga o que o olhar comum não consegue perceber.
Assim como no filme, onde uma mesma situação pode ser percebida sob várias ângulos diferentes, a construção da categoria tempo dentro de uma obra literária também pode ser observada sob vários prismas.
Carlos Reis e Ana Cristina Lopes, no Dicionário de narratologia57, escrevem que a “condição primordialmente temporal de toda narrativa”58 levou vários estudiosos a se debruçarem sobre o tema tomando por base, principalmente, autores ficcionista como Joyce e Proust, por exemplo, “que precisamente fizeram do tempo uma categoria central de seus relatos”59. Nesse grupo de autores incluímos Dino Buzzati.
A partir dos estudos elaborados por pesquisadores como Pouillon, Ricoeur, Genette e outros, Reis dividiu o tempo narrativo em quatro grupos, a saber60: o Tempo da história que se refere a ordem cronológica dos “eventos susceptíveis de serem datados com maior ou menor rigor”; o Tempo do discurso, que se refere a ordem e/ou velocidade que o narrador confere ao universo diegético; o Tempo diegético ou histórico que é aquele no qual se situam os acontecimentos em determinado momento histórico, ou seja, contextualiza historicamente os eventos narrados; e, finalmente, o Tempo psicológico em que “entende-se como tal o tempo filtrado pelas vivências subjetivas da personagem, erigidas em factor de transformação e
57 REIS, Carlos; LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de narratologia. Coimbra: Almedina, 2002. 58 Idem, p. 405.
59
Ibidem, p. 405-406. 60 Ibidem, p. 406 e seguintes.
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redimensionamento (por alargamento, por redução ou por dissolução) da rigidez do tempo da história.”
No supracitado filme, o tempo da história é de, aproximadamente, quarenta minutos, contra os noventa minutos do tempo do discurso, como dissemos. No conto “Cacciatori di vecchi”, de Dino Buzzati, o tempo da história equivale a uma noite, enquanto que o tempo do discurso consome sete páginas.
O tempo do discurso no filme é construído em flashbacks, nos quais o narrador nos apresenta o tempo dos olhares das personagens. No conto de Buzzati, o tempo do discurso e o da história seguem paralelamente.
Em Ponto de vista, o tempo diegético/histórico se passa algum tempo após os atentados de 11 de Setembro de 2001, ao passo que o conto Cacciatori di vecchi não nos oferece uma data precisa, mas a frase “[...] I giornali, la radio, la televisione, i film gli avevano dato corda”61 nos remete a algum período após a década de 1960.
No que tange ao tempo psicológico, o filme tem pouco a acrescentar; em contrapartida, no conto esse tempo é determinante, uma forte presença.
Benedito Nunes62 apresenta uma lista ampliada dos conceitos de tempo: tempo físico, caracterizado pela irreversibilidade do tempo e baseado na relação de causa e efeito; tempo psicológico, que varia de indivíduo para indivíduo e sua percepção se dá ora em função do passado ora em função do futuro; tempo cronológico, caracterizado pelo tempo dos calendários – os ritos litúrgicos, por exemplo; e nesse aspecto se liga ao tempo físico; o tempo histórico, que demarca os eventos históricos – a revolução industrial, por exemplo e o tempo linguístico, que depende do ponto de vista da narrativa, o que Genette chama de “focalização”, e detalha:
Alinhamos cinco conceitos diferentes – tempo físico,
tempo psicológico, tempo cronológico, tempo histórico e
61 Os jornais, o rádio, a televisão, os filmes lhes deram trela. (TN)
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tempo linguístico – que diversificam uma mesma
categoria, combinada à quantidade (tempo físico ou cósmico), à qualidade (tempo psicológico) ou a ambas (tempo cronológico), esse último aproximando-se do primeiro pela objetividade e opondo-se à subjetividade do segundo, cuja escala humana difere da do tempo
histórico e da do tempo linguístico, ambos de teor cultural
(NUNES, 1988, p. 23)
Todos esses “tempos” estão relacionados e constróem, juntos, a narrativa literária, mas acreditamos também que um deles pode dar um salto semântico e significar algo mais que uma categoria narrativa: o tempo psicológico.
Por conta de todas essas possibilidades de leitura do tempo dentro da narrativa e, principalmente, por adotarmos o posicionamento de lê-lo como sendo também um catalisador em potencial do sentimento de solidão das personagens, dedicaremos o próximo capítulo ao nosso corpus, no qual propomos a leitura de contos de Dino Buzzati selecionados, especialmente, dos livros Sessanta racconti, Le notte difficili e In quel preciso momento.
Antes, porém de iniciarmos a leitura proposta, convém trazer ao nosso discurso a questão da personagem, uma categoria fundamental da narrativa.
É entorno da personagem que toda a trama se desenrola no espaço por ela ocupado. É também através dela e de suas experiências e impressões que o tempo se estabelece como a terceira face da pirâmide narrativa: Personagem, Espaço e Tempo.
As personagens reproduzem tudo o que define o ser humano de forma tão plena, que, muitas vezes, chegamos a crê-las pessoas de fato. Daí, muitas vezes, o querer colocá-las em um divã e analisar seus medos, anseios e angústias, como se fossem – elas e seus problemas – reais.
No Dicionário de Narratologia encontramos a definição de personagem como sendo “o eixo entorno do qual gira a acção e em função do qual se organiza a economia da narrativa” (REIS; LOPES, 2002, p. 314).
Nos contos de Dino Buzzati, esse eixo é diretamente influenciado pela categoria tempo, uma vez que ele surge como o mecanismo que desperta o
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medo, que o trás à tona, tirando-o da parte submersa do iceberg de nossa consciência. E, por isso, muitas vezes, o tempo sobressai-se na narrativa, sobrepujando as demais categorias do discurso para fazer surgir o medo (da morte) que fingimos desconhecer ou preferimos não (re)conhecer. Em outros momentos, o mesmo tempo nos assola de tal maneira que não conseguimos dar continuidade aos nossos pensamentos ou mesmo às ações. Essa peculiaridade também pode ser observada nos contos buzzatianos, como a seguir demonstraremos, começando por In quel preciso momento (Naquele exato momento).
2.1- Naquele exato momento: contos mínimos
In quel preciso momento é o livro que consideramos ilustrar a afirmação contida no parágrafo anterior. Nesse livro, Dino Buzzati reúne uma série de contos mínimos, que findam em seu ápice, no momento em que deveriamcomeçar o declínio rumo ao desfecho. A construção das tramas causa expectativa com relação à conclusão do conto que, na maioria das vezes, o autor não oferece, dando-nos a impressão de uma série de “pensamentos interrompidos”.
Diferente estrutura encontramos nas coletâneas Sessanta racconti e Le notti difficili, por exemplo, onde todos os contos apresentam um início bem marcado com a apresentação das personagens e do espaço ocupado por elas; um meio, em que conhecemos o ápice das ações das personagens, e um fim, onde nos é apresentada a conclusão de todas as ações praticadas pelo protagonista. Alguns desses contos são longos como, por exemplo, “Sette piani”, contido em Sessanta racconti, que conta quase vinte páginas contra as dez linhas de “Imprudência gramatical”, coletado em In quel preciso momento.
Acreditamos que o “non conclude”63 é verdadeiro a partir da premissa básica que nenhuma obra literária poderá gabar-se de possuir o ponto final, de fato, em sua narrativa; a conclusão definitiva das interpretações possíveis.
63 Título do último capítulo do romance
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Esse gran finale caberá ao leitor64 que, com base em suas experiências, conhecimento de mundo e leituras anteriores, intuirá possíveis causas para os desfechos narrados, porque “cada vez que a ponta da caneta toca o papel, no fundo há o pensamento de quem vai ler amanhã”65.
No caso do livro In quel preciso momento, se tudo o que temos é um “pensamento interrompido”, faz-se necessário observar a obra como um todo harmônico onde cada conto representa, de certa forma, parte de uma mesma história. Se assim procedermos, poderemos encontrar o fio que une de forma plena cada um dos microcontos ao redor de um mesmo tema: o tempo. Mais, no decorrer do livro, o autor pontua o tempo da narrativa de forma sutil, inserindo aqui e ali contos cujos títulos constituem datas progressivas como, por exemplo: “Janeiro de 1944”, “A invasão dos hunos – fevereiro de 1944”, “Trombeta 1944”, “Abril de 1945” e finda com “1º de janeiro de 1962”.
Não podemos afirmar que a diegese seja de dezoito anos. Poderíamos, talvez, divagar nessa maioridade que principia a vida adulta e consequente maturidade para analisar as idades de nossa vida.
Já no livro Le notti difficili, Buzzati reúne contos que se enquadram na definição canônica de “narrativa breve e concisa, contendo um só conflito, uma única ação – com espaço geralmente limitado a um ambiente –, unidade de tempo, e número restrito de personagens”66. A temática continua sendo a mesma: o tempo, mas a construção da obra difere de In quel preciso momento por conter histórias independentes, diegéticamente falando, ainda que ligadas pela mesma temática.
Vale lembrar que, ainda que a temática seja a mesma, o autor aborda diferentes aspectos do tempo. Construirá a abordagem do tempo sob o alicerce da Física e das teorias de viagem tempo/espacial em alguns contos; nos falará das questões socioeconômicas da humanidade, caso a morte fosse impedida
64 ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. Trad. Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 81.
65 Buzzati, Dino. Naquele exato momento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p. 49
66 HOUAISS, Antônio [et al.]. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p. 536.
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de atuar; abordará os temores que o passar do tempo traz para todos os que vivem e, principalmente, encontraremos em seus contos a eterna solidão que habita todo ser que vive, e morre.
Alguns contos compreendem outros menores, como é o caso de, por exemplo, “Smagliature del tempo”, que é composto por três outros contos e traz a seguinte introdução:
Il tempo, si sà, è irreversibile. Eppure, come la fatale discesa dei fiumi consente qua e là dei rigurgiti, dei borghi, delle controonde che potrebbero quase far supporre eccezioni alla legge della gravità, così, nella smisurata trama del tempo, di quando in quando si determinano piccole crepe, intoppi, smagliature, che per brevi istanti ci lasciano sospesi in una dimensione arcana, agli estremi confini dell’esistenza.67
(BUZZATI, 2002, p. 271)
Nesse conto, o autor constrói três situações nas quais seria possível o suporte da Física para a leitura de haver uma fenda na curvatura espaço/tempo que possibilitasse, de alguma forma, uma previsão do futuro. Chamaremos a esses pequenos contos de "contos integrantes".
O primeiro conto integrante de Smagliature del tempo se intitula “Il martire” e narra a história de um joalheiro que viajava por uma autoestrada com seus guarda-costas. Em dado momento da viagem, o joalheiro e os guarda- costas avistaram um jovem e “egli agita le mani come invocando aiuto”68. O carro entretanto não pára imediatamente, seguindo por mais “un trecento metri”. Quando “provvisti di torce eletriche69”, voltaram ao local onde haviam avistado o jovem, o encontraram estendido no chão, morto, cercado por uma multidão de pessoas, que aparentemente não os via. Saíram dali estarrecidos e seguiram seu caminho falando sobre o acontecimento inesperado. Horas depois, quando retornavam pela mesma estrada, no lugar em que tinham visto
67 Sabemos que o tempo é irreversível. Contudo, como a fatal descida dos rios permite, aqui e ali, transbordamentos, redemoinhos, repuxos que quase poderiam supor exceções à lei da gravidade, assim, na infinita trama do tempo, de quando em vez, há pequenas fendas, obstáculos, falhas que, por breves instantes, nos deixam suspensos numa dimensão arcana, nos extremos confins da existência. (MORETTO, 1986, p. 252)
68 Agita os braços como se pedisse ajuda. (MORETTO, 1986, p. 252) 69 Munidos de lanternas elétricas. (MORETTO, 1986, p. 252)
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o insólito acidente, encontraram uma lápide que registrava um acontecimento que só se efetivaria em dezesseis anos e, no curto espaço de tempo que levaram para buscar uma câmera fotográfica no carro, pois desejam fotografar a inscrição, a lápide desaparecera.
Difatti, al lume delle lampadine, non si riesce più a trovare né croce né lapide. L’erbetta stenta dal bordo, e basta. Non un segno. Neppure orme recenti. Mi chiedo: dovranno realmente accadere le cose viste stanotte? O è stato un sogno? L’Anselmo Tito Gambellotti che fra sedici anni dovrà immolare la giovinezza per la causa della libertà (quale libertà?) quanti anni ha oggi? Se riuscissi a rintracciarlo, potrei metterlo sull’avviso? O è stato tutto già scritto?70 (BUZZATI, 2002, p. 273)
Já o segundo conto integrante, intitulado “La targa”, narra a história de um homem que, enquanto dirigia seu carro, foi alertado por um outro motorista que sua placa estava amassada. O protagonista parou o automóvel alguns metros adiante e constatou que sua placa não estava amassada. Pensou: “Uno scherzo, dunque. Ma il signore che mi ha avvertito non sembrava assolutamente un tipo da scherzi. E poi, a che scopo? Evidentemente aveva visto male.”71 (BUZZATI, 2002, p. 274)
Uma semana depois, percorrendo a mesma estrada, foi mais uma vez abordado, dessa vez por um rapaz, que lhe disse que sua placa caíra e que uma lanterna do carro fora quebrada. Mais uma vez ele interromperia seu caminho para verificar a informação que, dessa vez, para sua surpresa, era verdadeira.
No terceiro e último conto integrante, intitulado por Buzzati de “La nonna”, é narrada a história de um homem de 34 anos, que fora passar um fim de semana na vivenda de uns amigos e, quando saiu de seu quarto para almoçar com eles, encontrou uma bela jovem no corredor Ela trazia “in mano
70 De fato, à luz das pequenas lanternas não conseguimos achar nem cruz nem lápide. A pobre relvazinha da margem e pronto. Nem um sinal. Nem pegadas recentes. Pergunto-me: as coisas vistas esta noite acontecerão realmente? Ou foi um sonho? Anselmo Tito Gambellotti, que dentro de 16 anos deverá imolar a juventude pela causa da liberdade (que liberdade?), quantos anos tem hoje? Se conseguisse encontrá-lo, poderia avisá-lo? Ou tudo já está escrito? (MORETTO, 1986, p. 253)
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Portanto, uma brincadeira. Mas o homem que me avisou não parecia absolutamente ser do tipo de quem faz brincadeiras. E além disso com que finalidade? Evidentemente ele vira mal. (MORETTO, 1986, p. 254)
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un pacchetto rotondo legato con un nastro azzurro”72. Cumprimentaram-se e o protagonista “discesi in giardino col meraviglioso presentimento che tra poco, in un mondo o nell’altro, avrei conosciuto l’adorabile creatura; e che forse la mia vita sarebbe cambiata per sempre”.73
No jardim, o homem foi apresentado à avó de seu amigo que, para seu embaraço, afirmou já conhecê-lo. Ele gentilmente negou tal afirmação, dizendo não recordar-se de um possível encontro anterior com ela:
Io sì, ricordo, io sì, come fosse ieri. E sa che cosa devo dirle? Che lei è un miracolo. Un miracolo! Lei ha fatto un patto col diavolo, dica la verità... No, no, sto scherzando. Ha ragione lei, di guardarmi in questo modo. Si immagini, sono passati da allora almeno cinquant’anni... Non poteva essere lei, uno identico, le giuro... [...] Soltanto una cosa: la sera, senza che lui sapesse, senza dirgli una parola, gli ho fatto trovare in camera una torta. Una torta d’arance. Fatta apposta per lui. Era la mia specialità...74
(BUZZATI, 2002, p. 275-76)
Quando, mais tarde, ele retornou ao seu quarto não ousou “neppure aprire il pacchetto legato con un nastro azzurro che si trovava sul comò (perché sapevo ch’era la torta d’arance, fatta cinquant’anni prima).”75
A personagem não apresenta nenhum traço de dúvida quanto ao fato de que aquele era o pacote sobre o qual a senhora falara há pouco. Ainda que exista um quê de insegurança ou um questionamento acerca das experiências inusitadas vividas pelas personagens, ao fim dos relatos todas elas aceitam o ocorrido como se fosse natural e possível.
72 Na mão um pacotinho redondo, amarrado com uma fita azul. (MORETTO, 1986, p. 254)
73 Desci para o jardim com o maravilhoso pressentimento de que dentro em pouco, de uma forma ou de outra, iria conhecer a adorável criatura; e que talvez minha vida mudasse para sempre. (MORETTO, 1986, p. 254)
74 Eu, sim, lembro-me como se fosse ontem. E sabe o que devo dizer-lhe? Que o senhor é um milagre.